A poesia de ser mulher

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Antes de mais nada, quero compartilhar algo muito emocionante para mim: após mandar duas críticas/textos/desabafos para a página oficial da Petra Costa no Facebook, minhas duas análises sobre os seus filmes anteriores foram publicados no site oficial do filme Elena

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Você pode ler minhas críticas sobre os filmes anteriores da diretora: “Olhos de Ressaca” e “Elena“.

Olmo e a Gaivota, 2015

Quantas histórias esse mundo já contou? quantas possibilidades de identificação e quantas frases bem elaboradas. A palavra e a escrita é uma forma real que o homem encontrou, desde o princípio, para enfrentar a sua própria pequenice. Mas, faça esse exercício, quantas dessas milhares de obras exploram a mulher? quais grandes obras falam sobre a gravidez?

Quantas mulheres escreveram e, em algum momento da vida, enfrentaram diversos problemas por serem, como diz mesmo, “mulher”?

“Mulher”. Essa palavra é tão forte, esteve tão presente e, ao mesmo tempo, tão distante que me sinto um monstro, me sinto sujo e incoerente. Na palavra “mulher” não existe plural, pelo menos não nessa análise, pois todas brigam, mesmo que indiretamente, pela mesma causa. Somos “um” na teoria, mas, em sociedade, em conjunto, somos divididos: homens e mulheres; poder e submissão; subversão e regra; pênis e vagina; mundo e casa; desespero e mãe.

Esse devaneio é resultado do trabalho minucioso de uma diretora – aqui, duas, visto que Petra Costa co-dirige “Olmo e a Gaivota” com a dinamarquesa  Lea Glob – que dialoga, com extrema totalidade, com o universo feminino. Esse universo não precisa ser engrandecido, muito menos colocado acima dos outros infinitos, porém, é preciso, somente, falar sobre, tentar entender suas nuances e os seus intervalos.

“Olmo e a Gaivota” percorre a história de dois atores, unidos pelo amor e pela arte, transitando por entre o documentário e a ficção – existe separação entre eles? – que, de repente, descobrem a gravidez. A perplexidade toma conta dos pais, a preocupação, bem como o amor que, de mansinho, vai caminhando por outros lados, de outras formas, como se estivesse constantemente se preparando. A sensação que beira o êxtase, do processo de criar, assim como um deus, dá lugar à insegurança, medo e tristeza. Existe uma vida lá fora, existe um trabalho – afinal, o teatro é uma incontável criação de vidas e histórias – e a mãe, cuja responsabilidade/benção/maldição carrega no ventre, se vê sozinha.

Serge: – A minha presente realidade é diferente da sua.
Olivia: – Minha presente realidade também é a sua. Mas sou eu quem a carrega.

A atriz, acostumada com as luzes do palco, precisa acostumar-se, forçadamente, com a quietude de um apartamento. Onde estaria, então, o seu marido/futuro pai? esse se preocupa, apenas, em sustentar o futuro e, consecutivamente, o seu ego. Ele vive a rua. Deixa em casa uma Rapunzel, presa em uma torre no meio urbano, acompanhada dos seus demônios… uma Rapunzel sem as tranças, sem esperanças.

“Olmo e a Gaivota” é uma inconstância, tudo que se sabe e se acha é a mulher. A mídia trabalha o amor com uma imaginação ingênua; trabalha a gravidez com uma segurança devastadora mas, todos sabemos, é um assunto cercado de questionamentos. Nenhuma mãe se sente totalmente segura desde o início, nenhuma mulher precisa ser forte o tempo todo; mas eles empurram essa ideia, com correntes e sangue: a mulher precisa estar feliz por estar grávida, não pode ter dúvidas e, qualquer problema, há de arcar com a responsabilidade, afinal, foi a sua escolha.

O filme não fala nada diretamente, não julga, muito menos grita à favor do aborto, como muitos dizem, simplesmente analisa a mulher, a gravidez e todas as suas vírgulas. Nunca foi feito algo assim, principalmente com essa narrativa que se assemelha muito com o melhor do cinema iraniano.

Grande parcela da população não está interessada em discutir temas polêmicos com a arte. A maioria prefere apontar o dedo e selecionar o que é certo e o que não é – em base ao seu conservadorismo. As pessoas iludem outras com falsas chamadas de sabedoria, e dizem que analisar com calma, individualmente, não é necessário. Que priorizar os sentimentos é uma forma de alienação.

O mundo nunca pôde ser dividido em dois lados, pelo menos a arte dá a possibilidade de trabalhar uma série de camadas, por isso, é a demonstração perfeita de poder e manipulação da vida, seja aqueles que fazem ou que sentem.

A “mulher” têm crises e histórias, elas escrevem as suas todos os dias assim como qualquer um, então porque as limitações? somos donos do nosso corpo, no entanto, em massa, criamos uma série de dilemas para a manipulação. Criar uma vida dentro de si é uma escolha artística, um sentimento profundo de auto-compreensão, uma atitude que parte do equilíbrio, do melhor momento; ser mãe é, antes de mais nada, aceitar-se como mãe.

O lado positivo de “Olmo e a Gaivota” é a pronuncia, a coragem para se discutir o início da vida, humanizando esse processo seja qual for a consequência. Histórias felizes e tristes acontecem o tempo todo, mas a nossa arrogância nos tira a possibilidade de empatia. O filme estabelece essa conexão: tema, indivíduo, arte, mulher e Petra Costa, talvez Elena. O trabalho da diretora é transcender à liberdade, fazer pensar com a poesia e mergulhar no existencialismo.

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No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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Especial Halloween – Filmes de terror no ano de 2016 ( parte 2 )

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Continuando a revisão do cinema de terror em 2016, pulamos o mês de julho – que, pelo menos no grande circuito,  não teve nenhuma estréia – e chegamos em agosto com o lançamento de Quando as Luzes se Apagam. Esse filme tem um gosto especial de decepção, baseado em um curta-metragem chamado Lights Out que foi muito compartilhado no Facebook e outras redes sociais, isso por conta da duração – hoje, na internet, tudo precisa ser rápido – e qualidade, pois mostrava uma criatura demoníaca que aparecia em um quarto quando uma pessoa apagava as luzes. Simples assim.

Eu fiquei com medo também, quando saiu na internet assisti de madrugada e a legenda “você não conseguirá assistir até o final”, talvez, tenha abalado o meu psicológico. Então nesse ano é lançado um filme que se propõe a estender essa história, com uma premissa interessante, principalmente no que diz respeito trabalhar o nosso medo do escuro, a ideia para na sinopse, pois em nenhum momento isso é desenvolvido. O escuro é uma ferramenta para desenvolver um longa repleto de clichês.

