Ken Park (2002) e a ciclicidade do conceito família

Larry Clark chocou o mundo com Kids (1995) e o fez de forma dinâmica, sem pudores, com o auxílio de um jovem roteirista chamado Harmony Korine – talvez o grande símbolo da jovialidade do cinema norte-americano dos anos noventa e, por que não, sinônimo de grande visceralidade, principalmente em relação à conscientização dos adultos sobre as necessidades e liberdade dos jovens, a sua sexualidade e descobrimento, crescimento ao ponto de sofrer as consequências e não mais ignorá-las. Dois artistas com a mesma intenção que se separaram pelo tempo mas que, por graça divina, se reuniram sete anos depois para realizarem outra obra-prima que prima pelo extremismo chamada “Ken Park” (2002).

Ken Park é um garoto que anda de skate, possui sonhos e amores, ainda é, assim julgam, um aprendiz na condição de existir, buscando em si a figura de um filho, de colega ou pai, pouco se sabe sobre ele que não suas infinitas possibilidades. Em dois minutos ele está morto. O personagem que dá nome ao filme se esvai de forma súbita, quase tão sorrateiro quanto uma borboleta. A partir do momento que a linha lógica se quebra, o espectador pressente (afinal, somos orgulhosos ao ponto de tentarmos constantemente antever o que fatalmente será) que a obra em questão pode ser todas as coisas, menos linear ou condizente com a forma padrão de se apresentar o jovem e sua vida escolar/familiar.

Quando Ken Park comete o suicídio – suponhamos que o fizera por saber que seria pai, ainda que não há explicações para esse tipo de coisa – somos convidados, assim como ele, a nos ausentarmos para que assim possamos refletir sobre nossas questões mais profundas em base a quatro personagens, eles possuem em comum a mesma incomunicabilidade com a família, são frutos de um desperdício da palavra e os garotos precisam lidar com a imposição da masculinidade como prova de poder e dominação, ao passo que a única personagem feminina entre eles, Peaches (Tiffany Limos), sofre a mesma opressão vindo do seu pai, um homem extremamente religioso e que reflete na filha a imagem da sua esposa que falecera.

Os pais também são filhos, esquecemos disso constantemente. A família é desenvolvida aqui como uma entidade cínica, caminhando por entre o desespero de sentir e educar, como um impulso instintivo que anseia que as próximas gerações não sejam tão fracassadas quanto a anterior.

O pai que se embriaga e ensina o filho a pegar peso; a mãe que mesmo sozinha com a filha permite que ela assista conteúdo impróprio na TV; o que mais existe aqui é essa inerência do ser em projetar sua melancolia nos filhos e vice-versa. Há uma necessidade de todos os personagens em serem aceitos, por isso Shawn (James Bullard) é apresentado visualmente prendendo o seu irmão em uma brincadeira enquanto impõe que ele diga que o ama. O papel do jovem rebelde é desmitificado quando Shawn deixa de lado essa figura agressiva para se tornar um filho carinhoso no quarto da sogra, a qual também é sua amante. Por ela ser mais velha, ensina a ele os segredos do sexo, no mesmo tempo que media a relação entre o prazer e a comunicação, se fazendo de simples amante no mesmo tempo que se sente tocada quando o menino cria uma comparação entre ela e a filha, passado e futuro se confrontam e o tempo é sentido como um dilema crucial para o entendimento do vazio familiar que Larry Clark trabalha tão bem.

A cena de sexo sugere um carinho maternal, onde Rhonda (Maeve Quinlan) acolhe o filho e o direciona à sua vagina, ao despertar. Shawn compreende sua posição e repousa, libertando-se das amarras e da culpa.

Se há dúvidas sobre a questão da cena citada acima, na transição dela temos um outro filho, invertendo os papeis e cortando as unhas da sua mãe. A fotografia alaranjada é muito parecida com a cena anterior, o elo visual e metafórico está instalado, mães e filhos dialogam e buscam sua origem.

A relação de Claude (Stephen Jasso) e o seu pai é a mais explícita, conflito de personalidade onde será explorada questões de opção sexual, culpa e retardamento. Uma cena simbólica é quando o seu pai quebra o skate aparentemente sem motivo algum, logo em seguida cai e chora, bêbado. O skate, representando veículo e liberdade, ao ser quebrado limita o personagem ao espaço comum, de modo que seja obrigado a confrontar os seus sentimentos mais profundos e que constantemente tenta ignorar.

Se todas histórias aqui possuem um elo temático e visual, bem como diversas transições de cenas acontecem e reinterpretam ou dão ainda mais significados à anterior – de um pai chorando na calçada por ter quebrado um skate para o outro na mesa, prestes a tomar o café e que cujo costume é fazê-lo de joelhos, como se estivesse se punindo a cada refeição, momento este vinculado às interações familiares – a mais contundente, sem dúvida, é a de Tate (James Ransone). Sua vida é mostrada de forma diferente, boa parte das suas motivações e melancolia são ocultas do espectador, seus avós o tratam muito bem e momentos de ira do jovem são causados pela sua interpretação dos fatos, não em base ao contexto geral. Existe um passado cuja importância apesar de transparente jamais é mencionada, o que faz do personagem ser extremamente delicado, até por se tratar da ação mais violenta de todas contra os adultos.

Tate é o último degrau, onde a consequência do silêncio e abandono atinge o seu nível máximo, através dele percebemos o perigo do distanciamento do jovem com sentimentos relacionados à pureza. O personagem é o contraponto da “Ilha do Paraíso” mencionada ao final, em uma cena que destoa intencionalmente de todo o desenvolvimento até então, o sexo é mostrado e relacionado com a liberdade. A utopia inserida nesse momento é a chave para compreender as amarras humanas que vinculados ao seu dever ético enquanto pertencente a um meio social, esquecem quem são e por que vieram, afastando o individuo cada vez mais da sua feminilidade e, por consequência, da sua versão nua.

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No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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Especial Halloween – Filmes de terror no ano de 2017

Leia também o “Especial Halloween” de 2016 (Clique aqui)

O ano de 2017 está sendo importante para o Cronologia do Acaso em relação aos filmes de terror, principalmente pelo fato de termos tido a estréia do “Frequência Fantasma“, um podcast comandado pelo Sergio Junior e equipe, apenas sobre o gênero.

Dada a recomendação, começo citando o filme russo “A Noiva” como um dos maiores potenciais desperdiçados do ano, isso porque trabalha a fotografia, com cadáveres e nem mesmo com todos esses elementos macabros consegue construir uma atmosfera densa e, pior, não encontra uma forma interessante de desenvolvimento, senão, através do caminho óbvio de sustos sem nenhum tipo de cuidado. Na mesma situação temos “Experimento Belko”, cuja premissa é bastante parecida com “Battle Royale” (2000), acompanhamos um grupo de pessoas no trabalho que são interrompidas por uma voz alertando-os que precisarão matar um ao outro afim de continuarem vivos. O começo mediano dá atenção demais à personagens pouco cativantes, enquanto outros são ignorados e profundidades dramáticas são jogadas fora.

