Charles Chaplin – Entre as lágrimas e o Sorriso

Sonhador, abusado, explorador, independente, gênio, melancólico, palhaço, amante, mulher, garoto, pobre, rico, mendigo… Por ai vai, por tudo foi. Ao tentar analisar a carreira do grandiosíssimo Sir Charles Spencer Chaplin nos deparamos com a máxima de que “um ponto de vista é a vista de um ponto”. Muitos ainda tentam confundir-nos, banalizando a linha tênue e significativa que separa a personalidade da sua criação, sua arte. E, esse homem, que lutou contra todos os outros homens, era um artista, do qual a sua própria genialidade não é digna do mundo do qual ele pisou. O mundo não era – e é – digno de o ter como lar, mas nós somos dignos – devemos ser – de resgatar a mensagem principal que ele nos deixou: Sorrir é o melhor remédio. Mesmo quando o medicamento seja para retardar uma doença incurável.
Incurável é a dor que sinto com seus filmes. Suas obras, seus espetáculos. E realmente são. A atuação é estruturada por duas entidades místicas, conhecidas como: Drama e humor. O que Chaplin faz é elevar o respeito e equilíbrio pelas duas. Nunca as abandonando, nem mesmo quando finge o fazer. Ele era perfeccionista. O seu cinema era perfeito, sabe o motivo? ambos nasceram juntos, portanto o entendia mais do que ninguém.
O cinema começa e, por não existir a voz, a dinamização da nova tecnologia é possível. O mundo inteiro poderia ver uma história sem nenhuma barreira. Como se aquela fosse uma oportunidade real de unificação de ideias, pois, nesse berço, ainda não se pensava em cinema como arte. Entretenimento desconhecido que instigava a curiosidade. Essa etapa do cinema é uma fase tão enigmática que transcende as barreiras da realidade. Cria da fotografia, uma nova forma de exercício intelectual se iniciava, quase que uma teia de desenvolvimentos artísticos. A atuação deveria encaixar nas possibilidades da época, o humor deveria ser ao extremo para segurar a atenção, as histórias tinham que ser curtas. Mas o que raios era aquilo? Qual era o objetivo?
Eu passei longos cinco anos pesquisando o trabalho do Chaplin, não quero aqui ser didático, por mais que em uma outra oportunidade pretendo ser, queria só expor o quanto esse ser humano representou para uma desconhecida oportunidade. Tamanha sua curiosidade, foi desbravando os meios, criando suas piadas – inspirando-se pelas experiências com a mãe e o pai alcoólatra – até que chega um momento do desprendimento, onde esse cara vai fazer a sua obra. Eu fico fascinado com o ataque de oportunismo, o poder desse visionário de dar a cara a tapa para fazer diferente, extrair um conteúdo que já vinha fazendo, mas de uma forma completamente diferente. Ele estava pensando nas pessoas? Ele estava pensando que iria mudar o mundo? Não! Ele queria crescer profissionalmente, mas tudo o que tocava virara flores, pois, como percebemos, Chaplin era dedicado/diferenciado, disposto a entregar um pensamento subversivo sobre o que, realmente, é “sentir”. Sua vida não fora anormal até então, menino abandonado pela vida, criado atrás das cortinas dos teatros, esperto, pobre… Ele soube aproveitar um pouco do tudo que passou e criou um pouco de todos que existe no mundo.
Vagabundo
O seu personagem, imortalizado, é extremamente cordial. As adversidades que passa não são sentidas no seu comportamento. Ele não trata diferente, é sempre o mesmo. Delicado, sensível, apaixonado e cavalheiro, um conquistador. Parece estranho, não é? Se sentir apaixonado por um vagabundo. Sua doce arte nos ensina que, ser vagabundo, não o tira a possibilidade de ter esperança nas pessoas. É claro que ele tem muitos envolvimentos com mulheres, mas por que ele desperta o interesse nelas, me parece que tanto homem, quanto as mulheres recebem o mesmo tratamento do nosso querido vagabundo. Ele é um palhaço que vaga, não procurando um lar, procurando compartilhar a sua inocência. Encantando e sendo encantado. Oras com seu humor incomparável, oras com sua tristeza costumeira. Independente, faz-nos amar estar triste para, só assim, sorrir. O sorriso se transforma em conquista árdua, diante a crueldade dos homens que ainda não aprenderam a amar. Chaplin nos diz que um dia irão, não a massa, mas o indivíduo sim.
A sua roupa demonstra que ele não precisa de muito para ser elegante. Basta um chapéu coco e uma bengala para ser lindo, basta ser, basta o olhar, basta o sorriso tímido ao fim de Luzes da Cidade, basta ser o bastante. O vagabundo é um ícone, uma ideologia. Uma lembrança de que existe muita gente por ai querendo gritar ao mundo que muita coisa está errada. Só de pensar eu fico sufocado. Se uma criança está jogada no meio da rua, o vagabundo olha para cima como se quisesse dizer “Não pode ser, de novo?”. Gente, preste atenção no que vou dizer, sinta-me, essa é uma cena de um filme de 1921! Estamos em 2014, situações cada vez piores acontecem e há noventa e três anos atrás um homem gritava por socorro. Através do humor, mas com muito drama, muita verdade.
Um garoto-pai
Caminhando, só, pelas ruas
Se sente infeliz quando olha para o céu
Estão caindo anjos agora? – ele pensa
Anjos com asas quebradas, 
à procura de ajuda da verdade,
Existir e ser pai como deve,
Sem a hipocrisia do nascer,
Buscando no choro a sua canção mais doce.
No cobertor rasgado, a sua melhor proteção.
Não deixe que isso acabe papai,
Um dia fui anjo, 
Hoje te entreguei minhas asas.
Quebraremos vidros da ousadia,
Sentados pelas calçadas perdidas, 
Nas florestas de nossos corações solitários.
Sigamos em frente. 
– Escrevi quando tinha 13 anos, logo após assistir “O Garoto” pela primeira vez.
Charles Chaplin está sempre relacionado nas listas infinitas de homens que mudaram a história do mundo, gênios etc. Não vejo muitos conhecendo-o, de fato. Muitos conhecem a sua criação, a figura, mas poucos o nobre senhor por trás dela. Até para ter o mínimo de consciência sobre qual é o limite da sepração entre a vida pessoal e profissional, principalmente relacionando-o com a arte audiovisual, que serve como um apanhado de várias outras artes, trabalhando em conjunto. Estou repetindo tanto sobre a personalidade do Chaplin pois, como se imagina, era muito forte. Essa força para a composição, tanto de músicas como personagens e contextos, surgem de uma pessoa extremamente misteriosa. Um intelectual da entrega, da mulher.
O garoto fala, também, sobre ser pai, então a identificação foi imediata, essa postura dele, esse carinho, mesmo sem ter nada para oferecer ao garoto, sempre me fisgou, de alguma maneiro. Vou até me corrigir, ele tinha muito para oferecer, uma verdadeira boa vida. O tudo do pouco. Comparo a situação social dos seus filmes com a própria felicidade. Você não é feliz, você está feliz. Felicidade não nasce junto com as pessoas, ela vem, mediado por situações de momentos, ela pode, inclusive, acabar no dia seguinte. E é isso, Chaplin, o vagabundo, é indiferente a felicidade, ele renuncia essa benção para nos mostrar que não temos que ser felizes, temos que saber aproveitar a felicidade. E essa mensagem maquiagem nenhuma esconde.
A vida se torna muito simples com o Charles Chaplin. Qualquer coisa vira piada, dentro do grande drama que contextualiza os seus personagens sem lugar. Mas não pense que não ter lugar é algo ruim, é provado em seus filmes que existe lar em qualquer lugar. Mas o vagabundo não pode parar nos lugares que passa, por mais que doa o coração partir. Ele está sempre em busca de novas oportunidades, novas experiências, para preencher a sua eterna esperança de amar perdidamente.
Obs: Texto originalmente publicado em 10 de julho de 2014

emersontlima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

More Posts - Website

Follow Me:
TwitterFacebookGoogle PlusFlickrYouTube

Siren X (2008)

