Imagens fragmentadas como atalho para a ilusória perfeição

Cisne Negro ( Black Swan, Estados Unidos, 2010 ) Direção: Darren Aronofsky

★★★★★

Parte 1 – Versões contraditórias de uma mesma face

A arte é o desprendimento do ser em troca de diálogos com outras versões dele mesmo. É impossível pensar na expressão como uma manipulação terrena, a produção e entrega artística está vinculada inteiramente com o místico, outros planos e universos onde o humano torna-se deus e, por consequência, se desmistifica a cada olhar e movimento. O olhar parte de uma necessidade impulsiva de se perder em infinitas possibilidades, reinventando as escolhas e reiniciando a existência.

O movimento do corpo exige coragem de todas as formas possíveis, inclusive as mais fortes e que mais consomem são as que se distanciam, por ironia, da exibição: evidentemente, ficar em frente à uma plateia que espera sempre um espetáculo é uma experiência aterradora, mas nada se compara com a busca por compreender cada detalhe e mesclá-lo com os segundos, como se o ato performático transformasse o ator em um pescador de tempo, técnica e liberdade.

Nesse ponto, a problemática maior da atuação é a naturalidade e, como sabemos, o ser humano é dotado de falhas e erros, seja nas palavras, comportamento e escolhas, portanto, a arte perfeita é aquela que é toda errada e suja, despreocupada. Oras bolas, de que adianta entender todas as regras gramaticais e não ter absolutamente nenhuma inspiração para escrever? na mesma altura, do que adianta ser uma exímia bailarina e não saber amar a si?

Antonin Artaud relaciona o teatro com o caos, como um processo de loucura conjunta, de liberdade extrema e subversidade; Pina Bausch, quando dança, leva consigo toda a sua história, todos os seus passos, as ruas, pessoas e momentos. O suor nesse caso soa como sangue, pois o cansaço é de uma vida inteira, não somente as horas de um espetáculo; os movimentos são como pássaros, como árvores, como terra; e a mentira, por sua vez, se torna verdade.

Parte 2 – Os espelhos

Dado a introdução, é questão de tempo para relacionarmos a performance com a coragem de se alcançar mundos distintos – às vezes a transição acontece em questão de segundos – portanto a apresentação consome psicologicamente o artista para, depois, fazê-lo gozar. É uma relação íntima, que gira em torno da dicotomia entre o prazer e a dor do sacrifício.

Assim somos apresentados à Nina, uma personagem inocente que enfrentará o dilema de multiplicar-se. Na cena inicial ela dança suavemente e interpreta, depois desperta do sonho e se prepara para mais um dia.

É questão de tempo para percebermos a importância dos espelhos para Cisne Negro, como um objeto que representa a ideia básica de universos paralelos, como se Nina desfragmentasse sua imagem em cada cena em que se olha ou, em uma visão otimista, o espelho funciona como um caminho de incentivo ao espectador na busca por uma nova perspectiva sobre o óbvio.

A imagem acima revela dois caminhos distintos: a imagem que transparece a suposta realidade determina a posição de Nina e sua mãe, Erica. No entanto, ao olharmos o espelho, percebemos que as duas trocam de posição e, se não bastasse, o reflexo da mãe está de costa para a filha, como se não estivesse conversando com alguém ( ou seria o contrário? ).

Na dança é imprescindível o uso do espelho como uma forma de registrar os movimentos com facilidade, o próprio dançarino enxerga, repensa e repete os movimentos de forma a criar uma conexão e corrigir os erros. Agora imagine um espelho bem grande do nosso lado todos os dias da nossa vida, no ônibus, nas aulas, nos corredores, nos hospitais, nos caixões, enfim, o espelho em Cisne Negro é mostrado literalmente mas sua importância é metafórica, sugerindo uma etapa transcendental da consciência, onde a menina, mesmo que tardiamente, se desprende e caminha em rumo à sua liberdade.

Parte 3 – Há muitas cores entre o preto e branco, mas só há um cisne

Nina ultrapassa barreiras muito rápido em base ao seu talento, mas sua inocência a cega completamente em relação as reais necessidades para conseguir fazer o seu papel. Ela não precisa provar a técnica, mas sim a interpretação. Desde o começo a mensagem fica clara, mas ela ignora, atendo-se exclusivamente aos movimentos e não à entrega.

Isso é uma mensagem para a vida: quantas vezes nos pegamos centrados em algo ou alguém, enquanto o melhor encontrava-se ao lado? lembrando que “melhor”, nesse caso, diz repeito exclusivamente ao momento.

Nina precisa ser violada pela rebeldia e criar o caos dentro de si para subverter, ameaçar a si própria, dominando assim as outras versões dela mesma: a mãe, Lilly e Beth – dançarina “ultrapassada” e protagonista do Lago dos Cisnes durante muitos anos, sendo sucedida pela própria Nina.

Esse ritual de transição acontece através do sexo. Desde o momento que ela abandona sua mãe ( ela mesma ) para ir à balada com a Lilly ( aquilo que gostaria e precisa ser ) até o momento que volta para sua casa, é o desdobramento e coragem para tentar encontrar uma resposta sobre quem ela é, como enxerga e como será. As três imagens acima ilustram essa ideia de forma preciosa: percebam que, na primeira imagem, o círculo de espelhos ( vida ) traz consigo diversas versões da Nina, mas nenhuma delas ganha tanto destaque quanto a do centro. A segunda e terceira imagem são mostradas antes do embate com a mãe, a separação entre Lilly e Nina é evidente, no mesmo tempo que parece se tratar da mesma pessoa.

