Joaquin Phoenix e o seu duplo

Phoenix é amante do caos e, sem muita morosidade, consegue colocar em prática alguns pensamentos do Artaud ao reinventar-se de maneira insana, extraindo todas as suas forças para abraçar à transformação, envolvendo o espectador. Parece simples, mas é algo que só é possível por uma alma que aprendeu a descolorir o mundo ao seu redor, utilizando as cores roubadas para pintar um sorriso ou uma lágrima no rosto. Esse é Joaquin Phoenix; assistir o seu trabalho é morrer e encontrar esperança nas cinzas.

Antonin Artaud, um dos maiores teóricos do teatro, sempre lutou contra o formato padrão da arte que mais lhe encantava. Exigia uma subversão individual do artista e, quando relatava as suas propostas para a transformação do teatro, era muito complicado dissociar os pensamentos da própria vida. Arte e existência caminham lado a lado, mesmo que muitos teimem em esquecer isso; Artaud considerava a arte como uma última estância, como uma linha imaginária onde, por motivos óbvios relacionados ao desprendimento, poderia ser a perfeita marcação do limite e como um ato libertador, de rebeldia, deveria ser ultrapassada. A arte superando os limites que a sua exposição traz.

A performance, nesse nível de pensamento, atinge o sentido de transgressão onde o ator se dilacera afim de encontrar o caos. O ato de mentir ser outro é como se o indivíduo conversasse com as suas profundezas emocionais, estabelecendo um vínculo entre o ser e os seus conflitos. O teatro seria uma brincadeira de “pestes”, percorrendo a inconstância da naturalidade, perturbação e insânia.

O cinema também possui a força de extrair dos atores essa performance desprendida, no entanto, apesar das ferramentas técnicas para acrescentar pontos nessa ambição, – como ângulos de filmagem, montagem, efeitos especiais etc. – é muito complicado, hoje em dia, separar o ator do seu nome. O cinema popular vende os seus filmes em base aos atores que por consequência são grandes estrelas. Isso abre espaço para interpretações superficiais que, por esse e outros motivos, ganham seguidores e rios de dinheiro.

Evidentemente há muitas exceções. Uma delas é o ator Joaquin Phoenix que, sem sombras de dúvida, é um dos nomes mais relevantes do cinema atual, principalmente pela sua inconformação com o padrão e violação do próprio nome. É um exemplo claro de um ator quebrando a sua própria imagem, se despindo, e se ausentando de brilho. Há um grande números de fãs e apreciadores que seguem o seu trabalho, mas sempre são jogados de um lado para o outro com o potencial de Joaquin em surpreender, na maioria das vezes, com papéis completamente tortos e obscuros.

Ele começou sua carreira cedo, ao lado do irmão River Phoenix – considerado um dos jovens mais talentosos de sua época – e sentiu de perto a tristeza em torno da sua precoce morte, o que o fez abdicar da sua carreira como ator. Joaquin percebeu a atuação como um perigo pela exposição, compreendeu na época “o perigo de se deixar levar”, isso pensando exclusivamente na arte como produto, pois esse fato lamentável o desconstruiu de tal maneira que ele passou a morrer para enfrentar cada personagem que interpreta.

Por insistência de amigos, Joaquin Phoenix voltou a atuar e sua carreira começou a ganhar formas em 2000, quando recebeu uma indicação ao Oscar por seu papel em “Gladiador”. No mesmo ano, começou uma parceria duradoura com o diretor James Gray – grande nome do cinema independente norte-americano – com o filme “Caminho Sem Volta”.

A sua proposta de atuação começa a ser desenhada de forma lenta, mas desde os primeiros filmes é possível observar uma série de características que o faziam uma promessa, principalmente quando relacionado com a naturalidade que ele emprega em seus personagens. Dono de uma beleza penetrante, ela vai muito além da pura estética, além de não se encaixar nos padrões de beleza, sua postura, olhar, gestos contidos chamam a atenção, sua presença é notada mesmo que em segundos e a sua entrega é constante. Phoenix renasce das cinzas a cada contato que faz, absorve as melhores coisas dos diretores que trabalha, sem perder a sua própria identidade de solitário e excêntrico.

A sua afeição pelo minimalista é encantadora, assim como o seu trabalho exala uma propriedade dominadora, parece muito fácil e sólido, como se tudo seguisse um plano perfeito. Um terrível plano desorganizado.

Em “Dogma do Amor” ele trabalha com o diretor Thomas Vinterberg, um grande nome do cinema dinamarquês, que ficou muito conhecido por criar, ao lado do Lars Von Trier, um manifesto chamado “Dogma 95”, cujo objetivo era quebrar algumas regras do cinema convencional. Esse filme é uma loucura total, o protagonista parece sugado pela falsidade e se vê preso em questões extremamente relevantes que se mesclam com a ficção científica e filosofia.

Os próximos filmes escolhidos são “Johnny & June” e “Os Donos da Noite”. No primeiro ele interpreta um dos maiores nomes da música mundial, Johnny Cash, explorando a sua habilidade vocal e criatividade ao criar uma versão própria de um ícone, o que certamente traz enormes responsabilidades. O personagem parece perfeito para um ator acostumado com a rebeldia; ele consegue ir do sonhador até o completamente consumido pelo sucesso e amor em questão de segundos, inclusive é uma transição que acontece de forma tênue. Outra obra relevante é “Os Donos da Noite”, mais uma parceria com o James Gray e que também traz consigo essa quebra de identidade, onde um personagem precisa decidir qual lado seguir; sua atuação é magistral, começa transmitindo uma segurança inquebrável e vai, aos poucos, se rendendo diante de uma maldição familiar.

Pronto! com os exemplos citados acima compreendemos que, além da vida pessoal, Phoenix aprendera com sua arte expressiva que a transformação é inerente ao ser e, para atingir a perfeita metamorfose, é preciso sucumbir à trajetória. Não existe segurança sem medo; esperança sem humildade; desejo sem o sucesso; infinitas versões de si, todas, sem exceção, sendo corrompidas.

“Traídos pelo Destino” é um conto de muitas vidas sendo encontradas por meio de um evento específico. Dois atores se destacam muito nessa obra: Jennifer Connelly e Joaquin Phoenix, Grace e Ethan, respectivamente. Grace, desde o começo, não consegue agir dada as circunstâncias catastróficas que acontecem em sua vida, portanto, a força de equilíbrio precisa ser do Ethan, o pai. Novamente há uma transição clara entre o controle emocional e a loucura total, a cena em que as emoções explodem é de cair o queixo e, se melhor dirigida, poderia certamente credenciar o ator para mais uma vaga entre os indicados ao Oscar, pela terceira vez.

É válido ressaltar um documentário narrado por Joaquin chamado “Terráqueos”, de 2007. Esse documentário é um alerta sobre as condições que os animais enfrentam, o consumo desenfreado, enfim, é uma ode ao vegetarianismo. O ator é vegano, participa de uma série de grupos sociais e é abertamente a favor dos animais.

Fechando a primeira parte, a terceira parceria do ator com o James Gray aconteceu em “Amantes”, de 2009. Esse filme aborda um homem que se vê preso em duas possibilidades distintas, duas mulheres e duas histórias. É uma obra nada romântica que preza pela realidade, dando mais valor às pretensões e desejos individuais do que criar uma relação bonita e perfeita, onde os interesses de todos estão em comunhão.

 Na divulgação de “Amantes” aconteceu algo que marcaria a quebra, literal, do ator: a entrevista com o David Letterman. Na verdade a entrevista é uma extensão de uma proposta artística, quase vanguardista, de criar um vínculo direto entre a arte performática e o arquétipo criado pela fama, incluindo todas as maravilhas que ela dá ao artista e todas as dores.