 Adorável lado B do cinema, aqueles filmes que, sem dúvida nenhuma, Tarantino assistia lá na locadora. Esses filmes são os meus pipocas, a minha diversão é garantida com um bom sexploitation, trash, gore etc. Sinto-me feliz e emocionado, uma emoção tão grande que tremo e sinto vontade de tirar as calças. Extasiado com o grotesco, horror cretino e sujo, viva o cinema podre!
Trouxe um filme interessante hoje, parte de um subgênero japonês chamado “Pinku Eiga” ou traduzido “filme cor de rosa”, que é uma adoração a mulher. A mulher como personagem principal. Mas não é comédia romântica ou nada do tipo, estamos falando aqui de sexo. O sexo como o real propósito de uma histórinha bobinha. Existiam, então, assim como o sexploitation, as musas do Pinku como a lindíssima e talentosa Reiko Ike que tem em seu currículo obra como “Sex and Fury”, cujo destaque se encontra em uma cena onde ela está tomando banho em uma banheira, sua casa é invadida por capangas malvados e, sem roupa, ela sai para lutar pelo seu destino. Isso tudo na neve e, minha nossa, que coisa linda. Mais tarde Tarantino copiaria visualmente isso na luta final de Kill Bill vol. 1. Enfim, “Sex and Fury” tem a eterna ninfeta Lindberg ( já falei sobre ela lembra? Clique aqui ) e você, caro(a) amigo(a), precisa urgentemente ver essa pérola do cinema!
 Continuando, assim como tudo na vida, esses filmes influenciaram muito a indústria, mesmo com suas bizarrices, primeiro porque muitos puderam se masturbar diante aos espetáculos em forma de atrizes despidas – quer mais importância que isso? – segundo porque… mulheres!
Esse subgênero, nos anos 60, permanecia marginalizado e, com os respectivos sucessos, como filmes como “Daydream” de 1964, nos anos 70 as grandes indústrias passaram a aderir o formato para si, resultando em outros excelentes e divertidos filmes.
O que vou citar aqui é diferente, por dois motivos, ele é recente, 2008, e é um filme de terror. Geralmente esses filmes não se preocupavam tanto com a história que ligava o sexo, nesse temos, sim, uma boa história. Há exageros, filmagens grotescas, personagens estúpidos e atuações fracas, mas no todo consegue ser muito interessante e, ainda por cima, prende a atenção.

Yôjo densetsu Seirên X: Mashô no yûwaku ou, simplesmente, Siren X nos mostra um grupo de jovens realizadores que vão para uma pequena ilha afim de fazer uma paródia desses programinhas de terror, com entrevistas e caça ao monstro/mistérios, só que, claro, com o intuito de cair no sexo depois. Então temos a atriz que faz o papel da repórter, por exemplo, que está com uma mini-saia e sempre teremos, enquanto ela desbrava o local “mal assombrado”, filmagens da sua calcinha, enfim, o filme usa esse tipo de erotismo. Cai uma chuva e eles vão se abrigar aonde? Na primeira casa com aparência diabólica que eles encontram, claro.
Do nada a porta abre, são recebidos por uma mulher lindíssima e estranha. Depois de bons tratos e o oferecimento de uma estadia, eles descobrem que ela é uma devoradora de homens. Curioso é como ela faz isso, ela transa com os caras, tipo o maior sexo da vida deles, até eles gozarem – e, na minha opinião, aquele gozo não é normal, visto que em uns saem pela boca, outros cortam a garganta etc – e depois ela bebe todo o esperma, quase como sugando a alma deles por meio desse ato vampiresco até, eu diria. Temos aquela velha história, os amigos percebem a verdade, começa a fugir e, pensando estarem a salvos na cidade, a tal moça começa a aparecer em sonhos, fazendo com que eles fiquem obcecado pelo monstro no corpo de uma linda asiática e, confesso, bota linda nisso. Belos seios. O que estava falando mesmo?! Só me vem a cabeça seios agora…. espera….
As alucinações que acontecem são as melhores coisas do filme, ainda tem umas brincadeiras do que é verdade e o que não é, um dos amigos está fazendo sexo com sua namorada, imagina a tal moça e, quando percebe que não é ela, ele mata a namorada, enfim, depois os dois amigos retornam para a mansão afim de fazer o sexo de suas vidas e, consecutivamente, morrer, sufocados pelo seu próprio gozo. Realmente, um filme divertidíssimo, interessante, muito bem realizado para o que se propõe, mistura muito bem o terror e cenas de sexo, enfim, gostei bastante mesmo.
Obs: Texto originalmente publicado em 15 de fevereiro de 2015

emersontlima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

More Posts - Website

Follow Me:
TwitterFacebookGoogle PlusFlickrYouTube

Os zumbis bêbados de vinhos do Jean Rollin

Nessa resenha, inicio uma coluna que há tempos tencionava fazer. O Cine Underground chega para retomar minhas pesquisas (cof, cof, cof) do mundo B do cinema, aqueles filmes perdidos, antigos, toscos, de baixo orçamento, sexploitations, eróticos, de artes marciais, com zumbis, ninjas, entre outras pérolas.

“Les Raisins de la Mort!” ou “As Uvas da Morte”, o filme que trago para a estréia da coluna não poderia ser de outro, senão um dirigido por um dos maiores nomes do terror B da França: Jean Michel Rollin Le Gentil, mais conhecido como Jean Rollin!

Desde novo apaixonado por cinema, tem como característica o domínio grande da técnica cinematográfica, principalmente pelo fato de suas obras na maioria serem de baixo orçamento. A criatividade do argumento e genialidade em trabalhar o obscuro mesmo com tamanha simplicidade são pontos que fazem o seu trabalho ser espetacular. Tirando os conceitos profundos, é válido ainda acrescentar que seus trabalhos vivenciam suas protagonistas de uma maneira ímpar, sempre acompanhado de belas mulheres, não só a nudez está presente como também uma significante exaltação do feminino. Em “Fascinação” (1979) é possível visualizar exatamente essa afirmação, visto que um personagem masculino é tratado como ignorante perante uma imensidão de segredos de duas mulheres que moram sozinhas em uma mansão. Além do mais, ocorre um jogo psicológico, onde o intruso se transforma em um alimento e a perversão é tanta que, antes das mulheres devorá-lo, brincam com sua fraqueza e corpo.

Lançado um ano antes, “As Uvas da Morte” (1978) não pode ser considerado um dos melhores do diretor, no entanto é divertido e tem doses certas de desconforto. Graficamente o filme é interessante pois possui cenas gore – a maquiagem é muito boa por sinal – mas sua força se encontra justamente na protagonista que, se a interpretarmos com cuidado, se vê sozinha, perdida e tonta em meio a um caos que nasce do súbito.

O filme começa com Élisabeth e sua amiga viajando de trem. Ela está indo de encontro ao namorado, no interior da França, e, saberemos posteriormente, que ele está diretamente relacionado com uma epidemia zumbi que se alastrou por um pequeno povoado. Um pesticida experimental espalhado em videiras está transformando as pessoas em monstros assassinos. Sim! Todo mundo que bebe vinho, começa a apodrecer.

A protagonista é frágil e isso é perceptível desde o primeiro momento. Interpretada pela atriz Marie-Georges Pascal – extremamente bonita, inclusive – sua posição no filme é se deparar com diversos eventos horríveis e não ter tempo para pensar.

As duas imagens acima sintetizam a apresentação da protagonista: ela olha preocupada, aparentemente sem motivo, para o além e antevê o medo. O trem vazio dá ainda mais proporções para o desconforto e o trabalho com os reflexos indicam que ela precisará se fragmentar para aguentar os eventos que acontecerão.

A descida da Élisabeth do trem ilustra a perfeita divisão entre a garotinha que teme a sugestão e a mulher que, mesmo que com atitudes duvidosas, se depara com a morte. As fatalidades são muito rápidas, personagens surgem de forma abrupta e, do mesmo modo, se vão – característica que acompanha os roteiros do diretor, inclusive -, tudo isso é muito estranho mas, para a surpresa de muitos, Rollin consegue se equilibrar entre o pavor e o cômico sem se render ao trash.

O ritmo lento incomoda pois conflita com a urgência das ações, mas nada irrecuperável. Existe também uma nebulosidade quanto o comportamento dos zumbis, uns são conscientes, outros não, outros são assassinos, outros simplesmente seguem um líder zumbi. A transformação, como era de se esperar, é bem simples, umas gosmas no rosto ou corpo, muito pus e sangue também.