O sexo entre as duas, a seguir, representa o momento exato da fusão entre a técnica artística e personalidade central, com as variações da personagem que está sendo interpretada para o espetáculo – no caso o lado negro, obscuro, insano e obsceno. Nessa perspectiva, o filme Cisne Negro além de ser uma ótima obra sobre o processo de criação artística, ainda percorre caminhos obscuros da psicologia humana, opressão à mulher e, ainda mais, funciona como uma adaptação da própria peça “Lago do Cisne”. É uma obra-prima do cinema moderno, ápice de um diretor que se acostumou em provocar através da loucura e que, aqui, encontra um oásis na performance brilhante da Natalie Portman.

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No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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Melhores filmes de 2016

2016 chegou ao fim e é realmente um motivo de orgulho termos conseguido manter o Cronologia do Acaso vivo e com conteúdo tão frequente, seja com críticas, artigos ou podcast. Já se passaram quatro anos desde o nosso início e cada vez mais o público e acessos crescem, mas a real relevância do nosso trabalho são as mensagens de carinho, essa aproximação que temos com os ouvintes e leitores.

Então, como de costume, deixo minha lista dos dez melhores filmes que assisti de 2016 ( veja os anos anteriores: aqui ). Forte abraço e feliz ano novo a todos!

Top 10 Melhores filmes de 2016:

1) Capitão Fantástico ( Captain Fantastic, Estados Unidos, 2016 ) Direção: Matt Ross
2) A Criada
( Ah-ga-ssi, Coréia do Sul, 2016 ) Direção: Chan-wook Park
3) Um Cadáver Para Sobreviver
( Swiss Army Man, Estados Unidos, 2016 ) Direção: Dan Kwan e Daniel Scheinert
4) A Bruxa
( The VVitch: A New-England Folktale, Estados Unidos, 2016 ) Direção: Robert Eggers
5) Wiener-Dog
( Wiener-Dog, Estados Unidos, 2016 ) Direção: Todd Solondz
6) Boi Neon
( Boi Neon, Brasil, 2016 ) Direção: Gabriel Mascaro
7) Demônio de Neon
( The Neon Demon, Estados Unidos, 2016 ) Direção: Nicolas Winding Refn
8) A Tartaruga Vermelha
( La tortue rouge, Holanda/Japão/Bélgica, 2016 ) Direção: Michael Dudok de Wit
9) Sing Street
( Sing Street, Irlanda/Estados Unidos, 2016 ) Direção: John Carney
10) A Qualquer Custo
( Hell or High Water, Estados Unidos, 2016 ) Direção: David Mackenzie

Outros títulos que recomendo são: O Nascimento de Uma Nação, Divinas, O Lamento, Big Jato, The Eyes of My Mother, Kimi no Na wa, Sob As Sombras, Aquarius, Amores Urbanos, Elle, Train to Busan, Mais Fortes que Bombas e À Sombra de Uma Mulher.

 

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[Republicação] Nuberu Bagu e o filme Paixão Juvenil (1956)

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As mudanças políticas, assim como as guerras, causaram um impacto muito grande na arte como um todo e, depois, ainda temos essa arte transformada impactando na vida dos jovens. Anos 50 e 60 são a base do rock, por exemplo, não só pensando em gênero musical como também em todas as influências que o rock trouxe no estilo de vida das pessoas, principalmente adolescentes, eu vejo o rock e, eventualmente, respondo aos curiosos, que rock é atitude. Claro, muitas vezes confundida com imaturidade, ou ódio, enfim, o problema é que a minha atitude pode ser diferente da sua atitude, então eu aprendi a usar o rock em prol ao meu crescimento pessoal, não mais a me destruir. Estou escrevendo isso, pois acho de suma importância a Nouvelle Vague como uma das maiores atitudes que tivemos, em meios cinematográficos, eu comparo muito essa necessidade de ser cru, com a entrega dos jovens nessas décadas, uma mistura de rebeldia com coragem de enfrentar um sistema corrompido. Uma alma sexo, drogas e rock ‘n roll e uma proposta de subversão que beira o adorável. O que hoje é clássico para nós, digo, realizações da Nouvelle Vague, na época eram grandes pedaços de mal caminho.

Hoje estarei comentando um filme da nouvelle vague japonesa, ou Nuberu Bagu, que, como descrevi acima, também era sustentada para coragem de enfrentar a exposição. Muitas vezes usando os jovens como exemplos de uma tentativa de escapar de uma vida direcionada a mesmice ou ao autoritarismo. A importância no Nuberu Bagu era momentos, pequenas crises, que seriam desenvolvidas ao longo, porém não cabiam a eles dar uma resposta, como disse, é o registro de uma intensidade, própria dessa geração que buscava transformações, isso começa mais ou menos na década de 50 e tem um grande ápice, ao meu ver, na década de 60, com a grande fase do Nagisa Ōshima realizando obras como “Juventude Desenfreada” e “Noite e Neblina no Japão”, ambos de 1960.

Sabemos que o Japão é um país super conservador, agora, meu amigo, pense nessa época, pós-guerra, o medo e cautela espalhado em todos os cantos, enfim, o negócio não deveria ser muito agradável aos jovens que, como todos, tinham seus próprios problemas para resolver, os mesmos já nasciam em berços da autoridade. Se pegarmos um mestre como o Nagisa Oshima, ele nasceu em 1932, então o cara viu todas as transformações possíveis do seus país e, em seguida, realizaria trabalhos extremamente provocantes, bem é realmente um diretor a se conhecer.