Joaquin ficou barbudo, engordou e anunciou a aposentadoria da carreira de ator para, em sequência, se entregar ao hip hop. Sua figura na entrevista provoca o entrevistador e a platéia, a sua postura incomoda. As poucas palavras, esquecimento das coisas mais básicas sobre o seu recente trabalho e, principalmente, indiferença para com o seu próprio nome também são pontos interessantes.

Na verdade, esse evento único e corajoso era para promover um falso documentário, cuja pretensão era usar a imagem do ator como uma ponte para o seu rompimento. I’m Still Here, dirigido pelo Casey Affleck, trazia a intimidade de Joaquin, bem como a sua loucura cotidiana. É a jornada de um homem especial, forçado a ser comum, se entregando ao âmago do ódio pela realidade. O artista quando atinge a antipatia pela realidade se vê obrigado a se refugiar na sua criação, algo que Phoenix faz com elegância. Em contraponto, sempre quando aparece “de cara limpa” em entrevistas ou raras participações em festivais e premiações, ele sempre é estranho, soa um pouco constrangido e agressivo, talvez porque a realidade é o lar que ele recusa constantemente. O único personagem que Joaquin Phoenix não sabe interpretar é ele mesmo, com todos os seus demônios.

Algo grandioso acontece em  I’m Still Here. A coragem que todos os envolvidos tiveram em enfrentar a indústria, criando suas regras e deixando-os a deriva em meio as reais intenções por traz da mentira, é monstruosa. O artista que atinge a fama, principalmente hoje em dia, deve explicações diariamente para todos, seja as produtoras ou jornalistas, portanto o documentário é apresentado como tal, mas funciona como um portal místico de purificação, onde o indivíduo é capaz de se ausentar de luzes e atenções, principalmente atitudes padronizadas para manter a ordem, e se ater ao projeto corporal e emocional de viver uma outra história, lidando com a atuação como um refúgio da normalidade, brincando com o caos como se fosse uma boneca de porcelana, sem medo de quebrar pois já conhece ou sente o seu limite.

Depois de ter engado a todos, Joaquin corria o risco de nunca mais ser chamado para nada de grande relevância, muito menos no grande cinema. Eis que surge um homem chamado Paul Thomas Anderson. PTA, como é conhecido, é um adorador de cinema e sempre se mostrou muito entregue ao independente e visceral, busca referências ocultas na história da sétima arte ou na música. Certamente assistiu e se impactou com o documentário I’m Still Here, enxergando no protagonista insano a perfeita representação de um personagem que trabalharia em “The Master”.

Em “O Mestre” não se sabe ao certo quem dá as regras. O mestre, como era de se imaginar, cria o seu seguidor mas se vê preso dentro da sua evolução, o homem racional e sua total insânia se confundem; há uma proposta primitiva, um ser rastejante sobrevivendo entre a gasolina, guerra e sexo.

Se sabe que Paul Thomas Anderson pediu para Joaquin Phoenix assistir ao documentário-ficçãoOn The Bowery, então restou ao ator criar um universo caótico dentro de si, sua figura está torta, desenfreada, animalesca e irracional, um selvagem vítima das torturas da guerra – literal ou espiritual? – que se entrega ao álcool e transa até com uma representação da mulher… Feita com as areias da praia. É um personagem complexo, que só poderia ser interpretado por alguém capaz de atingir um nível épico de entrega, sem se limitar as inseguranças que a exposição traz, principalmente em um tema como em “The Master”.

“Ela”, de Spike Jonze, também poderia ser usado como representação perfeita da versatilidade do ator em compor expressões que afastam qualquer possibilidade de crítica, nesse belíssimo filme sobre isolamento emocional e físico, ele se entrega à sensibilidade: seus movimentos são suaves, delicados e sua voz é doce. Um personagem que se apaixona por uma voz, um celular, uma maravilha que não existe em canto algum, senão, no coração, seja do protagonista ou daqueles que assistem. “Ela” representa um sentimento de carinho mútuo, também conhecido como amor.

Em “Vício Inerente”, novamente parceria com Paul Thomas Anderson, Joaquin se entrega ao divertimento, um personagem sujo, transitando por entre personagens e calçadas estranhas, vazias e acolhedoras. É uma grande brincadeira inteligente com o gênero noir e os anos 70, auge do movimento hippie – há quem diga que Phoenix começou a andar descalço após gravar esse filme, cuja experiência de filmagens foi maravilhosa, segundo ele.

Em “Homem Irracional” ele faz uma parceria com Woody Allen que já afirmou em diversas entrevistas que escolhe minuciosamente os atores com quem irá trabalhar – o que me faz imaginar como o vovô Allen reagiu assistindo “The Master” e o que o fez ter escolhido Joaquin para interpretar o seu famoso personagem alter ego professor de filosofia-existencialista-pessimista. Inclusive, algo interessante de se notar, é que a maioria dos filmes de Woody Allen, os atores que interpretam seus personagens sempre aderem características típicas do diretor, mas Joaquin se preocupa em se distanciar desse esteriótipo e cria um personagem sedutor, com uns quilinhos a mais e expressões de derrota emocional, provocadas pelo conhecimento.

É um filme que, pessoalmente, não chamou a minha atenção – principalmente por causa do terceiro ato – mas ainda assim marcou minha vida pela parceria entre um dos meus ídolos ( Woody Allen ) com o meu ator ( do grande cinema americano ) atual favorito.

Em conclusão, Joaquin Phoenix sempre se explorou de forma muito orgânica, extremamente natural e simples nas composições, sem perder a força e o impacto, o que certamente é muito complicado. Apesar de ter um nome e rosto conhecido, consegue, por meio do excelente trabalho, fazer-nos esquecer quem é, há uma relação íntima de despimento onde o salto de um personagem para o outro acontece sem artifícios ou caminhos fáceis de atuação, como uma mudança física muito grande – que não seja em base à própria expressão facial ou corporal – tudo acontece de forma mais realista possível.

Phoenix é amante do caos e, sem muita morosidade, consegue colocar em prática alguns pensamentos do Artaud ao reinventar-se de maneira insana, extraindo todas as suas forças para abraçar à transformação, envolvendo o espectador. Parece simples, mas é algo que só é possível por uma alma que aprendeu a descolorir o mundo ao seu redor, utilizando as cores roubadas para pintar um sorriso ou uma lágrima no rosto. Esse é Joaquin Phoenix; assistir o seu trabalho é morrer e encontrar esperança nas cinzas.

emersontlima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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O que é e como ser um crítico de cinema?

Esse artigo se propõe a levantar a discussão sobre o que é a crítica de cinema e como se tornar um crítico, contudo, conforme as divergências de opiniões, seja dos teóricos, críticos e leitores, cabe ressaltar que o texto se baseia unicamente na experiência do escritor que, durante os últimos cinco anos, escreve suas observações sobre cinema e estuda a prática.

O cinema é uma arte muito nova, sem dúvida provoca muitas desconfianças por parte do público comum que, em uma posição egoísta, pensa a sétima arte como um parque de diversões onde, o produto, só serve para preencher as suas necessidades. Na verdade, essa ideia foi implantada conforme os anos mas de nenhuma maneira diminui a importância do cinema para a construção do conhecimento, no fundo sempre haverá espaços para todas as ambições, seja a reflexão ou venda – aliás, uma depende da outra.

Portanto, pensar teoricamente o cinema ainda é visto como uma tentativa inocente, visto que a experiência cinematográfica se tornou, com o passar dos anos, uma iniciativa pluralizada. É fácil perceber a enorme quantidade de pensadores de cinema que compartilham suas opiniões todos os dias na internet, aliás, o caminho virtual dá a possibilidade para diversas pessoas que, anos antes, se viam direcionadas por outras mídias muito mais exclusivas. O importante é saber que, assim como o acesso à internet traz benefícios, o cinema como “mais uma loja dos shoppings” também; nem por isso tira a sua profundidade e potencial de catarse. O cinema precisa ser discutido e, por sorte, é uma das artes mais presentes entre as diferentes divisões sociais.

