Liberdade sexual e subversão sob olhares conservadores

Alucarda, 1977

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★★★★★

“Alucarda” proporciona um exercício de reflexão muito parecido com o recente “A Bruxa”, traço essa comparação por ser recente e, segundo, por ter escrito há algum tempo um artigo especial sobre, dissecando os símbolos e desmistificando – ou tentando, pois se trata de um tabu – o satanismo, de forma a misturá-lo com a liberdade. Então, antes de mais nada, indico o artigo como uma leitura prévia: clique aqui.

“Alucarda” aborda a história de uma garota chamada Justine (Susana Kamini ) que chega a um convento e, imediatamente, faz amizade com uma outra menina chamada Alucarda ( Tina Romero ). Alucarda é irreverente e subversiva, mesmo estando no convento não parece, de forma alguma, pertencer àquele lugar – isso é transmitido pelo seu figurino, um vestido totalmente preto, fúnebre, sem detalhes – e encanta a virginal Justine que representa, em seu âmago, a pureza sendo “corrompida” pelo amor.

Como comentado no artigo sobre “A Bruxa”, o satanismo representa, entre muitas outras coisas, a liberdade, é o impulso rebelde do homem em direção ao conhecimento. O conhecimento, no caso desse filme, é a paixão que cresce entre as duas garotas e, obviamente, condenado pela igreja. O culto satânico, aparições, transformações físicas, enfim, são elementos metafóricos para explicitar a problemática da crença obsessiva, construída, claro, por todo um contexto histórico. Porém, é triste notar que mesmo nos dias atuais, o relacionamento homoafetivo não é aceito pelo sistema social que, dentre outros artifícios, utiliza a religião para controlar as escolhas, de forma a categorizar as atitudes com pecados arcaicos – afinal, que se foda os pecados, a vida é um pecado e eu não fico julgando deus por isso.

Não é inteligente generalizar a religião e pregar que todas proíbem o relacionamento homoafetivo, muito pelo contrário, mas infelizmente existe e “Alucarda” trabalha muito bem o assunto. Com uma direção primorosa do grande Juan López Moctezuma – que trabalhou ao lado de grandes realizadores espanhóis como Arrabal e Jodorowsky -, o filme dialoga com uma atmosfera onírica, pautando-se em acontecimentos rápidos, sem muitas explicações, como se o tempo estivesse passando diferente para as duas personagens centrais.

A mãe de Justin é interpretada pela Tina Moreno, a mesma que faz a protagonista Alucarda. Isso deixa claro que tanto Alucarda quanto Justine são as mesmas, uma só, um só propósito, pois ambas “vieram” do mesmo lugar. Talvez o sentimento de estranheza para com mundo normal, seja o elemento comum entre as duas, por isso a cumplicidade e empatia quase imediata.

O mesmo acontece com dois dos personagens mais complexos do longa: o cigano corcunda e o Dr. Oszek. O primeiro é um mágico da floresta que impulsiona o rito satânico das duas amigas; o segundo é o médico que, no terceiro ato, aparece para contestar o exorcismo que está sendo feito dentro da igreja. Ambos personagens são interpretados por Cláudio Brook, o que é muito interessante visto que representam a dicotomia entre a ciência e o misticismo. Com a atitude de colocar um ator para fazer esses dois lados tão conflitantes entre si, é como se o diretor gritasse para o espectador que partem de uma mesma necessidade humana, uma sincronia de ideias para, enfim, alcançar a explicação.

A primeira vez que Alucarda aparece, ela sai atrás da Justine, em um quarto, a iluminação é oportuna ao mostrar a protagonista no escuro, quase como se estivesse saindo da parede. Demonstrando, perfeitamente, o estado psicológico dela que há muito sucumbira ao local ( convento ) e, com a aparição da amiga, consegue reunir forças o suficiente para quebrar as amarras da opressão. Seremos então transportados para cenas viscerais de rituais satânicos, sangue, sexo, remetendo-nos ao vampirismo, há elementos de gore, mas nada é tão absurdo quanto o ritual da igreja para fazer o exorcismo, cujo momento mais agonizante é quando um padre perfura Justine para libertá-la do mal.

Mesmo com recursos limitados, “Alucarda” é extremamente inteligente e, mesmo que seja uma obra oculta do grande público, merece ser visto como forma de reflexão. Seja sobre a opressão da igreja ou homossexualidade, passando por questões importantes como liberdade, cumplicidade e aceitação. É, sem dúvida, um dos maiores filmes do México. Alinha a técnica para sustentar um clima obscuro e conclui hipnotizando o espectador através de uma excelente atuação da Tina Romero.

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No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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Sing Street – entre a descoberta do amor e uma nota musical

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A vida é cheia de alegrias, decepções, reflexões… enfim, um eterno dilema. Complicamos demais as coisas, demoramos demais, quando se possui pouco tempo. Eu cresci, mas ainda me lembro daquele Emerson que deixei em um passado recente, extremamente ansioso, que matava dias de aulas para ficar na rua, conversando, brincando e vivendo.

Eu cresci com a música, o rock’n’roll funcionou como um símbolo de coragem na minha vida, ousei ser eterno através da rebeldia e, como consequência, acredito que a revolta é a única maneira de se conquistar uma evolução, seja pessoal ou social. Uma mudança depende do caos, por isso somos perigosos e frágeis: a linha que separa o homem da sua sanidade e total loucura é muito tênue.

Já ousei fazer, experimentar a vida e os seus prazeres, no mesmo tempo que crescia sendo treinado a ser apático, me envolvi com os sentimentos. Utilizava as palavras para contornar uma dor profunda, queria fugir e pensei em fazê-lo por diversas vezes, o que sempre me impedia era a coragem dos meus ídolos. A arte me deu tudo, mas me tirou tudo por enxergar algo grande demais, tendo conquistado pouco demais.

E, então, me pego pensando, vez ou outra, que me tornei um pouco aquilo que odiava. Mas de todas as dúvidas que me cercam, talvez, a que mais me dói é a pergunta: “por que escrevo?” Então o Emerson dentro do Emerson que está dentro do Emerson responde: “por que essa é a sua maldição“.

Lembro-me que morava em uma cidade e estudava em outra; nesse trajeto escutava todos os álbuns possíveis do Johnny Cash, então eu via na sua imagem, voz e no seu comportamento rebelde, uma porta para a identificação. A música funcionou para mim como uma ilusão, contextualizando-me na simplicidade de que as coisas são. Por algum motivo sempre rejeitei essa hipótese, criava muito em cima de pouco e transformava o simples em algo impenetrável, descomedido.

Se eu posso citar algo terrível de mim, é justamente a minha mania de ser, sentir, fazer e observar o meu redor de maneira muito intensa. Mas volto a pergunta: por que estou escrevendo tudo isso para abordar, a seguir, um filme? Talvez não aja explicação, mas sigo buscando de todas as formas me encontrar em cada palavra, em cada filme e em cada música. Como uma forma de enxergar algo que, no momento, não alcanço, conhecer um lugar improvável, amores e momentos.

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Eu poderia ser tradicional e classificar “Sing Street” como um filme excelente, com uma direção segura – por conta da maravilhosa utilização das músicas, de forma a obrigar ao roteiro uma evolução a cada minuto – mas não estou seguro de que seja isso que o diretor John Carney queria que avaliássemos com a sua mais recente obra. Não! Fico pensando que ele é como eu, um menino que cresceu ouvido música dos anos 80 e sem medo de se propagar como um apaixonado, portanto, peço licença pois sei que a sua intenção é fazer-nos enxergar as possibilidades da nossa vida, através da inocência de uma banda jovem, uma musa inspiradora, um líder apelidado, pelo seu amor, de “cosmo” e um irmão mais velho que, assim como eu, tentou de todas maneiras mas cansou, então dedica-se em observar e compartilhar.

O protagonista, Connor, pensa em montar uma banda para conquistar uma menina. Com o passar do tempo ela lhe sugere o nome artístico “Cosmo”, ou seja, o universo em sua totalidade.

Connor começa o filme cantando e, ao ouvir a discussão dos seus pais, mescla a letra da canção com o que ele ouve dos dois adultos. Depois a sua vida começa a ser inundada por regras e, só então, a partir de um romance platônico, ele resolve enfrentar a revolução e mudar. Influências musicais são constantes, para os amantes da boa música, o filme é um deleite. Parece que a própria montagem se intercala com as canções e citações, no mesmo tempo que a recriação dos anos 80 é simplesmente fantástica, dialogando com a nostalgia, podemos classificar “Sing Street” como um milagre audiovisual que têm, como maior pretensão, provocar o espectador com a sua despreocupação.