“Paixão Juvenil” ou “Kurutta Kajitsu” é de 1956, dirigido por um outro mestre chamado, o filme conta a história de dois irmãos que, após conhecer uma garota em uma estação, ambos se apaixonam pela mesma e vão competir um com ou outro por momentos com a menina. Descobrimos ao longo que ela é casada e não está interessada em envolvimentos sérios, constrói-se então um triângulo amoroso onde, de fato, a personagem feminina se revela a grande “vilã”. Isso entre aspas, pois não temos uma estrutura narrativa que seleciona quem é o vilão ou quem é o herói, todos são bem desinteressados e/ou bobos e arrogantes. O papel da mulher nesse filme é uma revolução, eu diria, pois se mostra oposta a figura feminina que o Japão criava em seus filmes, aquelas mulheres indefesas e frágeis. Aqui temos uma mulher que possui em seus ombros uma liberdade fora do comum, chegando ao ponto de usar os homens, devorá-los, utilizando como isca a sua carinha de boazinha/frágil e a sua beleza. Aliás, a pele é deveras explorado aqui, digo, o corpo, o toque, há cenas incrivelmente eróticas para época. Permeia o tempo todo um grau interessante de erotismo e um clima noir. É uma dose completa de ótimo cinema. Assisti com minha irmã de 10 anos – talvez uma exploração infantil? – e até ela curtiu bastante.

Há em em todos os cantos dessa belíssima obra, uma efervescência do jovem, se desprendendo de uma vida pacata em busca do seu próprio prazer, é recorrente nesse cinema de auto-nível os conflitos, pois, em meio a essas mudanças drásticas de comportamento, o amor, a paixão, servem como elementos secundários. O bom da vida e da arte é experimentar registros atemporais que, para serem realizados, dependeram de um tempo certo, cabendo a nós, espectadores, uma contextualização para que, assim, possamos desfrutar tanto a excelente ideia como, também, da audácia dessas obras.

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A poesia de ser mulher

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Antes de mais nada, quero compartilhar algo muito emocionante para mim: após mandar duas críticas/textos/desabafos para a página oficial da Petra Costa no Facebook, minhas duas análises sobre os seus filmes anteriores foram publicados no site oficial do filme Elena

elena-oficial

Você pode ler minhas críticas sobre os filmes anteriores da diretora: “Olhos de Ressaca” e “Elena“.

Olmo e a Gaivota, 2015

Quantas histórias esse mundo já contou? quantas possibilidades de identificação e quantas frases bem elaboradas. A palavra e a escrita é uma forma real que o homem encontrou, desde o princípio, para enfrentar a sua própria pequenice. Mas, faça esse exercício, quantas dessas milhares de obras exploram a mulher? quais grandes obras falam sobre a gravidez?

Quantas mulheres escreveram e, em algum momento da vida, enfrentaram diversos problemas por serem, como diz mesmo, “mulher”?

“Mulher”. Essa palavra é tão forte, esteve tão presente e, ao mesmo tempo, tão distante que me sinto um monstro, me sinto sujo e incoerente. Na palavra “mulher” não existe plural, pelo menos não nessa análise, pois todas brigam, mesmo que indiretamente, pela mesma causa. Somos “um” na teoria, mas, em sociedade, em conjunto, somos divididos: homens e mulheres; poder e submissão; subversão e regra; pênis e vagina; mundo e casa; desespero e mãe.

Esse devaneio é resultado do trabalho minucioso de uma diretora – aqui, duas, visto que Petra Costa co-dirige “Olmo e a Gaivota” com a dinamarquesa  Lea Glob – que dialoga, com extrema totalidade, com o universo feminino. Esse universo não precisa ser engrandecido, muito menos colocado acima dos outros infinitos, porém, é preciso, somente, falar sobre, tentar entender suas nuances e os seus intervalos.

“Olmo e a Gaivota” percorre a história de dois atores, unidos pelo amor e pela arte, transitando por entre o documentário e a ficção – existe separação entre eles? – que, de repente, descobrem a gravidez. A perplexidade toma conta dos pais, a preocupação, bem como o amor que, de mansinho, vai caminhando por outros lados, de outras formas, como se estivesse constantemente se preparando. A sensação que beira o êxtase, do processo de criar, assim como um deus, dá lugar à insegurança, medo e tristeza. Existe uma vida lá fora, existe um trabalho – afinal, o teatro é uma incontável criação de vidas e histórias – e a mãe, cuja responsabilidade/benção/maldição carrega no ventre, se vê sozinha.

Serge: – A minha presente realidade é diferente da sua.
Olivia: – Minha presente realidade também é a sua. Mas sou eu quem a carrega.

A atriz, acostumada com as luzes do palco, precisa acostumar-se, forçadamente, com a quietude de um apartamento. Onde estaria, então, o seu marido/futuro pai? esse se preocupa, apenas, em sustentar o futuro e, consecutivamente, o seu ego. Ele vive a rua. Deixa em casa uma Rapunzel, presa em uma torre no meio urbano, acompanhada dos seus demônios… uma Rapunzel sem as tranças, sem esperanças.

“Olmo e a Gaivota” é uma inconstância, tudo que se sabe e se acha é a mulher. A mídia trabalha o amor com uma imaginação ingênua; trabalha a gravidez com uma segurança devastadora mas, todos sabemos, é um assunto cercado de questionamentos. Nenhuma mãe se sente totalmente segura desde o início, nenhuma mulher precisa ser forte o tempo todo; mas eles empurram essa ideia, com correntes e sangue: a mulher precisa estar feliz por estar grávida, não pode ter dúvidas e, qualquer problema, há de arcar com a responsabilidade, afinal, foi a sua escolha.