Com a rápida divulgação e aumento do número de críticos na internet, é questão de tempo para, individualmente, traçarmos uma comparação silenciosa e definir o que é crítica e o que não é, como se fosse possível um ato egoísta render alguma conclusão inteligente. Então, como início da reflexão, gostaria de deixar claro a minha história com a escrita sobre filmes e, a partir da minha experiência, resumir a opinião e responder a pergunta principal que dá o título a esse artigo.

Se pensarmos unicamente na escrita, sabemos todos que a resenha crítica possui um padrão muito bem definido. Mas qualquer trajeto que dependa da padronização me incomoda e, assim como todas as coisas da minha vida, tento rever meus métodos e tentar encaixar o meu desprendimento intrínseco com a necessidade daqueles que leem o que escrevo ou que me escutam – aliás, passei boa parte da minha vida virtual ignorando os acessos e comentários do Cronologia do Acaso, não por arrogância e sim por ignorância, pois não imaginava que alguém no mundo teria alguma vontade em sentir o cinema através da minha visão.

Comecei a escrever em 2012, em um primeiro momento era para exercitar a escrita e desabafar sozinho. O caminho mais fácil para isso era, na época, o poema. Quando ouvia uma música ou assistia algo que me tocava, rapidamente tentava cuspir sentimentos em formas de palavras que, se não estruturadas da forma que imaginava, não faziam sentido algum. Com o tempo passei a escrever sobre filmes com a mesma intensidade, cada texto era um pedaço de mim que cortava e alinhava com divisões pontuais; fazia questão de utilizar a arte como um veículo, onde preenchia com as minhas próprias experiências e sentimentos, imaginando um plano onde o audiovisual e o homem se fundissem.

Com o passar dos anos fiz questão – e faço – de buscar a teoria do cinema e, mais do que isso, vivenciá-las. Nas primeiras oportunidades que tive, escrevi e atuei em peças teatrais; implantei e organizei um projeto de cineclube na escola em que trabalhava; inclusive escrevi meu trabalho de conclusão de curso em base a esse projeto, ou seja, fazendo uma pesquisa estreita na questão dos impactos sociais, filosóficos e políticos que o cinema pode desempenhar nas salas de aula; sem contar os pequenos e importantes trabalhos com a fotografia. O que quero dizer é que sinto a crítica de cinema assim, como uma vivência na arte, como produção. Se pegarmos a história da análise artística, percebemos que os primeiros críticos sempre foram pessoas que tinham essa experiência direta com a criatividade, viviam alguma área e utilizavam-na para compor a sua perspectiva sobre determinada obra.

Não estou aqui excluindo os que não baseiam suas criações textuais nessa interação direta com a arte, mas certamente não concordo com uma crítica de cinema que não exale essa propriedade subjetiva, que seja, muito mais do que bonita e padronizada, uma desordem sentimental separada por vírgulas e ponto final. A crítica de cinema deve ser, por consequência da grandiosidade daquilo que aborda, uma produção artística que represente uma parte da alma do escritor.

Escrever é um ato religioso, exige muita concentração e coragem. A organização está no coração pois, no final do dia, as regras gramaticais são esquecidas e só sobra o conteúdo. Apesar de buscar conhecimento e tentar compreender as inúmeras regras teóricas do cinema ( leia aqui o meu texto “Como e por onde começar a estudar cinema” ) tento mesclar a técnica com a subjetividade provocada unicamente pelo tema e abordagem do longa que está sendo analisado, mas a menção técnica não pode ser um brinde exibicionista, deve ser transmitido com carinho e respeito, como conclusão, é preciso ser explicado de forma prática, principalmente ressaltando como colabora para o entendimento dos símbolos ou mensagem do filme.

Em base à muitas discussões e leituras, é questão de tempo perceber que existe diversas pessoas escrevendo sobre cinema na internet, então como saber quem é o crítico de cinema e quem não é? a resposta é simples mas, por conta da polêmica que a envolve, precisa de uma explicação: todos são críticos de cinema, pois quem dita isso é o público que segue e se interessa pelo escritor.

Há alguns que tentam criar uma divisão entre crítico de cinema e resenhista, blogueiro etc, comparando quanto determinado site ou blogue rende, seja dinheiro ou acessos. Esse talvez seja o pior erro de todos pois o conteúdo é trabalhado e pensado de forma diferente. Por exemplo: dificilmente um site de cinema ganha dinheiro apenas com críticas, no mesmo tempo que uma crítica com poucas palavras traz muito mais leitores e, mesmo que o autor queira mudar o estilo da sua escrita apenas para se adaptar ao mercado, é bem provável que a versão criada por interesses soe artificial e insuficiente – como acontece com grandes portais atualmente.

Crítico de cinema é aquele que escreve e que consegue conquistar um público. Os leitores não só o encontram como retornam e participam do processo de estudo. São os próprios leitores que indicam os espaços a serem explorados na crítica e, por esse motivo, é impossível tentar separar a crítica cinematográfica de uma “resenha no blogue”. Cada leitor compra a ideia de determinado escritor(es) e o utiliza como guia pela jornada cinematográfica.

Depois de tudo isso, gostaria de ser mais prático e deixar algumas dicas para quem está pensando em escrever sobre cinema, criar um blogue etc.

  1. Faça. Escreva de modo livre, preocupando-se apenas com as suas referências, não com a intelectualidade, formato e vivência de outrem.
  2. Escrever de modo livre não quer dizer que você precisa parar de se inspirar em outros escritores. No entanto, no começo, sugiro que você se atenha à buscar ideias em autores que não trabalhem na área que gostaria de explorar – no caso, a crítica cinematográfica. Isso porque os primeiros anos servem como uma forma de avaliação e adaptação, entre o formato, a sua capacidade, adaptação e frequência, o que poderia sofrer um atraso com a famosa tentativa de copiar alguém consolidado para alcançar um avanço rápido.
  3. Sabe àquela fórmula padrão? começar com menção ao diretor, gênero, atores, sinopse curtinha e copiada de algum lugar mas ligeiramente modificada. Depois observações gerais e conclusão referenciando o tema central? esqueça isso. Aliás, lembre-se disso mas, durante o processo criativo, ignore. Pense exclusivamente em você e na sua experiência, jogue as palavras com a mesma velocidade e felicidade que uma criança brinca com os seus brinquedos improvisados. (já perceberam isso? uma criança têm a capacidade de pegar qualquer objeto e, mesmo que seja o mais simples possível, transforma em algo especial e grandioso. O crítico e o escritor devem se inspirar nesse gesto inerente de imaginação, muitas vezes a grandiosidade se encontra em ser de verdade).
  4. Não existe um tamanho apropriado para uma crítica de cinema – a não ser que você escreva para um jornal ou algum veículo que determine quantos caracteres ou palavras a crítica precisa ter.
  5. Estude cinema. Como? R= ache a forma que mais se adapta com o seu estilo. Se você pretende abordar a parte técnica e sustentar seus escritos em qualquer área teórica, pode fazer curso, pode pesquisar por conta própria (talvez esse artigo ajude) mas busque informação (lembre-se, jogar frases prontas sobre edição, montagem, fotografia, mise en scène, plongée etc, e não explicar qual a relevância para a trama, é a mesma coisa que discordar e não apresentar um argumento, para muitos não é suficiente). Agora, se não te interessa a teoria, então se atenha exclusivamente a assistir muitos filmes. Em uma crítica de cinema fica evidente se a pessoa possui uma bagagem cinematográfica pois cada palavra revela o olhar do escritor e esse olhar se transforma drasticamente mediante a quantidade de referências que ele têm.

Essas foram as minhas considerações, espero que tenha sido útil e que te motive a escrever, se esse for o seu objetivo, ou que simplesmente repense quão importante é a crítica de cinema para a divulgação da sétima arte. No fim, todos estamos colaborando com a mesma coisa, por mais que exista individualismos, só existe uma linguagem ao abordar o cinema: paixão.

