The Piper, 2015

O Flautista (The Piper, Coréia do Sul, 2015) Direção: Kim Kwang-tae

Um flautista chega à cidade de Hamelin e presencia o desespero dos habitantes por conta de uma infestação de ratos. Ele prontamente se dispõe a ajudá-los em troca de um bom pagamento. Tocando a sua flauta, o homem misterioso hipnotiza os ratos e todos seguem diretamente ao rio, onde morrem afogados. Quando o flautista retorna para receber, os poderosos da cidade se recusam a pagá-lo, alegando que ele não tinha trazido provas das mortes dos ratos. Dias depois o mesmo flautista retorna para hipnotizar as crianças da cidade e direcioná-las ao encontro da morte.

Essa história é impactante e sombria, principalmente porque se trata de uma manifestação contextual moldada diante à Peste Negra que assolava as cidades na Idade Média. Há uma mescla de ignorância e aproveitamento, bem como uma evidente intenção de vingança, o que, por sinal, são temas que combinam bastante com o cinema sul-coreano. O Flautista (2015) é realizado em base a esse conto, no entanto os eventos acontecem em outro contexto, o roteiro se preocupa em dar uma ênfase no homem e o motivo de sua ira, embora exista diferenças, as semelhanças foram escolhidas com perfeição, e ainda por cima também existe o conflito histórico como plano de fundo, pois aqui um povoado se vê preso e isolado por conta de uma guerra, o que os proíbem de se moverem, restando-os compartilharem a fixa moradia com uma enorme quantidade de ratos.

Nas primeiras cenas é possível perceber que se trata de uma jornada entre pai e filho, e como ambos se ajudarão no processo. O objetivo é ir até Seoul, pois o filho tem problemas respiratórios e um médico de tal lugar prometera uma recuperação perfeita. O caminho fica estruturado o suficiente e visualmente o filme ressalta constantemente a união do pai com seu filho e como a estrada para a sua recuperação será difícil – algo que pode ser facilmente compreendido através de uma fotografia que posiciona os personagens em estradas estreitas, engolidos por uma paisagem exuberante, pureza essa que será contrastada no final do filme, onde a fotografia fica escura e sombria, acompanhando a densidade do roteiro.

Ainda sobre a posição dos personagens em meio à natureza, essa alegoria da repetição possui uma importância enorme quando há uma tentativa de definir os exatos momentos do roteiro que a obra ganha contornos soturnos. Se o primeiro ato pai e filho estão sempre pertos e a fotografia é clara o suficiente para dizer que, apesar da doença, a união dos dois simplesmente os fazem felizes, no terceiro ato a solidão é devastadora e, com o auxílio da escuridão, a obra gira 360° graus e atinge perfeitamente elementos clássicos do gênero terror, isso sem abandonar a proposta fabulesca.

O flautista não procura a vingança; a vingança o encontra no momento que se isola da esperança. A mesma natureza que o envolvia e emanava luz, passa a escondê-lo no escuro.

 Apesar de bons momentos, a infinidade de curvas narrativas tiram a atenção do foco principal. Às vezes as viradas bruscas que vão do drama ao terror em questão de minutos, atingem o exagero e a experiência se torna cansativa. A sensação que fica é que seria melhor ter escolhido entre um caminho ou outro, assim como os próprios personagens centrais do filme. Todavia, esse é um problema que assola o primeiro e segundo ato, pois o terceiro há uma fixação dos reais interesses metafóricos de todo o trabalho desenvolvido até então, principalmente em relação ao roteiro que mais parece uma fábula com pitadas do bom cinema de vingança sul-coreano. E é surpreendente o resultado, pois a perversidade se alinha com a infantilidade, provocando o desconforto imediato.

A atuação do Seung-ryong Ryu demonstra exatamente as nuances da sua personagem que vai se quebrando aos poucos, um senhor de respeito passa a ser um predador, manipulador de pragas e vingativo. O sorriso das crianças e o seu próprio, ao ouvir as canções da flauta, não passam de ilusões que anteveem a catástrofe. A reinterpretação da história do flautista de Hamelin, é tão obscura quanto o conto original, que guarda em suas linhas um mistério sobre o desaparecimento de crianças e o sofrimento causado por doenças; ainda que o real motivo da vingança, nos dois contos, seja o homem isolado e sofrendo as consequências por confiar.

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No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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Flores Amarelas na Grama Verde, 2015

Flores Amarelas na Grama Verde ( Tôi thay hoa vàng trên co xanh, Vietnã, 2015 ) Direção: Victor Vu

A história se situa na zona rual do Vietnã, na década de 1980, onde dois irmãos aproveitam a sua infância e partilham amor, erros e brincadeiras. São flores amarelas esperando o momento certo de desabrochar, um rito de passagem entre infância e responsabilidades.