Ainda em agosto, tivemos o lançamento de Águas Rasas que, se não bastasse a tensão que desenvolve no início, ainda trabalha com inserções de tela de celular durante o filme, de forma a aliviar o desespero e, ainda, consegue estabelecer uma conexão entre a protagonista e o espectador através, vejam só, da tecnologia. O interessante é que o filme é uma personagem só, solitária em uma praia, portanto o seu celular é o veículo narrativo para conhecermos o seu passado e, em seguida, nos preocuparmos ainda mais com a sua condição desesperadora, afinal, todo mundo tem medo de tubarão, não é mesmo?

Jaume Collet-Serra, o diretor, distribui bem a apresentação e cria uma história bacana em pouco espaço – mais precisamente, uma rocha, onde a personagem principal passa a maior parte do tempo – mas, infelizmente, escorrega feio na conclusão que destoa bastante do realismo que vinha sendo trabalhado até então.

Mesmo assim, é um filme mediano, sustentado por uma direção inteligente e boa atuação da Blake Lively.

Primeira semana de Setembro foi a vez de Sono da Morte, do diretor Mike Flanagan. O ano de 2016 é o melhor da vida desse diretor; sem dúvida no final do ano ele vai olhar para trás e dar gargalhadas por horas. Depois de Hush – A Morte Ouve – que, erroneamente, não citei na primeira parte desse resumo mas, como vocês podem ler na minha crítica, adorei a tensão e o trabalho sonoro do filme, como já é costumeiro no trabalho do Mike, por sinal – o diretor voltou com Sono da Morte, onde ele trabalha com o surrealismo e o mundo dos sonhos, através de um garotinho interpretado pelo fofo Jacob Tremblay. Não é o meu favorito do diretor mas, mesmo assim, ele consegue manter uma qualidade.

Setembro também apareceu por aqui o O Homem nas Trevas, cuja ideia também é interessante, começa super diferente, apresentando a casa com um movimento de câmera sutil, depois acompanha em um ritmo lento os personagens quando estão presos e o silêncio também é muito importante, é usado como uma forma de simular a tensão dos personagens. Porém o fato de apresentar a protagonista como uma “menina boa que rouba por causa da família” dá indícios da conclusão que beira o infantil e covarde, ao jogar fora a linguagem direta e despreocupada em troca de uma série de justificativas inúteis. Aliás, repararam quantos filmes pecaram no terceiro ato? Talvez seja um símbolo do ano de 2016 e uma mensagem para o próximo: não adianta começar bem e terminar mal.

Agora, o filme Bruxa de Blair não tem essa decepção de terminar mal, justamente porque o filme inteiro é ruim. É uma repetição de ideias só que sem a novidade do primeiro, lá em 1999.

E chegamos em outubro que tem a volta de quem? sim! o homem mais feliz do ano: Mike Flanagan. Ouija – Origin of Evil é o segundo filme de um dos diversos que falam sobre o tabuleiro ouija. O anterior é uma bomba, mas esse consegue ser bem interessante, no entanto, nunca alcança um nível alto. Flanagan chama a adorável Annalise Basso – particularmente a acompanho desde Ilha da Aventura e, esse ano, foi maravilhoso vê-la em Capitão Fantástico – que já tinha trabalhado com o diretor em O Espelho e faz uma mistura bem louca desse com Ouija, quebra algumas regras, dá uns sustos, mas entrega algo padronizado, mas ainda assim é uma surpresa.

Esses foram os filmes que eu vi, até agora, e que foram lançados no grande cinema. Mas, sem dúvida, se eu pudesse indicar três que ainda não estrearam e, pelo menos dois, não se sabe quando irá estrear, são: They Look Like People, Shelley e Invasão Zumbi ( que estreia no Brasil em novembro ).

Então é isso, deixo abaixo uma lista de todos os filmes de terror que escrevi nesse ano de 2016:

Dabbe: Bir cin vakasi
Os Inocentes
Terror nos Bastidores
Imperador Ketchup
The Children
O Espelho
Musarañas
O Sono da Morte
Diário De Um Exorcista
Across The River
Demon
Invocação do Mal
Rua Cloverfield
Kairo
Absentia
Hush – A Morte Ouve
Possessão demoníaca no cinema
Horror Hotel
Invocação do Mal 2

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Especial Halloween – Filmes de terror no ano de 2016 ( parte 1 )

Esse é um artigo especial do Cronologia do Acaso para o halloween 2016. Será dividido em duas partes: a primeira é analisando os filmes de maior destaque lançados em circuito comercial de janeiro até junho. A segunda é de julho até agora ( outubro ), próximos lançamentos e recomendações de algumas obras que ainda não foram lançadas no Brasil, além de concluir o artigo com um “top 5 filmes de terror do ano”. Portanto, leia, compartilhe e comente quais os melhores filmes de terror em 2016, na sua opinião!

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No mês de janeiro não tivemos nenhum filme de terror, mas em fevereiro tivemos o primeiro que saiu nos cinemas, com algum destaque, mas com qualidade duvidosa, que foi o Boneco do Mal. A primeira vez que soube desse filme, logo tive muito preconceito pois ele parecia pegar carona com o sucesso de Anabelle. De boneca para boneco, fico com o Chucky, porque nenhum dos dois valem a pena. The Boy ou Boneco do Mal é dirigido pelo William Brent Bell, o mesmo diretor de “Filha do Mal”, e até começa bem, apresentando a personagem principal, que chega em uma mansão para cuidar de uma criança e se depara com um casal de velhinhos doidos que tratam um boneco como ser humano. A ideia é mórbida, transmite uma sensação estranha, a maneira que o boneco é filmado desperta a curiosidade, porém a resolução do filme falha muito.

O destaque do ano, sem sombra de dúvidas, é o A Bruxa, como já escrevi artigo e crítica sobre ele, reitero que é o melhor filme de terror do ano, pois aborda temas complexos, inverte valores e prega exaustivamente a liberdade da mulher, usando o satanismo como veículo e o diabo como amuleto, é sem dúvida nenhuma uma obra-prima.

Outro filme que estreou em março foi o aclamado Boa Noite, Mamãe, também escrevi sobre ele e o mais interessante, ao meu ver, é o uso da figura da mãe – tida como intocável, inquestionável e perfeita – para provocar o medo, então a sensação de proteção que nos é identificável, quando relacionamos com o sentimento materno, é desmoronado e, ainda por cima, acompanhamos duas crianças que precisam lidar com toda essa aflição. Na verdade, Boa Noite, Mamãe é um excelente trilher, inteligente ao usar os personagens e os seus movimentos pela casa: todos os cômodos provocam a urgência, os espectadores, assim como os personagens, ficam em alerta constantemente.