(ou assim deveria ser.)

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Imagens fragmentadas como atalho para a ilusória perfeição

Cisne Negro ( Black Swan, Estados Unidos, 2010 ) Direção: Darren Aronofsky

★★★★★

Parte 1 – Versões contraditórias de uma mesma face

A arte é o desprendimento do ser em troca de diálogos com outras versões dele mesmo. É impossível pensar na expressão como uma manipulação terrena, a produção e entrega artística está vinculada inteiramente com o místico, outros planos e universos onde o humano torna-se deus e, por consequência, se desmistifica a cada olhar e movimento. O olhar parte de uma necessidade impulsiva de se perder em infinitas possibilidades, reinventando as escolhas e reiniciando a existência.

O movimento do corpo exige coragem de todas as formas possíveis, inclusive as mais fortes e que mais consomem são as que se distanciam, por ironia, da exibição: evidentemente, ficar em frente à uma plateia que espera sempre um espetáculo é uma experiência aterradora, mas nada se compara com a busca por compreender cada detalhe e mesclá-lo com os segundos, como se o ato performático transformasse o ator em um pescador de tempo, técnica e liberdade.

Nesse ponto, a problemática maior da atuação é a naturalidade e, como sabemos, o ser humano é dotado de falhas e erros, seja nas palavras, comportamento e escolhas, portanto, a arte perfeita é aquela que é toda errada e suja, despreocupada. Oras bolas, de que adianta entender todas as regras gramaticais e não ter absolutamente nenhuma inspiração para escrever? na mesma altura, do que adianta ser uma exímia bailarina e não saber amar a si?

Antonin Artaud relaciona o teatro com o caos, como um processo de loucura conjunta, de liberdade extrema e subversidade; Pina Bausch, quando dança, leva consigo toda a sua história, todos os seus passos, as ruas, pessoas e momentos. O suor nesse caso soa como sangue, pois o cansaço é de uma vida inteira, não somente as horas de um espetáculo; os movimentos são como pássaros, como árvores, como terra; e a mentira, por sua vez, se torna verdade.

Parte 2 – Os espelhos

Dado a introdução, é questão de tempo para relacionarmos a performance com a coragem de se alcançar mundos distintos – às vezes a transição acontece em questão de segundos – portanto a apresentação consome psicologicamente o artista para, depois, fazê-lo gozar. É uma relação íntima, que gira em torno da dicotomia entre o prazer e a dor do sacrifício.

Assim somos apresentados à Nina, uma personagem inocente que enfrentará o dilema de multiplicar-se. Na cena inicial ela dança suavemente e interpreta, depois desperta do sonho e se prepara para mais um dia.

É questão de tempo para percebermos a importância dos espelhos para Cisne Negro, como um objeto que representa a ideia básica de universos paralelos, como se Nina desfragmentasse sua imagem em cada cena em que se olha ou, em uma visão otimista, o espelho funciona como um caminho de incentivo ao espectador na busca por uma nova perspectiva sobre o óbvio.

A imagem acima revela dois caminhos distintos: a imagem que transparece a suposta realidade determina a posição de Nina e sua mãe, Erica. No entanto, ao olharmos o espelho, percebemos que as duas trocam de posição e, se não bastasse, o reflexo da mãe está de costa para a filha, como se não estivesse conversando com alguém ( ou seria o contrário? ).

Na dança é imprescindível o uso do espelho como uma forma de registrar os movimentos com facilidade, o próprio dançarino enxerga, repensa e repete os movimentos de forma a criar uma conexão e corrigir os erros. Agora imagine um espelho bem grande do nosso lado todos os dias da nossa vida, no ônibus, nas aulas, nos corredores, nos hospitais, nos caixões, enfim, o espelho em Cisne Negro é mostrado literalmente mas sua importância é metafórica, sugerindo uma etapa transcendental da consciência, onde a menina, mesmo que tardiamente, se desprende e caminha em rumo à sua liberdade.

Parte 3 – Há muitas cores entre o preto e branco, mas só há um cisne

Nina ultrapassa barreiras muito rápido em base ao seu talento, mas sua inocência a cega completamente em relação as reais necessidades para conseguir fazer o seu papel. Ela não precisa provar a técnica, mas sim a interpretação. Desde o começo a mensagem fica clara, mas ela ignora, atendo-se exclusivamente aos movimentos e não à entrega.

Isso é uma mensagem para a vida: quantas vezes nos pegamos centrados em algo ou alguém, enquanto o melhor encontrava-se ao lado? lembrando que “melhor”, nesse caso, diz repeito exclusivamente ao momento.

Nina precisa ser violada pela rebeldia e criar o caos dentro de si para subverter, ameaçar a si própria, dominando assim as outras versões dela mesma: a mãe, Lilly e Beth – dançarina “ultrapassada” e protagonista do Lago dos Cisnes durante muitos anos, sendo sucedida pela própria Nina.

Esse ritual de transição acontece através do sexo. Desde o momento que ela abandona sua mãe ( ela mesma ) para ir à balada com a Lilly ( aquilo que gostaria e precisa ser ) até o momento que volta para sua casa, é o desdobramento e coragem para tentar encontrar uma resposta sobre quem ela é, como enxerga e como será. As três imagens acima ilustram essa ideia de forma preciosa: percebam que, na primeira imagem, o círculo de espelhos ( vida ) traz consigo diversas versões da Nina, mas nenhuma delas ganha tanto destaque quanto a do centro. A segunda e terceira imagem são mostradas antes do embate com a mãe, a separação entre Lilly e Nina é evidente, no mesmo tempo que parece se tratar da mesma pessoa.

O sexo entre as duas, a seguir, representa o momento exato da fusão entre a técnica artística e personalidade central, com as variações da personagem que está sendo interpretada para o espetáculo – no caso o lado negro, obscuro, insano e obsceno. Nessa perspectiva, o filme Cisne Negro além de ser uma ótima obra sobre o processo de criação artística, ainda percorre caminhos obscuros da psicologia humana, opressão à mulher e, ainda mais, funciona como uma adaptação da própria peça “Lago do Cisne”. É uma obra-prima do cinema moderno, ápice de um diretor que se acostumou em provocar através da loucura e que, aqui, encontra um oásis na performance brilhante da Natalie Portman.

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Melhores filmes de 2016

2016 chegou ao fim e é realmente um motivo de orgulho termos conseguido manter o Cronologia do Acaso vivo e com conteúdo tão frequente, seja com críticas, artigos ou podcast. Já se passaram quatro anos desde o nosso início e cada vez mais o público e acessos crescem, mas a real relevância do nosso trabalho são as mensagens de carinho, essa aproximação que temos com os ouvintes e leitores.

Então, como de costume, deixo minha lista dos dez melhores filmes que assisti de 2016 ( veja os anos anteriores: aqui ). Forte abraço e feliz ano novo a todos!

Top 10 Melhores filmes de 2016:

1) Capitão Fantástico ( Captain Fantastic, Estados Unidos, 2016 ) Direção: Matt Ross
2) A Criada
( Ah-ga-ssi, Coréia do Sul, 2016 ) Direção: Chan-wook Park
3) Um Cadáver Para Sobreviver
( Swiss Army Man, Estados Unidos, 2016 ) Direção: Dan Kwan e Daniel Scheinert
4) A Bruxa
( The VVitch: A New-England Folktale, Estados Unidos, 2016 ) Direção: Robert Eggers
5) Wiener-Dog
( Wiener-Dog, Estados Unidos, 2016 ) Direção: Todd Solondz
6) Boi Neon
( Boi Neon, Brasil, 2016 ) Direção: Gabriel Mascaro
7) Demônio de Neon
( The Neon Demon, Estados Unidos, 2016 ) Direção: Nicolas Winding Refn
8) A Tartaruga Vermelha
( La tortue rouge, Holanda/Japão/Bélgica, 2016 ) Direção: Michael Dudok de Wit
9) Sing Street
( Sing Street, Irlanda/Estados Unidos, 2016 ) Direção: John Carney
10) A Qualquer Custo
( Hell or High Water, Estados Unidos, 2016 ) Direção: David Mackenzie

Outros títulos que recomendo são: O Nascimento de Uma Nação, Divinas, O Lamento, Big Jato, The Eyes of My Mother, Kimi no Na wa, Sob As Sombras, Aquarius, Amores Urbanos, Elle, Train to Busan, Mais Fortes que Bombas e À Sombra de Uma Mulher.