No segundo ato ainda tem a participação da atriz pornô, e musa do Jean Rollin, Brigitte Lahaie. Ela fez diversos trabalhos com ele, incluindo o já citado “Fascinação” (1979). Aqui sua personagem é interessante, se esconde na casa do prefeito morto da pequena cidade e se vangloria pela segurança que o conforto exala. Mas a mulher não sabe que o vinho é causador dos males e acaba mudando de lado.

“Uvas da Morte” (1978) zomba da situação com seriedade, com os seus zumbis bêbados de vinhos caminhando em direção à lugar nenhum, matando geral e uma menina apaixonada no meio de tudo isso só esperando a hora de acabar. É um dos mais divertidos do diretor e, mesmo em meio às piadas, é possível sentir a energia hipnotizante que só Jean Rollin sabe provocar.

emersontlima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

More Posts - Website

Follow Me:
TwitterFacebookGoogle PlusFlickrYouTube

A mítica do artesão e obra: A realidade transmutada na obra de Oson Welles.

Os filmes do diretor Orson Welles evocam sentimentos de reminiscências nas formas fílmicas de desconstruções e reconstruções, não só da condição humana, mas do universo cinematográfico. O símbolo de construção aparece na transmutação diegética de um passado no qual artista/personagens desenvolvem suas técnicas elevando-a ao máximo em função de seus objetivos, seus personagens estão sempre em busca de grandiosidade, reinos,conglomerados midiáticos, estão constantemente construindo impérios baseados em fundações sensíveis, cobertas de transparentes véus, onde a fusão é sobreposta, e por que não imposta por seus gênios na busca desenfreada de poder, exposição desse poder, e por que não, fragilidade. Na condição de artista, o diretor estabelece o conceito de sobreposição na idéia de profundidade de campo dominando o espaço fílmico em Cidadão Kane por exemplo, filme que sintetiza e transcende todo o Cinema estabelecido até então.

Ouso destacar que a profundidade de campo acompanha uma  ideia de  profundidade labiríntica da mente de seus personagens, elemento já explorado em Cidadão Kane, porém, vertiginosamente decomposta em Mr.Arkadin e Soberba, característica que a posteriori é a chave para entender ambiguidade humana dos personagens em seus filmes noir A Dama de Xangai e A Marca da Maldade. O exemplo da mescla definitiva desses elementos acima citados estruturarão  fortemente suas adaptações shakesperianas na transposição para o cinema, como é o caso de Macbeth e Othello, explicitado ainda por um aspecto constante da mis-en-scene alegórica mesclada à profundidade de campo, elevando assim metafisicamente o teor de sua narrativa, ultrapassando essa própria condição humana de inevitabilidade.

Fato, que o diretor ao abarcar todos os aspectos da produção cinematográfica, dirigindo, atuando, produzindo, ultrapassa a própria diretriz de ser do Cinema. Em sua obra sobressaltam pontos de sua genialidade e fragilidade, aspectos inerentes ao universo extra-filmico que é produto e vitrine, onde o diretor explora a sedução da ideia de dominar o fazer cinematográfico, explorando seus autômatos centrifugamente diegéticos, onde Welles como ator muitas vezes é a própria ideia travestida na pele dos personagens que o diretor protagoniza..

Neylan

Um estudante e produtor de cinema constantemente em busca do Sonho Lúcido. Hello Stranger.

More Posts

Follow Me:
Facebook

Stanislavski e a Preparação do Ator

A palavra teatro (théatron) deriva dos verbos gregos “ver, enxergar” e significa lugar de onde se vê. A grande afirmação para essa questão é: não existe um só lugar que não enxergamos a vida acontecer diante dos nossos olhos. Como tal, o teatro funciona como um reflexo da realidade, movimentos cautelosos ou violentos criados a partir da ânsia do homem em se imortalizar. A expressão corporal e vocal exala uma propriedade mística, por isso desde o começo do teatro – cuja origem segue sem explicação – ele está estritamente ligado com rituais para o divino.

Quem sabe a teatralidade tenha começado na pré-história, talvez com algum homem imitando os animais, brincando, não sei. A única coisa que tenho certeza é que o homem existe e, por isso, modifica o meio e sua própria vida para seguir sobrevivendo; é isso que fazemos, reinterpretamos constantemente tudo e duplicamos nossa própria vida em busca de outras experiências. Não seria exatamente essa a maior dor que existe? as infinitas possibilidades desperdiçadas, os caminhos misteriosos do “e se?”.

Nesse artigo irei analisar alguns aspectos importantes da preparação do ator em base ao livro A Preparação do Ator de Constantin Stanislavski. Clássico literário que serve como essência para a formação de atores e cuja importância histórica é gigantesca. A título de curiosidade, Charles Chaplin citou uma vez o livro e o analisou como excelente não só para os interessados em atuar, como para a vida. Em base a essa frase, pode ter certeza que o livro te ajudará a aplicar alguns conceitos teatrais nos seus projetos, seja eles no audiovisual, teatro ou em qualquer área profissional, artística ou não.

Constantin Stanislavski nasceu na cidade de Moscou em 5 de Janeiro de 1863 e desde cedo teve contato diretos com a arte. Inclusive na sua casa ajudava na manutenção de um pequeno teatro, onde haviam apresentações para algumas pessoas da sua família. O mesmo local era um abrigo eventual para grandes intelectuais da época.

Com 25 anos ele fundou junto com algumas pessoas a Sociedade Literária de Moscou visava discutir sobre a arte performática. Com o passar do tempo, mesmo com o relativo sucesso, ele não consegue mais sustentar esse grupo, pois todos os custos saiam do bolso deles e o negócio se tornou inviável.

Mas o milagre artístico aconteceria mesmo 10 anos depois, quando após diversas correspondências dele com o Vladímir Dântchenco, os dois resolveram se encontrar e desse encontro surge a ideia de criar o Teatro de arte de Moscou. E esse foi o princípio da mudança do teatro mundial, pois os dois mestres intelectuais discutiam e inventavam a cada dia métodos teatrais que resgatavam a visceralidade performática que estava sendo esquecida na época. Essa contribuição foi e é impactante, pois quebrou o conservadorismo e deu um pontapé na liberdade de expressão, cujos movimentos no palco deveriam ser pautados na realidade e não no exagero, ou como o próprio Stanislavski cita bastante… “atuação mecânica”.

Atuação mecânica, resumidamente, seria aquela postura do ator em exagerar os seus movimentos de forma a caracterizar uma interpretação, o ator se exibindo como ator. Em síntese, o teatro busca a realidade na sua mentira, por isso há pluralidade e possibilidades infinitas quando pensamos em escolha de elenco. O diretor deve escolher o ator e ele, por sua vez, deve sentir o seu personagem. Caminhar com ele e entendê-lo – sobre qualquer circunstância – até mesmo no camarim ou nos intervalos de cena.

Sobre isso, há uma passagem interessante no livro:

“Lembrem-se disso: todos os nossos atos, até mesmo os mais simples, que nos são de tal modo familiares na vida cotidiana, tornam-se forçados quando surgimos atrás da ribalta, perante um público de mil pessoas. Por isso é que temos que nos corrigir e aprender a andar novamente, a nos mover de um lugar para o outro, a sentar ou deitar. É essencial nos reeducarmos para olhar e ver no palco, para escutar e ouvir”.

Qualquer pessoa que já atuou sabe o quão impactante e verdadeiro é esse trecho. Um levantar de braços durante uma apresentação parece que dura uma eternidade, como se pequenos detalhes fossem difíceis de realizar. Claro, a insegurança é quebrada conforme as repetições e ensaios, no entanto, no sentido filosófico, nenhuma ação enquanto apresentação é simples. Quando o ser humano se torna o centro das atenções e expectativas, não existe meio termo: ou ele se sente poderoso demais ou de súbito percebe a sua pequenice. Pessoalmente, sinto que o trabalho constante do ator é encontrar o meio termo entre esses dois extremos.

Stanislavski dizia também que o ator deve ser um intelectual, se interessar por áreas diferentes e observar o que acontece diariamente ao seu redor. Isso porque precisa absorver os detalhes do cotidiano de forma a compor as suas personagens. Essa ideia parece óbvia hoje, mas imagina na época? os seus métodos tecnicistas envolvem uma série de conhecimentos, que vão desde a medicina, alongamentos, passando pela psicologia, meditações, enfim, os seus escritos demonstram um alto domínio de tudo que envolve a construção da arte teatral.