Mês de abril tivemos o Do Outro Lado da Porta, que começa bem mal, quase um drama sobre uma mãe que, após perder o seu filho, fica maluca quando descobre que existe um ritual onde pode se comunicar com os mortos. Muita coisa ruim acontece com os personagens e nada bom acontece no filme, personagens mal desenvolvidos, dramas que não provocam a empatia, atores mirins péssimos, protagonista também não segura o filme, é um desperdício, pois a ideia do ritual é interessante.

Ainda no mês de abril tivemos o ótimo Rua Cloverfield, 10, com um roteiro maravilhoso e um trabalho excepcional de som e desenho de produção, a força principal do longa é o primeiro e segundo ato onde três personagens completamente distintos entre si, precisam sobreviver em um bunker, e respeitar a fé um do outro sobre um possível apocalipse no mundo exterior. Esse cenário apertado muda conforme o psicológico dos personagens e as suas decisões, a intenção de cada um é indecifrável até o final e a tensão é muito grande. Pena é o terceiro ato que destoa bastante do início, mas ainda assim não tira o brilho de Rua Cloverfield, 10 que, inclusive, tem como mérito a sua protagonista Michelle que, interpretada pela Mary Elizabeth Winstead, exala uma força e independência que há muito não se via em hollywood.

Destaque também para a atuação de John Goodman que é um coadjuvante de luxo, trabalhou com nomes como Todd Solondz e os irmãos Coen, enfim, John Goodman é rei no circuito independente e em Rua Cloverfield, 10 tem a sua voz e, melhor ainda, para o grande público, fiquei muito feliz por vê-lo e, sem dúvida, é uma das melhores atuações do ano.

Em maio teve o lançamento do remake de Martyrs – ignorem essa merda. Ainda em maio, outro destaque foi Demon, um terror polonês com pitadas de humor negro, diferente, pois a possessão demoníaca é em base ao folclore judaico, enfim, outro grande filme do ano. 

Em junho, último mês dessa primeira parte, tivemos o lançamento de Invocação do Mal 2 que provou mais uma vez o talento do jovem diretor James Wan. É extremamente bem dirigido, provoca o medo da forma que o grande público gosta e ainda consegue divertir os mais exigentes. É um filme que conhece o seu próprio limite, respeita os seus personagens e faz o básico, não exagera, as filmagens são feitas de forma a ressaltar a estranheza da casa, há inserções digitais de uma criatura que lembra algo como Babadook, é bem corajoso e a personagem mirim, cujo corpo vira a casa para um espírito maligno, é muito boa. James Wan pega um caso que abertamente se sabe que é mentira, dá um contorno interessante e atrai o público com mais uma de suas criações diabólicas, que nesse caso é a “freira do mal” – Inclusive quando criança eu tinha medo de freira e me peguei lembrando disso durante a sessão.

Vale lembrar que junho também foi o mês de lançamento do terror nacional O Caseiro que é bem legal. Mesmo que se estruture no clichê do “homem cético que colocará as suas crenças em questionamento ao investigar um caso sobrenatural”, o bacana é que o filme é mais um mistério e prende a atenção até o fim. No entanto, a conclusão é muito rápida e insegura, até vai de desencontro com o que foi apresentado: personagens que mudam drasticamente e sem sentido nenhum, trama que abandona alguns detalhes, diálogos fracos para rápidos entendimentos de uma história pouco complexa, enfim, no final, é um filme mediano.

Muito bem, essa foi a primeira parte do especial Halloween, a segunda parte eu lançarei, também, antes do dia 31 de outubro. Então é isso, abraço e até a próxima!

emersontlima

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Liberdade sexual e subversão sob olhares conservadores

Alucarda, 1977

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★★★★★

“Alucarda” proporciona um exercício de reflexão muito parecido com o recente “A Bruxa”, traço essa comparação por ser recente e, segundo, por ter escrito há algum tempo um artigo especial sobre, dissecando os símbolos e desmistificando – ou tentando, pois se trata de um tabu – o satanismo, de forma a misturá-lo com a liberdade. Então, antes de mais nada, indico o artigo como uma leitura prévia: clique aqui.

“Alucarda” aborda a história de uma garota chamada Justine (Susana Kamini ) que chega a um convento e, imediatamente, faz amizade com uma outra menina chamada Alucarda ( Tina Romero ). Alucarda é irreverente e subversiva, mesmo estando no convento não parece, de forma alguma, pertencer àquele lugar – isso é transmitido pelo seu figurino, um vestido totalmente preto, fúnebre, sem detalhes – e encanta a virginal Justine que representa, em seu âmago, a pureza sendo “corrompida” pelo amor.

Como comentado no artigo sobre “A Bruxa”, o satanismo representa, entre muitas outras coisas, a liberdade, é o impulso rebelde do homem em direção ao conhecimento. O conhecimento, no caso desse filme, é a paixão que cresce entre as duas garotas e, obviamente, condenado pela igreja. O culto satânico, aparições, transformações físicas, enfim, são elementos metafóricos para explicitar a problemática da crença obsessiva, construída, claro, por todo um contexto histórico. Porém, é triste notar que mesmo nos dias atuais, o relacionamento homoafetivo não é aceito pelo sistema social que, dentre outros artifícios, utiliza a religião para controlar as escolhas, de forma a categorizar as atitudes com pecados arcaicos – afinal, que se foda os pecados, a vida é um pecado e eu não fico julgando deus por isso.

Não é inteligente generalizar a religião e pregar que todas proíbem o relacionamento homoafetivo, muito pelo contrário, mas infelizmente existe e “Alucarda” trabalha muito bem o assunto. Com uma direção primorosa do grande Juan López Moctezuma – que trabalhou ao lado de grandes realizadores espanhóis como Arrabal e Jodorowsky -, o filme dialoga com uma atmosfera onírica, pautando-se em acontecimentos rápidos, sem muitas explicações, como se o tempo estivesse passando diferente para as duas personagens centrais.

A mãe de Justin é interpretada pela Tina Moreno, a mesma que faz a protagonista Alucarda. Isso deixa claro que tanto Alucarda quanto Justine são as mesmas, uma só, um só propósito, pois ambas “vieram” do mesmo lugar. Talvez o sentimento de estranheza para com mundo normal, seja o elemento comum entre as duas, por isso a cumplicidade e empatia quase imediata.