 

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[Republicação] Nuberu Bagu e o filme Paixão Juvenil (1956)

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As mudanças políticas, assim como as guerras, causaram um impacto muito grande na arte como um todo e, depois, ainda temos essa arte transformada impactando na vida dos jovens. Anos 50 e 60 são a base do rock, por exemplo, não só pensando em gênero musical como também em todas as influências que o rock trouxe no estilo de vida das pessoas, principalmente adolescentes, eu vejo o rock e, eventualmente, respondo aos curiosos, que rock é atitude. Claro, muitas vezes confundida com imaturidade, ou ódio, enfim, o problema é que a minha atitude pode ser diferente da sua atitude, então eu aprendi a usar o rock em prol ao meu crescimento pessoal, não mais a me destruir. Estou escrevendo isso, pois acho de suma importância a Nouvelle Vague como uma das maiores atitudes que tivemos, em meios cinematográficos, eu comparo muito essa necessidade de ser cru, com a entrega dos jovens nessas décadas, uma mistura de rebeldia com coragem de enfrentar um sistema corrompido. Uma alma sexo, drogas e rock ‘n roll e uma proposta de subversão que beira o adorável. O que hoje é clássico para nós, digo, realizações da Nouvelle Vague, na época eram grandes pedaços de mal caminho.

Hoje estarei comentando um filme da nouvelle vague japonesa, ou Nuberu Bagu, que, como descrevi acima, também era sustentada para coragem de enfrentar a exposição. Muitas vezes usando os jovens como exemplos de uma tentativa de escapar de uma vida direcionada a mesmice ou ao autoritarismo. A importância no Nuberu Bagu era momentos, pequenas crises, que seriam desenvolvidas ao longo, porém não cabiam a eles dar uma resposta, como disse, é o registro de uma intensidade, própria dessa geração que buscava transformações, isso começa mais ou menos na década de 50 e tem um grande ápice, ao meu ver, na década de 60, com a grande fase do Nagisa Ōshima realizando obras como “Juventude Desenfreada” e “Noite e Neblina no Japão”, ambos de 1960.

Sabemos que o Japão é um país super conservador, agora, meu amigo, pense nessa época, pós-guerra, o medo e cautela espalhado em todos os cantos, enfim, o negócio não deveria ser muito agradável aos jovens que, como todos, tinham seus próprios problemas para resolver, os mesmos já nasciam em berços da autoridade. Se pegarmos um mestre como o Nagisa Oshima, ele nasceu em 1932, então o cara viu todas as transformações possíveis do seus país e, em seguida, realizaria trabalhos extremamente provocantes, bem é realmente um diretor a se conhecer.

“Paixão Juvenil” ou “Kurutta Kajitsu” é de 1956, dirigido por um outro mestre chamado, o filme conta a história de dois irmãos que, após conhecer uma garota em uma estação, ambos se apaixonam pela mesma e vão competir um com ou outro por momentos com a menina. Descobrimos ao longo que ela é casada e não está interessada em envolvimentos sérios, constrói-se então um triângulo amoroso onde, de fato, a personagem feminina se revela a grande “vilã”. Isso entre aspas, pois não temos uma estrutura narrativa que seleciona quem é o vilão ou quem é o herói, todos são bem desinteressados e/ou bobos e arrogantes. O papel da mulher nesse filme é uma revolução, eu diria, pois se mostra oposta a figura feminina que o Japão criava em seus filmes, aquelas mulheres indefesas e frágeis. Aqui temos uma mulher que possui em seus ombros uma liberdade fora do comum, chegando ao ponto de usar os homens, devorá-los, utilizando como isca a sua carinha de boazinha/frágil e a sua beleza. Aliás, a pele é deveras explorado aqui, digo, o corpo, o toque, há cenas incrivelmente eróticas para época. Permeia o tempo todo um grau interessante de erotismo e um clima noir. É uma dose completa de ótimo cinema. Assisti com minha irmã de 10 anos – talvez uma exploração infantil? – e até ela curtiu bastante.

Há em em todos os cantos dessa belíssima obra, uma efervescência do jovem, se desprendendo de uma vida pacata em busca do seu próprio prazer, é recorrente nesse cinema de auto-nível os conflitos, pois, em meio a essas mudanças drásticas de comportamento, o amor, a paixão, servem como elementos secundários. O bom da vida e da arte é experimentar registros atemporais que, para serem realizados, dependeram de um tempo certo, cabendo a nós, espectadores, uma contextualização para que, assim, possamos desfrutar tanto a excelente ideia como, também, da audácia dessas obras.

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No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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A poesia de ser mulher

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Antes de mais nada, quero compartilhar algo muito emocionante para mim: após mandar duas críticas/textos/desabafos para a página oficial da Petra Costa no Facebook, minhas duas análises sobre os seus filmes anteriores foram publicados no site oficial do filme Elena

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Você pode ler minhas críticas sobre os filmes anteriores da diretora: “Olhos de Ressaca” e “Elena“.

Olmo e a Gaivota, 2015

Quantas histórias esse mundo já contou? quantas possibilidades de identificação e quantas frases bem elaboradas. A palavra e a escrita é uma forma real que o homem encontrou, desde o princípio, para enfrentar a sua própria pequenice. Mas, faça esse exercício, quantas dessas milhares de obras exploram a mulher? quais grandes obras falam sobre a gravidez?

Quantas mulheres escreveram e, em algum momento da vida, enfrentaram diversos problemas por serem, como diz mesmo, “mulher”?

“Mulher”. Essa palavra é tão forte, esteve tão presente e, ao mesmo tempo, tão distante que me sinto um monstro, me sinto sujo e incoerente. Na palavra “mulher” não existe plural, pelo menos não nessa análise, pois todas brigam, mesmo que indiretamente, pela mesma causa. Somos “um” na teoria, mas, em sociedade, em conjunto, somos divididos: homens e mulheres; poder e submissão; subversão e regra; pênis e vagina; mundo e casa; desespero e mãe.

Esse devaneio é resultado do trabalho minucioso de uma diretora – aqui, duas, visto que Petra Costa co-dirige “Olmo e a Gaivota” com a dinamarquesa  Lea Glob – que dialoga, com extrema totalidade, com o universo feminino. Esse universo não precisa ser engrandecido, muito menos colocado acima dos outros infinitos, porém, é preciso, somente, falar sobre, tentar entender suas nuances e os seus intervalos.

“Olmo e a Gaivota” percorre a história de dois atores, unidos pelo amor e pela arte, transitando por entre o documentário e a ficção – existe separação entre eles? – que, de repente, descobrem a gravidez. A perplexidade toma conta dos pais, a preocupação, bem como o amor que, de mansinho, vai caminhando por outros lados, de outras formas, como se estivesse constantemente se preparando. A sensação que beira o êxtase, do processo de criar, assim como um deus, dá lugar à insegurança, medo e tristeza. Existe uma vida lá fora, existe um trabalho – afinal, o teatro é uma incontável criação de vidas e histórias – e a mãe, cuja responsabilidade/benção/maldição carrega no ventre, se vê sozinha.

Serge: – A minha presente realidade é diferente da sua.
Olivia: – Minha presente realidade também é a sua. Mas sou eu quem a carrega.