A sua escrita é inteligente pois mistura a ficção de modo a estruturar com mais força os seus métodos. A sua proposta é fragmentar o papel do ator e transformá-lo em um equilíbrio ambulante, para que ele consiga buscar em si exatamente os conceitos que unem a atenção, desprendimento e espiritualidade. O ator precisa ser curioso ao ponto de perceber nuances da voz e interrogar aquilo que não compreende; ter coragem para se jogar no palco e não se interessar pelas consequências mas sim pelo sentimento do momento em relação à entrega total, fisica e psicologicamente;

Em um artigo que expliquei como e por onde começar a estudar cinema, enfatizei a importância de estudar separadamente a história e métodos do teatro – inclusive um dos livros que recomendei é justamente A Preparação do Ator.

Analisar a atuação no cinema é mais complicado pois existem centenas de ferramentas artísticas que manipulam a performance, mas aos cinéfilos e estudiosos do cinema, é interessante a leitura do Stanislavski justamente para entender a dificuldade do bom ator em reunir uma série de informações e as carregar consigo enquanto tenta se manter em equilíbrio entre a sua verdade e a criação de uma nova vida que, porque não, será moldada a partir de uma mesma essência.

Stanislavski, assim como outros pensadores, contribuiu para o pensamento crítico da arte mais pura de todas. Ele elaborou uma série de sequências didáticas, popularmente conhecidos como “sistema Stanislavki”, que assumem uma importância histórica enorme pois dialoga com outras áreas do conhecimento humano. As técnicas, nas palavras dele, “não fabricam a inspiração, mas criam um terreno favorável pra ela.”

emersontlima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

More Posts - Website

Follow Me:
TwitterFacebookGoogle PlusFlickrYouTube

Anticristo (2009)

O homem é uma semente rebelde da natureza

O prólogo de Anticristo (2009) está repleto de informações e é a única sequência do filme que é maravilhosamente delicada – e tal afirmação pode ser entendida de forma monstruosa, dado o contexto do início. Charlotte Gainsbourg interpreta “Ela” e Willem Dafoe faz “Ele” – e é dessa maneira que irei me referir aos personagens ao longo do texto. Em pleno orgasmo não existe mãe ou pai, somente duas vidas tentando encontrar o prazer em uma energia simbiótica cujos movimentos são conhecidos popularmente como “sexo”. E é isso que o ser humano faz, ele busca prazeres, até mesmo na estagnação.

O filme para mim, é importante ressaltar desde o início, conversa com o espectador e suas dores sobre o estado puro do homem, o qual remete diretamente para a origem da vida e do pecado. O homem primata possuía o mundo como palco, mas estava repleto de limitações territoriais. A noite era representação do perigo, as caças eram sinônimo de poder e a conversação com as divindades eram feitas através da arte rupestre. De imediato percebemos a conexão infinita da humanidade com a natureza e a tentativa frustada de sobreviver nela.

Resta ao ser somente o prazer. Estar presente sem propósito é sufocante, por isso que é importante sentir a felicidade, mesmo que ela se origine de uma ilusão. E é isso que o homem sempre buscou, inclusive na modernidade. Buscamos a felicidade, mesmo as que duram apenas alguns segundos, tudo isso porque não aguentamos a realidade despida.

“Ele” e “Ela”, em Anticristo, representam toda a humanidade que luta contra a natureza no momento que padroniza a sua existência. Criando laços afetivos e se acomodando como conforto. “Ela” é a primeira a se desprender dessa realidade inevitável, ao passo que goza. O gozo traz consigo a dor da vida e morte e o ciclo se repete infinitas vezes. O prazer, que outrora era personificação do homem individual e egoísta, cria novas oportunidades e seres, todos fadados à enfrentarem a mesma maldição e benção de existir.

A cena do prólogo é envolta de uma música gregoriana chamada “Rinaldo, lascia ch’io pianga”, cuja letra é bem significativa para o entendimento do filme:

“Deixe que eu chore minha sorte cruel, que eu suspire pela liberdade. A dor quebra estas cadeias de meus martírios, só por piedade!”

O slow motion traz a beleza visual de movimentos simples e catastróficos, no mesmo tempo que diferencia aquele instante dos infinitos outros que se passarão a seguir na vida do casal. Enquanto fazem sexo, o filho cai da janela e encontra o seu fim. A apresentação do trágico não poderia ser mais claro, o vento que abre a janela (portal da morte e desesperança) é quase perceptível, a câmera focaliza três soldados em cima da mesa, todos juntos trazem a seguinte mensagem: Dor, tristeza, desespero”. E é exatamente esses três sentimentos que estarão presentes ao longo de uma hora e quarenta e oito minutos. 

A tristeza invade os protagonistas e, por consequência, o espectador. “Ela” é a que mais sente o falecimento do filho, principalmente pela culpa. Na verdade, a mulher aqui é a que não teme exibir suas dores, no mesmo tempo que “Ele”, por ser um psicanalista, se esconde atrás da sua profissão e passa a se dedicar na recuperação da esposa. O laço familiar – que é intrínseco ao homem ou é imposto pela própria sociedade? – é quebrado, a esposa passa a ser objeto de estudo, uma simples paciente, cobaia e escudo.

Um momento que comprova o início da obsessão por parte do marido, é a cena do hospital. Onde ele acompanha os mínimos avanços psicológicos da esposa e se coloca como superior ao médico e se prontifica a curá-la, com a justificativa de que “ninguém a conhece tão bem quanto ele”. Essa afirmação não só demonstra a sua arrogância, como também deixa ainda mais ambíguo o seu estado psicológico, visto que está em pleno desequilíbrio entre o profissional e pessoal.

Os diálogos iniciais apresentam sempre “Ele” em primeiro plano e “Ela” ao fundo, com o rosto desfocado – elemento que será repetido no final do filme, onde diversas mulheres com o rosto borrado invade a floresta. Ainda mais, em vários momentos ela está posicionada abaixo do marido, como se fosse visualmente inferior a ele por conta da debilidade psicológica. Essa postura ilustra uma verdade social: a de que o ser humano, muitas vezes, recusa até o último momento expor as suas fraquezas, mesmo quando o desabafo é a única maneira de continuar caminhando.

Homem e mulher passam pela mesma dor. Mas a forma que eles lidam com ela determina exatamente as consequências que veremos a partir de então. Em singelas cenas, “Ele” é filmado entre paredes, lugares desproporcionais, ângulos diferentes, que representam os seus sentimentos silenciosos diante à fatalidade.

Quando “Ele” pede para sua esposa se imaginar no Eden – floresta que representa o maior medo dela -, ela o faz e se vê caminhando por entre a mata em câmera lenta. Assim como o prólogo, o tempo indica a fusão entre o ser humano/mulher e a natureza. A humanidade está livre e abandonada, a frase “a natureza é a igreja de Satã” ilustra exatamente isso. O conceito de Satã, nesse momento, faz referência à filosofia de Anton LaVey, que classifica satã como uma metáfora da natureza, não apenas como uma síntese do mal.

A comunicação dos protagonistas na floresta sempre é distante, ambos se apoiam um no outro e na ilusão para o equilíbrio. Ela usa da persuasão para soar como curada; ele simplesmente se apoia na intelectualidade. Ela é o cervo que carrega em sua traseira o filhote morto e ele é a raposa que come a si próprio, ambos retornam para suas versões selvagens, inclusive ele ouve a raposa dizer “O caos reina”, frase que contradiz a sua posição profissional até o momento.

A jornada de retrocesso filosófico, onde um homem e uma mulher se aceitarão como uma só dor e compreenderão que a maldição do homem civilizado é recusar a verdade de ele e a natureza são a mesma coisa, chega ao seu ápice quando a dor psicológica transborda ao ponto de ambos se agredirem fisicamente. A começar pelo sexo na floresta, onde há um corte e unido com uma ausência sonora assustadora, é possível ver diversos corpos enterrados em baixo das raízes de uma grande árvore – seria o fruto proibido? – até culminar na agressiva cena onde a mulher masturba o seu marido e ele ejacula sangue. A vida e morte se encontram nesse momento. A esperança morre e os três mendigos assumem o mandato, não só do casal, mas do mundo. Afinal, dor, desespero e luta é o que há, a realidade que teima em ser rejeitada por momentos ilusórios de felicidade.