O mesmo acontece com dois dos personagens mais complexos do longa: o cigano corcunda e o Dr. Oszek. O primeiro é um mágico da floresta que impulsiona o rito satânico das duas amigas; o segundo é o médico que, no terceiro ato, aparece para contestar o exorcismo que está sendo feito dentro da igreja. Ambos personagens são interpretados por Cláudio Brook, o que é muito interessante visto que representam a dicotomia entre a ciência e o misticismo. Com a atitude de colocar um ator para fazer esses dois lados tão conflitantes entre si, é como se o diretor gritasse para o espectador que partem de uma mesma necessidade humana, uma sincronia de ideias para, enfim, alcançar a explicação.

A primeira vez que Alucarda aparece, ela sai atrás da Justine, em um quarto, a iluminação é oportuna ao mostrar a protagonista no escuro, quase como se estivesse saindo da parede. Demonstrando, perfeitamente, o estado psicológico dela que há muito sucumbira ao local ( convento ) e, com a aparição da amiga, consegue reunir forças o suficiente para quebrar as amarras da opressão. Seremos então transportados para cenas viscerais de rituais satânicos, sangue, sexo, remetendo-nos ao vampirismo, há elementos de gore, mas nada é tão absurdo quanto o ritual da igreja para fazer o exorcismo, cujo momento mais agonizante é quando um padre perfura Justine para libertá-la do mal.

Mesmo com recursos limitados, “Alucarda” é extremamente inteligente e, mesmo que seja uma obra oculta do grande público, merece ser visto como forma de reflexão. Seja sobre a opressão da igreja ou homossexualidade, passando por questões importantes como liberdade, cumplicidade e aceitação. É, sem dúvida, um dos maiores filmes do México. Alinha a técnica para sustentar um clima obscuro e conclui hipnotizando o espectador através de uma excelente atuação da Tina Romero.

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Sing Street – entre a descoberta do amor e uma nota musical

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A vida é cheia de alegrias, decepções, reflexões… enfim, um eterno dilema. Complicamos demais as coisas, demoramos demais, quando se possui pouco tempo. Eu cresci, mas ainda me lembro daquele Emerson que deixei em um passado recente, extremamente ansioso, que matava dias de aulas para ficar na rua, conversando, brincando e vivendo.

Eu cresci com a música, o rock’n’roll funcionou como um símbolo de coragem na minha vida, ousei ser eterno através da rebeldia e, como consequência, acredito que a revolta é a única maneira de se conquistar uma evolução, seja pessoal ou social. Uma mudança depende do caos, por isso somos perigosos e frágeis: a linha que separa o homem da sua sanidade e total loucura é muito tênue.

Já ousei fazer, experimentar a vida e os seus prazeres, no mesmo tempo que crescia sendo treinado a ser apático, me envolvi com os sentimentos. Utilizava as palavras para contornar uma dor profunda, queria fugir e pensei em fazê-lo por diversas vezes, o que sempre me impedia era a coragem dos meus ídolos. A arte me deu tudo, mas me tirou tudo por enxergar algo grande demais, tendo conquistado pouco demais.

E, então, me pego pensando, vez ou outra, que me tornei um pouco aquilo que odiava. Mas de todas as dúvidas que me cercam, talvez, a que mais me dói é a pergunta: “por que escrevo?” Então o Emerson dentro do Emerson que está dentro do Emerson responde: “por que essa é a sua maldição“.

Lembro-me que morava em uma cidade e estudava em outra; nesse trajeto escutava todos os álbuns possíveis do Johnny Cash, então eu via na sua imagem, voz e no seu comportamento rebelde, uma porta para a identificação. A música funcionou para mim como uma ilusão, contextualizando-me na simplicidade de que as coisas são. Por algum motivo sempre rejeitei essa hipótese, criava muito em cima de pouco e transformava o simples em algo impenetrável, descomedido.

Se eu posso citar algo terrível de mim, é justamente a minha mania de ser, sentir, fazer e observar o meu redor de maneira muito intensa. Mas volto a pergunta: por que estou escrevendo tudo isso para abordar, a seguir, um filme? Talvez não aja explicação, mas sigo buscando de todas as formas me encontrar em cada palavra, em cada filme e em cada música. Como uma forma de enxergar algo que, no momento, não alcanço, conhecer um lugar improvável, amores e momentos.

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Eu poderia ser tradicional e classificar “Sing Street” como um filme excelente, com uma direção segura – por conta da maravilhosa utilização das músicas, de forma a obrigar ao roteiro uma evolução a cada minuto – mas não estou seguro de que seja isso que o diretor John Carney queria que avaliássemos com a sua mais recente obra. Não! Fico pensando que ele é como eu, um menino que cresceu ouvido música dos anos 80 e sem medo de se propagar como um apaixonado, portanto, peço licença pois sei que a sua intenção é fazer-nos enxergar as possibilidades da nossa vida, através da inocência de uma banda jovem, uma musa inspiradora, um líder apelidado, pelo seu amor, de “cosmo” e um irmão mais velho que, assim como eu, tentou de todas maneiras mas cansou, então dedica-se em observar e compartilhar.

O protagonista, Connor, pensa em montar uma banda para conquistar uma menina. Com o passar do tempo ela lhe sugere o nome artístico “Cosmo”, ou seja, o universo em sua totalidade.

Connor começa o filme cantando e, ao ouvir a discussão dos seus pais, mescla a letra da canção com o que ele ouve dos dois adultos. Depois a sua vida começa a ser inundada por regras e, só então, a partir de um romance platônico, ele resolve enfrentar a revolução e mudar. Influências musicais são constantes, para os amantes da boa música, o filme é um deleite. Parece que a própria montagem se intercala com as canções e citações, no mesmo tempo que a recriação dos anos 80 é simplesmente fantástica, dialogando com a nostalgia, podemos classificar “Sing Street” como um milagre audiovisual que têm, como maior pretensão, provocar o espectador com a sua despreocupação.

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O irmão Brendan – interpretado brilhantemente pelo Jack Reynor – é o personagem que mais me chama a atenção, pois ele transita por entre o passado, presente e futuro, é o motivo do meu desabafo no início desse artigo. Me identifico com ele, abro o meu coração, pois tenho uma irmã menor e nossa relação também é construída através da arte, sinceridade e despretensiosidade.