“A Noiva” (Svyatoslav Podgayevskiy, 2017) e “Experimento Belko” (Greg McLean, 2017)

Saindo das boas ideias e execuções frágeis, destaco seis filmes de terror no ano, começando pelo A Ghost Story (David Lowery, 2017). Um filme pouco convencional, que retrocede o medo no seu estado mais puro, onde a consciência humana reflete sobre o vazio da sua existência, se apegando ao espaço e sendo por ele engolido. É um drama torturante sobre o sentimento de estar presente mas não poder tocar, bem como o ser no seu estágio de ciência da finitude e a dor que esse conhecimento traz. (Leia a crítica completa aqui).

“Mãe!(Darren Aronofsky, 2017) é outra obra complicada de ser enquadrada no gênero, pois é muito mais um drama do que qualquer outra coisa. Mas há muito terror no meio de infinitas camadas de metáforas, das quais diversas fazem alusão à ganância do homem em relação à natureza, mulher e ele mesmo enquanto inserido no processo de criação, seja ele qual for. Além do mais, a casa que tem vida, a situação extremamente claustrofóbica, o desespero da personagem principal, cenas pesadas e direção frenética fazem deste um grande representante da lista. (leia a crítica completa).

Ao Cair da Noite (Trey Edward Shults, 2017) apareceu como uma grande surpresa também ao se dedicar inteiramente à criação da atmosfera constantemente frágil e urgente, alcançando ainda mais densidade através da união familiar e possíveis ameaças de desestabilização. O amor do pai e da mãe, bem como a interação do filho, são tão bem desenvolvidas que o espectador confronta a ética em diversos momentos, o sentido filosófico da palavra “sobrevivência” é muito bem explorado aqui. (leia a crítica completa).

Annabelle: Creation (David F. Sandberg, 2017) é até então o grande filme de terror popular do ano. É a prova de que uma direção inteligente faz toda a diferença, principalmente com um formato que clama por inovações afim de alcançar a surpresa, David F. Sandberg entende isso e o faz de forma brilhante na maior parte do tempo, ainda que o terceiro ato destoe um pouco do que vinha sendo feito até então, principalmente no que diz respeito à intensidade e equilíbrio da exposição. (leia a crítica completa aqui).

Raw ( Julia Ducournau, 2017) passa longe de ter a qualidade que se comentava nas primeiras exibições, mas tirando a expectativa criada e as promessas de cenas extremas, o filme se destaca no estudo da personagem principal, criando elos visuais e significados brilhantes no que tange a alimentação com o momento vivido pela protagonista no auge da sua juventude. A intensidade da carne, do desejo, dilemas universais sendo transmitidos literalmente.

Os fãs de Álex de la Iglesia foram presenteados com o grande “O Bar” (2017), uma obra que acompanha um grupo de distintas pessoas que ficam presas em um bar e aos poucos vão confrontando uns aos outros, derrubando as máscaras por meio de uma situação que os reúnem e exploram o máximo da sua sanidade. O espaço reduzido e o tempo como agente de transformação é a chave para a revelação do caráter dos personagens; o desenvolvimento acontece, como é comum no trabalho do diretor, através do humor negro, de modo que o verniz social se dissolva aos poucos.

Frases como “o pobre que se dane, é sempre assim” traduzem perfeitamente a intenção por traz da linguagem dinâmica, há diversas críticas políticas e os bons costumes são ridicularizados, assim como diversas outras mentiras relacionadas aos relacionamentos humanos. Em “O Bar” pequenos objetos de cena ganham importância e o sistema camuflando a real situação por interesses é pouco se comparado aos homens devorando homens por puro egoísmo.

Pior filme de terror do ano:

A melhor coisa de “Devil in the Dark”(Tim Brown, 2017) é o seu pôster, altamente enganoso, diga-se de passagem. O filme acompanha dois irmãos tipicamente diferentes um do outro – um responsável, de família e o outro um jovem adulto irresponsável, mais estereotipado impossível – que planejam caçar na floresta para assim passarem um tempo juntos e resolverem os problemas entre eles. Oitenta minutos de duração, sendo que noventa por cento dele é um drama forçado entre os dois, com direito à flashbacks injustificáveis, mas que nos vinte minutos finais resolvem acrescentar um monstro nessa floresta, cuja presença nunca se justifica, muito menos amedronta. Um longa que não respeita o espectador, nem a sua própria história.

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Quando o primordial do cinema são os espaços

Hong Sang-soo, um diretor moderno que trabalha os espaços de forma singular.

Quantos trabalham internamente e se dedicam em compreender o que há entre um espaço e outro? quantas vezes o silêncio e o vazio foram confundidos com a despreocupação ou incompetência? o momento exato que o homem atinge a sua completude artística é justamente quando compreende que os espaços são elementos fundamentais para a observação, seja qual for a matéria prima.

Com o imediatismo cada vez mais ascendente, principalmente com o apoio das mais diversas mídias, as palavras “parar” e “lento” ganharam fama de empecilhos mortais para a vida adulta. Tudo o que há de existir, precisa condizer com o ritmo acelerado da sociedade, caso contrário, se trata de um obstáculo para as coisas que realmente importam: status e visibilidade. Quantos sites de cinema existem e que possuem a urgência dos fatos, se veem como criadores, assim são chamados, mas a sua produção em alta escala se baseia apenas na repetição, não no argumento. O que vale mais, nesse exemplo, é a quantidade ou conteúdo? sem desmerecer os que enriquecem – espiritualmente e financeiramente – com essa proposta, mas essa interrogação é sensível ao ponto de demonstrar o interesse sincero no coração do escritor e não apenas na sua produção desenfreada. O tempo é uma ilusão criada para temermos o acordar, contudo, no campo artístico, seja na sua produção ou análise, temos a oportunidade de esquecer que essa palavra existe e, quando perdemos o interesse na classificação, estamos livres para pensar e agir como quisermos.

A inspiração desse devaneio parte do naturalismo e espaçamento visto no trabalho do Giotto di Bondone. Um artista que precedeu o Renascimento e que quebrou a convencionalidade artística ao dar espaço aos personagens de sua pintura, sendo assim, a partir do momento que se quebra o limite – ainda que isso só seja possível em doses homeopáticas – temos uma arte que explora o visceral, aproxima aqueles que observam com a sua própria realidade. É possível estender essa discussão para o cinema, onde temos filmes que trabalham com a ausência de diálogos como forma de simular o dia a dia, afinal, a existência não se sustenta apenas na comunicação verbal, mas sim infinitas expressões e movimentos, os quais são silenciosos e, por isso, facilmente confundidos com “lento”, “parado” e “irrelevante”.