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O irmão Brendan – interpretado brilhantemente pelo Jack Reynor – é o personagem que mais me chama a atenção, pois ele transita por entre o passado, presente e futuro, é o motivo do meu desabafo no início desse artigo. Me identifico com ele, abro o meu coração, pois tenho uma irmã menor e nossa relação também é construída através da arte, sinceridade e despretensiosidade.

Em uma cena de confissão, Connor desabafa para o seu irmão sobre o seu interesse romântico. Ele afirma, docemente, que “às vezes gostaria de olhar para ela e chorar“. É de uma preciosidade quando um artista consegue, em uma frase, captar a tal da ansiedade proposta acima, consegue captar tamanha verdade a ponto de assustar.

Então, quando me pergunto por que escrevo, sempre me surgem oportunidades como essa, em que eu posso relembrar o quanto é importante, para mim, a arte e como me sinto completo estende-la.

Com carinho,
Emerson T.

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Quando Todd Haynes decide falar sobre a anorexia

Superstar: The Karen Carpenter Story, 1988

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★★★★★

Os mais jovens conheceram o diretor Todd Haynes apenas esse ano, com o sucesso de “Carol”. Mas o que poucos sabem é que ele tem uma carreira repleta de polêmicas, filmes que tendem a chocar o público comum. Como é o caso de “Superstar: The Karen Carpenter Story” – o único filme do diretor que não pode ser comercializado.

Muito bem, Haynes decidiu fazer uma cinebiografia de uma cantora chamada Karen Carpenter ( abre parenteses ) que fez muito sucesso nos anos 70 ao lado do seu irmão, Richard, onde formavam uma dupla conhecida como Carpenters. O que é preciso dizer sobre a dupla é que é excelente. Indico procurarem no Spotify, principalmente um álbum chamado “Close to You“.

O fim dos anos 60 e 70, como todos sabem, foi um momento de revolução por parte do jovem que se via muito representado por grandes nomes do rock. O lema “paz e amor” nunca foi tão grandioso e isso afetou, de diversas maneiras, o governo norte-americano que se via diante de um monstro extremamente poderoso. Os Carpenters, então, com suas músicas doces e românticas, representavam o outro lado dos jovens, calmos e comportadinhos. Isso foi muito importante na década de 70, como um sinônimo de representatividade não só das pessoas como do país – não à toa a dupla foi convidada para cantar na casa branca, no qual Nixon chegou a dizer que eles “simbolizavam o melhor dos jovens norte-americanos”.

Mas essa responsabilidade de “bom moço” era muito pesada, principalmente para a Karen que, depois de algumas críticas sobre o seu peso, começou a sofrer distúrbios alimentares, culminando em uma anorexia. Ela fica viciada em remédios e veio a falecer precocemente, com apenas 32 anos de idade. ( fecha parenteses ).

Todd Haynes contou a história de Karen em um média-metragem, analisando as possíveis causas da sua morte, que estavam diretamente relacionadas a pressão da mídia e dos familiares pela sua imagem perfeita.

Mas não paramos as curiosidades por ai: o que mais chama a atenção no primeiro filme de Haynes é que ele não utilizou imagens reais da cantora ou família, mas sim bonequinhas Barbies e Kens. Ele se utilizou dessas bonecas que são mundialmente conhecidas como símbolos de “perfeição física”, para discutir sobre a anorexia e o papel maléfico da mídia em impor um padrão de beleza, principalmente para as mulheres.

Com o sucesso do média-metragem em pequenos festivais de cinema, a família da cantora processou o diretor, obrigando-o a retirar qualquer cópia de circuito. Restando-nos conhecer essa maravilhosa obra através do download. Portanto, ao assistir, caros leitores, saibam que a qualidade é bem baixa, por ser derivado de cópias sobreviventes, mas isso de forma alguma atrapalha a experiência estarrecedora.

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A filmagem amadora afasta muitas pessoas, mas também hipnotiza os ousados por conta da identificação. A ideia de utilizar bonequinhos como atores de uma história catastrófica é profundamente mórbido, o que começa como inovador vai se tornando assustador.

O tema abordado é cruel e atemporal, o média-metragem foi lançado em 1988 e a discussão/perigos continuam o mesmo. Se pegarmos como exemplo o cinema, percebemos uma diferença gritante no que se refere o processo de envelhecimento das atrizes e atores: percebemos que os atores podem envelhecer e continuarão recendo papeis, enquanto as atrizes precisam fazer inúmeras plásticas para não entrarem em um redoma onde todos os papeis que farão, a seguir, será relacionado com dona de casa ou alguma vovó.

O homem envelhecendo é sinônimo de charme, a mulher, por outro lado, é sinônimo de derrota. Pessoalmente, não vejo outra forma de criticar essa postura sem creditar boa parte da culpa na mídia, que explora o corpo da mulher, transformando-a em produto e ignorando as suas capacidades. Mulher não é fantoche para se colocar em uma vitrine.

Karen Carpenter fora usada pelo irmão e ignorada pela família que, inconscientemente ou não, se preocupavam apenas com a parte física da cantora e não com o psicológico. De fato, Todd Haynes consegue estabelecer essas reflexões de forma densa e inteligente, criando uma mise-en-scène dar inveja em muitos diretores que, com todo o recurso do mundo, não conseguem levar qualidade para as boas ideias.

Esse filme é importante não apenas pela sua realização ousada, mas pelos temas que aborda de forma tão impactante. O diretor, para retratar o emagrecimento extremo da cantora com a sua Barbie, fatiou a boneca com uma faca, isso traz uma sensação cruel e verdadeira; milhares de jovens passam por esse problema diariamente e, se podemos tirar algo bom da triste história da Karen Carpenter, é essa alerta à família: é preciso dar atenção aos jovens, eles se sentem muito pressionados, principalmente as meninas e essa atenção, de maneira nenhuma, é limitar a sua ânsia por experiências ou liberdade, mas guiar indiretamente e ouvir, apenas ouvir.

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Dabbe: Bir cin vakasi e o cinema de terror turco

Dabbe: Bir cin vakasi

★★★

Depois do sucesso de “Atividade Paranormal”, bastou pouco tempo para o formato de gravações em diversas casas ao redor do mundo se tornasse uma ferramenta exaustivamente utilizada. Teve filme desse formato no Japão, Espanha e outros diversos países, mesmo que por algumas cenas. É o caso de “Dabbe: Bir cin vakasi”, um filme da Turquia, dirigido pelo Hasan Karacadag, que é um dos grandes nomes do terror por lá.

Se pegarmos a história do cinema turco, veremos que nas décadas de 70-80-90 houveram muitas adaptações clássicas de filmes hollywoodianos, como por exemplo uma versão horrível de Rambo, chamada “Korkusuz”.

Korkusuz, 1986

Korkusuz, 1986

Mas o gênero terror foi muito pouco explorado, talvez por uma questão meramente social e de interesse econômico. No entanto, as coisas começaram a mudar com o aparecimento de um diretor chamado Hasan Karacadag. Ele estudou cinema no Japão, se aprimorou no que diz respeito a linguagem cinematográfica e lançou, em 2005, com apenas 28 anos, um filme chamado “Dabbe”. Esse filme revolucionou a Turquia, as pessoas começaram a acreditar no seu cinema de horror. A obra, mesmo sendo fortemente influenciada pelo cinema americano e, principalmente, o japonês, apresentava conceitos interessantes e contextualizava o medo com a cultura da Turquia. Por exemplo, a demonologia islâmica sendo trabalhada para provocar o medo, foi um atrativo importante para o mundo.

“Dabbe” mescla o paranormal, com ondas de suicídios sem explicações. É muito interessante para quem gosta de adentrar em culturas diferentes, principalmente quando o medo é a porta de entrada para esse estranhamento.

Hasan Karacadag, sendo inspirado fortemente pelo Stephen King, se interessando pelo misticismo desde criança e apaixonado pela forma que o cinema de terror japonês conduz o medo, realizou diversos outros trabalhos na Turquia e ganhou fama por lá. Sendo sinônimo de sucesso, quando falamos de cinema de terror turco.