Em uma cena de confissão, Connor desabafa para o seu irmão sobre o seu interesse romântico. Ele afirma, docemente, que “às vezes gostaria de olhar para ela e chorar“. É de uma preciosidade quando um artista consegue, em uma frase, captar a tal da ansiedade proposta acima, consegue captar tamanha verdade a ponto de assustar.

Então, quando me pergunto por que escrevo, sempre me surgem oportunidades como essa, em que eu posso relembrar o quanto é importante, para mim, a arte e como me sinto completo estende-la.

Com carinho,
Emerson T.

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Quando Todd Haynes decide falar sobre a anorexia

Superstar: The Karen Carpenter Story, 1988

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★★★★★

Os mais jovens conheceram o diretor Todd Haynes apenas esse ano, com o sucesso de “Carol”. Mas o que poucos sabem é que ele tem uma carreira repleta de polêmicas, filmes que tendem a chocar o público comum. Como é o caso de “Superstar: The Karen Carpenter Story” – o único filme do diretor que não pode ser comercializado.

Muito bem, Haynes decidiu fazer uma cinebiografia de uma cantora chamada Karen Carpenter ( abre parenteses ) que fez muito sucesso nos anos 70 ao lado do seu irmão, Richard, onde formavam uma dupla conhecida como Carpenters. O que é preciso dizer sobre a dupla é que é excelente. Indico procurarem no Spotify, principalmente um álbum chamado “Close to You“.

O fim dos anos 60 e 70, como todos sabem, foi um momento de revolução por parte do jovem que se via muito representado por grandes nomes do rock. O lema “paz e amor” nunca foi tão grandioso e isso afetou, de diversas maneiras, o governo norte-americano que se via diante de um monstro extremamente poderoso. Os Carpenters, então, com suas músicas doces e românticas, representavam o outro lado dos jovens, calmos e comportadinhos. Isso foi muito importante na década de 70, como um sinônimo de representatividade não só das pessoas como do país – não à toa a dupla foi convidada para cantar na casa branca, no qual Nixon chegou a dizer que eles “simbolizavam o melhor dos jovens norte-americanos”.

Mas essa responsabilidade de “bom moço” era muito pesada, principalmente para a Karen que, depois de algumas críticas sobre o seu peso, começou a sofrer distúrbios alimentares, culminando em uma anorexia. Ela fica viciada em remédios e veio a falecer precocemente, com apenas 32 anos de idade. ( fecha parenteses ).

Todd Haynes contou a história de Karen em um média-metragem, analisando as possíveis causas da sua morte, que estavam diretamente relacionadas a pressão da mídia e dos familiares pela sua imagem perfeita.

Mas não paramos as curiosidades por ai: o que mais chama a atenção no primeiro filme de Haynes é que ele não utilizou imagens reais da cantora ou família, mas sim bonequinhas Barbies e Kens. Ele se utilizou dessas bonecas que são mundialmente conhecidas como símbolos de “perfeição física”, para discutir sobre a anorexia e o papel maléfico da mídia em impor um padrão de beleza, principalmente para as mulheres.

Com o sucesso do média-metragem em pequenos festivais de cinema, a família da cantora processou o diretor, obrigando-o a retirar qualquer cópia de circuito. Restando-nos conhecer essa maravilhosa obra através do download. Portanto, ao assistir, caros leitores, saibam que a qualidade é bem baixa, por ser derivado de cópias sobreviventes, mas isso de forma alguma atrapalha a experiência estarrecedora.

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A filmagem amadora afasta muitas pessoas, mas também hipnotiza os ousados por conta da identificação. A ideia de utilizar bonequinhos como atores de uma história catastrófica é profundamente mórbido, o que começa como inovador vai se tornando assustador.

O tema abordado é cruel e atemporal, o média-metragem foi lançado em 1988 e a discussão/perigos continuam o mesmo. Se pegarmos como exemplo o cinema, percebemos uma diferença gritante no que se refere o processo de envelhecimento das atrizes e atores: percebemos que os atores podem envelhecer e continuarão recendo papeis, enquanto as atrizes precisam fazer inúmeras plásticas para não entrarem em um redoma onde todos os papeis que farão, a seguir, será relacionado com dona de casa ou alguma vovó.

O homem envelhecendo é sinônimo de charme, a mulher, por outro lado, é sinônimo de derrota. Pessoalmente, não vejo outra forma de criticar essa postura sem creditar boa parte da culpa na mídia, que explora o corpo da mulher, transformando-a em produto e ignorando as suas capacidades. Mulher não é fantoche para se colocar em uma vitrine.

Karen Carpenter fora usada pelo irmão e ignorada pela família que, inconscientemente ou não, se preocupavam apenas com a parte física da cantora e não com o psicológico. De fato, Todd Haynes consegue estabelecer essas reflexões de forma densa e inteligente, criando uma mise-en-scène dar inveja em muitos diretores que, com todo o recurso do mundo, não conseguem levar qualidade para as boas ideias.

Esse filme é importante não apenas pela sua realização ousada, mas pelos temas que aborda de forma tão impactante. O diretor, para retratar o emagrecimento extremo da cantora com a sua Barbie, fatiou a boneca com uma faca, isso traz uma sensação cruel e verdadeira; milhares de jovens passam por esse problema diariamente e, se podemos tirar algo bom da triste história da Karen Carpenter, é essa alerta à família: é preciso dar atenção aos jovens, eles se sentem muito pressionados, principalmente as meninas e essa atenção, de maneira nenhuma, é limitar a sua ânsia por experiências ou liberdade, mas guiar indiretamente e ouvir, apenas ouvir.

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Dabbe: Bir cin vakasi e o cinema de terror turco

Dabbe: Bir cin vakasi

★★★

Depois do sucesso de “Atividade Paranormal”, bastou pouco tempo para o formato de gravações em diversas casas ao redor do mundo se tornasse uma ferramenta exaustivamente utilizada. Teve filme desse formato no Japão, Espanha e outros diversos países, mesmo que por algumas cenas. É o caso de “Dabbe: Bir cin vakasi”, um filme da Turquia, dirigido pelo Hasan Karacadag, que é um dos grandes nomes do terror por lá.

Se pegarmos a história do cinema turco, veremos que nas décadas de 70-80-90 houveram muitas adaptações clássicas de filmes hollywoodianos, como por exemplo uma versão horrível de Rambo, chamada “Korkusuz”.