Se retornarmos ao teatro como forma de ilustrar uma questão importante, percebemos que o roteiro é escrito em base ao exagero, nesse local sagrado tudo pode, todos sons são estridentes, a visão ampla é por si só a imersão que o público necessita para a provocação da visceralidade, a partir disso só temos a exibição. No cinema é o contrário, a gramática cinematográfica existe para transformar parte do todo em uma verdadeira composição metafórica, o quadro explora não só o significado real do ambiente como também utiliza parte dela para provocar uma ideia, a linguagem acontece não só pelo texto – com isso expressões, interação com o cenário, sons etc – como também a posição da câmera e o modo que ela é utilizada, ou seja, a percepção inicial do espectador fora modificada pelo artista, de modo que o quadro fale antes mesmo do diálogo. Por isso o cinema conta verdades através da mentira, pois o que sentimos como realidade representa tão somente o interno das personagens, não a totalidade.

Por conta disso, a sétima arte dialoga muito com os novos tempo, com o dinamismo citado anteriormente, ao passo que isso traduz com perfeição a postura do espectador enquanto sentado na sala de cinema ou no sofá da sua sala. A impaciência parece cria do “ritmo lento”, isso acontece porque fomos treinados desde pequenos com a linguagem norte-americana, a qual impõe que toda evolução da narrativa passa pela linguagem verbal e que a mise en scène funciona como uma agente em prol unicamente dos personagens e não o contrário.

Existem diversos filmes que desenvolvem suas personagens de forma indiferente, transformando-as em alienígenas em meio ao vislumbre do cenário e os diversos sentimentos provocados pelas decisões fotográficas ou auditivas. Com isso, a preocupação primordial do espectador passaria a ser no trajeto, nas consequências, nos intervalos e no silêncio. A câmera estagnada e um personagem caminhando de um lado do quadro para o outro, ou mesmo personagens falando em off como acontece em diversos filmes do Hong Sang-soo, essas são formas de traduzir o mundo tal como ele é: brando.

Em última estância, é primordial o estudo da nossa impaciência com os mais diversos ritmos cinematográficos que existem, é muito comum julgamentos sobre o fato de determinada obra “não dizer nada”, ledo engano, são nas ausências que se acontecem as mais maravilhosas observações sobre o homem, prova disso são nomes como o Terrence Malick, Nicolas Winding Refn ou mais extremo Lav Diaz. Que a nossa intolerância ao menos nos deixe em paz quando relacionamos com o campo artístico, pois o indivíduo que não compreende a magia do espaço, não consegue respeitar a si e muito menos a intenção daquilo que não compactua.

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Charles Chaplin – Entre as lágrimas e o Sorriso

Sonhador, abusado, explorador, independente, gênio, melancólico, palhaço, amante, mulher, garoto, pobre, rico, mendigo… Por ai vai, por tudo foi. Ao tentar analisar a carreira do grandiosíssimo Sir Charles Spencer Chaplin nos deparamos com a máxima de que “um ponto de vista é a vista de um ponto”. Muitos ainda tentam confundir-nos, banalizando a linha tênue e significativa que separa a personalidade da sua criação, sua arte. E, esse homem, que lutou contra todos os outros homens, era um artista, do qual a sua própria genialidade não é digna do mundo do qual ele pisou. O mundo não era – e é – digno de o ter como lar, mas nós somos dignos – devemos ser – de resgatar a mensagem principal que ele nos deixou: Sorrir é o melhor remédio. Mesmo quando o medicamento seja para retardar uma doença incurável.
Incurável é a dor que sinto com seus filmes. Suas obras, seus espetáculos. E realmente são. A atuação é estruturada por duas entidades místicas, conhecidas como: Drama e humor. O que Chaplin faz é elevar o respeito e equilíbrio pelas duas. Nunca as abandonando, nem mesmo quando finge o fazer. Ele era perfeccionista. O seu cinema era perfeito, sabe o motivo? ambos nasceram juntos, portanto o entendia mais do que ninguém.
O cinema começa e, por não existir a voz, a dinamização da nova tecnologia é possível. O mundo inteiro poderia ver uma história sem nenhuma barreira. Como se aquela fosse uma oportunidade real de unificação de ideias, pois, nesse berço, ainda não se pensava em cinema como arte. Entretenimento desconhecido que instigava a curiosidade. Essa etapa do cinema é uma fase tão enigmática que transcende as barreiras da realidade. Cria da fotografia, uma nova forma de exercício intelectual se iniciava, quase que uma teia de desenvolvimentos artísticos. A atuação deveria encaixar nas possibilidades da época, o humor deveria ser ao extremo para segurar a atenção, as histórias tinham que ser curtas. Mas o que raios era aquilo? Qual era o objetivo?
Eu passei longos cinco anos pesquisando o trabalho do Chaplin, não quero aqui ser didático, por mais que em uma outra oportunidade pretendo ser, queria só expor o quanto esse ser humano representou para uma desconhecida oportunidade. Tamanha sua curiosidade, foi desbravando os meios, criando suas piadas – inspirando-se pelas experiências com a mãe e o pai alcoólatra – até que chega um momento do desprendimento, onde esse cara vai fazer a sua obra. Eu fico fascinado com o ataque de oportunismo, o poder desse visionário de dar a cara a tapa para fazer diferente, extrair um conteúdo que já vinha fazendo, mas de uma forma completamente diferente. Ele estava pensando nas pessoas? Ele estava pensando que iria mudar o mundo? Não! Ele queria crescer profissionalmente, mas tudo o que tocava virara flores, pois, como percebemos, Chaplin era dedicado/diferenciado, disposto a entregar um pensamento subversivo sobre o que, realmente, é “sentir”. Sua vida não fora anormal até então, menino abandonado pela vida, criado atrás das cortinas dos teatros, esperto, pobre… Ele soube aproveitar um pouco do tudo que passou e criou um pouco de todos que existe no mundo.
Vagabundo
O seu personagem, imortalizado, é extremamente cordial. As adversidades que passa não são sentidas no seu comportamento. Ele não trata diferente, é sempre o mesmo. Delicado, sensível, apaixonado e cavalheiro, um conquistador. Parece estranho, não é? Se sentir apaixonado por um vagabundo. Sua doce arte nos ensina que, ser vagabundo, não o tira a possibilidade de ter esperança nas pessoas. É claro que ele tem muitos envolvimentos com mulheres, mas por que ele desperta o interesse nelas, me parece que tanto homem, quanto as mulheres recebem o mesmo tratamento do nosso querido vagabundo. Ele é um palhaço que vaga, não procurando um lar, procurando compartilhar a sua inocência. Encantando e sendo encantado. Oras com seu humor incomparável, oras com sua tristeza costumeira. Independente, faz-nos amar estar triste para, só assim, sorrir. O sorriso se transforma em conquista árdua, diante a crueldade dos homens que ainda não aprenderam a amar. Chaplin nos diz que um dia irão, não a massa, mas o indivíduo sim.
A sua roupa demonstra que ele não precisa de muito para ser elegante. Basta um chapéu coco e uma bengala para ser lindo, basta ser, basta o olhar, basta o sorriso tímido ao fim de Luzes da Cidade, basta ser o bastante. O vagabundo é um ícone, uma ideologia. Uma lembrança de que existe muita gente por ai querendo gritar ao mundo que muita coisa está errada. Só de pensar eu fico sufocado. Se uma criança está jogada no meio da rua, o vagabundo olha para cima como se quisesse dizer “Não pode ser, de novo?”. Gente, preste atenção no que vou dizer, sinta-me, essa é uma cena de um filme de 1921! Estamos em 2014, situações cada vez piores acontecem e há noventa e três anos atrás um homem gritava por socorro. Através do humor, mas com muito drama, muita verdade.
Um garoto-pai
Caminhando, só, pelas ruas
Se sente infeliz quando olha para o céu
Estão caindo anjos agora? – ele pensa
Anjos com asas quebradas, 
à procura de ajuda da verdade,
Existir e ser pai como deve,
Sem a hipocrisia do nascer,
Buscando no choro a sua canção mais doce.
No cobertor rasgado, a sua melhor proteção.
Não deixe que isso acabe papai,
Um dia fui anjo, 
Hoje te entreguei minhas asas.
Quebraremos vidros da ousadia,
Sentados pelas calçadas perdidas, 
Nas florestas de nossos corações solitários.
Sigamos em frente. 
– Escrevi quando tinha 13 anos, logo após assistir “O Garoto” pela primeira vez.
Charles Chaplin está sempre relacionado nas listas infinitas de homens que mudaram a história do mundo, gênios etc. Não vejo muitos conhecendo-o, de fato. Muitos conhecem a sua criação, a figura, mas poucos o nobre senhor por trás dela. Até para ter o mínimo de consciência sobre qual é o limite da sepração entre a vida pessoal e profissional, principalmente relacionando-o com a arte audiovisual, que serve como um apanhado de várias outras artes, trabalhando em conjunto. Estou repetindo tanto sobre a personalidade do Chaplin pois, como se imagina, era muito forte. Essa força para a composição, tanto de músicas como personagens e contextos, surgem de uma pessoa extremamente misteriosa. Um intelectual da entrega, da mulher.
O garoto fala, também, sobre ser pai, então a identificação foi imediata, essa postura dele, esse carinho, mesmo sem ter nada para oferecer ao garoto, sempre me fisgou, de alguma maneiro. Vou até me corrigir, ele tinha muito para oferecer, uma verdadeira boa vida. O tudo do pouco. Comparo a situação social dos seus filmes com a própria felicidade. Você não é feliz, você está feliz. Felicidade não nasce junto com as pessoas, ela vem, mediado por situações de momentos, ela pode, inclusive, acabar no dia seguinte. E é isso, Chaplin, o vagabundo, é indiferente a felicidade, ele renuncia essa benção para nos mostrar que não temos que ser felizes, temos que saber aproveitar a felicidade. E essa mensagem maquiagem nenhuma esconde.
A vida se torna muito simples com o Charles Chaplin. Qualquer coisa vira piada, dentro do grande drama que contextualiza os seus personagens sem lugar. Mas não pense que não ter lugar é algo ruim, é provado em seus filmes que existe lar em qualquer lugar. Mas o vagabundo não pode parar nos lugares que passa, por mais que doa o coração partir. Ele está sempre em busca de novas oportunidades, novas experiências, para preencher a sua eterna esperança de amar perdidamente.
Obs: Texto originalmente publicado em 10 de julho de 2014