Bebendo da fonte do cinema americano, novamente, chegamos em 2012 com o filme “Dabbe: Bir cin vakasi”, onde o diretor utiliza ao seu favor o famoso mockumentary, ou documentários falsos. Onde um ou vários personagens registram os seus passos afim de se protegerem ou buscar explicações para algum fato estranho.

O filme começa com uma suposta gravação real, de um caso de uma mulher que sofria com o sonambulismo mas que, aos poucos, foi-se descobrindo que o problema era muito mais do que isso. Somos apresentado à uma família e o estilo de filmagem já está preparado, a apresentação é feita de forma direta e até agressiva, pois coisas estranhas já estão acontecendo.

Passado alguns clichês como coisas caindo, luzes apagando, pessoas levitando etc. Há uma segunda parte onde o motivo dos casos sobrenaturais vão sendo explicados, é nesse momento que o filme parece funcionar realmente: pois sabemos que se trata de um caso de magia negra, que envolve demônios e alguns conceitos bem diferentes, como uma cena em que um dos personagens invade uma casa abandonada, e se depara com inúmeros objetos amaldiçoados, como espelhos e bonecos de vodoo.

Apesar dos efeitos bem simples e de algumas atuações forçadas, “Dabbe: Bir cin vakasi” é um filme com uma estrutura bem diferenciada e, apesar de beber da fonte do “Atividade Paranormal”, consegue ser melhor que todos os filmes da série ao redor do mundo.

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Entre o corpo, a tinta e a alma

O documentário “Pina”, dirigido pelo Wim Wenders, se encontra em um grau alto e desconhecido, onde a arte atinge o seu limite, morre e renasce. Provando mais uma vez que a expressão é a única fuga e esperança para todos os males do mundo, incluindo a perda.

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Desde quando o 3D virou mania nos grandes cinemas, sempre me provocou muita curiosidade. Demorei bastante para assistir um filme em 3D e, quando assisti, foi encanto imediato. Com o passar do tempo o fascínio foi diminuindo até se tornar um aborrecimento. Por ter consciência de que a maioria dos filmes hoje são convertidos para 3D, sem o mínimo de cuidado, apenas para aumentar o preço dos ingressos, a ferramenta – que pretendia levar mais pessoas ao cinema – se tornou apenas mais uma arma de manipulação do grande cinema-produto.

Contudo, assim como em todos os aspectos da arte e da vida, sempre há exceções e pude perceber isso assistindo “Pina”, o documentário onde o maravilhoso Wim Wenders faz uma carta de amor, junto com os bailarinos, à coreógrafa e dançarina alemã Pina Bausch.

Primeiro que é curioso notar a facilidade que o diretor Wim Wenders tem de se reinventar, transitando por entre linguagens diferentes, ele parece sempre manter intacta a habilidade de agredir visualmente o espectador, confrontar e abusar da capacidade de simbiose que o audiovisual pode atingir; isso fica claro desde o primeiro minuto do documentário que se baseia, basicamente, em mostrar algumas das principais coreografias da Pina enquanto os seus bailarinos falam sobre a sua mestre. É preciso ressaltar que, antes mesmo de começar a filmar a obra, Pina Bausch acabou falecendo, mas o diretor fez questão de continuar, claro, de forma diferente, para fazer uma homenagem a altura da grandiosidade de Bausch.

Pina Bausch é o maior expoente de uma expressão chamada dança-teatro. Como o próprio nome já diz, se baseia na interpretação com o auxílio de conceitos básicos da dança, movimentos e música. É de se destacar que a linha que separa a dança do teatro sempre foi muito tênue, no entanto existe alguns pontos cruciais na dança-teatro que são, por exemplo, a representação de um personagem e a linguagem sendo transmitida com uma sintonia entre o movimento e a palavra. A grosso modo, eu diria que essa expressão se aproxima muito da dança contemporânea, se revelando muito visceral e contemplando o humano na sua condição mais selvagem; afinal, todos nós nós somos cabíveis do movimento e da necessidade de expressão, portanto, um sutil balançar das mãos, se planejado e ensaiado, pode ganhar formas e contexto como dança ou teatro.

O que Pina Bausch fez, ao longo da sua história, foi reorganizar o homem diante a essa verdade absoluta e muito contestada: a arte existe para comunicar aquilo que não se mensura. A palavra, que ouvimos por diversas vezes no documentário, é transmitida através de expressões, olhares, a dança e a conexão dos corpos, no entanto, com a realização maravilhosa do filme e a utilização magistral do 3D, o espectador se sente capaz de perfurar essa separação que existe entre o real e a tela, tornamo-nos um só. O corpo é o movimento, a tinta são os bailarinos ( homens ) e a alma é a conexão que existe entre um indivíduo e aquilo que assiste ou sente.

Wim Wenders desconstrói o trabalho da Pina Bausch e se mantém coerente na contemplação da sua genialidade, pois ele mesmo é genial no seu registro. Esse é um dos casos raros que a arte atravessa o tempo e se refaz, ao chegar no fim. Que fim seria esse? Pina deixou algo tão importante para o mundo, ela demonstrou que é possível existir a linguagem em infinitas oscilações, que podemos encontrar o equilíbrio na instabilidade e que para ser livre, é preciso entregar-se ao caos e à loucura.

Uma das maiores sensações do mundo é apresentar em frente à uma platéia, os olhos atenciosos, contemplando a sua presença, percorrendo o seu corpo como se fosse uma exposição, em uma vitrine que se desloca para o coração de vários. O teatro é uma forma de nos sentirmos tocados, mesmo solitários, nos sentirmos leves, mesmo que tensos, nos sentirmos parede, porta, água ou caixão; parte de um todo e nada; a excitação é breve, no mundo real, como uma droga, mas no universo interior aquele que se apresenta se compreende por uma vida inteira.

E quanto a Pina Bausch? Ela continua dançando e se esquecendo…. dançando e se esquecendo… dançando e se esquec… Quem é Pina Bausch? Uma tinta, uma alma, uma professora mas, principalmente, uma mulher.

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Os Inocentes – A obra-prima máxima do terror

Os Inocentes

Encontrar críticas ou artigos relacionados com o universo dos filmes de terror é muito fácil aqui no Cronologia do Acaso. Já expliquei centenas de vezes o porquê tenho um fascínio por esse gênero, então no começo desse artigo, deixo a recomendação de outros textos. Segue os links:

Possessão demoníaca: http://cronologiadoacaso.com.br/2016/02/04/possessao-demoniaca-no-cinema/

Madre Joana dos Anjos: http://cronologiadoacaso.com.br/2015/11/02/madre-joana-dos-anjos-1961/

Atividade Paranormal – Quando uma boa ideia se transforma em fracasso: http://cronologiadoacaso.com.br/2016/07/19/atividade-paranormal-quando-uma-boa-ideia-se-transforma-em-fracasso/

Com esses três textos, vocês poderão entender um pouco sobre a minha perspectiva sobre o cinema de terror e, sem dúvida, será interessante para compreender esse artigo sobre “Os Inocentes”, principalmente no que diz ao subtítulo escolhido: “A obra prima máxima do terror”.

É claro que o gênero terror teve uma base muito sólida, tendo sido modificado por inúmeros artistas que, direta ou indiretamente, deixaram muito de si na linguagem desse gênero que se utiliza do terror para analisar lados obscuros e desconhecidos do ser humano. Mas podemos resumir isso com um filme chamado “Os Inocentes”, de 1961, dirigido brilhantemente por Jack Clayton e estrelado pela Deborah Kerr – a ruiva mais linda da história do cinema.

Os Inocentes

O filme conta a história da senhora Giddens ( Deborah Kerr ) que é contratada para cuidar de duas crianças chamadas Flora ( Pamela Franklin ) e Miles ( Martin Stephens ), eles são órfãos e vivem em uma casa gigantesca, sustentados pelo tio e criados por funcionários. Não existe afeto por parte das crianças, no que diz respeito à família, elas vivem com muito luxo mas são abandonadas. A nova governanta passa então a construir um carinho e senso de proteção muito grande, no mesmo tempo que percebe que a mansão guarda segredos envolvendo a paranormalidade.

O filme é um clássico intocável, infelizmente não tão conhecido como merecia, mas além de apresentar alguns conceitos até então inéditos, o diretor e os demais envolvidos sabem como unir todos os artifícios técnicos em função da história. Esse artigo tem como finalidade destacar alguns desses artifícios.