Anticristo se trata de um monólogo de um diretor amargo e submerso na depressão que retrocede ao ponto em que todos os homens estão nus, cegos e incompreendidos pela própria natureza. Através da melancolia ele consegue desenvolver uma obra que conta uma só história repleta de referências bíblicas e filosóficas, e que, por isso, consegue se desdobrar e envolver diversas camadas, principalmente as relacionadas com a natureza humana e sua postura diante do inevitável processo de abandono e fim.

emersontlima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

More Posts - Website

Follow Me:
TwitterFacebookGoogle PlusFlickrYouTube

Arte – a religião de voltar-se a si

Existe um coração universal que pulsa em cada ser humano; existe uma trajetória que os afasta do seu âmago; e existe o olhar que absorve o mundo e é, por ele, absorvido. Enquanto indivíduo, somos frágeis e delicados. Em civilização somos máscaras. O que torna o homem capaz de violar, de ser rude e ganancioso?

A existência tem como sobremesa a sobrevivência. O homem em seu estado uniforme grita aos quatro cantos o seu status, sua formação é em base à sociedade, seu comportamento e vestimenta. Mas o homem fragmentado, bem, esse representa a mágica realidade da existência pueril. Não existiu e nunca existirá na história uma única revolução que não tenha partido do caos e da revolta, e, convenhamos, o mundo precisa de grandes rebeliões para conhecer o amanhã. Portanto, é necessário que o homem se despedace afim de encontrar o começo de sua jornada. E entre um caco de vidro e outro, eis que surge o dilema da função religiosa da arte.

A arte possui uma definição subjetiva, é claro, que ganha proporções diferentes conforme o contexto histórico ou social. Contudo, é de se notar que essa entidade nunca esteve separada do ser humano. A arte não é uma ferramenta que traz ao homem uma facilitação no seu processo de imortalidade através das suas expressões artísticasa arte é o homem no seu estado inicial. A arte é o coração universal, o big bang, é a expansão e criação do homem, que fora passado para traz conforme a civilização foi se tornando sólida. A arte enquanto sociedade é apenas registro; a arte enquanto indivíduo é uma deidade.

A religião mais intensa e verdadeira que existe é a arte, pois ela traz consigo a noção de outro estado. A terra motiva o homem a superar adversários, estruturar pensamentos e atribuir significados à todas as coisas; a convivência social obriga os indivíduos a se encaixarem em uma classificação previamente planejada por um burguês – desse modo, é válido reforçar que a classificação é o alimento preferido dos ignorantes; e o tempo, por sua vez, impulsiona o ser acovardado a criar raízes. Enquanto isso, a arte e o seu “outro estado” caminha despida por entre um paraíso imaginativo, que se adapta às necessidades de cada um. A arte é a mágica do homem, é a verdade irrevogável, é a única maneira de voltar-se a si.

No campo terreno estamos envolta de conservadorismo e limitações, mas nas expressões não existem regras, não existe ditadura, não existe preconceitos. Por isso é tão difícil unir sociedade e cultura, sociedade e educação, pois desde pequenos somos treinados a definir o redor, como se fossemos dotados dessa capacidade maçante. É preciso sentir os intervalos de um diálogo e outro, de uma atitude e outra. Perceber a beleza da maldade e a leviandade do controle. Na terra dos homens existem as leis, no estado artístico a única lei é ser. Mulheres são homens e vice-versa, o amor é um só, a mensagem não é clara e nem por isso ininteligível, a palavra não é reprimida e o manifesto é consequência e milagre social.

Adoradores da arte, fundemos uma nova percepção espiritual, a sociedade do estado artístico. Um plano astral onde podemos retornar ao primórdio. Aniquilar as classificações e jogar-nos fisicamente e emocionalmente ao desconhecido prazer de sentir. A dimensão da criatividade extrema impede a corrupção de mostrar os dentes. Enquanto isso, o ignorante permanece sentado na sala de jantar, classificando o inclassificável, rejeitando o manifesto pacífico da poesia e proibindo aquilo que nunca fez e nunca fará.

Você está convidado a fazer parte dessa sociedade. Reinvente-se!

emersontlima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

More Posts - Website

Follow Me:
TwitterFacebookGoogle PlusFlickrYouTube

A imortalidade sob a perspectiva existencialista da Simone de Beauvoir

A imortalidade sob a perspectiva existencialista da Simone de Beauvoir: a obra “Todos os Homens São Mortais” como diálogo definitivo do homem e sua busca irracional pelo infinito.

Assistindo recentemente o sucesso “Logan” (2017) não pude ignorar o fato de que o tema principal discutido pelo filme é justamente a luta de um homem contra o seu tempo. Partindo desse exemplo popular, hoje trago uma resenha sobre o clássico livro de uma das minhas escritoras favoritas, a feminista  Simone de Beauvoir. A proposta não é dissecar o trabalho inteiro da escritora, irei me ater apenas em alguns dilemas do livro em questão, de forma a compor uma reflexão sobre o fim da existência – uma ideia que tem sido recusada ferozmente por diversas sociedades ao longo da história – algo que ilustra não só a ansiedade da humanidade em se dividir, seja através da arte ou não, mas também a solidão existencial motivada, principalmente, por uma sociedade que pré-determina o tempo das conquistas individuais e pressiona o indivíduo em relação ao tempo que lhe resta. Será que a nossa vida seria diferente se descobríssemos que a expectativa de vida humana passou a ser de apenas quarenta anos?

Um conhecimento básico na estrutura de roteiro é que qualquer história se divide em três atos. Entre os “pontos de viradas” – como são chamados os exatos momentos que representam a transição do primeiro para segundo ato; do segundo para o terceiro – existem diversos momentos cruciais na história, mas todos estão divididos entre as três fases primordiais.

Se viajarmos em alguns conceitos da numerologia, bem como a própria história, perceberemos que o número três é muito significativo em diversas culturas e religiões. Peguemos como exemplo a lenda de Édipo, que é interrogado pela Esfinge, muito sábia, com um questionamento oportuno sobre a essência da vida. Ela pergunta: “Qual é o animal que tem quatro patas de manhã, duas ao meio-dia e três à noite?“. O herói, após refletir um pouco, responde que é o homem. E se justifica: “O amanhecer é a criança engatinhando, entardecer é a fase adulta, que usamos ambas as pernas, e o anoitecer é a velhice quando se usa a bengala“. Três etapas sendo desmistificadas com características que resumem uma só realidade: a vida humana se modifica apenas para encontrar o seu repouso.

A existência tem como essência o movimento, a jornada da vida não é uma linha reta e limpa, é impossível reconhecer previamente os obstáculos sujos ou maravilhosos da estrada à frente. No entanto, a beleza da vida se encontra justamente na cegueira provocada pelas curvas acentuadas do caminho que tiram a nossa ciência do depois. O ser humano é o único animal capaz de imaginar o ponto final, e sempre que o faz, interpreta o fim como uma rua sem saída, cuja limitação provoca uma série de decepções. 

É corajoso da nossa parte estar aqui e continuar existindo; é ignorante da nossa parte achar que a vida existe para suprir os nossos desejos. A vida é procurada até mesmo na morte, afinal, elas partem do mesmo propósito: não existe sentido em uma estrada que não leve à lugar nenhum.

“Todos os Homens São Mortais” é um livro que investiga justamente essa questão elementar. Escrito com uma sobriedade assustadora pela sempre excelente Simone de Beauvoir, acompanharemos um personagem chamado Fosca que, em pleno século XIII, bebe uma poção que lhe prometia trazer a imortalidade. A benção da vida eterna, aos poucos, vai se transformando em maldição e esse personagem se sente incomodado com a sua presença fantasmagórica no mundo. Um ser etéreo; um homem que é enxergado pelos outros como um ser morto.

A leitura é obrigatória para os amantes do existencialismo, pois a imortalidade é trabalhada de uma forma realista, distanciando o leitor de uma visão romanceada de uma existência sem o perigo iminente da morte. A vida sem a problematização do seu fim é como uma obra de arte que fora rasgada pelo próprio artista. Os pedaços da arte, mesmo que colados, nunca mais retornaram ao mesmo princípio. Parece que o homem só anda para se reencontrar com o vazio e, se fosse possível rejeitar essa realidade, de nada adiantaria acordar.

O homem, desde o início dos tempos, encontrou na arte a forma ideal de se imortalizar. A quebra da rotina de caças e inseguranças diante os perigos de um mundo hostil, eram quebrados pela sutileza de momentos dedicados às pinturas rupestres. Atitude que nos aproximava dos deuses, trazia o conforto espiritual. É impossível um artista não ser espiritualizado, tendo como exemplo toda uma história onde os seus semelhantes sempre tentaram encontrar um lugar no mundo para espalhar as suas mensagens.