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Siren X (2008)

 Adorável lado B do cinema, aqueles filmes que, sem dúvida nenhuma, Tarantino assistia lá na locadora. Esses filmes são os meus pipocas, a minha diversão é garantida com um bom sexploitation, trash, gore etc. Sinto-me feliz e emocionado, uma emoção tão grande que tremo e sinto vontade de tirar as calças. Extasiado com o grotesco, horror cretino e sujo, viva o cinema podre!
Trouxe um filme interessante hoje, parte de um subgênero japonês chamado “Pinku Eiga” ou traduzido “filme cor de rosa”, que é uma adoração a mulher. A mulher como personagem principal. Mas não é comédia romântica ou nada do tipo, estamos falando aqui de sexo. O sexo como o real propósito de uma histórinha bobinha. Existiam, então, assim como o sexploitation, as musas do Pinku como a lindíssima e talentosa Reiko Ike que tem em seu currículo obra como “Sex and Fury”, cujo destaque se encontra em uma cena onde ela está tomando banho em uma banheira, sua casa é invadida por capangas malvados e, sem roupa, ela sai para lutar pelo seu destino. Isso tudo na neve e, minha nossa, que coisa linda. Mais tarde Tarantino copiaria visualmente isso na luta final de Kill Bill vol. 1. Enfim, “Sex and Fury” tem a eterna ninfeta Lindberg ( já falei sobre ela lembra? Clique aqui ) e você, caro(a) amigo(a), precisa urgentemente ver essa pérola do cinema!
 Continuando, assim como tudo na vida, esses filmes influenciaram muito a indústria, mesmo com suas bizarrices, primeiro porque muitos puderam se masturbar diante aos espetáculos em forma de atrizes despidas – quer mais importância que isso? – segundo porque… mulheres!
Esse subgênero, nos anos 60, permanecia marginalizado e, com os respectivos sucessos, como filmes como “Daydream” de 1964, nos anos 70 as grandes indústrias passaram a aderir o formato para si, resultando em outros excelentes e divertidos filmes.
O que vou citar aqui é diferente, por dois motivos, ele é recente, 2008, e é um filme de terror. Geralmente esses filmes não se preocupavam tanto com a história que ligava o sexo, nesse temos, sim, uma boa história. Há exageros, filmagens grotescas, personagens estúpidos e atuações fracas, mas no todo consegue ser muito interessante e, ainda por cima, prende a atenção.

Yôjo densetsu Seirên X: Mashô no yûwaku ou, simplesmente, Siren X nos mostra um grupo de jovens realizadores que vão para uma pequena ilha afim de fazer uma paródia desses programinhas de terror, com entrevistas e caça ao monstro/mistérios, só que, claro, com o intuito de cair no sexo depois. Então temos a atriz que faz o papel da repórter, por exemplo, que está com uma mini-saia e sempre teremos, enquanto ela desbrava o local “mal assombrado”, filmagens da sua calcinha, enfim, o filme usa esse tipo de erotismo. Cai uma chuva e eles vão se abrigar aonde? Na primeira casa com aparência diabólica que eles encontram, claro.
Do nada a porta abre, são recebidos por uma mulher lindíssima e estranha. Depois de bons tratos e o oferecimento de uma estadia, eles descobrem que ela é uma devoradora de homens. Curioso é como ela faz isso, ela transa com os caras, tipo o maior sexo da vida deles, até eles gozarem – e, na minha opinião, aquele gozo não é normal, visto que em uns saem pela boca, outros cortam a garganta etc – e depois ela bebe todo o esperma, quase como sugando a alma deles por meio desse ato vampiresco até, eu diria. Temos aquela velha história, os amigos percebem a verdade, começa a fugir e, pensando estarem a salvos na cidade, a tal moça começa a aparecer em sonhos, fazendo com que eles fiquem obcecado pelo monstro no corpo de uma linda asiática e, confesso, bota linda nisso. Belos seios. O que estava falando mesmo?! Só me vem a cabeça seios agora…. espera….
As alucinações que acontecem são as melhores coisas do filme, ainda tem umas brincadeiras do que é verdade e o que não é, um dos amigos está fazendo sexo com sua namorada, imagina a tal moça e, quando percebe que não é ela, ele mata a namorada, enfim, depois os dois amigos retornam para a mansão afim de fazer o sexo de suas vidas e, consecutivamente, morrer, sufocados pelo seu próprio gozo. Realmente, um filme divertidíssimo, interessante, muito bem realizado para o que se propõe, mistura muito bem o terror e cenas de sexo, enfim, gostei bastante mesmo.
Obs: Texto originalmente publicado em 15 de fevereiro de 2015

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Os zumbis bêbados de vinhos do Jean Rollin

Nessa resenha, inicio uma coluna que há tempos tencionava fazer. O Cine Underground chega para retomar minhas pesquisas (cof, cof, cof) do mundo B do cinema, aqueles filmes perdidos, antigos, toscos, de baixo orçamento, sexploitations, eróticos, de artes marciais, com zumbis, ninjas, entre outras pérolas.