Reflexo da Flora, antes do seu primeiro encontro com a governanta

Reflexo da Flora, antes do seu primeiro encontro com a governanta

O filme começa antes mesmo dos créditos aparecerem. Em uma tela preta, ouvimos uma canção maravilhosa e tétrica chamada “O Willow Waly“, sua letra traz frases como: “Nos deitamos, meu amor e eu[…]”, “[…] Mas agora deito apenas eu […]”, “[…] E choro ao lado da árvore […]”. Essa música será importante durante todo o filme e é engraçado a sua aparição acontecer antes de qualquer outra coisa, inclusive os projecionistas, nas salas de cinema, acharam que era um erro e cortaram, para que o filme começasse com a logo da 20th Century Fox.

As primeiras cenas são para apresentar a protagonista, no começo ela reluta contra a ideia de se tornar governanta e, cabe ao espectador imaginar que é porque se trata de uma profissão que exige uma enorme responsabilidade, é dito que ela não tem experiência o que acaba, também, ressaltando o quanto o tio das crianças não está muito preocupado com o bem estar delas, mas sim em preencher o vazio deixado na mansão após a governanta anterior morrer.

Aceito o trabalho, a senhora Giddens parte para a mansão e a primeira coisa estranha que acontece é que ela ouve uma mulher chamando a Flora, mas é perceptível que a voz emite uma harmonia, como se fosse parte de uma canção.

O primeiro contato visual que a protagonista tem com uma das crianças é com Flora, percebe-se que a imagem da menina aparece, primeiramente, através de um reflexo no riacho, isso é algo que, inclusive, será trabalhado durante toda a obra, assim como as luzes e sombras.

Flora aparecer primeiramente como um reflexo significa que a governanta começa a se confundir entre a realidade e mentira, de um lado está aquilo que ela molda e do outro a realidade sombria – em muitos momentos as crianças parecem ter mais consciência do quanto são abandonadas do que ela.

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O filme, nesse início, se divide em dois: exterior da mansão e dentro. Isso porque a diferença é gritante, fotograficamente o filme assume uma outra postura, como se estivesse adentrando uma outra dimensão. Se nos minutos iniciais fica evidente uma singela organização dos movimentos das personagens, dentro da mansão ela chega ao limite.

Na mansão só estão os empregados – porém a única que conhecemos é a senhora Grose ( Megs Jenkins ) – Flora e a recém-chegada governanta. O garoto, Miles, está na escola. O momento em que a nova governanta põe os pés na casa é para se acostumar com o seu ritmo, lembrando que por vezes parece pertencer à um universo diferente, e o diretor deixa claro isso impondo um outro tipo de movimento de câmera e transição dos atores. Remetendo-nos diretamente ao teatro, é impressionante a sincronia estabelecida para as posições e a troca de posições das personagens; além do mais, durante todas as cenas internas os objetos são extremamente relevantes, compõem a história e trazem uma beleza estética incrível.

Seria impossível falar sobre esse filme e não citar a sua perfeita mise-en-scène . É tão bem pensado, que só nos cabe imaginar que cada cena demorou muito tempo para ser planejada. É quando o terror começa a ganhar uma outra forma, além de abraçar a sugestividade, clima obscuro, trilha tensa, ainda existe a expressão fotográfica, figurinos e, claro, atuação, todos esses elementos dialogando entre si e construindo algo extremamente grandioso.

Algo que pode ser visto em alguns momentos cruciais é a transição de cenas que teima dar indícios da próxima, além do mais, a sutilidade e transparência cria diversos significados. Observa as imagens abaixo:

Aparicão do Miles no meio das duas - parte 1 Aparicão do Miles no meio das duas - parte 2

Como escrevi acima, o início do filme se divide entre exterior e dentro da mansão – como se estivéssemos, juntos com a protagonista, invadindo um segredo – mas, com o passar dos minutos, ainda no primeiro ato, existe uma série de camadas surgindo de forma completamente orquestrada, uma delas são os personagens. Podemos dividir os quatro principais e, veremos, que cada um representa um aspecto da vida nessa casa:

Governanta: É aquela moça que chegou com receio, mas aos poucos se rendeu ao papel de “mãe” e “protetora” das crianças. No mesmo tempo que desconhece a mansão.

Empregada Grose: Ela representa o “olho que tudo vê”, ou a clássica “sábia”. Percebam que durante quase todo o tempo ela é extremamente imparcial e não se conecta emocionalmente com o abandono das crianças, apenas cumpre uma função.

Flora e Miles: Eles são os abandonados e, por isso, utilizam-se disso como pretexto para se isolarem do mundo e guardar segredos. É como se o “universo da mansão” fosse a razão de suas existências.

Na imagem acima, a primeira, a governanta recebeu um comunicado da escola de Miles sobre o seu mal comportamento e começa a questionar a postura do menino. Ela é o oposto da empregada que, por sua vez, o inocenta e parece querer ocultar tudo da moça. A primeira fotografia traz uma estátua separando-as – o que acontecerá constantemente – e, mais do que isso, imediatamente depois dessa pequena discussão, tem uma transição onde temos o pequeno Miles chegando de trem. Ele está no meio de ambas, como se elas representassem algo como peças de xadrez nesse universo, simplificando-as à simples figurantes nesse conto de fadas.

Tres elementos principais - crianças, cuidadora e empregada

Essa cena representa a divisão dos personagens. As crianças estão no nível de cima, governanta no meio e a empregada abaixo deles.

A mansão é grande e espaçosa, no mesmo tempo que os já citados objetos parecem diminuir a protagonista a todo instante, como se ela guardasse sentimentos proibidos, o próprio carinho e senso de proteção desenfreado poderia ser considerado proibido, visto que se trata de um trabalho, mas que, infelizmente, ela nunca terá o poder de mudar as condições das crianças.

Por mais que a senhora Giddens tente, a mansão a separa dos demais que aceitam as suas condições. Em um momento, no final, ela mesma confessa que o seu pai a ensinou a ajudar as pessoas. Podemos concluir, então, que a senhora Giddens representa o exterior da casa e as crianças e empregada o interior. É impressionante quando ligamos essa metáfora à uma cena em que as crianças perguntam para a sua governanta se a sua casa era pequena, Miles então fala algo como “pequena demais para guardar segredos“.

Aparição do fantasma na janela

Até então escrevi bastante sobre as metáforas e pouco sobre o terror. Isso porque de forma bem provocante e intensa, é possível afirmar que o terror mora no significado oculto dessa obra. Existem aparições, a primeira é sensacional, inclusive,  a governanta vê uma silhueta em cima do telhado e, na segunda aparição, já podemos notar que esse mesmo homem aparece no quintal da mansão, em frente a uma estátua – aliás, lembrem-se que a primeira vez que Miles aparece ele também está posicionado no quadro exatamente onde está uma estátua.

Além do mais, existe medo escondido em todos os momentos. Desde as cenas iniciais é citado a sensação de medo por parte da protagonista, talvez oriunda da própria insegurança. Destaque para a atuação da maravilhosa da Deborah Kerr que já disse inúmeras vezes se tratar da melhor atuação da sua vida, e é realmente complicado discordar, mesmo que ela tenha uma carreira tão sólida.

A sua expressão delicada vai dando lugar à uma instabilidade, o olhar começa a ficar explosivo e a performance passa a se misturar com as sombras. As sombras foram tão importantes que o fotógrafo Freddie Francis usou grandes refletores e geradores de luz para criar os efeitos.

Não poderia deixar de citar o Martin Stephens – excelente ator mirim que, infelizmente, deixou a carreira de lado após sucessos como “A Aldeia dos Amaldiçoados” e o próprio “Os Inocentes” – e a atriz japonesa Pamela Franklin. As crianças chamam muito a atenção, irritam, alegram e intimidam na mesma proporção, algo extremamente complexo e raro de se ver.

Fotografia entre grades

O filme evolui de forma impecável e atinge outros significados no final. Em uma cena absolutamente agressiva e polêmica, o espectador sente que a governanta é que fora corrompida durante todo o tempo. Há muitos espaços para dúvidas e seria até possível imaginar um amor platônico por parte da moça pelo garoto Miles, mas tudo é tratado com sutileza e se encaixa na perfeita simetria visual.