Korkusuz, 1986

Korkusuz, 1986

Mas o gênero terror foi muito pouco explorado, talvez por uma questão meramente social e de interesse econômico. No entanto, as coisas começaram a mudar com o aparecimento de um diretor chamado Hasan Karacadag. Ele estudou cinema no Japão, se aprimorou no que diz respeito a linguagem cinematográfica e lançou, em 2005, com apenas 28 anos, um filme chamado “Dabbe”. Esse filme revolucionou a Turquia, as pessoas começaram a acreditar no seu cinema de horror. A obra, mesmo sendo fortemente influenciada pelo cinema americano e, principalmente, o japonês, apresentava conceitos interessantes e contextualizava o medo com a cultura da Turquia. Por exemplo, a demonologia islâmica sendo trabalhada para provocar o medo, foi um atrativo importante para o mundo.

“Dabbe” mescla o paranormal, com ondas de suicídios sem explicações. É muito interessante para quem gosta de adentrar em culturas diferentes, principalmente quando o medo é a porta de entrada para esse estranhamento.

Hasan Karacadag, sendo inspirado fortemente pelo Stephen King, se interessando pelo misticismo desde criança e apaixonado pela forma que o cinema de terror japonês conduz o medo, realizou diversos outros trabalhos na Turquia e ganhou fama por lá. Sendo sinônimo de sucesso, quando falamos de cinema de terror turco.

Bebendo da fonte do cinema americano, novamente, chegamos em 2012 com o filme “Dabbe: Bir cin vakasi”, onde o diretor utiliza ao seu favor o famoso mockumentary, ou documentários falsos. Onde um ou vários personagens registram os seus passos afim de se protegerem ou buscar explicações para algum fato estranho.

O filme começa com uma suposta gravação real, de um caso de uma mulher que sofria com o sonambulismo mas que, aos poucos, foi-se descobrindo que o problema era muito mais do que isso. Somos apresentado à uma família e o estilo de filmagem já está preparado, a apresentação é feita de forma direta e até agressiva, pois coisas estranhas já estão acontecendo.

Passado alguns clichês como coisas caindo, luzes apagando, pessoas levitando etc. Há uma segunda parte onde o motivo dos casos sobrenaturais vão sendo explicados, é nesse momento que o filme parece funcionar realmente: pois sabemos que se trata de um caso de magia negra, que envolve demônios e alguns conceitos bem diferentes, como uma cena em que um dos personagens invade uma casa abandonada, e se depara com inúmeros objetos amaldiçoados, como espelhos e bonecos de vodoo.

Apesar dos efeitos bem simples e de algumas atuações forçadas, “Dabbe: Bir cin vakasi” é um filme com uma estrutura bem diferenciada e, apesar de beber da fonte do “Atividade Paranormal”, consegue ser melhor que todos os filmes da série ao redor do mundo.

emersontlima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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Entre o corpo, a tinta e a alma

O documentário “Pina”, dirigido pelo Wim Wenders, se encontra em um grau alto e desconhecido, onde a arte atinge o seu limite, morre e renasce. Provando mais uma vez que a expressão é a única fuga e esperança para todos os males do mundo, incluindo a perda.

pina

Desde quando o 3D virou mania nos grandes cinemas, sempre me provocou muita curiosidade. Demorei bastante para assistir um filme em 3D e, quando assisti, foi encanto imediato. Com o passar do tempo o fascínio foi diminuindo até se tornar um aborrecimento. Por ter consciência de que a maioria dos filmes hoje são convertidos para 3D, sem o mínimo de cuidado, apenas para aumentar o preço dos ingressos, a ferramenta – que pretendia levar mais pessoas ao cinema – se tornou apenas mais uma arma de manipulação do grande cinema-produto.

Contudo, assim como em todos os aspectos da arte e da vida, sempre há exceções e pude perceber isso assistindo “Pina”, o documentário onde o maravilhoso Wim Wenders faz uma carta de amor, junto com os bailarinos, à coreógrafa e dançarina alemã Pina Bausch.

Primeiro que é curioso notar a facilidade que o diretor Wim Wenders tem de se reinventar, transitando por entre linguagens diferentes, ele parece sempre manter intacta a habilidade de agredir visualmente o espectador, confrontar e abusar da capacidade de simbiose que o audiovisual pode atingir; isso fica claro desde o primeiro minuto do documentário que se baseia, basicamente, em mostrar algumas das principais coreografias da Pina enquanto os seus bailarinos falam sobre a sua mestre. É preciso ressaltar que, antes mesmo de começar a filmar a obra, Pina Bausch acabou falecendo, mas o diretor fez questão de continuar, claro, de forma diferente, para fazer uma homenagem a altura da grandiosidade de Bausch.

Pina Bausch é o maior expoente de uma expressão chamada dança-teatro. Como o próprio nome já diz, se baseia na interpretação com o auxílio de conceitos básicos da dança, movimentos e música. É de se destacar que a linha que separa a dança do teatro sempre foi muito tênue, no entanto existe alguns pontos cruciais na dança-teatro que são, por exemplo, a representação de um personagem e a linguagem sendo transmitida com uma sintonia entre o movimento e a palavra. A grosso modo, eu diria que essa expressão se aproxima muito da dança contemporânea, se revelando muito visceral e contemplando o humano na sua condição mais selvagem; afinal, todos nós nós somos cabíveis do movimento e da necessidade de expressão, portanto, um sutil balançar das mãos, se planejado e ensaiado, pode ganhar formas e contexto como dança ou teatro.

O que Pina Bausch fez, ao longo da sua história, foi reorganizar o homem diante a essa verdade absoluta e muito contestada: a arte existe para comunicar aquilo que não se mensura. A palavra, que ouvimos por diversas vezes no documentário, é transmitida através de expressões, olhares, a dança e a conexão dos corpos, no entanto, com a realização maravilhosa do filme e a utilização magistral do 3D, o espectador se sente capaz de perfurar essa separação que existe entre o real e a tela, tornamo-nos um só. O corpo é o movimento, a tinta são os bailarinos ( homens ) e a alma é a conexão que existe entre um indivíduo e aquilo que assiste ou sente.

Wim Wenders desconstrói o trabalho da Pina Bausch e se mantém coerente na contemplação da sua genialidade, pois ele mesmo é genial no seu registro. Esse é um dos casos raros que a arte atravessa o tempo e se refaz, ao chegar no fim. Que fim seria esse? Pina deixou algo tão importante para o mundo, ela demonstrou que é possível existir a linguagem em infinitas oscilações, que podemos encontrar o equilíbrio na instabilidade e que para ser livre, é preciso entregar-se ao caos e à loucura.