“Les Raisins de la Mort!” ou “As Uvas da Morte”, o filme que trago para a estréia da coluna não poderia ser de outro, senão um dirigido por um dos maiores nomes do terror B da França: Jean Michel Rollin Le Gentil, mais conhecido como Jean Rollin!

Desde novo apaixonado por cinema, tem como característica o domínio grande da técnica cinematográfica, principalmente pelo fato de suas obras na maioria serem de baixo orçamento. A criatividade do argumento e genialidade em trabalhar o obscuro mesmo com tamanha simplicidade são pontos que fazem o seu trabalho ser espetacular. Tirando os conceitos profundos, é válido ainda acrescentar que seus trabalhos vivenciam suas protagonistas de uma maneira ímpar, sempre acompanhado de belas mulheres, não só a nudez está presente como também uma significante exaltação do feminino. Em “Fascinação” (1979) é possível visualizar exatamente essa afirmação, visto que um personagem masculino é tratado como ignorante perante uma imensidão de segredos de duas mulheres que moram sozinhas em uma mansão. Além do mais, ocorre um jogo psicológico, onde o intruso se transforma em um alimento e a perversão é tanta que, antes das mulheres devorá-lo, brincam com sua fraqueza e corpo.

Lançado um ano antes, “As Uvas da Morte” (1978) não pode ser considerado um dos melhores do diretor, no entanto é divertido e tem doses certas de desconforto. Graficamente o filme é interessante pois possui cenas gore – a maquiagem é muito boa por sinal – mas sua força se encontra justamente na protagonista que, se a interpretarmos com cuidado, se vê sozinha, perdida e tonta em meio a um caos que nasce do súbito.

O filme começa com Élisabeth e sua amiga viajando de trem. Ela está indo de encontro ao namorado, no interior da França, e, saberemos posteriormente, que ele está diretamente relacionado com uma epidemia zumbi que se alastrou por um pequeno povoado. Um pesticida experimental espalhado em videiras está transformando as pessoas em monstros assassinos. Sim! Todo mundo que bebe vinho, começa a apodrecer.

A protagonista é frágil e isso é perceptível desde o primeiro momento. Interpretada pela atriz Marie-Georges Pascal – extremamente bonita, inclusive – sua posição no filme é se deparar com diversos eventos horríveis e não ter tempo para pensar.

As duas imagens acima sintetizam a apresentação da protagonista: ela olha preocupada, aparentemente sem motivo, para o além e antevê o medo. O trem vazio dá ainda mais proporções para o desconforto e o trabalho com os reflexos indicam que ela precisará se fragmentar para aguentar os eventos que acontecerão.

A descida da Élisabeth do trem ilustra a perfeita divisão entre a garotinha que teme a sugestão e a mulher que, mesmo que com atitudes duvidosas, se depara com a morte. As fatalidades são muito rápidas, personagens surgem de forma abrupta e, do mesmo modo, se vão – característica que acompanha os roteiros do diretor, inclusive -, tudo isso é muito estranho mas, para a surpresa de muitos, Rollin consegue se equilibrar entre o pavor e o cômico sem se render ao trash.

O ritmo lento incomoda pois conflita com a urgência das ações, mas nada irrecuperável. Existe também uma nebulosidade quanto o comportamento dos zumbis, uns são conscientes, outros não, outros são assassinos, outros simplesmente seguem um líder zumbi. A transformação, como era de se esperar, é bem simples, umas gosmas no rosto ou corpo, muito pus e sangue também.

No segundo ato ainda tem a participação da atriz pornô, e musa do Jean Rollin, Brigitte Lahaie. Ela fez diversos trabalhos com ele, incluindo o já citado “Fascinação” (1979). Aqui sua personagem é interessante, se esconde na casa do prefeito morto da pequena cidade e se vangloria pela segurança que o conforto exala. Mas a mulher não sabe que o vinho é causador dos males e acaba mudando de lado.

“Uvas da Morte” (1978) zomba da situação com seriedade, com os seus zumbis bêbados de vinhos caminhando em direção à lugar nenhum, matando geral e uma menina apaixonada no meio de tudo isso só esperando a hora de acabar. É um dos mais divertidos do diretor e, mesmo em meio às piadas, é possível sentir a energia hipnotizante que só Jean Rollin sabe provocar.

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No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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Stanislavski e a Preparação do Ator

A palavra teatro (théatron) deriva dos verbos gregos “ver, enxergar” e significa lugar de onde se vê. A grande afirmação para essa questão é: não existe um só lugar que não enxergamos a vida acontecer diante dos nossos olhos. Como tal, o teatro funciona como um reflexo da realidade, movimentos cautelosos ou violentos criados a partir da ânsia do homem em se imortalizar. A expressão corporal e vocal exala uma propriedade mística, por isso desde o começo do teatro – cuja origem segue sem explicação – ele está estritamente ligado com rituais para o divino.

Quem sabe a teatralidade tenha começado na pré-história, talvez com algum homem imitando os animais, brincando, não sei. A única coisa que tenho certeza é que o homem existe e, por isso, modifica o meio e sua própria vida para seguir sobrevivendo; é isso que fazemos, reinterpretamos constantemente tudo e duplicamos nossa própria vida em busca de outras experiências. Não seria exatamente essa a maior dor que existe? as infinitas possibilidades desperdiçadas, os caminhos misteriosos do “e se?”.

Nesse artigo irei analisar alguns aspectos importantes da preparação do ator em base ao livro A Preparação do Ator de Constantin Stanislavski. Clássico literário que serve como essência para a formação de atores e cuja importância histórica é gigantesca. A título de curiosidade, Charles Chaplin citou uma vez o livro e o analisou como excelente não só para os interessados em atuar, como para a vida. Em base a essa frase, pode ter certeza que o livro te ajudará a aplicar alguns conceitos teatrais nos seus projetos, seja eles no audiovisual, teatro ou em qualquer área profissional, artística ou não.