O filme não fala nada diretamente, não julga, muito menos grita à favor do aborto, como muitos dizem, simplesmente analisa a mulher, a gravidez e todas as suas vírgulas. Nunca foi feito algo assim, principalmente com essa narrativa que se assemelha muito com o melhor do cinema iraniano.

Grande parcela da população não está interessada em discutir temas polêmicos com a arte. A maioria prefere apontar o dedo e selecionar o que é certo e o que não é – em base ao seu conservadorismo. As pessoas iludem outras com falsas chamadas de sabedoria, e dizem que analisar com calma, individualmente, não é necessário. Que priorizar os sentimentos é uma forma de alienação.

O mundo nunca pôde ser dividido em dois lados, pelo menos a arte dá a possibilidade de trabalhar uma série de camadas, por isso, é a demonstração perfeita de poder e manipulação da vida, seja aqueles que fazem ou que sentem.

A “mulher” têm crises e histórias, elas escrevem as suas todos os dias assim como qualquer um, então porque as limitações? somos donos do nosso corpo, no entanto, em massa, criamos uma série de dilemas para a manipulação. Criar uma vida dentro de si é uma escolha artística, um sentimento profundo de auto-compreensão, uma atitude que parte do equilíbrio, do melhor momento; ser mãe é, antes de mais nada, aceitar-se como mãe.

O lado positivo de “Olmo e a Gaivota” é a pronuncia, a coragem para se discutir o início da vida, humanizando esse processo seja qual for a consequência. Histórias felizes e tristes acontecem o tempo todo, mas a nossa arrogância nos tira a possibilidade de empatia. O filme estabelece essa conexão: tema, indivíduo, arte, mulher e Petra Costa, talvez Elena. O trabalho da diretora é transcender à liberdade, fazer pensar com a poesia e mergulhar no existencialismo.

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Especial Halloween – Filmes de terror no ano de 2016 ( parte 2 )

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Continuando a revisão do cinema de terror em 2016, pulamos o mês de julho – que, pelo menos no grande circuito,  não teve nenhuma estréia – e chegamos em agosto com o lançamento de Quando as Luzes se Apagam. Esse filme tem um gosto especial de decepção, baseado em um curta-metragem chamado Lights Out que foi muito compartilhado no Facebook e outras redes sociais, isso por conta da duração – hoje, na internet, tudo precisa ser rápido – e qualidade, pois mostrava uma criatura demoníaca que aparecia em um quarto quando uma pessoa apagava as luzes. Simples assim.

Eu fiquei com medo também, quando saiu na internet assisti de madrugada e a legenda “você não conseguirá assistir até o final”, talvez, tenha abalado o meu psicológico. Então nesse ano é lançado um filme que se propõe a estender essa história, com uma premissa interessante, principalmente no que diz respeito trabalhar o nosso medo do escuro, a ideia para na sinopse, pois em nenhum momento isso é desenvolvido. O escuro é uma ferramenta para desenvolver um longa repleto de clichês.

Ainda em agosto, tivemos o lançamento de Águas Rasas que, se não bastasse a tensão que desenvolve no início, ainda trabalha com inserções de tela de celular durante o filme, de forma a aliviar o desespero e, ainda, consegue estabelecer uma conexão entre a protagonista e o espectador através, vejam só, da tecnologia. O interessante é que o filme é uma personagem só, solitária em uma praia, portanto o seu celular é o veículo narrativo para conhecermos o seu passado e, em seguida, nos preocuparmos ainda mais com a sua condição desesperadora, afinal, todo mundo tem medo de tubarão, não é mesmo?

Jaume Collet-Serra, o diretor, distribui bem a apresentação e cria uma história bacana em pouco espaço – mais precisamente, uma rocha, onde a personagem principal passa a maior parte do tempo – mas, infelizmente, escorrega feio na conclusão que destoa bastante do realismo que vinha sendo trabalhado até então.

Mesmo assim, é um filme mediano, sustentado por uma direção inteligente e boa atuação da Blake Lively.

Primeira semana de Setembro foi a vez de Sono da Morte, do diretor Mike Flanagan. O ano de 2016 é o melhor da vida desse diretor; sem dúvida no final do ano ele vai olhar para trás e dar gargalhadas por horas. Depois de Hush – A Morte Ouve – que, erroneamente, não citei na primeira parte desse resumo mas, como vocês podem ler na minha crítica, adorei a tensão e o trabalho sonoro do filme, como já é costumeiro no trabalho do Mike, por sinal – o diretor voltou com Sono da Morte, onde ele trabalha com o surrealismo e o mundo dos sonhos, através de um garotinho interpretado pelo fofo Jacob Tremblay. Não é o meu favorito do diretor mas, mesmo assim, ele consegue manter uma qualidade.

Setembro também apareceu por aqui o O Homem nas Trevas, cuja ideia também é interessante, começa super diferente, apresentando a casa com um movimento de câmera sutil, depois acompanha em um ritmo lento os personagens quando estão presos e o silêncio também é muito importante, é usado como uma forma de simular a tensão dos personagens. Porém o fato de apresentar a protagonista como uma “menina boa que rouba por causa da família” dá indícios da conclusão que beira o infantil e covarde, ao jogar fora a linguagem direta e despreocupada em troca de uma série de justificativas inúteis. Aliás, repararam quantos filmes pecaram no terceiro ato? Talvez seja um símbolo do ano de 2016 e uma mensagem para o próximo: não adianta começar bem e terminar mal.

Agora, o filme Bruxa de Blair não tem essa decepção de terminar mal, justamente porque o filme inteiro é ruim. É uma repetição de ideias só que sem a novidade do primeiro, lá em 1999.