A sensação de pequenice, provocada pela finitude, é mascarada de diversos modos. Como a própria escrita que tem como função principal o domínio do escritor sobre a normalidade. O tempo limitado, como podemos sentir lendo as páginas de Simone, não se trata de uma desgraça; mas sim de uma coerência. A harmonia da vida é a delicadeza e compreensão da sua presteza.

O alento pessoal é a sincronia do coração com a natureza. Os passos são dados e a trajetória é o âmago dos desdobramentos emocionais. Afinal, ninguém se interessa por aquele que nada passou e nada passará. A história encanta, mas a conclusão é uma ilusão. Na arte não existe um fim literal, só um pequeno momento que separa o fácil do transcendental.

Na construção de um roteiro, os três atos são a essência da estrutura narrativa. Mas nós, como artistas, podemos simplesmente inverter a ordem. O fim passa a ser o começo. Não é assim que o ser humano lida com o luto? a lembrança é a maior virtude dos rebeldes.

emersontlima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

More Posts - Website

Follow Me:
TwitterFacebookGoogle PlusFlickrYouTube

Joaquin Phoenix e o seu duplo

Phoenix é amante do caos e, sem muita morosidade, consegue colocar em prática alguns pensamentos do Artaud ao reinventar-se de maneira insana, extraindo todas as suas forças para abraçar à transformação, envolvendo o espectador. Parece simples, mas é algo que só é possível por uma alma que aprendeu a descolorir o mundo ao seu redor, utilizando as cores roubadas para pintar um sorriso ou uma lágrima no rosto. Esse é Joaquin Phoenix; assistir o seu trabalho é morrer e encontrar esperança nas cinzas.

Antonin Artaud, um dos maiores teóricos do teatro, sempre lutou contra o formato padrão da arte que mais lhe encantava. Exigia uma subversão individual do artista e, quando relatava as suas propostas para a transformação do teatro, era muito complicado dissociar os pensamentos da própria vida. Arte e existência caminham lado a lado, mesmo que muitos teimem em esquecer isso; Artaud considerava a arte como uma última estância, como uma linha imaginária onde, por motivos óbvios relacionados ao desprendimento, poderia ser a perfeita marcação do limite e como um ato libertador, de rebeldia, deveria ser ultrapassada. A arte superando os limites que a sua exposição traz.

A performance, nesse nível de pensamento, atinge o sentido de transgressão onde o ator se dilacera afim de encontrar o caos. O ato de mentir ser outro é como se o indivíduo conversasse com as suas profundezas emocionais, estabelecendo um vínculo entre o ser e os seus conflitos. O teatro seria uma brincadeira de “pestes”, percorrendo a inconstância da naturalidade, perturbação e insânia.

O cinema também possui a força de extrair dos atores essa performance desprendida, no entanto, apesar das ferramentas técnicas para acrescentar pontos nessa ambição, – como ângulos de filmagem, montagem, efeitos especiais etc. – é muito complicado, hoje em dia, separar o ator do seu nome. O cinema popular vende os seus filmes em base aos atores que por consequência são grandes estrelas. Isso abre espaço para interpretações superficiais que, por esse e outros motivos, ganham seguidores e rios de dinheiro.

Evidentemente há muitas exceções. Uma delas é o ator Joaquin Phoenix que, sem sombras de dúvida, é um dos nomes mais relevantes do cinema atual, principalmente pela sua inconformação com o padrão e violação do próprio nome. É um exemplo claro de um ator quebrando a sua própria imagem, se despindo, e se ausentando de brilho. Há um grande números de fãs e apreciadores que seguem o seu trabalho, mas sempre são jogados de um lado para o outro com o potencial de Joaquin em surpreender, na maioria das vezes, com papéis completamente tortos e obscuros.

Ele começou sua carreira cedo, ao lado do irmão River Phoenix – considerado um dos jovens mais talentosos de sua época – e sentiu de perto a tristeza em torno da sua precoce morte, o que o fez abdicar da sua carreira como ator. Joaquin percebeu a atuação como um perigo pela exposição, compreendeu na época “o perigo de se deixar levar”, isso pensando exclusivamente na arte como produto, pois esse fato lamentável o desconstruiu de tal maneira que ele passou a morrer para enfrentar cada personagem que interpreta.

Por insistência de amigos, Joaquin Phoenix voltou a atuar e sua carreira começou a ganhar formas em 2000, quando recebeu uma indicação ao Oscar por seu papel em “Gladiador”. No mesmo ano, começou uma parceria duradoura com o diretor James Gray – grande nome do cinema independente norte-americano – com o filme “Caminho Sem Volta”.

A sua proposta de atuação começa a ser desenhada de forma lenta, mas desde os primeiros filmes é possível observar uma série de características que o faziam uma promessa, principalmente quando relacionado com a naturalidade que ele emprega em seus personagens. Dono de uma beleza penetrante, ela vai muito além da pura estética, além de não se encaixar nos padrões de beleza, sua postura, olhar, gestos contidos chamam a atenção, sua presença é notada mesmo que em segundos e a sua entrega é constante. Phoenix renasce das cinzas a cada contato que faz, absorve as melhores coisas dos diretores que trabalha, sem perder a sua própria identidade de solitário e excêntrico.

A sua afeição pelo minimalista é encantadora, assim como o seu trabalho exala uma propriedade dominadora, parece muito fácil e sólido, como se tudo seguisse um plano perfeito. Um terrível plano desorganizado.

Em “Dogma do Amor” ele trabalha com o diretor Thomas Vinterberg, um grande nome do cinema dinamarquês, que ficou muito conhecido por criar, ao lado do Lars Von Trier, um manifesto chamado “Dogma 95”, cujo objetivo era quebrar algumas regras do cinema convencional. Esse filme é uma loucura total, o protagonista parece sugado pela falsidade e se vê preso em questões extremamente relevantes que se mesclam com a ficção científica e filosofia.

Os próximos filmes escolhidos são “Johnny & June” e “Os Donos da Noite”. No primeiro ele interpreta um dos maiores nomes da música mundial, Johnny Cash, explorando a sua habilidade vocal e criatividade ao criar uma versão própria de um ícone, o que certamente traz enormes responsabilidades. O personagem parece perfeito para um ator acostumado com a rebeldia; ele consegue ir do sonhador até o completamente consumido pelo sucesso e amor em questão de segundos, inclusive é uma transição que acontece de forma tênue. Outra obra relevante é “Os Donos da Noite”, mais uma parceria com o James Gray e que também traz consigo essa quebra de identidade, onde um personagem precisa decidir qual lado seguir; sua atuação é magistral, começa transmitindo uma segurança inquebrável e vai, aos poucos, se rendendo diante de uma maldição familiar.

Pronto! com os exemplos citados acima compreendemos que, além da vida pessoal, Phoenix aprendera com sua arte expressiva que a transformação é inerente ao ser e, para atingir a perfeita metamorfose, é preciso sucumbir à trajetória. Não existe segurança sem medo; esperança sem humildade; desejo sem o sucesso; infinitas versões de si, todas, sem exceção, sendo corrompidas.

“Traídos pelo Destino” é um conto de muitas vidas sendo encontradas por meio de um evento específico. Dois atores se destacam muito nessa obra: Jennifer Connelly e Joaquin Phoenix, Grace e Ethan, respectivamente. Grace, desde o começo, não consegue agir dada as circunstâncias catastróficas que acontecem em sua vida, portanto, a força de equilíbrio precisa ser do Ethan, o pai. Novamente há uma transição clara entre o controle emocional e a loucura total, a cena em que as emoções explodem é de cair o queixo e, se melhor dirigida, poderia certamente credenciar o ator para mais uma vaga entre os indicados ao Oscar, pela terceira vez.

É válido ressaltar um documentário narrado por Joaquin chamado “Terráqueos”, de 2007. Esse documentário é um alerta sobre as condições que os animais enfrentam, o consumo desenfreado, enfim, é uma ode ao vegetarianismo. O ator é vegano, participa de uma série de grupos sociais e é abertamente a favor dos animais.