Constantin Stanislavski nasceu na cidade de Moscou em 5 de Janeiro de 1863 e desde cedo teve contato diretos com a arte. Inclusive na sua casa ajudava na manutenção de um pequeno teatro, onde haviam apresentações para algumas pessoas da sua família. O mesmo local era um abrigo eventual para grandes intelectuais da época.

Com 25 anos ele fundou junto com algumas pessoas a Sociedade Literária de Moscou visava discutir sobre a arte performática. Com o passar do tempo, mesmo com o relativo sucesso, ele não consegue mais sustentar esse grupo, pois todos os custos saiam do bolso deles e o negócio se tornou inviável.

Mas o milagre artístico aconteceria mesmo 10 anos depois, quando após diversas correspondências dele com o Vladímir Dântchenco, os dois resolveram se encontrar e desse encontro surge a ideia de criar o Teatro de arte de Moscou. E esse foi o princípio da mudança do teatro mundial, pois os dois mestres intelectuais discutiam e inventavam a cada dia métodos teatrais que resgatavam a visceralidade performática que estava sendo esquecida na época. Essa contribuição foi e é impactante, pois quebrou o conservadorismo e deu um pontapé na liberdade de expressão, cujos movimentos no palco deveriam ser pautados na realidade e não no exagero, ou como o próprio Stanislavski cita bastante… “atuação mecânica”.

Atuação mecânica, resumidamente, seria aquela postura do ator em exagerar os seus movimentos de forma a caracterizar uma interpretação, o ator se exibindo como ator. Em síntese, o teatro busca a realidade na sua mentira, por isso há pluralidade e possibilidades infinitas quando pensamos em escolha de elenco. O diretor deve escolher o ator e ele, por sua vez, deve sentir o seu personagem. Caminhar com ele e entendê-lo – sobre qualquer circunstância – até mesmo no camarim ou nos intervalos de cena.

Sobre isso, há uma passagem interessante no livro:

“Lembrem-se disso: todos os nossos atos, até mesmo os mais simples, que nos são de tal modo familiares na vida cotidiana, tornam-se forçados quando surgimos atrás da ribalta, perante um público de mil pessoas. Por isso é que temos que nos corrigir e aprender a andar novamente, a nos mover de um lugar para o outro, a sentar ou deitar. É essencial nos reeducarmos para olhar e ver no palco, para escutar e ouvir”.

Qualquer pessoa que já atuou sabe o quão impactante e verdadeiro é esse trecho. Um levantar de braços durante uma apresentação parece que dura uma eternidade, como se pequenos detalhes fossem difíceis de realizar. Claro, a insegurança é quebrada conforme as repetições e ensaios, no entanto, no sentido filosófico, nenhuma ação enquanto apresentação é simples. Quando o ser humano se torna o centro das atenções e expectativas, não existe meio termo: ou ele se sente poderoso demais ou de súbito percebe a sua pequenice. Pessoalmente, sinto que o trabalho constante do ator é encontrar o meio termo entre esses dois extremos.

Stanislavski dizia também que o ator deve ser um intelectual, se interessar por áreas diferentes e observar o que acontece diariamente ao seu redor. Isso porque precisa absorver os detalhes do cotidiano de forma a compor as suas personagens. Essa ideia parece óbvia hoje, mas imagina na época? os seus métodos tecnicistas envolvem uma série de conhecimentos, que vão desde a medicina, alongamentos, passando pela psicologia, meditações, enfim, os seus escritos demonstram um alto domínio de tudo que envolve a construção da arte teatral.

A sua escrita é inteligente pois mistura a ficção de modo a estruturar com mais força os seus métodos. A sua proposta é fragmentar o papel do ator e transformá-lo em um equilíbrio ambulante, para que ele consiga buscar em si exatamente os conceitos que unem a atenção, desprendimento e espiritualidade. O ator precisa ser curioso ao ponto de perceber nuances da voz e interrogar aquilo que não compreende; ter coragem para se jogar no palco e não se interessar pelas consequências mas sim pelo sentimento do momento em relação à entrega total, fisica e psicologicamente;

Em um artigo que expliquei como e por onde começar a estudar cinema, enfatizei a importância de estudar separadamente a história e métodos do teatro – inclusive um dos livros que recomendei é justamente A Preparação do Ator.

Analisar a atuação no cinema é mais complicado pois existem centenas de ferramentas artísticas que manipulam a performance, mas aos cinéfilos e estudiosos do cinema, é interessante a leitura do Stanislavski justamente para entender a dificuldade do bom ator em reunir uma série de informações e as carregar consigo enquanto tenta se manter em equilíbrio entre a sua verdade e a criação de uma nova vida que, porque não, será moldada a partir de uma mesma essência.

Stanislavski, assim como outros pensadores, contribuiu para o pensamento crítico da arte mais pura de todas. Ele elaborou uma série de sequências didáticas, popularmente conhecidos como “sistema Stanislavki”, que assumem uma importância histórica enorme pois dialoga com outras áreas do conhecimento humano. As técnicas, nas palavras dele, “não fabricam a inspiração, mas criam um terreno favorável pra ela.”

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Anticristo (2009)

O homem é uma semente rebelde da natureza

O prólogo de Anticristo (2009) está repleto de informações e é a única sequência do filme que é maravilhosamente delicada – e tal afirmação pode ser entendida de forma monstruosa, dado o contexto do início. Charlotte Gainsbourg interpreta “Ela” e Willem Dafoe faz “Ele” – e é dessa maneira que irei me referir aos personagens ao longo do texto. Em pleno orgasmo não existe mãe ou pai, somente duas vidas tentando encontrar o prazer em uma energia simbiótica cujos movimentos são conhecidos popularmente como “sexo”. E é isso que o ser humano faz, ele busca prazeres, até mesmo na estagnação.

O filme para mim, é importante ressaltar desde o início, conversa com o espectador e suas dores sobre o estado puro do homem, o qual remete diretamente para a origem da vida e do pecado. O homem primata possuía o mundo como palco, mas estava repleto de limitações territoriais. A noite era representação do perigo, as caças eram sinônimo de poder e a conversação com as divindades eram feitas através da arte rupestre. De imediato percebemos a conexão infinita da humanidade com a natureza e a tentativa frustada de sobreviver nela.

Resta ao ser somente o prazer. Estar presente sem propósito é sufocante, por isso que é importante sentir a felicidade, mesmo que ela se origine de uma ilusão. E é isso que o homem sempre buscou, inclusive na modernidade. Buscamos a felicidade, mesmo as que duram apenas alguns segundos, tudo isso porque não aguentamos a realidade despida.

“Ele” e “Ela”, em Anticristo, representam toda a humanidade que luta contra a natureza no momento que padroniza a sua existência. Criando laços afetivos e se acomodando como conforto. “Ela” é a primeira a se desprender dessa realidade inevitável, ao passo que goza. O gozo traz consigo a dor da vida e morte e o ciclo se repete infinitas vezes. O prazer, que outrora era personificação do homem individual e egoísta, cria novas oportunidades e seres, todos fadados à enfrentarem a mesma maldição e benção de existir.