E chegamos em outubro que tem a volta de quem? sim! o homem mais feliz do ano: Mike Flanagan. Ouija – Origin of Evil é o segundo filme de um dos diversos que falam sobre o tabuleiro ouija. O anterior é uma bomba, mas esse consegue ser bem interessante, no entanto, nunca alcança um nível alto. Flanagan chama a adorável Annalise Basso – particularmente a acompanho desde Ilha da Aventura e, esse ano, foi maravilhoso vê-la em Capitão Fantástico – que já tinha trabalhado com o diretor em O Espelho e faz uma mistura bem louca desse com Ouija, quebra algumas regras, dá uns sustos, mas entrega algo padronizado, mas ainda assim é uma surpresa.

Esses foram os filmes que eu vi, até agora, e que foram lançados no grande cinema. Mas, sem dúvida, se eu pudesse indicar três que ainda não estrearam e, pelo menos dois, não se sabe quando irá estrear, são: They Look Like People, Shelley e Invasão Zumbi ( que estreia no Brasil em novembro ).

Então é isso, deixo abaixo uma lista de todos os filmes de terror que escrevi nesse ano de 2016:

Dabbe: Bir cin vakasi
Os Inocentes
Terror nos Bastidores
Imperador Ketchup
The Children
O Espelho
Musarañas
O Sono da Morte
Diário De Um Exorcista
Across The River
Demon
Invocação do Mal
Rua Cloverfield
Kairo
Absentia
Hush – A Morte Ouve
Possessão demoníaca no cinema
Horror Hotel
Invocação do Mal 2

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Especial Halloween – Filmes de terror no ano de 2016 ( parte 1 )

Esse é um artigo especial do Cronologia do Acaso para o halloween 2016. Será dividido em duas partes: a primeira é analisando os filmes de maior destaque lançados em circuito comercial de janeiro até junho. A segunda é de julho até agora ( outubro ), próximos lançamentos e recomendações de algumas obras que ainda não foram lançadas no Brasil, além de concluir o artigo com um “top 5 filmes de terror do ano”. Portanto, leia, compartilhe e comente quais os melhores filmes de terror em 2016, na sua opinião!

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No mês de janeiro não tivemos nenhum filme de terror, mas em fevereiro tivemos o primeiro que saiu nos cinemas, com algum destaque, mas com qualidade duvidosa, que foi o Boneco do Mal. A primeira vez que soube desse filme, logo tive muito preconceito pois ele parecia pegar carona com o sucesso de Anabelle. De boneca para boneco, fico com o Chucky, porque nenhum dos dois valem a pena. The Boy ou Boneco do Mal é dirigido pelo William Brent Bell, o mesmo diretor de “Filha do Mal”, e até começa bem, apresentando a personagem principal, que chega em uma mansão para cuidar de uma criança e se depara com um casal de velhinhos doidos que tratam um boneco como ser humano. A ideia é mórbida, transmite uma sensação estranha, a maneira que o boneco é filmado desperta a curiosidade, porém a resolução do filme falha muito.

O destaque do ano, sem sombra de dúvidas, é o A Bruxa, como já escrevi artigo e crítica sobre ele, reitero que é o melhor filme de terror do ano, pois aborda temas complexos, inverte valores e prega exaustivamente a liberdade da mulher, usando o satanismo como veículo e o diabo como amuleto, é sem dúvida nenhuma uma obra-prima.

Outro filme que estreou em março foi o aclamado Boa Noite, Mamãe, também escrevi sobre ele e o mais interessante, ao meu ver, é o uso da figura da mãe – tida como intocável, inquestionável e perfeita – para provocar o medo, então a sensação de proteção que nos é identificável, quando relacionamos com o sentimento materno, é desmoronado e, ainda por cima, acompanhamos duas crianças que precisam lidar com toda essa aflição. Na verdade, Boa Noite, Mamãe é um excelente trilher, inteligente ao usar os personagens e os seus movimentos pela casa: todos os cômodos provocam a urgência, os espectadores, assim como os personagens, ficam em alerta constantemente.

Mês de abril tivemos o Do Outro Lado da Porta, que começa bem mal, quase um drama sobre uma mãe que, após perder o seu filho, fica maluca quando descobre que existe um ritual onde pode se comunicar com os mortos. Muita coisa ruim acontece com os personagens e nada bom acontece no filme, personagens mal desenvolvidos, dramas que não provocam a empatia, atores mirins péssimos, protagonista também não segura o filme, é um desperdício, pois a ideia do ritual é interessante.

Ainda no mês de abril tivemos o ótimo Rua Cloverfield, 10, com um roteiro maravilhoso e um trabalho excepcional de som e desenho de produção, a força principal do longa é o primeiro e segundo ato onde três personagens completamente distintos entre si, precisam sobreviver em um bunker, e respeitar a fé um do outro sobre um possível apocalipse no mundo exterior. Esse cenário apertado muda conforme o psicológico dos personagens e as suas decisões, a intenção de cada um é indecifrável até o final e a tensão é muito grande. Pena é o terceiro ato que destoa bastante do início, mas ainda assim não tira o brilho de Rua Cloverfield, 10 que, inclusive, tem como mérito a sua protagonista Michelle que, interpretada pela Mary Elizabeth Winstead, exala uma força e independência que há muito não se via em hollywood.

Destaque também para a atuação de John Goodman que é um coadjuvante de luxo, trabalhou com nomes como Todd Solondz e os irmãos Coen, enfim, John Goodman é rei no circuito independente e em Rua Cloverfield, 10 tem a sua voz e, melhor ainda, para o grande público, fiquei muito feliz por vê-lo e, sem dúvida, é uma das melhores atuações do ano.