A imagem acima coloca a personagem no centro, do lado de colunas e isso acontece em diversos momentos, além de ser sufocada pelos objetos ela também é prisioneira dos seus próprios desejos. Percebemos ainda uma mudança de figurino drástica, observa as imagens:

Roupa da personagem no meio

Ela começa a se vestir com cores claras quando se habitua à mansão e as crianças logo nas cenas iniciais.

Roupa da personagem final - parte 1

Depois começa a mesclar cores mais escuras, com pequenos detalhes mais claros. Simultaneamente ela desconfia que as crianças estão vendo os mesmos “fantasmas” que ela – incluindo uma mulher de preto.

Roupa da personagem final - parte 2

E no final do filme ela sempre está vestida de preto e se torna aquilo que outrora temia.

A ironia mora no fato de quê, nesse filme, o medo da protagonista se esvai e ela se transforma nele. A mulher de preto que fica observando a Flora na beira do rio, é uma das aparições mais perturbadoras do longa, no mesmo tempo que a própria protagonista se “a mulher de preto”, aos poucos. Essa transformação acontece de forma simbólica, através do seu figurino, não espere uma explicação literal porque em “Os Inocentes” não existe o óbvio.

Justificando então o subtítulo “A obra prima máxima do terror”: “Os Inocentes” pertence à um grupo seleto de filmes que contribuíram muito para o terror e o seu desenvolvimento. Pergunte para qualquer realizador do gênero quais os seus filmes favoritos, certamente esse sempre será lembrado, tamanho é a sua importância para o cinema em geral. Maduro ao extremo e fiel a sua proposta até o ultimo segundo, é a reunião de diversos elementos brilhantes sendo transmitidos através da sincronia de movimentos perfeita, direção magnífica e fotografia intocável.

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No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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Esquadrão Suicida – Qual é o Problema?

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Quando eu escrevi sobre a Arlequina e toda aquela discussão sobre a sexualização da personagem ( aqui ), muitas pessoas me criticaram. Uns falaram que eu só escrevi sobre para ganhar cliques – o que é algo realmente muito estranho, pois se estivesse muito preocupado com acessos certamente não escreveria sobre filmes da Polônia -, outros julgaram a minha opinião pelo fato de eu não ser mulher ou até mesmo por não ler quadrinhos.

Uma coisa, talvez a maior delas, que tentei desmistificar naquele texto é: não tem como julgar nada só por um trailer. E, pois bem, o filme lançou e eu fui ver na pré-estréia, super ansioso, até porque estamos falando do “Esquadrão Suicida” desde que o primeiro trailer foi lançado, aquele com uma versão maravilhosa da música “I Started a Joke”.

Começo

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Antes de mais nada, é importante lembrar que esse filme foi muito bem divulgado. A ansiosidade dos fãs e amantes do cinema aconteceu após o primeiro trailer e alguns comunicados sobre os bastidores. Era perceptível uma união carinhosa do diretor e todo o elenco, as coisas pareciam ter dado certo pelo ambiente criado e, outra coisa legal, era o fato de se tratar de vilões, não mocinhos.

Essa fórmula de “vilões sendo obrigados a realizar alguma missão do bem” não é inédita, já vimos bastante em faroestes, porém sempre atraiu bastante, o ser humano tem fortes tendências a se identificar com os vilões, muito por conta dos seus erros.

Então esperávamos, no mínimo, um filme diferente, que fosse fiel ao que se propôs desde o início e que, eventualmente, pudesse fazer sorrir, através da sua insanidade. Mas hoje, no grande cinema, temos muito mais necessidade em produzir produtos do que ideias e, claro, quando interesses começam a entrar no jogo, tudo muda.

O diretor David Ayer sempre foi muito dedicado no desenvolvimento de personagens, mas nunca excelente. Ele teve, talvez, uma das tarefas mais difíceis de todos esses diretores de filmes de heróis: trabalhar com inúmeros personagens interessantes, apenas com um filme, onde teria que introduzir, desenvolver e concluir.

Os filmes da Marvel, no mesmo tempo que divertem bastante – confesso que eu não me divirto, só me canso – se tornaram um grande problema para quem ama cinema. Por dois motivos, um é extremamente criativo e o outro acontece além da obra. O primeiro problema é a criação e planejamento, existiu um tempo onde os filmes, qualquer filme, era pensado como “um”, eles tentavam fazer uma obra o melhor possível e, a partir do resultado desse planejamento, poderia acontecer de estender para outros filmes. Hoje acontece o inverso, ao invés de pensar em fazer o melhor e mais estável, é pensado no “universo”, aliás, essa palavra “universo” está me causando arrepio. Em um processo criativo, qualquer vinculado a arte, existe – deveria existir – um universo em apenas uma obra.

Com a Marvel deu certo, ok, eles trabalharam duro nisso, demorou muito tempo até que os espectadores criassem um vínculo – espectadores, não fãs, porque quem paga esses filmes são espectadores, independente da “categoria” que você se autodenomina – mas com a DC deu bastante errado. Isso porque existia um lado dos criadores que queriam brincar de ser realistas, mas como ser realista em um “universo” que existe um homem com forças quase ilimitadas que voa? Então existem dois lados, o realismo com o Batman e fantasioso com o Superman, é preciso decidir qual deles será desenvolvido tudo, não é possível que uma, duas, várias mentes joguem a toalha e pare bem no meio.

Esquadrão Suicida

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Sabe quando você quer ser o centro de uma conversa entre os amigos e fica tentando relembrar qualquer atitude épica ou engraçada que teve ao longo da vida? Então, a venda do Esquadrão Suicida foi assim. No começo era muito legal saber o quanto o Jared Leto “achava” que estava doidão, mandando ratinhos para os coleguinhas ( ui! ), mas depois começou a virar um circo.

Não comparando, nada do tipo, aliás, sou fã do Jared Leto ( ator ) e o acho o homem mais lindo desse mundinho feio, mas quando o Heath Ledger embarcou nos estudos para o personagem, não se ouvia maluquices a cada hora que se passava. Ele estudou, incorporou, enlouqueceu e fez. Assim como qualquer outro ator, na verdade. Jared Leto mesmo fez tantos sacrifícios quanto Ledger, e nunca precisou sustentar o seu talento apenas nisso.

Mas chegamos no filme… bem, olhando agora nas minhas anotações encontro coisas como: “uso de músicas maravilhosas com uma frequência inexplicável…”, “apresentações ruins…”, “Arlequina exibicionista e irritante..”, “Coringa inútil…”, “Pistoleiro herói(?)… todos heróis(!?) e por ai vai.

O filme se inicia de modo tão infantil que beira o inacreditável. Apesar de gostar de todas as músicas dos primeiros vinte minutos, a transição das cenas, acompanhadas de vinte segundos de música, me fez ficar desconfortável. A edição moderna, dinâmica, que prometia ser um diferencial, só me causou espanto, parece que largaram um adolescente gamer para editar e foram tomar café, sem nenhum tipo de segunda ou terceira opinião.

E, se tecnicamente o filme é, no mínimo, indecifrável, o seu roteiro é uma grande e maravilhosa piada. A apresentação dos personagens, aliás, segue o ritmo dos cortes bruscos e servem como uma medida desesperada para o famoso desenvolvimento, mas é tão rápido e gratuito que acaba nos desviando do principal: a ideia maluca da querida Amanda Waller em unir esse bando de vilões.

Eu sei que nos quadrinhos funciona, como também sei que na animação da DC também, pois já assisti e é muito boa. Mas há coerência nesses dois casos citados, são bem trabalhados. No filme acontece o contrário. Aliás, o Esquadrão só se reuni por causa da ideia em criar o Esquadrão. O vilão do filme, desconectado também e pouco identificável, está relacionado com a criação dessa equipe.

Se a propaganda era a insanidade, vilões e desprendimento, no filme essa proposta não é concluída, “Esquadrão Suicida” foi covarde, modifica no segundo ato os seus personagens para justificar a continuação da sua operação, mas, fazendo isso, o roteiro esquece aquilo que apresentou, ou seja, recusa o próprio conceito.