A cena do prólogo é envolta de uma música gregoriana chamada “Rinaldo, lascia ch’io pianga”, cuja letra é bem significativa para o entendimento do filme:

“Deixe que eu chore minha sorte cruel, que eu suspire pela liberdade. A dor quebra estas cadeias de meus martírios, só por piedade!”

O slow motion traz a beleza visual de movimentos simples e catastróficos, no mesmo tempo que diferencia aquele instante dos infinitos outros que se passarão a seguir na vida do casal. Enquanto fazem sexo, o filho cai da janela e encontra o seu fim. A apresentação do trágico não poderia ser mais claro, o vento que abre a janela (portal da morte e desesperança) é quase perceptível, a câmera focaliza três soldados em cima da mesa, todos juntos trazem a seguinte mensagem: Dor, tristeza, desespero”. E é exatamente esses três sentimentos que estarão presentes ao longo de uma hora e quarenta e oito minutos. 

A tristeza invade os protagonistas e, por consequência, o espectador. “Ela” é a que mais sente o falecimento do filho, principalmente pela culpa. Na verdade, a mulher aqui é a que não teme exibir suas dores, no mesmo tempo que “Ele”, por ser um psicanalista, se esconde atrás da sua profissão e passa a se dedicar na recuperação da esposa. O laço familiar – que é intrínseco ao homem ou é imposto pela própria sociedade? – é quebrado, a esposa passa a ser objeto de estudo, uma simples paciente, cobaia e escudo.

Um momento que comprova o início da obsessão por parte do marido, é a cena do hospital. Onde ele acompanha os mínimos avanços psicológicos da esposa e se coloca como superior ao médico e se prontifica a curá-la, com a justificativa de que “ninguém a conhece tão bem quanto ele”. Essa afirmação não só demonstra a sua arrogância, como também deixa ainda mais ambíguo o seu estado psicológico, visto que está em pleno desequilíbrio entre o profissional e pessoal.

Os diálogos iniciais apresentam sempre “Ele” em primeiro plano e “Ela” ao fundo, com o rosto desfocado – elemento que será repetido no final do filme, onde diversas mulheres com o rosto borrado invade a floresta. Ainda mais, em vários momentos ela está posicionada abaixo do marido, como se fosse visualmente inferior a ele por conta da debilidade psicológica. Essa postura ilustra uma verdade social: a de que o ser humano, muitas vezes, recusa até o último momento expor as suas fraquezas, mesmo quando o desabafo é a única maneira de continuar caminhando.

Homem e mulher passam pela mesma dor. Mas a forma que eles lidam com ela determina exatamente as consequências que veremos a partir de então. Em singelas cenas, “Ele” é filmado entre paredes, lugares desproporcionais, ângulos diferentes, que representam os seus sentimentos silenciosos diante à fatalidade.

Quando “Ele” pede para sua esposa se imaginar no Eden – floresta que representa o maior medo dela -, ela o faz e se vê caminhando por entre a mata em câmera lenta. Assim como o prólogo, o tempo indica a fusão entre o ser humano/mulher e a natureza. A humanidade está livre e abandonada, a frase “a natureza é a igreja de Satã” ilustra exatamente isso. O conceito de Satã, nesse momento, faz referência à filosofia de Anton LaVey, que classifica satã como uma metáfora da natureza, não apenas como uma síntese do mal.

A comunicação dos protagonistas na floresta sempre é distante, ambos se apoiam um no outro e na ilusão para o equilíbrio. Ela usa da persuasão para soar como curada; ele simplesmente se apoia na intelectualidade. Ela é o cervo que carrega em sua traseira o filhote morto e ele é a raposa que come a si próprio, ambos retornam para suas versões selvagens, inclusive ele ouve a raposa dizer “O caos reina”, frase que contradiz a sua posição profissional até o momento.

A jornada de retrocesso filosófico, onde um homem e uma mulher se aceitarão como uma só dor e compreenderão que a maldição do homem civilizado é recusar a verdade de ele e a natureza são a mesma coisa, chega ao seu ápice quando a dor psicológica transborda ao ponto de ambos se agredirem fisicamente. A começar pelo sexo na floresta, onde há um corte e unido com uma ausência sonora assustadora, é possível ver diversos corpos enterrados em baixo das raízes de uma grande árvore – seria o fruto proibido? – até culminar na agressiva cena onde a mulher masturba o seu marido e ele ejacula sangue. A vida e morte se encontram nesse momento. A esperança morre e os três mendigos assumem o mandato, não só do casal, mas do mundo. Afinal, dor, desespero e luta é o que há, a realidade que teima em ser rejeitada por momentos ilusórios de felicidade.

Anticristo se trata de um monólogo de um diretor amargo e submerso na depressão que retrocede ao ponto em que todos os homens estão nus, cegos e incompreendidos pela própria natureza. Através da melancolia ele consegue desenvolver uma obra que conta uma só história repleta de referências bíblicas e filosóficas, e que, por isso, consegue se desdobrar e envolver diversas camadas, principalmente as relacionadas com a natureza humana e sua postura diante do inevitável processo de abandono e fim.

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Arte – a religião de voltar-se a si

Existe um coração universal que pulsa em cada ser humano; existe uma trajetória que os afasta do seu âmago; e existe o olhar que absorve o mundo e é, por ele, absorvido. Enquanto indivíduo, somos frágeis e delicados. Em civilização somos máscaras. O que torna o homem capaz de violar, de ser rude e ganancioso?

A existência tem como sobremesa a sobrevivência. O homem em seu estado uniforme grita aos quatro cantos o seu status, sua formação é em base à sociedade, seu comportamento e vestimenta. Mas o homem fragmentado, bem, esse representa a mágica realidade da existência pueril. Não existiu e nunca existirá na história uma única revolução que não tenha partido do caos e da revolta, e, convenhamos, o mundo precisa de grandes rebeliões para conhecer o amanhã. Portanto, é necessário que o homem se despedace afim de encontrar o começo de sua jornada. E entre um caco de vidro e outro, eis que surge o dilema da função religiosa da arte.

A arte possui uma definição subjetiva, é claro, que ganha proporções diferentes conforme o contexto histórico ou social. Contudo, é de se notar que essa entidade nunca esteve separada do ser humano. A arte não é uma ferramenta que traz ao homem uma facilitação no seu processo de imortalidade através das suas expressões artísticasa arte é o homem no seu estado inicial. A arte é o coração universal, o big bang, é a expansão e criação do homem, que fora passado para traz conforme a civilização foi se tornando sólida. A arte enquanto sociedade é apenas registro; a arte enquanto indivíduo é uma deidade.

A religião mais intensa e verdadeira que existe é a arte, pois ela traz consigo a noção de outro estado. A terra motiva o homem a superar adversários, estruturar pensamentos e atribuir significados à todas as coisas; a convivência social obriga os indivíduos a se encaixarem em uma classificação previamente planejada por um burguês – desse modo, é válido reforçar que a classificação é o alimento preferido dos ignorantes; e o tempo, por sua vez, impulsiona o ser acovardado a criar raízes. Enquanto isso, a arte e o seu “outro estado” caminha despida por entre um paraíso imaginativo, que se adapta às necessidades de cada um. A arte é a mágica do homem, é a verdade irrevogável, é a única maneira de voltar-se a si.