Fechando a primeira parte, a terceira parceria do ator com o James Gray aconteceu em “Amantes”, de 2009. Esse filme aborda um homem que se vê preso em duas possibilidades distintas, duas mulheres e duas histórias. É uma obra nada romântica que preza pela realidade, dando mais valor às pretensões e desejos individuais do que criar uma relação bonita e perfeita, onde os interesses de todos estão em comunhão.

 Na divulgação de “Amantes” aconteceu algo que marcaria a quebra, literal, do ator: a entrevista com o David Letterman. Na verdade a entrevista é uma extensão de uma proposta artística, quase vanguardista, de criar um vínculo direto entre a arte performática e o arquétipo criado pela fama, incluindo todas as maravilhas que ela dá ao artista e todas as dores.

Joaquin ficou barbudo, engordou e anunciou a aposentadoria da carreira de ator para, em sequência, se entregar ao hip hop. Sua figura na entrevista provoca o entrevistador e a platéia, a sua postura incomoda. As poucas palavras, esquecimento das coisas mais básicas sobre o seu recente trabalho e, principalmente, indiferença para com o seu próprio nome também são pontos interessantes.

Na verdade, esse evento único e corajoso era para promover um falso documentário, cuja pretensão era usar a imagem do ator como uma ponte para o seu rompimento. I’m Still Here, dirigido pelo Casey Affleck, trazia a intimidade de Joaquin, bem como a sua loucura cotidiana. É a jornada de um homem especial, forçado a ser comum, se entregando ao âmago do ódio pela realidade. O artista quando atinge a antipatia pela realidade se vê obrigado a se refugiar na sua criação, algo que Phoenix faz com elegância. Em contraponto, sempre quando aparece “de cara limpa” em entrevistas ou raras participações em festivais e premiações, ele sempre é estranho, soa um pouco constrangido e agressivo, talvez porque a realidade é o lar que ele recusa constantemente. O único personagem que Joaquin Phoenix não sabe interpretar é ele mesmo, com todos os seus demônios.

Algo grandioso acontece em  I’m Still Here. A coragem que todos os envolvidos tiveram em enfrentar a indústria, criando suas regras e deixando-os a deriva em meio as reais intenções por traz da mentira, é monstruosa. O artista que atinge a fama, principalmente hoje em dia, deve explicações diariamente para todos, seja as produtoras ou jornalistas, portanto o documentário é apresentado como tal, mas funciona como um portal místico de purificação, onde o indivíduo é capaz de se ausentar de luzes e atenções, principalmente atitudes padronizadas para manter a ordem, e se ater ao projeto corporal e emocional de viver uma outra história, lidando com a atuação como um refúgio da normalidade, brincando com o caos como se fosse uma boneca de porcelana, sem medo de quebrar pois já conhece ou sente o seu limite.

Depois de ter engado a todos, Joaquin corria o risco de nunca mais ser chamado para nada de grande relevância, muito menos no grande cinema. Eis que surge um homem chamado Paul Thomas Anderson. PTA, como é conhecido, é um adorador de cinema e sempre se mostrou muito entregue ao independente e visceral, busca referências ocultas na história da sétima arte ou na música. Certamente assistiu e se impactou com o documentário I’m Still Here, enxergando no protagonista insano a perfeita representação de um personagem que trabalharia em “The Master”.

Em “O Mestre” não se sabe ao certo quem dá as regras. O mestre, como era de se imaginar, cria o seu seguidor mas se vê preso dentro da sua evolução, o homem racional e sua total insânia se confundem; há uma proposta primitiva, um ser rastejante sobrevivendo entre a gasolina, guerra e sexo.

Se sabe que Paul Thomas Anderson pediu para Joaquin Phoenix assistir ao documentário-ficçãoOn The Bowery, então restou ao ator criar um universo caótico dentro de si, sua figura está torta, desenfreada, animalesca e irracional, um selvagem vítima das torturas da guerra – literal ou espiritual? – que se entrega ao álcool e transa até com uma representação da mulher… Feita com as areias da praia. É um personagem complexo, que só poderia ser interpretado por alguém capaz de atingir um nível épico de entrega, sem se limitar as inseguranças que a exposição traz, principalmente em um tema como em “The Master”.

“Ela”, de Spike Jonze, também poderia ser usado como representação perfeita da versatilidade do ator em compor expressões que afastam qualquer possibilidade de crítica, nesse belíssimo filme sobre isolamento emocional e físico, ele se entrega à sensibilidade: seus movimentos são suaves, delicados e sua voz é doce. Um personagem que se apaixona por uma voz, um celular, uma maravilha que não existe em canto algum, senão, no coração, seja do protagonista ou daqueles que assistem. “Ela” representa um sentimento de carinho mútuo, também conhecido como amor.

Em “Vício Inerente”, novamente parceria com Paul Thomas Anderson, Joaquin se entrega ao divertimento, um personagem sujo, transitando por entre personagens e calçadas estranhas, vazias e acolhedoras. É uma grande brincadeira inteligente com o gênero noir e os anos 70, auge do movimento hippie – há quem diga que Phoenix começou a andar descalço após gravar esse filme, cuja experiência de filmagens foi maravilhosa, segundo ele.

Em “Homem Irracional” ele faz uma parceria com Woody Allen que já afirmou em diversas entrevistas que escolhe minuciosamente os atores com quem irá trabalhar – o que me faz imaginar como o vovô Allen reagiu assistindo “The Master” e o que o fez ter escolhido Joaquin para interpretar o seu famoso personagem alter ego professor de filosofia-existencialista-pessimista. Inclusive, algo interessante de se notar, é que a maioria dos filmes de Woody Allen, os atores que interpretam seus personagens sempre aderem características típicas do diretor, mas Joaquin se preocupa em se distanciar desse esteriótipo e cria um personagem sedutor, com uns quilinhos a mais e expressões de derrota emocional, provocadas pelo conhecimento.

É um filme que, pessoalmente, não chamou a minha atenção – principalmente por causa do terceiro ato – mas ainda assim marcou minha vida pela parceria entre um dos meus ídolos ( Woody Allen ) com o meu ator ( do grande cinema americano ) atual favorito.

Em conclusão, Joaquin Phoenix sempre se explorou de forma muito orgânica, extremamente natural e simples nas composições, sem perder a força e o impacto, o que certamente é muito complicado. Apesar de ter um nome e rosto conhecido, consegue, por meio do excelente trabalho, fazer-nos esquecer quem é, há uma relação íntima de despimento onde o salto de um personagem para o outro acontece sem artifícios ou caminhos fáceis de atuação, como uma mudança física muito grande – que não seja em base à própria expressão facial ou corporal – tudo acontece de forma mais realista possível.

Phoenix é amante do caos e, sem muita morosidade, consegue colocar em prática alguns pensamentos do Artaud ao reinventar-se de maneira insana, extraindo todas as suas forças para abraçar à transformação, envolvendo o espectador. Parece simples, mas é algo que só é possível por uma alma que aprendeu a descolorir o mundo ao seu redor, utilizando as cores roubadas para pintar um sorriso ou uma lágrima no rosto. Esse é Joaquin Phoenix; assistir o seu trabalho é morrer e encontrar esperança nas cinzas.

emersontlima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

More Posts - Website

Follow Me:
TwitterFacebookGoogle PlusFlickrYouTube

O que é e como ser um crítico de cinema?

Esse artigo se propõe a levantar a discussão sobre o que é a crítica de cinema e como se tornar um crítico, contudo, conforme as divergências de opiniões, seja dos teóricos, críticos e leitores, cabe ressaltar que o texto se baseia unicamente na experiência do escritor que, durante os últimos cinco anos, escreve suas observações sobre cinema e estuda a prática.

O cinema é uma arte muito nova, sem dúvida provoca muitas desconfianças por parte do público comum que, em uma posição egoísta, pensa a sétima arte como um parque de diversões onde, o produto, só serve para preencher as suas necessidades. Na verdade, essa ideia foi implantada conforme os anos mas de nenhuma maneira diminui a importância do cinema para a construção do conhecimento, no fundo sempre haverá espaços para todas as ambições, seja a reflexão ou venda – aliás, uma depende da outra.

Portanto, pensar teoricamente o cinema ainda é visto como uma tentativa inocente, visto que a experiência cinematográfica se tornou, com o passar dos anos, uma iniciativa pluralizada. É fácil perceber a enorme quantidade de pensadores de cinema que compartilham suas opiniões todos os dias na internet, aliás, o caminho virtual dá a possibilidade para diversas pessoas que, anos antes, se viam direcionadas por outras mídias muito mais exclusivas. O importante é saber que, assim como o acesso à internet traz benefícios, o cinema como “mais uma loja dos shoppings” também; nem por isso tira a sua profundidade e potencial de catarse. O cinema precisa ser discutido e, por sorte, é uma das artes mais presentes entre as diferentes divisões sociais.