Uma das maiores sensações do mundo é apresentar em frente à uma platéia, os olhos atenciosos, contemplando a sua presença, percorrendo o seu corpo como se fosse uma exposição, em uma vitrine que se desloca para o coração de vários. O teatro é uma forma de nos sentirmos tocados, mesmo solitários, nos sentirmos leves, mesmo que tensos, nos sentirmos parede, porta, água ou caixão; parte de um todo e nada; a excitação é breve, no mundo real, como uma droga, mas no universo interior aquele que se apresenta se compreende por uma vida inteira.

E quanto a Pina Bausch? Ela continua dançando e se esquecendo…. dançando e se esquecendo… dançando e se esquec… Quem é Pina Bausch? Uma tinta, uma alma, uma professora mas, principalmente, uma mulher.

emersontlima

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Os Inocentes – A obra-prima máxima do terror

Os Inocentes

Encontrar críticas ou artigos relacionados com o universo dos filmes de terror é muito fácil aqui no Cronologia do Acaso. Já expliquei centenas de vezes o porquê tenho um fascínio por esse gênero, então no começo desse artigo, deixo a recomendação de outros textos. Segue os links:

Possessão demoníaca: http://cronologiadoacaso.com.br/2016/02/04/possessao-demoniaca-no-cinema/

Madre Joana dos Anjos: http://cronologiadoacaso.com.br/2015/11/02/madre-joana-dos-anjos-1961/

Atividade Paranormal – Quando uma boa ideia se transforma em fracasso: http://cronologiadoacaso.com.br/2016/07/19/atividade-paranormal-quando-uma-boa-ideia-se-transforma-em-fracasso/

Com esses três textos, vocês poderão entender um pouco sobre a minha perspectiva sobre o cinema de terror e, sem dúvida, será interessante para compreender esse artigo sobre “Os Inocentes”, principalmente no que diz ao subtítulo escolhido: “A obra prima máxima do terror”.

É claro que o gênero terror teve uma base muito sólida, tendo sido modificado por inúmeros artistas que, direta ou indiretamente, deixaram muito de si na linguagem desse gênero que se utiliza do terror para analisar lados obscuros e desconhecidos do ser humano. Mas podemos resumir isso com um filme chamado “Os Inocentes”, de 1961, dirigido brilhantemente por Jack Clayton e estrelado pela Deborah Kerr – a ruiva mais linda da história do cinema.

Os Inocentes

O filme conta a história da senhora Giddens ( Deborah Kerr ) que é contratada para cuidar de duas crianças chamadas Flora ( Pamela Franklin ) e Miles ( Martin Stephens ), eles são órfãos e vivem em uma casa gigantesca, sustentados pelo tio e criados por funcionários. Não existe afeto por parte das crianças, no que diz respeito à família, elas vivem com muito luxo mas são abandonadas. A nova governanta passa então a construir um carinho e senso de proteção muito grande, no mesmo tempo que percebe que a mansão guarda segredos envolvendo a paranormalidade.

O filme é um clássico intocável, infelizmente não tão conhecido como merecia, mas além de apresentar alguns conceitos até então inéditos, o diretor e os demais envolvidos sabem como unir todos os artifícios técnicos em função da história. Esse artigo tem como finalidade destacar alguns desses artifícios.

Reflexo da Flora, antes do seu primeiro encontro com a governanta

Reflexo da Flora, antes do seu primeiro encontro com a governanta

O filme começa antes mesmo dos créditos aparecerem. Em uma tela preta, ouvimos uma canção maravilhosa e tétrica chamada “O Willow Waly“, sua letra traz frases como: “Nos deitamos, meu amor e eu[…]”, “[…] Mas agora deito apenas eu […]”, “[…] E choro ao lado da árvore […]”. Essa música será importante durante todo o filme e é engraçado a sua aparição acontecer antes de qualquer outra coisa, inclusive os projecionistas, nas salas de cinema, acharam que era um erro e cortaram, para que o filme começasse com a logo da 20th Century Fox.

As primeiras cenas são para apresentar a protagonista, no começo ela reluta contra a ideia de se tornar governanta e, cabe ao espectador imaginar que é porque se trata de uma profissão que exige uma enorme responsabilidade, é dito que ela não tem experiência o que acaba, também, ressaltando o quanto o tio das crianças não está muito preocupado com o bem estar delas, mas sim em preencher o vazio deixado na mansão após a governanta anterior morrer.

Aceito o trabalho, a senhora Giddens parte para a mansão e a primeira coisa estranha que acontece é que ela ouve uma mulher chamando a Flora, mas é perceptível que a voz emite uma harmonia, como se fosse parte de uma canção.

O primeiro contato visual que a protagonista tem com uma das crianças é com Flora, percebe-se que a imagem da menina aparece, primeiramente, através de um reflexo no riacho, isso é algo que, inclusive, será trabalhado durante toda a obra, assim como as luzes e sombras.

Flora aparecer primeiramente como um reflexo significa que a governanta começa a se confundir entre a realidade e mentira, de um lado está aquilo que ela molda e do outro a realidade sombria – em muitos momentos as crianças parecem ter mais consciência do quanto são abandonadas do que ela.

Os-Inocentes-1961-3

O filme, nesse início, se divide em dois: exterior da mansão e dentro. Isso porque a diferença é gritante, fotograficamente o filme assume uma outra postura, como se estivesse adentrando uma outra dimensão. Se nos minutos iniciais fica evidente uma singela organização dos movimentos das personagens, dentro da mansão ela chega ao limite.

Na mansão só estão os empregados – porém a única que conhecemos é a senhora Grose ( Megs Jenkins ) – Flora e a recém-chegada governanta. O garoto, Miles, está na escola. O momento em que a nova governanta põe os pés na casa é para se acostumar com o seu ritmo, lembrando que por vezes parece pertencer à um universo diferente, e o diretor deixa claro isso impondo um outro tipo de movimento de câmera e transição dos atores. Remetendo-nos diretamente ao teatro, é impressionante a sincronia estabelecida para as posições e a troca de posições das personagens; além do mais, durante todas as cenas internas os objetos são extremamente relevantes, compõem a história e trazem uma beleza estética incrível.

Seria impossível falar sobre esse filme e não citar a sua perfeita mise-en-scène . É tão bem pensado, que só nos cabe imaginar que cada cena demorou muito tempo para ser planejada. É quando o terror começa a ganhar uma outra forma, além de abraçar a sugestividade, clima obscuro, trilha tensa, ainda existe a expressão fotográfica, figurinos e, claro, atuação, todos esses elementos dialogando entre si e construindo algo extremamente grandioso.