No campo terreno estamos envolta de conservadorismo e limitações, mas nas expressões não existem regras, não existe ditadura, não existe preconceitos. Por isso é tão difícil unir sociedade e cultura, sociedade e educação, pois desde pequenos somos treinados a definir o redor, como se fossemos dotados dessa capacidade maçante. É preciso sentir os intervalos de um diálogo e outro, de uma atitude e outra. Perceber a beleza da maldade e a leviandade do controle. Na terra dos homens existem as leis, no estado artístico a única lei é ser. Mulheres são homens e vice-versa, o amor é um só, a mensagem não é clara e nem por isso ininteligível, a palavra não é reprimida e o manifesto é consequência e milagre social.

Adoradores da arte, fundemos uma nova percepção espiritual, a sociedade do estado artístico. Um plano astral onde podemos retornar ao primórdio. Aniquilar as classificações e jogar-nos fisicamente e emocionalmente ao desconhecido prazer de sentir. A dimensão da criatividade extrema impede a corrupção de mostrar os dentes. Enquanto isso, o ignorante permanece sentado na sala de jantar, classificando o inclassificável, rejeitando o manifesto pacífico da poesia e proibindo aquilo que nunca fez e nunca fará.

Você está convidado a fazer parte dessa sociedade. Reinvente-se!

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A imortalidade sob a perspectiva existencialista da Simone de Beauvoir

A imortalidade sob a perspectiva existencialista da Simone de Beauvoir: a obra “Todos os Homens São Mortais” como diálogo definitivo do homem e sua busca irracional pelo infinito.

Assistindo recentemente o sucesso “Logan” (2017) não pude ignorar o fato de que o tema principal discutido pelo filme é justamente a luta de um homem contra o seu tempo. Partindo desse exemplo popular, hoje trago uma resenha sobre o clássico livro de uma das minhas escritoras favoritas, a feminista  Simone de Beauvoir. A proposta não é dissecar o trabalho inteiro da escritora, irei me ater apenas em alguns dilemas do livro em questão, de forma a compor uma reflexão sobre o fim da existência – uma ideia que tem sido recusada ferozmente por diversas sociedades ao longo da história – algo que ilustra não só a ansiedade da humanidade em se dividir, seja através da arte ou não, mas também a solidão existencial motivada, principalmente, por uma sociedade que pré-determina o tempo das conquistas individuais e pressiona o indivíduo em relação ao tempo que lhe resta. Será que a nossa vida seria diferente se descobríssemos que a expectativa de vida humana passou a ser de apenas quarenta anos?

Um conhecimento básico na estrutura de roteiro é que qualquer história se divide em três atos. Entre os “pontos de viradas” – como são chamados os exatos momentos que representam a transição do primeiro para segundo ato; do segundo para o terceiro – existem diversos momentos cruciais na história, mas todos estão divididos entre as três fases primordiais.

Se viajarmos em alguns conceitos da numerologia, bem como a própria história, perceberemos que o número três é muito significativo em diversas culturas e religiões. Peguemos como exemplo a lenda de Édipo, que é interrogado pela Esfinge, muito sábia, com um questionamento oportuno sobre a essência da vida. Ela pergunta: “Qual é o animal que tem quatro patas de manhã, duas ao meio-dia e três à noite?“. O herói, após refletir um pouco, responde que é o homem. E se justifica: “O amanhecer é a criança engatinhando, entardecer é a fase adulta, que usamos ambas as pernas, e o anoitecer é a velhice quando se usa a bengala“. Três etapas sendo desmistificadas com características que resumem uma só realidade: a vida humana se modifica apenas para encontrar o seu repouso.

A existência tem como essência o movimento, a jornada da vida não é uma linha reta e limpa, é impossível reconhecer previamente os obstáculos sujos ou maravilhosos da estrada à frente. No entanto, a beleza da vida se encontra justamente na cegueira provocada pelas curvas acentuadas do caminho que tiram a nossa ciência do depois. O ser humano é o único animal capaz de imaginar o ponto final, e sempre que o faz, interpreta o fim como uma rua sem saída, cuja limitação provoca uma série de decepções. 

É corajoso da nossa parte estar aqui e continuar existindo; é ignorante da nossa parte achar que a vida existe para suprir os nossos desejos. A vida é procurada até mesmo na morte, afinal, elas partem do mesmo propósito: não existe sentido em uma estrada que não leve à lugar nenhum.

“Todos os Homens São Mortais” é um livro que investiga justamente essa questão elementar. Escrito com uma sobriedade assustadora pela sempre excelente Simone de Beauvoir, acompanharemos um personagem chamado Fosca que, em pleno século XIII, bebe uma poção que lhe prometia trazer a imortalidade. A benção da vida eterna, aos poucos, vai se transformando em maldição e esse personagem se sente incomodado com a sua presença fantasmagórica no mundo. Um ser etéreo; um homem que é enxergado pelos outros como um ser morto.

A leitura é obrigatória para os amantes do existencialismo, pois a imortalidade é trabalhada de uma forma realista, distanciando o leitor de uma visão romanceada de uma existência sem o perigo iminente da morte. A vida sem a problematização do seu fim é como uma obra de arte que fora rasgada pelo próprio artista. Os pedaços da arte, mesmo que colados, nunca mais retornaram ao mesmo princípio. Parece que o homem só anda para se reencontrar com o vazio e, se fosse possível rejeitar essa realidade, de nada adiantaria acordar.

O homem, desde o início dos tempos, encontrou na arte a forma ideal de se imortalizar. A quebra da rotina de caças e inseguranças diante os perigos de um mundo hostil, eram quebrados pela sutileza de momentos dedicados às pinturas rupestres. Atitude que nos aproximava dos deuses, trazia o conforto espiritual. É impossível um artista não ser espiritualizado, tendo como exemplo toda uma história onde os seus semelhantes sempre tentaram encontrar um lugar no mundo para espalhar as suas mensagens.

A sensação de pequenice, provocada pela finitude, é mascarada de diversos modos. Como a própria escrita que tem como função principal o domínio do escritor sobre a normalidade. O tempo limitado, como podemos sentir lendo as páginas de Simone, não se trata de uma desgraça; mas sim de uma coerência. A harmonia da vida é a delicadeza e compreensão da sua presteza.

O alento pessoal é a sincronia do coração com a natureza. Os passos são dados e a trajetória é o âmago dos desdobramentos emocionais. Afinal, ninguém se interessa por aquele que nada passou e nada passará. A história encanta, mas a conclusão é uma ilusão. Na arte não existe um fim literal, só um pequeno momento que separa o fácil do transcendental.

Na construção de um roteiro, os três atos são a essência da estrutura narrativa. Mas nós, como artistas, podemos simplesmente inverter a ordem. O fim passa a ser o começo. Não é assim que o ser humano lida com o luto? a lembrança é a maior virtude dos rebeldes.

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