Com a rápida divulgação e aumento do número de críticos na internet, é questão de tempo para, individualmente, traçarmos uma comparação silenciosa e definir o que é crítica e o que não é, como se fosse possível um ato egoísta render alguma conclusão inteligente. Então, como início da reflexão, gostaria de deixar claro a minha história com a escrita sobre filmes e, a partir da minha experiência, resumir a opinião e responder a pergunta principal que dá o título a esse artigo.

Se pensarmos unicamente na escrita, sabemos todos que a resenha crítica possui um padrão muito bem definido. Mas qualquer trajeto que dependa da padronização me incomoda e, assim como todas as coisas da minha vida, tento rever meus métodos e tentar encaixar o meu desprendimento intrínseco com a necessidade daqueles que leem o que escrevo ou que me escutam – aliás, passei boa parte da minha vida virtual ignorando os acessos e comentários do Cronologia do Acaso, não por arrogância e sim por ignorância, pois não imaginava que alguém no mundo teria alguma vontade em sentir o cinema através da minha visão.

Comecei a escrever em 2012, em um primeiro momento era para exercitar a escrita e desabafar sozinho. O caminho mais fácil para isso era, na época, o poema. Quando ouvia uma música ou assistia algo que me tocava, rapidamente tentava cuspir sentimentos em formas de palavras que, se não estruturadas da forma que imaginava, não faziam sentido algum. Com o tempo passei a escrever sobre filmes com a mesma intensidade, cada texto era um pedaço de mim que cortava e alinhava com divisões pontuais; fazia questão de utilizar a arte como um veículo, onde preenchia com as minhas próprias experiências e sentimentos, imaginando um plano onde o audiovisual e o homem se fundissem.

Com o passar dos anos fiz questão – e faço – de buscar a teoria do cinema e, mais do que isso, vivenciá-las. Nas primeiras oportunidades que tive, escrevi e atuei em peças teatrais; implantei e organizei um projeto de cineclube na escola em que trabalhava; inclusive escrevi meu trabalho de conclusão de curso em base a esse projeto, ou seja, fazendo uma pesquisa estreita na questão dos impactos sociais, filosóficos e políticos que o cinema pode desempenhar nas salas de aula; sem contar os pequenos e importantes trabalhos com a fotografia. O que quero dizer é que sinto a crítica de cinema assim, como uma vivência na arte, como produção. Se pegarmos a história da análise artística, percebemos que os primeiros críticos sempre foram pessoas que tinham essa experiência direta com a criatividade, viviam alguma área e utilizavam-na para compor a sua perspectiva sobre determinada obra.

Não estou aqui excluindo os que não baseiam suas criações textuais nessa interação direta com a arte, mas certamente não concordo com uma crítica de cinema que não exale essa propriedade subjetiva, que seja, muito mais do que bonita e padronizada, uma desordem sentimental separada por vírgulas e ponto final. A crítica de cinema deve ser, por consequência da grandiosidade daquilo que aborda, uma produção artística que represente uma parte da alma do escritor.

Escrever é um ato religioso, exige muita concentração e coragem. A organização está no coração pois, no final do dia, as regras gramaticais são esquecidas e só sobra o conteúdo. Apesar de buscar conhecimento e tentar compreender as inúmeras regras teóricas do cinema ( leia aqui o meu texto “Como e por onde começar a estudar cinema” ) tento mesclar a técnica com a subjetividade provocada unicamente pelo tema e abordagem do longa que está sendo analisado, mas a menção técnica não pode ser um brinde exibicionista, deve ser transmitido com carinho e respeito, como conclusão, é preciso ser explicado de forma prática, principalmente ressaltando como colabora para o entendimento dos símbolos ou mensagem do filme.

Em base à muitas discussões e leituras, é questão de tempo perceber que existe diversas pessoas escrevendo sobre cinema na internet, então como saber quem é o crítico de cinema e quem não é? a resposta é simples mas, por conta da polêmica que a envolve, precisa de uma explicação: todos são críticos de cinema, pois quem dita isso é o público que segue e se interessa pelo escritor.

Há alguns que tentam criar uma divisão entre crítico de cinema e resenhista, blogueiro etc, comparando quanto determinado site ou blogue rende, seja dinheiro ou acessos. Esse talvez seja o pior erro de todos pois o conteúdo é trabalhado e pensado de forma diferente. Por exemplo: dificilmente um site de cinema ganha dinheiro apenas com críticas, no mesmo tempo que uma crítica com poucas palavras traz muito mais leitores e, mesmo que o autor queira mudar o estilo da sua escrita apenas para se adaptar ao mercado, é bem provável que a versão criada por interesses soe artificial e insuficiente – como acontece com grandes portais atualmente.

Crítico de cinema é aquele que escreve e que consegue conquistar um público. Os leitores não só o encontram como retornam e participam do processo de estudo. São os próprios leitores que indicam os espaços a serem explorados na crítica e, por esse motivo, é impossível tentar separar a crítica cinematográfica de uma “resenha no blogue”. Cada leitor compra a ideia de determinado escritor(es) e o utiliza como guia pela jornada cinematográfica.

Depois de tudo isso, gostaria de ser mais prático e deixar algumas dicas para quem está pensando em escrever sobre cinema, criar um blogue etc.

  1. Faça. Escreva de modo livre, preocupando-se apenas com as suas referências, não com a intelectualidade, formato e vivência de outrem.
  2. Escrever de modo livre não quer dizer que você precisa parar de se inspirar em outros escritores. No entanto, no começo, sugiro que você se atenha à buscar ideias em autores que não trabalhem na área que gostaria de explorar – no caso, a crítica cinematográfica. Isso porque os primeiros anos servem como uma forma de avaliação e adaptação, entre o formato, a sua capacidade, adaptação e frequência, o que poderia sofrer um atraso com a famosa tentativa de copiar alguém consolidado para alcançar um avanço rápido.
  3. Sabe àquela fórmula padrão? começar com menção ao diretor, gênero, atores, sinopse curtinha e copiada de algum lugar mas ligeiramente modificada. Depois observações gerais e conclusão referenciando o tema central? esqueça isso. Aliás, lembre-se disso mas, durante o processo criativo, ignore. Pense exclusivamente em você e na sua experiência, jogue as palavras com a mesma velocidade e felicidade que uma criança brinca com os seus brinquedos improvisados. (já perceberam isso? uma criança têm a capacidade de pegar qualquer objeto e, mesmo que seja o mais simples possível, transforma em algo especial e grandioso. O crítico e o escritor devem se inspirar nesse gesto inerente de imaginação, muitas vezes a grandiosidade se encontra em ser de verdade).
  4. Não existe um tamanho apropriado para uma crítica de cinema – a não ser que você escreva para um jornal ou algum veículo que determine quantos caracteres ou palavras a crítica precisa ter.
  5. Estude cinema. Como? R= ache a forma que mais se adapta com o seu estilo. Se você pretende abordar a parte técnica e sustentar seus escritos em qualquer área teórica, pode fazer curso, pode pesquisar por conta própria (talvez esse artigo ajude) mas busque informação (lembre-se, jogar frases prontas sobre edição, montagem, fotografia, mise en scène, plongée etc, e não explicar qual a relevância para a trama, é a mesma coisa que discordar e não apresentar um argumento, para muitos não é suficiente). Agora, se não te interessa a teoria, então se atenha exclusivamente a assistir muitos filmes. Em uma crítica de cinema fica evidente se a pessoa possui uma bagagem cinematográfica pois cada palavra revela o olhar do escritor e esse olhar se transforma drasticamente mediante a quantidade de referências que ele têm.

Essas foram as minhas considerações, espero que tenha sido útil e que te motive a escrever, se esse for o seu objetivo, ou que simplesmente repense quão importante é a crítica de cinema para a divulgação da sétima arte. No fim, todos estamos colaborando com a mesma coisa, por mais que exista individualismos, só existe uma linguagem ao abordar o cinema: paixão.

(ou assim deveria ser.)

emersontlima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

More Posts - Website

Follow Me:
TwitterFacebookGoogle PlusFlickrYouTube