Em maio teve o lançamento do remake de Martyrs – ignorem essa merda. Ainda em maio, outro destaque foi Demon, um terror polonês com pitadas de humor negro, diferente, pois a possessão demoníaca é em base ao folclore judaico, enfim, outro grande filme do ano. 

Em junho, último mês dessa primeira parte, tivemos o lançamento de Invocação do Mal 2 que provou mais uma vez o talento do jovem diretor James Wan. É extremamente bem dirigido, provoca o medo da forma que o grande público gosta e ainda consegue divertir os mais exigentes. É um filme que conhece o seu próprio limite, respeita os seus personagens e faz o básico, não exagera, as filmagens são feitas de forma a ressaltar a estranheza da casa, há inserções digitais de uma criatura que lembra algo como Babadook, é bem corajoso e a personagem mirim, cujo corpo vira a casa para um espírito maligno, é muito boa. James Wan pega um caso que abertamente se sabe que é mentira, dá um contorno interessante e atrai o público com mais uma de suas criações diabólicas, que nesse caso é a “freira do mal” – Inclusive quando criança eu tinha medo de freira e me peguei lembrando disso durante a sessão.

Vale lembrar que junho também foi o mês de lançamento do terror nacional O Caseiro que é bem legal. Mesmo que se estruture no clichê do “homem cético que colocará as suas crenças em questionamento ao investigar um caso sobrenatural”, o bacana é que o filme é mais um mistério e prende a atenção até o fim. No entanto, a conclusão é muito rápida e insegura, até vai de desencontro com o que foi apresentado: personagens que mudam drasticamente e sem sentido nenhum, trama que abandona alguns detalhes, diálogos fracos para rápidos entendimentos de uma história pouco complexa, enfim, no final, é um filme mediano.

Muito bem, essa foi a primeira parte do especial Halloween, a segunda parte eu lançarei, também, antes do dia 31 de outubro. Então é isso, abraço e até a próxima!

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Liberdade sexual e subversão sob olhares conservadores

Alucarda, 1977

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★★★★★

“Alucarda” proporciona um exercício de reflexão muito parecido com o recente “A Bruxa”, traço essa comparação por ser recente e, segundo, por ter escrito há algum tempo um artigo especial sobre, dissecando os símbolos e desmistificando – ou tentando, pois se trata de um tabu – o satanismo, de forma a misturá-lo com a liberdade. Então, antes de mais nada, indico o artigo como uma leitura prévia: clique aqui.

“Alucarda” aborda a história de uma garota chamada Justine (Susana Kamini ) que chega a um convento e, imediatamente, faz amizade com uma outra menina chamada Alucarda ( Tina Romero ). Alucarda é irreverente e subversiva, mesmo estando no convento não parece, de forma alguma, pertencer àquele lugar – isso é transmitido pelo seu figurino, um vestido totalmente preto, fúnebre, sem detalhes – e encanta a virginal Justine que representa, em seu âmago, a pureza sendo “corrompida” pelo amor.

Como comentado no artigo sobre “A Bruxa”, o satanismo representa, entre muitas outras coisas, a liberdade, é o impulso rebelde do homem em direção ao conhecimento. O conhecimento, no caso desse filme, é a paixão que cresce entre as duas garotas e, obviamente, condenado pela igreja. O culto satânico, aparições, transformações físicas, enfim, são elementos metafóricos para explicitar a problemática da crença obsessiva, construída, claro, por todo um contexto histórico. Porém, é triste notar que mesmo nos dias atuais, o relacionamento homoafetivo não é aceito pelo sistema social que, dentre outros artifícios, utiliza a religião para controlar as escolhas, de forma a categorizar as atitudes com pecados arcaicos – afinal, que se foda os pecados, a vida é um pecado e eu não fico julgando deus por isso.

Não é inteligente generalizar a religião e pregar que todas proíbem o relacionamento homoafetivo, muito pelo contrário, mas infelizmente existe e “Alucarda” trabalha muito bem o assunto. Com uma direção primorosa do grande Juan López Moctezuma – que trabalhou ao lado de grandes realizadores espanhóis como Arrabal e Jodorowsky -, o filme dialoga com uma atmosfera onírica, pautando-se em acontecimentos rápidos, sem muitas explicações, como se o tempo estivesse passando diferente para as duas personagens centrais.

A mãe de Justin é interpretada pela Tina Moreno, a mesma que faz a protagonista Alucarda. Isso deixa claro que tanto Alucarda quanto Justine são as mesmas, uma só, um só propósito, pois ambas “vieram” do mesmo lugar. Talvez o sentimento de estranheza para com mundo normal, seja o elemento comum entre as duas, por isso a cumplicidade e empatia quase imediata.

O mesmo acontece com dois dos personagens mais complexos do longa: o cigano corcunda e o Dr. Oszek. O primeiro é um mágico da floresta que impulsiona o rito satânico das duas amigas; o segundo é o médico que, no terceiro ato, aparece para contestar o exorcismo que está sendo feito dentro da igreja. Ambos personagens são interpretados por Cláudio Brook, o que é muito interessante visto que representam a dicotomia entre a ciência e o misticismo. Com a atitude de colocar um ator para fazer esses dois lados tão conflitantes entre si, é como se o diretor gritasse para o espectador que partem de uma mesma necessidade humana, uma sincronia de ideias para, enfim, alcançar a explicação.