Arlequina e Coringa

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O mundo quer saber sobre esses dois personagens e eu vou começar dando a minha  opinião sobre a Arlequina, até para complementar o meu texto sobre a sexualização da personagem:

Eu escrevi muito no artigo – que você pode ler clicando aqui – que era impossível dizer alguma coisa de um trailer. Isso poque houve muitos boatos sobre a roupa da Arlequina e a forma que ela era apresentada. Enfim, continuo concordando comigo mesmo e ressalto, novamente, que se a concepção de figurino dela é uma calcinha, devemos todos aceitar, até porque a atriz, enquanto artista, estava ciente de que teria que se submeter à criações desde o início da carreira. Agora, se é algo que ajuda na narrativa ou não, ai sim podemos opinar, discutir, etc – mas nunca com um trailer!

A Arlequina, interpretada pela Margot Robbie, é aquela personagem que deveria chamar a atenção mesmo quando está no fundo, em segundo plano. Caro leitor, pegue como exemplo um filme popular e recente: “As Caça-Fantasmas”, repare na personagem Jillian Holtzmann e como ela se porta em cena, o carisma da atriz Kate McKinnon é tão grande e sua personagem foi tão bem escrita que o espectador nunca consegue esperar nada normal vindo dela, mesmo em momentos de poucos destaques. Agora, aos que viram, compare com a Arlequina e me responda qual é a mais natural dentre as duas.

Arlequina aqui implora por atenção, parece que o diretor apontou o dedo para a Margot Robbie e afirmou que ela era a melhor atriz da atualidade e que precisava fazer o mais louco que conseguisse, só que sem preparação. Então ela, sozinha, decidiu que se ganhasse ratinhos do amiguinho já estaria louca o suficiente.

Tem uma cena em que há um diálogo, completamente fora de contexto, que citam brevemente a loucura. Ela imediatamente olha como quem diz: “falaram de mim? Em? Em? Porque eu estou muito doidona“. Suas piadas se baseiam em afirmar a sua loucura, como em um momento que, do nada, ela pergunta se não está vendo coisas “porque esqueceu de tomar o remédio“, e, também, infelizmente, mostrar gratuitamente o seu corpo. Em duas cenas específicas – e ruins – a piada que envolve a Arlequina é com planos acompanhando de forma sugestiva a sua bunda, o que é muito pouco para quem dizia se tratar de uma obra especial e provocativa.

Agora, vou partir o meu coração, pois o pior do filme é o coringa, vivido pelo Jared. Depois de toda a tentativa de provocar a ansiedade nos fãs através de brincadeirinhas nos bastidores, o Coringa pouco aparece e quando acontece é motivo de piada. Sua participação é irrelevante, mas muito irrelevante, do ponto de vista de roteiro é uma decisão, no mínimo, ignorante, colocar um personagem que não faz andar a história, apenas serve como uma vírgula.

Servindo como um ruído para o roteiro, ainda é muito mal interpretado pelo Jared Leto, inclusive me causou espanto, pois se trata de um dos melhores atores da sua geração. Ele é, ainda, um artista que sempre soube escolher papeis desafiadores e moldá-los mas, aqui, ele se atém a criar algumas coisas – que não dão certo em nenhum momento – e imitar o Heath Ledger.

O resultado fica tão estúpido que, igualmente, beira o inacreditável. A sua risada – que é alvo de questionamentos em qualquer programa de TV com entrevistas do ator – é horrorosa, parece mais que ele está engasgado e sempre surge de forma pouco natural. Além do mais, ele tem um forte apelo sexual, com certeza de propósito, me fazendo questionar seriamente qual o motivo para isso.

Com “Esquadrão Suicida” eu finalizo qualquer texto ou podcast vinculado à filmes de super heróis, assim, feito com tão pouco cuidado. Esse filme representa os males que essas produções trouxeram para o cinema, soando artificial ao extremo, indeciso e frágil em todos os aspectos. Personagens e tramas interessantes sendo desperdiçadas – como o Diablo e a Bruxa – em troca de exibicionismo e gratuidade. Mas, com certeza, o roteiro do segundo e terceiro já está pronto, o “universo” está sendo trabalhado, mas, vejam só, como pensar no universo sem o seu princípio?

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No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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Como e por onde começar a estudar cinema?

Como começar a estudar cinema

– Você estudou cinema na Universidade?
– Não, eu não estudei na Universidade. Eles que me estudaram

( Filme “Memórias”, dirigido por Woody Allen )

É sempre a mesma coisa, com o fascínio adquirido pela sétima arte, basta pouco tempo para adentrarmos nesse mundo e procurar o máximo de informações possíveis. Antes de explicar o porquê dessa postagem, seria interessante esclarecer a minha história com o cinema e como vejo e sinto o “estudo sobre cinema” nesse mundo virtual onde todos são especialistas em todas as coisas.

Posso dizer que sou amante do cinema desde cedo. Lembro-me de ter uma infância muito boa, era quieto e criava muitos mundos diferentes com o auxílio do audiovisual. Tinha poucos brinquedos, mas os poucos eram verdadeiras preciosidades e era só pegá-los que eu começava a simular os filmes que eu tinha visto no mesmo dia. Os filmes que eu mais recriei eram os principais do meu ídolo na época: Bruce Lee.

Ainda, com uns cinco anos, eu lembrava de filmes famosos do Van Damme e Sylvester Stallone e fazia uma verdadeira mistura. Então eu imagino, no auge da minha obsessão por cinema, que esses foram os primeiros indícios que eu seria filho do audiovisual, aquilo pertencia a minha alma, eu criava sobre criações.

Muitas coisas aconteceram na minha vida, que fortaleceram o lado da experiência e me distanciaram um pouco do cinema. Só quando tinha treze anos, morando em dois cômodos, que fui aprender a me posicionar diante da vida e compreendi a verdade sobre o meu vazio existencial. Assistindo “Magnólia”, do Paul Thomas Anderson, eu percebi que nunca foi por acaso, a arte é o meu propósito na terra, sentir e doar-me na mesma proporção.

E, assim, dos treze anos aos dezoito eu tinha como meta assistir dez filmes por semana, no mínimo, o que daria uns quinhentos por ano. Mas eu fazia questão de diversificar bastante, foi nesse tempo que conheci basicamente tudo que se tornaria os exemplos perfeitos do real poder do cinema para mim, obras iranianas, suecas, chinesas, sul coreanas, francesas, enfim. Enquanto me perdia na vida, com todos os vícios que ela proporciona, do outro lado me apegava à arte e sentia que aos poucos era salvo.

O que quero dizer contando a minha história, é que eu fui encontrado pelo cinema. Nunca me foi imposto nada, eu simplesmente o amei mais do que tudo e depositei nele todas as minhas expectativas. Com isso, quero criar uma conexão com você, leitor, pois tenho certeza que se ama cinema, com certeza se identificou de alguma forma com o que descrevi acima. Agora tenha certeza que esse artigo é para você, vamos lá:

O que é estudar cinema?

Chaplin

Quando comecei a escrever sobre cinema, ainda no Blogspot, eu o fazia de forma completamente despretensiosa. De forma extremamente subjetiva, eu ia desabafando sobre o que eu sentia e, por muitas vezes, nem escrevia sobre o filme em questão, só sobre sentimentos.

Essa postura foi um professor para mim, pois pude compreender melhor que há uma carência por esse estilo, pois até hoje encontro gente que lê os meus textos desde aquele tempo, ou seja, criou algum tipo de identificação, pois era tudo muito visceral. No mesmo tempo, que surgia em mim a necessidade de entender cinema de forma mais teórica, até porque um ano depois eu conseguiria um emprego onde desenvolvi projetos educacionais que se misturavam com o cinema e fotografia, algo como um “cineclube educacional”.

Então, a partir da minha concepção do estudo de cinema, disponibilizarei a seguir algo como um guia, uma série de indicações para aqueles que, como eu, querem estudar cinema por conta própria, até porque sabemos que o estudo acadêmico é uma realidade distante para muitos.

Primeira Parte: Arte

Tarantino Caricatura

Se nós pegarmos a história da crítica cinematográfica, o mais interessante é justamente quando ela se mistura com a própria arte. A crítica isolada de qualquer sensibilidade é entediante, pois ela acaba desperdiçando uma oportunidade bem significativa de adentrar em um mundo de insanidades, onde o texto se transforma na própria arte.