Algo que pode ser visto em alguns momentos cruciais é a transição de cenas que teima dar indícios da próxima, além do mais, a sutilidade e transparência cria diversos significados. Observa as imagens abaixo:

Aparicão do Miles no meio das duas - parte 1 Aparicão do Miles no meio das duas - parte 2

Como escrevi acima, o início do filme se divide entre exterior e dentro da mansão – como se estivéssemos, juntos com a protagonista, invadindo um segredo – mas, com o passar dos minutos, ainda no primeiro ato, existe uma série de camadas surgindo de forma completamente orquestrada, uma delas são os personagens. Podemos dividir os quatro principais e, veremos, que cada um representa um aspecto da vida nessa casa:

Governanta: É aquela moça que chegou com receio, mas aos poucos se rendeu ao papel de “mãe” e “protetora” das crianças. No mesmo tempo que desconhece a mansão.

Empregada Grose: Ela representa o “olho que tudo vê”, ou a clássica “sábia”. Percebam que durante quase todo o tempo ela é extremamente imparcial e não se conecta emocionalmente com o abandono das crianças, apenas cumpre uma função.

Flora e Miles: Eles são os abandonados e, por isso, utilizam-se disso como pretexto para se isolarem do mundo e guardar segredos. É como se o “universo da mansão” fosse a razão de suas existências.

Na imagem acima, a primeira, a governanta recebeu um comunicado da escola de Miles sobre o seu mal comportamento e começa a questionar a postura do menino. Ela é o oposto da empregada que, por sua vez, o inocenta e parece querer ocultar tudo da moça. A primeira fotografia traz uma estátua separando-as – o que acontecerá constantemente – e, mais do que isso, imediatamente depois dessa pequena discussão, tem uma transição onde temos o pequeno Miles chegando de trem. Ele está no meio de ambas, como se elas representassem algo como peças de xadrez nesse universo, simplificando-as à simples figurantes nesse conto de fadas.

Tres elementos principais - crianças, cuidadora e empregada

Essa cena representa a divisão dos personagens. As crianças estão no nível de cima, governanta no meio e a empregada abaixo deles.

A mansão é grande e espaçosa, no mesmo tempo que os já citados objetos parecem diminuir a protagonista a todo instante, como se ela guardasse sentimentos proibidos, o próprio carinho e senso de proteção desenfreado poderia ser considerado proibido, visto que se trata de um trabalho, mas que, infelizmente, ela nunca terá o poder de mudar as condições das crianças.

Por mais que a senhora Giddens tente, a mansão a separa dos demais que aceitam as suas condições. Em um momento, no final, ela mesma confessa que o seu pai a ensinou a ajudar as pessoas. Podemos concluir, então, que a senhora Giddens representa o exterior da casa e as crianças e empregada o interior. É impressionante quando ligamos essa metáfora à uma cena em que as crianças perguntam para a sua governanta se a sua casa era pequena, Miles então fala algo como “pequena demais para guardar segredos“.

Aparição do fantasma na janela

Até então escrevi bastante sobre as metáforas e pouco sobre o terror. Isso porque de forma bem provocante e intensa, é possível afirmar que o terror mora no significado oculto dessa obra. Existem aparições, a primeira é sensacional, inclusive,  a governanta vê uma silhueta em cima do telhado e, na segunda aparição, já podemos notar que esse mesmo homem aparece no quintal da mansão, em frente a uma estátua – aliás, lembrem-se que a primeira vez que Miles aparece ele também está posicionado no quadro exatamente onde está uma estátua.

Além do mais, existe medo escondido em todos os momentos. Desde as cenas iniciais é citado a sensação de medo por parte da protagonista, talvez oriunda da própria insegurança. Destaque para a atuação da maravilhosa da Deborah Kerr que já disse inúmeras vezes se tratar da melhor atuação da sua vida, e é realmente complicado discordar, mesmo que ela tenha uma carreira tão sólida.

A sua expressão delicada vai dando lugar à uma instabilidade, o olhar começa a ficar explosivo e a performance passa a se misturar com as sombras. As sombras foram tão importantes que o fotógrafo Freddie Francis usou grandes refletores e geradores de luz para criar os efeitos.

Não poderia deixar de citar o Martin Stephens – excelente ator mirim que, infelizmente, deixou a carreira de lado após sucessos como “A Aldeia dos Amaldiçoados” e o próprio “Os Inocentes” – e a atriz japonesa Pamela Franklin. As crianças chamam muito a atenção, irritam, alegram e intimidam na mesma proporção, algo extremamente complexo e raro de se ver.

Fotografia entre grades

O filme evolui de forma impecável e atinge outros significados no final. Em uma cena absolutamente agressiva e polêmica, o espectador sente que a governanta é que fora corrompida durante todo o tempo. Há muitos espaços para dúvidas e seria até possível imaginar um amor platônico por parte da moça pelo garoto Miles, mas tudo é tratado com sutileza e se encaixa na perfeita simetria visual.

A imagem acima coloca a personagem no centro, do lado de colunas e isso acontece em diversos momentos, além de ser sufocada pelos objetos ela também é prisioneira dos seus próprios desejos. Percebemos ainda uma mudança de figurino drástica, observa as imagens:

Roupa da personagem no meio

Ela começa a se vestir com cores claras quando se habitua à mansão e as crianças logo nas cenas iniciais.

Roupa da personagem final - parte 1

Depois começa a mesclar cores mais escuras, com pequenos detalhes mais claros. Simultaneamente ela desconfia que as crianças estão vendo os mesmos “fantasmas” que ela – incluindo uma mulher de preto.

Roupa da personagem final - parte 2

E no final do filme ela sempre está vestida de preto e se torna aquilo que outrora temia.

A ironia mora no fato de quê, nesse filme, o medo da protagonista se esvai e ela se transforma nele. A mulher de preto que fica observando a Flora na beira do rio, é uma das aparições mais perturbadoras do longa, no mesmo tempo que a própria protagonista se “a mulher de preto”, aos poucos. Essa transformação acontece de forma simbólica, através do seu figurino, não espere uma explicação literal porque em “Os Inocentes” não existe o óbvio.

Justificando então o subtítulo “A obra prima máxima do terror”: “Os Inocentes” pertence à um grupo seleto de filmes que contribuíram muito para o terror e o seu desenvolvimento. Pergunte para qualquer realizador do gênero quais os seus filmes favoritos, certamente esse sempre será lembrado, tamanho é a sua importância para o cinema em geral. Maduro ao extremo e fiel a sua proposta até o ultimo segundo, é a reunião de diversos elementos brilhantes sendo transmitidos através da sincronia de movimentos perfeita, direção magnífica e fotografia intocável.

emersontlima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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