A atriz, acostumada com as luzes do palco, precisa acostumar-se, forçadamente, com a quietude de um apartamento. Onde estaria, então, o seu marido/futuro pai? esse se preocupa, apenas, em sustentar o futuro e, consecutivamente, o seu ego. Ele vive a rua. Deixa em casa uma Rapunzel, presa em uma torre no meio urbano, acompanhada dos seus demônios… uma Rapunzel sem as tranças, sem esperanças.

“Olmo e a Gaivota” é uma inconstância, tudo que se sabe e se acha é a mulher. A mídia trabalha o amor com uma imaginação ingênua; trabalha a gravidez com uma segurança devastadora mas, todos sabemos, é um assunto cercado de questionamentos. Nenhuma mãe se sente totalmente segura desde o início, nenhuma mulher precisa ser forte o tempo todo; mas eles empurram essa ideia, com correntes e sangue: a mulher precisa estar feliz por estar grávida, não pode ter dúvidas e, qualquer problema, há de arcar com a responsabilidade, afinal, foi a sua escolha.

O filme não fala nada diretamente, não julga, muito menos grita à favor do aborto, como muitos dizem, simplesmente analisa a mulher, a gravidez e todas as suas vírgulas. Nunca foi feito algo assim, principalmente com essa narrativa que se assemelha muito com o melhor do cinema iraniano.

Grande parcela da população não está interessada em discutir temas polêmicos com a arte. A maioria prefere apontar o dedo e selecionar o que é certo e o que não é – em base ao seu conservadorismo. As pessoas iludem outras com falsas chamadas de sabedoria, e dizem que analisar com calma, individualmente, não é necessário. Que priorizar os sentimentos é uma forma de alienação.

O mundo nunca pôde ser dividido em dois lados, pelo menos a arte dá a possibilidade de trabalhar uma série de camadas, por isso, é a demonstração perfeita de poder e manipulação da vida, seja aqueles que fazem ou que sentem.

A “mulher” têm crises e histórias, elas escrevem as suas todos os dias assim como qualquer um, então porque as limitações? somos donos do nosso corpo, no entanto, em massa, criamos uma série de dilemas para a manipulação. Criar uma vida dentro de si é uma escolha artística, um sentimento profundo de auto-compreensão, uma atitude que parte do equilíbrio, do melhor momento; ser mãe é, antes de mais nada, aceitar-se como mãe.

O lado positivo de “Olmo e a Gaivota” é a pronuncia, a coragem para se discutir o início da vida, humanizando esse processo seja qual for a consequência. Histórias felizes e tristes acontecem o tempo todo, mas a nossa arrogância nos tira a possibilidade de empatia. O filme estabelece essa conexão: tema, indivíduo, arte, mulher e Petra Costa, talvez Elena. O trabalho da diretora é transcender à liberdade, fazer pensar com a poesia e mergulhar no existencialismo.

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Especial Halloween – Filmes de terror no ano de 2016 ( parte 2 )

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Continuando a revisão do cinema de terror em 2016, pulamos o mês de julho – que, pelo menos no grande circuito,  não teve nenhuma estréia – e chegamos em agosto com o lançamento de Quando as Luzes se Apagam. Esse filme tem um gosto especial de decepção, baseado em um curta-metragem chamado Lights Out que foi muito compartilhado no Facebook e outras redes sociais, isso por conta da duração – hoje, na internet, tudo precisa ser rápido – e qualidade, pois mostrava uma criatura demoníaca que aparecia em um quarto quando uma pessoa apagava as luzes. Simples assim.

Eu fiquei com medo também, quando saiu na internet assisti de madrugada e a legenda “você não conseguirá assistir até o final”, talvez, tenha abalado o meu psicológico. Então nesse ano é lançado um filme que se propõe a estender essa história, com uma premissa interessante, principalmente no que diz respeito trabalhar o nosso medo do escuro, a ideia para na sinopse, pois em nenhum momento isso é desenvolvido. O escuro é uma ferramenta para desenvolver um longa repleto de clichês.

Ainda em agosto, tivemos o lançamento de Águas Rasas que, se não bastasse a tensão que desenvolve no início, ainda trabalha com inserções de tela de celular durante o filme, de forma a aliviar o desespero e, ainda, consegue estabelecer uma conexão entre a protagonista e o espectador através, vejam só, da tecnologia. O interessante é que o filme é uma personagem só, solitária em uma praia, portanto o seu celular é o veículo narrativo para conhecermos o seu passado e, em seguida, nos preocuparmos ainda mais com a sua condição desesperadora, afinal, todo mundo tem medo de tubarão, não é mesmo?

Jaume Collet-Serra, o diretor, distribui bem a apresentação e cria uma história bacana em pouco espaço – mais precisamente, uma rocha, onde a personagem principal passa a maior parte do tempo – mas, infelizmente, escorrega feio na conclusão que destoa bastante do realismo que vinha sendo trabalhado até então.

Mesmo assim, é um filme mediano, sustentado por uma direção inteligente e boa atuação da Blake Lively.

Primeira semana de Setembro foi a vez de Sono da Morte, do diretor Mike Flanagan. O ano de 2016 é o melhor da vida desse diretor; sem dúvida no final do ano ele vai olhar para trás e dar gargalhadas por horas. Depois de Hush – A Morte Ouve – que, erroneamente, não citei na primeira parte desse resumo mas, como vocês podem ler na minha crítica, adorei a tensão e o trabalho sonoro do filme, como já é costumeiro no trabalho do Mike, por sinal – o diretor voltou com Sono da Morte, onde ele trabalha com o surrealismo e o mundo dos sonhos, através de um garotinho interpretado pelo fofo Jacob Tremblay. Não é o meu favorito do diretor mas, mesmo assim, ele consegue manter uma qualidade.

Setembro também apareceu por aqui o O Homem nas Trevas, cuja ideia também é interessante, começa super diferente, apresentando a casa com um movimento de câmera sutil, depois acompanha em um ritmo lento os personagens quando estão presos e o silêncio também é muito importante, é usado como uma forma de simular a tensão dos personagens. Porém o fato de apresentar a protagonista como uma “menina boa que rouba por causa da família” dá indícios da conclusão que beira o infantil e covarde, ao jogar fora a linguagem direta e despreocupada em troca de uma série de justificativas inúteis. Aliás, repararam quantos filmes pecaram no terceiro ato? Talvez seja um símbolo do ano de 2016 e uma mensagem para o próximo: não adianta começar bem e terminar mal.

Agora, o filme Bruxa de Blair não tem essa decepção de terminar mal, justamente porque o filme inteiro é ruim. É uma repetição de ideias só que sem a novidade do primeiro, lá em 1999.

E chegamos em outubro que tem a volta de quem? sim! o homem mais feliz do ano: Mike Flanagan. Ouija – Origin of Evil é o segundo filme de um dos diversos que falam sobre o tabuleiro ouija. O anterior é uma bomba, mas esse consegue ser bem interessante, no entanto, nunca alcança um nível alto. Flanagan chama a adorável Annalise Basso – particularmente a acompanho desde Ilha da Aventura e, esse ano, foi maravilhoso vê-la em Capitão Fantástico – que já tinha trabalhado com o diretor em O Espelho e faz uma mistura bem louca desse com Ouija, quebra algumas regras, dá uns sustos, mas entrega algo padronizado, mas ainda assim é uma surpresa.

Esses foram os filmes que eu vi, até agora, e que foram lançados no grande cinema. Mas, sem dúvida, se eu pudesse indicar três que ainda não estrearam e, pelo menos dois, não se sabe quando irá estrear, são: They Look Like People, Shelley e Invasão Zumbi ( que estreia no Brasil em novembro ).