Veja o trecho a seguir:

Ontem a noite estive no Reino das Sombras”. Se vocês pudessem imaginar a estranheza desse mundo! Um mundo sem cores, sem som. Tudo aqui – a terra, a água, e o ar, as árvores, as pessoas -, tudo é feito de um cinza monótono. Raios de sol cinzento num céu cinzento, olhos cinzentos num rosto cinzento, folhas de árvores que são cinzentos como a cinza. Não a vida, mas a sombra da vida. Não o movimento da vida, mas uma espécie de espectro mudo. Tenho de procurar me explicar aqui antes que o leitor creia que fiquei louco ou demasiado condescendente com o simbolismo. Eu estava no Café de Aumont e vi o Cinematógrafo Lumière, as fotografias animadas. Esse espetáculo cria uma impressão tão complexa que duvido que se possa descrever todas as suas nuanças. Todavia, vou tentar transmitir o essencial. Quando as luzes se apagaram na sala em que nos mostram a invenção dos irmãos Lumière, uma grande imagem cinzenta – sombra de uma gravura ruim – aparece de repente na tela; é Une rue de Paris.

Essa é considerada a primeira crítica cinematográfica da história, perceba uma diferença crucial no que diz respeito a subjetividade, o autor Maximo Gorky faz questão de descrever a sua experiência diante ao audiovisual, essa experiência por si só o coloca como um homem navegando em um oceano de emoções, essa própria experiência pode ser traduzida como arte e se sustenta sozinha. O papel da crítica é envolver, seja para o conhecimento ou sensibilidade. Agora, quem define quem é o bom crítico é o público.

Pegamos como outro exemplo a revista Cahiers du Cinéma, quem escrevia sobre cinema eram jovens como Éric Rohmer,Jacques Rivette, Jean-Luc Godard, Claude Chabrol e François Truffaut, que, sob a autoridade do maravilhoso André Bazin, revolucionaram o “pensar cinema”, inclusive todos eles virariam grandes diretores, entrando para a história e representando verdadeiras mudanças na linguagem cinematográfica.

A primeira parte dos nossos estudos é, portanto, uma extensão dessa ideia. Que é preciso ser a arte, respirar a arte e conhece-la para, posteriormente, compreender o cinema; Então indico à todos que querem começar, que volte um pouco, com calma, e pesquise sobre a história da arte.

Leia tudo o que puder, frequente cursos, converse com especialistas, enfim, construa o seu conhecimento sobre a arte e essa necessidade do homem em entregar-se ao registro. Na Arte na pré-história, por exemplo, você poderá fazer um diálogo prazeroso entre a história do desenvolvimento humano e as técnicas que ele utilizava para fazer as pinturas rupestres, mais do que isso, você irá perceber que a arte se misturava com o misticismo o que, curiosamente, sempre discuto nas críticas sobre os filmes que analiso.

Ainda na história da arte, no seu desenvolvimento, é questão de tempo compreender que as diversas culturas e crenças redefiniram o modo de pensar arte. Ainda há os problemas sociais e transformações políticas. Por isso a arte no Egito antigo, arte na idade média, arte bizantina, arte grega, arte gótica, arte renascentista e arte surrealista são de extrema importância para compreender o ser humano.

Livros que eu recomendo:

  • A História da Arte ( 1993 ) – Ernst Gombrich 
  • Tudo Sobre a Arte – Stephen Farthing
  • Arte moderna: do iluminismo aos movimentos contemporâneos – Carlo Argan
  • Isso é Arte? – Will Gomperty

Obs: Os que estão em negrito, são os que eu considero os mais importantes ou aqueles que julgo serem interessantes para começar os estudos.

Segunda parte – Teatro

Marlon Brando

Não existe um bom diretor que não compreenda o trabalho de um ator. A arte da performance dá um tom elegante ao conhecimento cinematográfico pois esse mergulho na criação, através do corpo, pequenos gestos e expressões, é a forma mais incrível de criar a partir do mais simples possível. Todos nós somos cabíveis da encenação, essa arte é intrínseca no ser, a própria mentira é uma fábrica de brincadeiras e o ator utiliza essa maldição em benefício da arte.

Dê atenção a um teórico do teatro chamado Antonin Artaud. Ele foi um sujeito subversivo que divulgou conceitos interessantes onde misturava o teatro com o caos e, ao meu ver, essa é a ideia que sintetiza a atuação.

“A tragédia em cena já não me basta. Quero transportá-la para minha vida. Eu represento totalmente a minha vida. Onde as pessoas procuram criar obras de arte, eu pretendo mostrar o meu espírito. Não concebo uma obra de arte dissociada da vida.” – Antonin Artaud

Livros que eu recomendo:

  • O Teatro e seu Duplo – Antonin Artaud
  • História mundial do teatro – Margot Berthold
  • A Preparação do Ator – Constantin Stanislavski
  • A Construção da Personagem – Constantin Stanislavski
  • Um Ator Invisível – Yoshi Oida
  • A Arte do ator – Jean Jacques Roubine

Terceira parte – Fotografia

Kubrick

Antes de começar os livros especificamente sobre cinema, seria interessante embarcar na história da fotografia e conceitos básicos dessa arte moderna do registro. Mas diferentemente dos anteriores, ainda que eu ache bem interessante a prática do teatro – eu mesmo escrevi duas peças e atuei em uma, como parte dos estudos – no estudo da fotografia o mais importante é não ficar preso somente nas leituras. Pegue a câmera que você tem e saia fotografando freneticamente tudo ao seu redor, depois sente e veja vídeos, procure em sites, assista filmes sobre fotografia, enfim, eu recomendaria também um curso de fotografia, mesmo que seja online, só para você conseguir uma direção em algumas regras básicas.

Mas hoje em dia está muito fácil a informação e existem sites que proporcionam a hospedagem de fotos, portanto, analise com cuidado as composições dos melhores fotógrafos e não se limite a eles, procure em todas fotos os pontos positivos e negativos e, após tudo isso, as suas fotografias ganharão uma nova forma, pois o seu olhar estará treinado.

Recomendação de livros:

  • Tudo Sobre Fotografia – Juliet Hacking e David Campany
  • A Mente do Fotógrafo – Michael Freeman

Filmes relacionados com fotografia:

  • Nascidos em Bordéis – Zana Briski, Ross Kauffman
  • Documentário: The Genius of Photography – David Byrne 

Fotógrafos conceituados que eu recomendo para pesquisas:

  • Henri Cartier-Bresson
  • Sebastião Salgado

Sites e Canais no youtube para aprender mais sobre fotografia:

Quarta parte: Cinema

Steven Spielberg

Chegamos, finalmente, nos estudos específicos sobre cinema. Aqui será diferente pois tem uma infinidade de assuntos e técnicas, existem diversos detalhes que compõe a linguagem cinematográfica e, ainda mais, cada autor introduz temas, às vezes o mesmo, de forma diferente, portanto é preciso ler o máximo possível e, claro, colocar em prática os ensinamentos assistindo os filmes indicados ou simplesmente analisando friamente e relacionando com a pesquisa.

Livros que recomendo sobre teoria de cinema:

  • O Que é Cinema – Jean-Claude Bernadet
  • O Discurso Cinematografico – Ismail Xavier
  • Teorias do Cinema – Andrew Tudor
  • O Cinema ( Ensaios ) – André Bazin
  • O Significante Imaginário – Christian Metz
  • O sentido do filme – Sergei Eisenstein
  • O poder do cinema – Eduardo Geada
  • Num Piscar de Olhos – Walter Murch
  • Meu Último Suspiro – Luis Bunuel
  • Estética do Filme – Jacques Aumont
  • Espelho Partido – Silvio Da-Rin
  • Compreender o cinema – Antonio Costa
  • Como Ver um Filme – Ana Maria Bahiana
  • Como Assistir um Filme – Nildo Viana
  • Como a Geração Sexo-Drogas-e-Rock’n’Roll Salvou Hollywood – Peter Biskind
  • As Teorias dos Cineastas – Jacques Aumont
  • As Principais Teorias do Cinema – J. Dudley Andrew
  • A Linguagem Secreta do Cinema – Jean-Claude Carriere
  • A Hipótese Cinema – Alain Bergala
  • A forma do filme – Sergei Eisenstein
  • A Experiencia do Cinema – Ismail Xavier
  • Fazendo Filmes – Fazendo Filmes
  • A Linguagem Cinematográfica – Marcel Martin

Roteiro:

  • Syd Field – Manual do Roteiro
  • Roteiro de Cinema e Televisao – Flavio de Campos

Cinema digital:

  • Cinema Digital – Luiz Gonzaga Assis de Luca

Som:

  • O Som e o Sentido – Jose Miguel Wisnik

 

Produção:

  • O Cinema e a Produção – Chris Rodrigues
  •  Nos Bastidores da Pixar – Bill Capodagli

 

Montagem:

Cinema e montagem – Eduardo Leone

História do cinema:

História do Cinema Mundial – Fernando Mascarello

O cinema no século – Paulo Emilio Sales Gomes

Fotografia:

Antropologia e Imagem – Andrea Barbosa

50 anos luz, câmera e ação – Edgar Moura

Cinema Nacional:

O Cinema Brasileiro Moderno – Ismail Xavier

Historiografia clássica do cinema brasileiro – Jean-Claude Bernardet

Nada disso funcionaria sem o principal: assistir muitos filmes. Estudar cinema é uma jornada sem fim, é preciso dedicar-se as pesquisas e não ficar parado apenas em um país ou uma forma de se pensar cinema.