A primeira vez que Alucarda aparece, ela sai atrás da Justine, em um quarto, a iluminação é oportuna ao mostrar a protagonista no escuro, quase como se estivesse saindo da parede. Demonstrando, perfeitamente, o estado psicológico dela que há muito sucumbira ao local ( convento ) e, com a aparição da amiga, consegue reunir forças o suficiente para quebrar as amarras da opressão. Seremos então transportados para cenas viscerais de rituais satânicos, sangue, sexo, remetendo-nos ao vampirismo, há elementos de gore, mas nada é tão absurdo quanto o ritual da igreja para fazer o exorcismo, cujo momento mais agonizante é quando um padre perfura Justine para libertá-la do mal.

Mesmo com recursos limitados, “Alucarda” é extremamente inteligente e, mesmo que seja uma obra oculta do grande público, merece ser visto como forma de reflexão. Seja sobre a opressão da igreja ou homossexualidade, passando por questões importantes como liberdade, cumplicidade e aceitação. É, sem dúvida, um dos maiores filmes do México. Alinha a técnica para sustentar um clima obscuro e conclui hipnotizando o espectador através de uma excelente atuação da Tina Romero.

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No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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Sing Street – entre a descoberta do amor e uma nota musical

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A vida é cheia de alegrias, decepções, reflexões… enfim, um eterno dilema. Complicamos demais as coisas, demoramos demais, quando se possui pouco tempo. Eu cresci, mas ainda me lembro daquele Emerson que deixei em um passado recente, extremamente ansioso, que matava dias de aulas para ficar na rua, conversando, brincando e vivendo.

Eu cresci com a música, o rock’n’roll funcionou como um símbolo de coragem na minha vida, ousei ser eterno através da rebeldia e, como consequência, acredito que a revolta é a única maneira de se conquistar uma evolução, seja pessoal ou social. Uma mudança depende do caos, por isso somos perigosos e frágeis: a linha que separa o homem da sua sanidade e total loucura é muito tênue.

Já ousei fazer, experimentar a vida e os seus prazeres, no mesmo tempo que crescia sendo treinado a ser apático, me envolvi com os sentimentos. Utilizava as palavras para contornar uma dor profunda, queria fugir e pensei em fazê-lo por diversas vezes, o que sempre me impedia era a coragem dos meus ídolos. A arte me deu tudo, mas me tirou tudo por enxergar algo grande demais, tendo conquistado pouco demais.

E, então, me pego pensando, vez ou outra, que me tornei um pouco aquilo que odiava. Mas de todas as dúvidas que me cercam, talvez, a que mais me dói é a pergunta: “por que escrevo?” Então o Emerson dentro do Emerson que está dentro do Emerson responde: “por que essa é a sua maldição“.

Lembro-me que morava em uma cidade e estudava em outra; nesse trajeto escutava todos os álbuns possíveis do Johnny Cash, então eu via na sua imagem, voz e no seu comportamento rebelde, uma porta para a identificação. A música funcionou para mim como uma ilusão, contextualizando-me na simplicidade de que as coisas são. Por algum motivo sempre rejeitei essa hipótese, criava muito em cima de pouco e transformava o simples em algo impenetrável, descomedido.

Se eu posso citar algo terrível de mim, é justamente a minha mania de ser, sentir, fazer e observar o meu redor de maneira muito intensa. Mas volto a pergunta: por que estou escrevendo tudo isso para abordar, a seguir, um filme? Talvez não aja explicação, mas sigo buscando de todas as formas me encontrar em cada palavra, em cada filme e em cada música. Como uma forma de enxergar algo que, no momento, não alcanço, conhecer um lugar improvável, amores e momentos.

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Eu poderia ser tradicional e classificar “Sing Street” como um filme excelente, com uma direção segura – por conta da maravilhosa utilização das músicas, de forma a obrigar ao roteiro uma evolução a cada minuto – mas não estou seguro de que seja isso que o diretor John Carney queria que avaliássemos com a sua mais recente obra. Não! Fico pensando que ele é como eu, um menino que cresceu ouvido música dos anos 80 e sem medo de se propagar como um apaixonado, portanto, peço licença pois sei que a sua intenção é fazer-nos enxergar as possibilidades da nossa vida, através da inocência de uma banda jovem, uma musa inspiradora, um líder apelidado, pelo seu amor, de “cosmo” e um irmão mais velho que, assim como eu, tentou de todas maneiras mas cansou, então dedica-se em observar e compartilhar.

O protagonista, Connor, pensa em montar uma banda para conquistar uma menina. Com o passar do tempo ela lhe sugere o nome artístico “Cosmo”, ou seja, o universo em sua totalidade.

Connor começa o filme cantando e, ao ouvir a discussão dos seus pais, mescla a letra da canção com o que ele ouve dos dois adultos. Depois a sua vida começa a ser inundada por regras e, só então, a partir de um romance platônico, ele resolve enfrentar a revolução e mudar. Influências musicais são constantes, para os amantes da boa música, o filme é um deleite. Parece que a própria montagem se intercala com as canções e citações, no mesmo tempo que a recriação dos anos 80 é simplesmente fantástica, dialogando com a nostalgia, podemos classificar “Sing Street” como um milagre audiovisual que têm, como maior pretensão, provocar o espectador com a sua despreocupação.

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O irmão Brendan – interpretado brilhantemente pelo Jack Reynor – é o personagem que mais me chama a atenção, pois ele transita por entre o passado, presente e futuro, é o motivo do meu desabafo no início desse artigo. Me identifico com ele, abro o meu coração, pois tenho uma irmã menor e nossa relação também é construída através da arte, sinceridade e despretensiosidade.