Então é isso, deixo abaixo uma lista de todos os filmes de terror que escrevi nesse ano de 2016:

Dabbe: Bir cin vakasi
Os Inocentes
Terror nos Bastidores
Imperador Ketchup
The Children
O Espelho
Musarañas
O Sono da Morte
Diário De Um Exorcista
Across The River
Demon
Invocação do Mal
Rua Cloverfield
Kairo
Absentia
Hush – A Morte Ouve
Possessão demoníaca no cinema
Horror Hotel
Invocação do Mal 2

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Especial Halloween – Filmes de terror no ano de 2016 ( parte 1 )

Esse é um artigo especial do Cronologia do Acaso para o halloween 2016. Será dividido em duas partes: a primeira é analisando os filmes de maior destaque lançados em circuito comercial de janeiro até junho. A segunda é de julho até agora ( outubro ), próximos lançamentos e recomendações de algumas obras que ainda não foram lançadas no Brasil, além de concluir o artigo com um “top 5 filmes de terror do ano”. Portanto, leia, compartilhe e comente quais os melhores filmes de terror em 2016, na sua opinião!

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No mês de janeiro não tivemos nenhum filme de terror, mas em fevereiro tivemos o primeiro que saiu nos cinemas, com algum destaque, mas com qualidade duvidosa, que foi o Boneco do Mal. A primeira vez que soube desse filme, logo tive muito preconceito pois ele parecia pegar carona com o sucesso de Anabelle. De boneca para boneco, fico com o Chucky, porque nenhum dos dois valem a pena. The Boy ou Boneco do Mal é dirigido pelo William Brent Bell, o mesmo diretor de “Filha do Mal”, e até começa bem, apresentando a personagem principal, que chega em uma mansão para cuidar de uma criança e se depara com um casal de velhinhos doidos que tratam um boneco como ser humano. A ideia é mórbida, transmite uma sensação estranha, a maneira que o boneco é filmado desperta a curiosidade, porém a resolução do filme falha muito.

O destaque do ano, sem sombra de dúvidas, é o A Bruxa, como já escrevi artigo e crítica sobre ele, reitero que é o melhor filme de terror do ano, pois aborda temas complexos, inverte valores e prega exaustivamente a liberdade da mulher, usando o satanismo como veículo e o diabo como amuleto, é sem dúvida nenhuma uma obra-prima.

Outro filme que estreou em março foi o aclamado Boa Noite, Mamãe, também escrevi sobre ele e o mais interessante, ao meu ver, é o uso da figura da mãe – tida como intocável, inquestionável e perfeita – para provocar o medo, então a sensação de proteção que nos é identificável, quando relacionamos com o sentimento materno, é desmoronado e, ainda por cima, acompanhamos duas crianças que precisam lidar com toda essa aflição. Na verdade, Boa Noite, Mamãe é um excelente trilher, inteligente ao usar os personagens e os seus movimentos pela casa: todos os cômodos provocam a urgência, os espectadores, assim como os personagens, ficam em alerta constantemente.

Mês de abril tivemos o Do Outro Lado da Porta, que começa bem mal, quase um drama sobre uma mãe que, após perder o seu filho, fica maluca quando descobre que existe um ritual onde pode se comunicar com os mortos. Muita coisa ruim acontece com os personagens e nada bom acontece no filme, personagens mal desenvolvidos, dramas que não provocam a empatia, atores mirins péssimos, protagonista também não segura o filme, é um desperdício, pois a ideia do ritual é interessante.

Ainda no mês de abril tivemos o ótimo Rua Cloverfield, 10, com um roteiro maravilhoso e um trabalho excepcional de som e desenho de produção, a força principal do longa é o primeiro e segundo ato onde três personagens completamente distintos entre si, precisam sobreviver em um bunker, e respeitar a fé um do outro sobre um possível apocalipse no mundo exterior. Esse cenário apertado muda conforme o psicológico dos personagens e as suas decisões, a intenção de cada um é indecifrável até o final e a tensão é muito grande. Pena é o terceiro ato que destoa bastante do início, mas ainda assim não tira o brilho de Rua Cloverfield, 10 que, inclusive, tem como mérito a sua protagonista Michelle que, interpretada pela Mary Elizabeth Winstead, exala uma força e independência que há muito não se via em hollywood.

Destaque também para a atuação de John Goodman que é um coadjuvante de luxo, trabalhou com nomes como Todd Solondz e os irmãos Coen, enfim, John Goodman é rei no circuito independente e em Rua Cloverfield, 10 tem a sua voz e, melhor ainda, para o grande público, fiquei muito feliz por vê-lo e, sem dúvida, é uma das melhores atuações do ano.

Em maio teve o lançamento do remake de Martyrs – ignorem essa merda. Ainda em maio, outro destaque foi Demon, um terror polonês com pitadas de humor negro, diferente, pois a possessão demoníaca é em base ao folclore judaico, enfim, outro grande filme do ano. 

Em junho, último mês dessa primeira parte, tivemos o lançamento de Invocação do Mal 2 que provou mais uma vez o talento do jovem diretor James Wan. É extremamente bem dirigido, provoca o medo da forma que o grande público gosta e ainda consegue divertir os mais exigentes. É um filme que conhece o seu próprio limite, respeita os seus personagens e faz o básico, não exagera, as filmagens são feitas de forma a ressaltar a estranheza da casa, há inserções digitais de uma criatura que lembra algo como Babadook, é bem corajoso e a personagem mirim, cujo corpo vira a casa para um espírito maligno, é muito boa. James Wan pega um caso que abertamente se sabe que é mentira, dá um contorno interessante e atrai o público com mais uma de suas criações diabólicas, que nesse caso é a “freira do mal” – Inclusive quando criança eu tinha medo de freira e me peguei lembrando disso durante a sessão.

Vale lembrar que junho também foi o mês de lançamento do terror nacional O Caseiro que é bem legal. Mesmo que se estruture no clichê do “homem cético que colocará as suas crenças em questionamento ao investigar um caso sobrenatural”, o bacana é que o filme é mais um mistério e prende a atenção até o fim. No entanto, a conclusão é muito rápida e insegura, até vai de desencontro com o que foi apresentado: personagens que mudam drasticamente e sem sentido nenhum, trama que abandona alguns detalhes, diálogos fracos para rápidos entendimentos de uma história pouco complexa, enfim, no final, é um filme mediano.

Muito bem, essa foi a primeira parte do especial Halloween, a segunda parte eu lançarei, também, antes do dia 31 de outubro. Então é isso, abraço e até a próxima!

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Liberdade sexual e subversão sob olhares conservadores

Alucarda, 1977

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★★★★★

“Alucarda” proporciona um exercício de reflexão muito parecido com o recente “A Bruxa”, traço essa comparação por ser recente e, segundo, por ter escrito há algum tempo um artigo especial sobre, dissecando os símbolos e desmistificando – ou tentando, pois se trata de um tabu – o satanismo, de forma a misturá-lo com a liberdade. Então, antes de mais nada, indico o artigo como uma leitura prévia: clique aqui.

“Alucarda” aborda a história de uma garota chamada Justine (Susana Kamini ) que chega a um convento e, imediatamente, faz amizade com uma outra menina chamada Alucarda ( Tina Romero ). Alucarda é irreverente e subversiva, mesmo estando no convento não parece, de forma alguma, pertencer àquele lugar – isso é transmitido pelo seu figurino, um vestido totalmente preto, fúnebre, sem detalhes – e encanta a virginal Justine que representa, em seu âmago, a pureza sendo “corrompida” pelo amor.

Como comentado no artigo sobre “A Bruxa”, o satanismo representa, entre muitas outras coisas, a liberdade, é o impulso rebelde do homem em direção ao conhecimento. O conhecimento, no caso desse filme, é a paixão que cresce entre as duas garotas e, obviamente, condenado pela igreja. O culto satânico, aparições, transformações físicas, enfim, são elementos metafóricos para explicitar a problemática da crença obsessiva, construída, claro, por todo um contexto histórico. Porém, é triste notar que mesmo nos dias atuais, o relacionamento homoafetivo não é aceito pelo sistema social que, dentre outros artifícios, utiliza a religião para controlar as escolhas, de forma a categorizar as atitudes com pecados arcaicos – afinal, que se foda os pecados, a vida é um pecado e eu não fico julgando deus por isso.