Há muitos sites de cinema no Brasil, mas poucos que realmente é possível aprender alguma coisa. É muito fácil ficar estagnado apenas em filmes de super-heróis e se auto-intitular como especialista, é preciso sempre ir além e tratar o assunto com muita seriedade pois, sem dúvida alguma, o audiovisual é instrumento para a evolução individual.

É óbvio que é possível atingir um conhecimento extremamente elevado apenas assistindo filmes, mas esse artigo é direcionado aqueles que desejam embasamento para esse vício/amor.

Para finalizar, escolhi alguns países e selecionei três diretores de cada um. Usei critérios diversos, principalmente ligado com o meu gosto pessoal. Porém tentei sempre mesclar uns nomes recentes com os mais antigos. Sugiro que você procure a filmografia desses diretores e, após concluir os seus estudos, me diga se não enriqueceu o seu olhar cinematográfico aqui nos comentários, por e-mail, enfim.

Brasil:

  • Walter Hugo Khouri
  • Mario Peixoto
  • Eduardo Coutinho

Irã:

  • Abbas Kiarostami
  • Majid Majidi
  • Mohsen Makhmalbaf

Japão:

  • Akira Kurosawa
  • Nagisa Ōshima
  • Shunji Iwai

Coréia do Sul:

  • Kim Ki-duk
  • Park Chan-wook
  • Joon-Ho Bong

China:

  • Zhang Yimou
  • Kar Wai Wong
  • Lou Ye

Polônia:

  • Dorota Kedzierzawska
  • Jerzy Kawalerowicz
  • Krzysztof Kieślowski

Estados Unidos:

  • Paul Thomas Anderson
  • Woody Allen
  • John Cassavetes

Suécia:

  • Ingmar Bergman
  • Lukas Moodysson
  • Victor Sjöström

Itália:

  • Vittorio De Sica
  • Dario Argento
  • Lucio Fulci

Grécia:

  • Yorgos Lanthimos
  • Theo Angelopoulos
  • Michael Cacoyannis

Espanha:

  • Pedro Almodóvar
  • Luis Buñuel
  • Fernando Arrabal

França:

  • François Truffaut
  • Éric Rohmer
  • Gaspar Noé

Bônus: Podcasts e blogs para quem quer aprender mais sobre cinema:

Podcasts:

Blogs de cinema:

E, claro, recomendo fortemente o podcast e site [Cronologia do Acaso], voltado exclusivamente para o cinema alternativo!

É isso, aproveitem esse artigo e ajude com a sua opinião nos comentários. Sugere um livro? Diretor? Mande-nos e, juntos, ajudaremos muitas pessoas que querem estudar cinema por conta própria!

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Atividade Paranormal – Quando uma boa ideia se transforma em fracasso

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Desde a estréia do primeiro “Atividade Paranormal”, em 2009, ficou claro que a excelente ideia poderia render não só elogios da crítica – como houve, apesar de bem menos do que o esperado – como também ser um excelente negócio, pois se tratava de uma filmagem caseira, feita de forma super simples. Mas, apesar de ter se tornado um dos filmes mais lucrativos da história do cinema, a série de filmes que viriam a seguir, todas pautadas na mesma ideia genial do primeiro, cansaram o público. A sensação é de que nenhum deles cumpre o que promete, por que isso acontece, afinal?

Antes de mais nada, tenho que deixar claro que se você procura uma crítica, resenha ou artigo analisando todos os filmes, procure em outro lugar. Eu não seria capaz de explorar um por um pois não assisti a todos, os que eu vi foram nos respectivos anos de estréia e, principalmente, por serem todos muito parecidos, parece que assisti a um só grande e péssimo filme.

Recentemente fui assistir o quarto filme, vulgo “Atividade Paranormal 4” e me frustei com a repetição de conceitos já vistos milhões de vezes antes. Na verdade, como tenho tendências ao masoquismo – brincadeira -, já sabia que não iria valer a pena o tempo perdido. Mas lá foi o Emerson tentar compreender qual o grande erro de todos os filmes do “Atividade…”.

É preciso lembrar-me, entes, de 2009, quando recebi as primeiras notícias sobre o filme. Fiquei apaixonado pela ideia, é fascinante essa proposta de invadir a privacidade e, mais do que isso, quebrar a segurança. Quando pensamos no sobrenatural ( aqui me refiro à espíritos, aparições, demônios etc. ) é questão de tempo relacionarmos com o nosso lar. As maiorias das experiências paranormais acontecem em uma casa, não no meio da rua. Isso acontece pois somos movidos por esse instinto de proteção, o próprio medo do escuro parte de uma impulsão selvagem onde nossos ancestrais precisavam ficar extremamente atentos à noite para não serem mortos por outros predadores.

Existe também a privacidade, ela funciona como uma máscara, com ela podemos ser o que quisermos. Dentro de casa nos sentimos confortáveis, infinitos e poderosos, porém o medo, essa sensação importantíssima e complexa, teima em acreditar que existem espaços entre os mundos e que, qualquer coisa que não possa ser explicada em trinta segundos, é possivelmente uma obra do sobrenatural.

Significado de ‘sobrenatural’:

Miraculoso; só conhecido pela experiência da fé.
[Figurado] Sobre-humano; que não se consegue alcançar, atingir naturalmente: esforço sobrenatural às questões humanitárias.
[Por Extensão] Extranatural; que vai além do natural, do comum: forças sobrenaturais. [Figurado] Excessivo; exageradamente grande: trabalho sobrenatural.

Já perceberam o quanto o lençol nos protege do medo, da sensação de desprotegidos etc? Muitos irão se identificar essa pequena história: uma menina sentiu seus pés descobertos, uma sensação estranha lhe surgiu, ela rapidamente os cobriu e olhou ao redor, mas tudo estava estranhamente normal em seu quarto escuro.

Então quando eu entendi a ideia do “Atividade Paranormal” – uma pessoa sente que na sua casa está acontecendo coisas estranhas e decide se filmar durante à noite – eu me senti extremamente feliz e confiante que se trataria de um verdadeiro truque para envolver diversos dilemas e brincar com essa sensação de vulnerabilidade.

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Mas o diretor Oren Peli não faz nada! Claro, todos sabemos os recursos limitados pelo próprio formato, mas isso não o impedia de inovar. O que pode ser visto e vemos até hoje, nos novos infinitos filmes que saem todos os anos, é a mesma tentativa de assustar com detalhes triviais.

A boa ideia, que coloquei no início, faz alusão à imaginação do espectador, – já é sabido que antes do lançamento dos Atividades Paranormais a produtora faz sessões de teste para filmar as reações, essas reações quase sempre são tão exageradas que eu só consigo pensar que todos ali possuem uma imaginação tão grande e poderosa que faz com que embarquem nessa ideia de invasão e insegurança, que desenvolvi ao longo do artigo – pois essa mesma ideia jamais foi verdadeira, ela foi, desde o princípio, colocada atrás de uma tentativa desesperada de fazer um bom negócio. Atividade Paranormal, todos os filmes, é a prova real de como a arte pode ser sacrificada em prol aos inúmeros interesses.

Uma proposta interessante que se tornou monótona e cansativa, resta-nos tentar imaginar também. Mas, confesso, se alguém filmar a minha reação assistindo esses filmes, certamente iriam ficar muito zangados com a minha expressão de tédio.

Obs: Após assistir ao primeiro filme, no cinema em 2009, voltei para casa determinado a me filmar durante uma noite inteira. Infelizmente nada aconteceu. Quem sabe isso vire um filme um dia?

emersontlima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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