Em uma cena de confissão, Connor desabafa para o seu irmão sobre o seu interesse romântico. Ele afirma, docemente, que “às vezes gostaria de olhar para ela e chorar“. É de uma preciosidade quando um artista consegue, em uma frase, captar a tal da ansiedade proposta acima, consegue captar tamanha verdade a ponto de assustar.

Então, quando me pergunto por que escrevo, sempre me surgem oportunidades como essa, em que eu posso relembrar o quanto é importante, para mim, a arte e como me sinto completo estende-la.

Com carinho,
Emerson T.

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Quando Todd Haynes decide falar sobre a anorexia

Superstar: The Karen Carpenter Story, 1988

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Os mais jovens conheceram o diretor Todd Haynes apenas esse ano, com o sucesso de “Carol”. Mas o que poucos sabem é que ele tem uma carreira repleta de polêmicas, filmes que tendem a chocar o público comum. Como é o caso de “Superstar: The Karen Carpenter Story” – o único filme do diretor que não pode ser comercializado.

Muito bem, Haynes decidiu fazer uma cinebiografia de uma cantora chamada Karen Carpenter ( abre parenteses ) que fez muito sucesso nos anos 70 ao lado do seu irmão, Richard, onde formavam uma dupla conhecida como Carpenters. O que é preciso dizer sobre a dupla é que é excelente. Indico procurarem no Spotify, principalmente um álbum chamado “Close to You“.

O fim dos anos 60 e 70, como todos sabem, foi um momento de revolução por parte do jovem que se via muito representado por grandes nomes do rock. O lema “paz e amor” nunca foi tão grandioso e isso afetou, de diversas maneiras, o governo norte-americano que se via diante de um monstro extremamente poderoso. Os Carpenters, então, com suas músicas doces e românticas, representavam o outro lado dos jovens, calmos e comportadinhos. Isso foi muito importante na década de 70, como um sinônimo de representatividade não só das pessoas como do país – não à toa a dupla foi convidada para cantar na casa branca, no qual Nixon chegou a dizer que eles “simbolizavam o melhor dos jovens norte-americanos”.

Mas essa responsabilidade de “bom moço” era muito pesada, principalmente para a Karen que, depois de algumas críticas sobre o seu peso, começou a sofrer distúrbios alimentares, culminando em uma anorexia. Ela fica viciada em remédios e veio a falecer precocemente, com apenas 32 anos de idade. ( fecha parenteses ).

Todd Haynes contou a história de Karen em um média-metragem, analisando as possíveis causas da sua morte, que estavam diretamente relacionadas a pressão da mídia e dos familiares pela sua imagem perfeita.

Mas não paramos as curiosidades por ai: o que mais chama a atenção no primeiro filme de Haynes é que ele não utilizou imagens reais da cantora ou família, mas sim bonequinhas Barbies e Kens. Ele se utilizou dessas bonecas que são mundialmente conhecidas como símbolos de “perfeição física”, para discutir sobre a anorexia e o papel maléfico da mídia em impor um padrão de beleza, principalmente para as mulheres.

Com o sucesso do média-metragem em pequenos festivais de cinema, a família da cantora processou o diretor, obrigando-o a retirar qualquer cópia de circuito. Restando-nos conhecer essa maravilhosa obra através do download. Portanto, ao assistir, caros leitores, saibam que a qualidade é bem baixa, por ser derivado de cópias sobreviventes, mas isso de forma alguma atrapalha a experiência estarrecedora.

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A filmagem amadora afasta muitas pessoas, mas também hipnotiza os ousados por conta da identificação. A ideia de utilizar bonequinhos como atores de uma história catastrófica é profundamente mórbido, o que começa como inovador vai se tornando assustador.

O tema abordado é cruel e atemporal, o média-metragem foi lançado em 1988 e a discussão/perigos continuam o mesmo. Se pegarmos como exemplo o cinema, percebemos uma diferença gritante no que se refere o processo de envelhecimento das atrizes e atores: percebemos que os atores podem envelhecer e continuarão recendo papeis, enquanto as atrizes precisam fazer inúmeras plásticas para não entrarem em um redoma onde todos os papeis que farão, a seguir, será relacionado com dona de casa ou alguma vovó.

O homem envelhecendo é sinônimo de charme, a mulher, por outro lado, é sinônimo de derrota. Pessoalmente, não vejo outra forma de criticar essa postura sem creditar boa parte da culpa na mídia, que explora o corpo da mulher, transformando-a em produto e ignorando as suas capacidades. Mulher não é fantoche para se colocar em uma vitrine.

Karen Carpenter fora usada pelo irmão e ignorada pela família que, inconscientemente ou não, se preocupavam apenas com a parte física da cantora e não com o psicológico. De fato, Todd Haynes consegue estabelecer essas reflexões de forma densa e inteligente, criando uma mise-en-scène dar inveja em muitos diretores que, com todo o recurso do mundo, não conseguem levar qualidade para as boas ideias.

Esse filme é importante não apenas pela sua realização ousada, mas pelos temas que aborda de forma tão impactante. O diretor, para retratar o emagrecimento extremo da cantora com a sua Barbie, fatiou a boneca com uma faca, isso traz uma sensação cruel e verdadeira; milhares de jovens passam por esse problema diariamente e, se podemos tirar algo bom da triste história da Karen Carpenter, é essa alerta à família: é preciso dar atenção aos jovens, eles se sentem muito pressionados, principalmente as meninas e essa atenção, de maneira nenhuma, é limitar a sua ânsia por experiências ou liberdade, mas guiar indiretamente e ouvir, apenas ouvir.

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