Não é inteligente generalizar a religião e pregar que todas proíbem o relacionamento homoafetivo, muito pelo contrário, mas infelizmente existe e “Alucarda” trabalha muito bem o assunto. Com uma direção primorosa do grande Juan López Moctezuma – que trabalhou ao lado de grandes realizadores espanhóis como Arrabal e Jodorowsky -, o filme dialoga com uma atmosfera onírica, pautando-se em acontecimentos rápidos, sem muitas explicações, como se o tempo estivesse passando diferente para as duas personagens centrais.

A mãe de Justin é interpretada pela Tina Moreno, a mesma que faz a protagonista Alucarda. Isso deixa claro que tanto Alucarda quanto Justine são as mesmas, uma só, um só propósito, pois ambas “vieram” do mesmo lugar. Talvez o sentimento de estranheza para com mundo normal, seja o elemento comum entre as duas, por isso a cumplicidade e empatia quase imediata.

O mesmo acontece com dois dos personagens mais complexos do longa: o cigano corcunda e o Dr. Oszek. O primeiro é um mágico da floresta que impulsiona o rito satânico das duas amigas; o segundo é o médico que, no terceiro ato, aparece para contestar o exorcismo que está sendo feito dentro da igreja. Ambos personagens são interpretados por Cláudio Brook, o que é muito interessante visto que representam a dicotomia entre a ciência e o misticismo. Com a atitude de colocar um ator para fazer esses dois lados tão conflitantes entre si, é como se o diretor gritasse para o espectador que partem de uma mesma necessidade humana, uma sincronia de ideias para, enfim, alcançar a explicação.

A primeira vez que Alucarda aparece, ela sai atrás da Justine, em um quarto, a iluminação é oportuna ao mostrar a protagonista no escuro, quase como se estivesse saindo da parede. Demonstrando, perfeitamente, o estado psicológico dela que há muito sucumbira ao local ( convento ) e, com a aparição da amiga, consegue reunir forças o suficiente para quebrar as amarras da opressão. Seremos então transportados para cenas viscerais de rituais satânicos, sangue, sexo, remetendo-nos ao vampirismo, há elementos de gore, mas nada é tão absurdo quanto o ritual da igreja para fazer o exorcismo, cujo momento mais agonizante é quando um padre perfura Justine para libertá-la do mal.

Mesmo com recursos limitados, “Alucarda” é extremamente inteligente e, mesmo que seja uma obra oculta do grande público, merece ser visto como forma de reflexão. Seja sobre a opressão da igreja ou homossexualidade, passando por questões importantes como liberdade, cumplicidade e aceitação. É, sem dúvida, um dos maiores filmes do México. Alinha a técnica para sustentar um clima obscuro e conclui hipnotizando o espectador através de uma excelente atuação da Tina Romero.

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Sing Street – entre a descoberta do amor e uma nota musical

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A vida é cheia de alegrias, decepções, reflexões… enfim, um eterno dilema. Complicamos demais as coisas, demoramos demais, quando se possui pouco tempo. Eu cresci, mas ainda me lembro daquele Emerson que deixei em um passado recente, extremamente ansioso, que matava dias de aulas para ficar na rua, conversando, brincando e vivendo.

Eu cresci com a música, o rock’n’roll funcionou como um símbolo de coragem na minha vida, ousei ser eterno através da rebeldia e, como consequência, acredito que a revolta é a única maneira de se conquistar uma evolução, seja pessoal ou social. Uma mudança depende do caos, por isso somos perigosos e frágeis: a linha que separa o homem da sua sanidade e total loucura é muito tênue.

Já ousei fazer, experimentar a vida e os seus prazeres, no mesmo tempo que crescia sendo treinado a ser apático, me envolvi com os sentimentos. Utilizava as palavras para contornar uma dor profunda, queria fugir e pensei em fazê-lo por diversas vezes, o que sempre me impedia era a coragem dos meus ídolos. A arte me deu tudo, mas me tirou tudo por enxergar algo grande demais, tendo conquistado pouco demais.

E, então, me pego pensando, vez ou outra, que me tornei um pouco aquilo que odiava. Mas de todas as dúvidas que me cercam, talvez, a que mais me dói é a pergunta: “por que escrevo?” Então o Emerson dentro do Emerson que está dentro do Emerson responde: “por que essa é a sua maldição“.

Lembro-me que morava em uma cidade e estudava em outra; nesse trajeto escutava todos os álbuns possíveis do Johnny Cash, então eu via na sua imagem, voz e no seu comportamento rebelde, uma porta para a identificação. A música funcionou para mim como uma ilusão, contextualizando-me na simplicidade de que as coisas são. Por algum motivo sempre rejeitei essa hipótese, criava muito em cima de pouco e transformava o simples em algo impenetrável, descomedido.

Se eu posso citar algo terrível de mim, é justamente a minha mania de ser, sentir, fazer e observar o meu redor de maneira muito intensa. Mas volto a pergunta: por que estou escrevendo tudo isso para abordar, a seguir, um filme? Talvez não aja explicação, mas sigo buscando de todas as formas me encontrar em cada palavra, em cada filme e em cada música. Como uma forma de enxergar algo que, no momento, não alcanço, conhecer um lugar improvável, amores e momentos.

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Eu poderia ser tradicional e classificar “Sing Street” como um filme excelente, com uma direção segura – por conta da maravilhosa utilização das músicas, de forma a obrigar ao roteiro uma evolução a cada minuto – mas não estou seguro de que seja isso que o diretor John Carney queria que avaliássemos com a sua mais recente obra. Não! Fico pensando que ele é como eu, um menino que cresceu ouvido música dos anos 80 e sem medo de se propagar como um apaixonado, portanto, peço licença pois sei que a sua intenção é fazer-nos enxergar as possibilidades da nossa vida, através da inocência de uma banda jovem, uma musa inspiradora, um líder apelidado, pelo seu amor, de “cosmo” e um irmão mais velho que, assim como eu, tentou de todas maneiras mas cansou, então dedica-se em observar e compartilhar.

O protagonista, Connor, pensa em montar uma banda para conquistar uma menina. Com o passar do tempo ela lhe sugere o nome artístico “Cosmo”, ou seja, o universo em sua totalidade.

Connor começa o filme cantando e, ao ouvir a discussão dos seus pais, mescla a letra da canção com o que ele ouve dos dois adultos. Depois a sua vida começa a ser inundada por regras e, só então, a partir de um romance platônico, ele resolve enfrentar a revolução e mudar. Influências musicais são constantes, para os amantes da boa música, o filme é um deleite. Parece que a própria montagem se intercala com as canções e citações, no mesmo tempo que a recriação dos anos 80 é simplesmente fantástica, dialogando com a nostalgia, podemos classificar “Sing Street” como um milagre audiovisual que têm, como maior pretensão, provocar o espectador com a sua despreocupação.

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O irmão Brendan – interpretado brilhantemente pelo Jack Reynor – é o personagem que mais me chama a atenção, pois ele transita por entre o passado, presente e futuro, é o motivo do meu desabafo no início desse artigo. Me identifico com ele, abro o meu coração, pois tenho uma irmã menor e nossa relação também é construída através da arte, sinceridade e despretensiosidade.

Em uma cena de confissão, Connor desabafa para o seu irmão sobre o seu interesse romântico. Ele afirma, docemente, que “às vezes gostaria de olhar para ela e chorar“. É de uma preciosidade quando um artista consegue, em uma frase, captar a tal da ansiedade proposta acima, consegue captar tamanha verdade a ponto de assustar.

Então, quando me pergunto por que escrevo, sempre me surgem oportunidades como essa, em que eu posso relembrar o quanto é importante, para mim, a arte e como me sinto completo estende-la.

Com carinho,
Emerson T.

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