A sutileza da sinopse é consequência da singela trama que se desenvolve da forma mais carinhosa possível. O primeiro ato é repleto de momentos engraçados, trilha sonora suave e delicada, uma verdadeira carta de apresentação da pequena vila que, mesmo com toda a simplicidade, está localizada em um verdadeiro paraíso natural – o palco das brincadeiras e relações entre as crianças. A natureza que dá liberdade às crianças é a mesma que aprisiona os adultos, portanto, as flores amarelas do título referenciam essa oportunidade de desprendimento antes da consciência da enorme responsabilidade que os aguardam.

Thieu ( Thinh Vinh ) é o irmão mais velho e o que mais se aproxima dessa transformação, portanto, é o protagonista e veículo entre as paisagens e situação com o público. As suas decisões erradas, apesar de atingirem a grosseria em dados momentos, nunca são motivos de antipatia, pelo simples fato de se tratar de alguém que está em busca da sua melhor condição – a cena em que ele confunde cobre com ouro representa justamente essa inocência, bem como o livro com poemas de amor que recebe da garota que é apaixonado e, cego por ciúme do irmão, não percebe que é a prova da reciprocidade dos sentimentos da garota.

A sutileza também se encontra na transformação fotográfica: no começo a luz é presente, as cores são fortes, trazendo vivacidade ao local, tornando-o ainda mais bonito. No terceiro ato, como contraste, o lugar se torna mais cinza, melancólico, ainda que timidamente.

É uma obra-prima grandiosa de um cinema pouco conhecido, Vietnã surpreende nesse conto realista que se aproxima de uma fábula, começa como um conto infantil e vai se desprendendo aos poucos, culminando em um perfeito ensaio sobre a vida e crescimento. Flores amarelas são as crianças que anseiam pelo amanhã, a doçura do irmão mais novo Tuong (  Khang Trong ) e as fragilidades e acertos das relações.

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Brimstone, 2017

Brimstone (Idem, EUA, 2017) Direção: Martin Koolhoven e Martinus Wouter Koolhoven

Basta assistir poucos minutos desse filme para perceber uma preocupação quase exagerada em trabalhar com o soturno. Não que isso seja ruim, pelo contrário, a manifestação do caos está presente em cada momento, as injustiças e dores provocadas, principalmente, para crença extrema.

Liz (Dakota Fanning) é uma mulher que tenta fugir do seu passado mas se vê confrontada com a chegada de um reverendo diabólico na cidade. Existe entre eles um passado horroroso, motivando uma perseguição cruel, que em consequência afetará a família da protagonista e a sua honra.

Na primeira cena vemos um homem atirando na água. A sutileza da cena esconde um significado profundo, pois as balas perdem a força e velocidade pelo bloqueio do rio. Algo que será, posteriormente, referenciado com a proteção extrema da mãe em relação à integridade da filha. A perseguição, movida por uma insanidade intensa e instinto de vingança, desperta o ódio rapidamente, transformando o vilão – interpretado magistralmente pelo Guy Pearce – em uma figura transgressora, fria e inquebrável. É de se notar, inclusive, que o vilão é apresentado em um plongée e aos poucos vai virando contra-plongée, ressaltando justamente o seu poder.

Ainda sobre planos, em momentos pontuais é utilizado o plongée como uma forma de simular uma possível observação divina, isso é válido pois o inimigo é um homem cuja força e maior perigo se encontra justamente nas suas convicções de que é um veículo para os desejos de deus. Dado o contexto, a ignorância é o perfeito elemento para criar monstros que se alimentam das limitações alheias.

A violência está impregnada e é trabalhada de forma exaustiva pelos diretores Martin Koolhoven Martinus e Wouter Koolhoven, o que acaba cansando em dado momento, mas sua importância em relação aos maus tratamentos às mulheres, obsessão e extremismo religioso torna a obra extremamente significativa.

“Mulheres mais velhas cheiram diferentes. Jovens são inocentes”

O mal, aqui, se alimenta da inocência, a construção familiar é baseada no patriarcalismo e o trabalho constante clama por alívio. Talvez a maior fraqueza do homem esteja atrelado justamente a sua inerência à prática de rituais. Se por um lado o filme é inteligente em trabalhar esses temas de modo a provocar o desconforto, existe uma lacuna grande em relação à atuação da protagonista. Dakota Fanning simplesmente não está à altura do seu parceiro de cena, tamanha inexpressividade incomoda, pois o contraste com a situação é imenso. Por outro lado, Guy Pearce prova mais uma vez o seu talento singular, deleitando-se nas possibilidades maquiavélicas do seu papel e dando ênfase ao seu comportamento e ações polêmicas.

Em última análise, “Brimstone” é uma obra profundamente melancólica – não à toa utiliza a fotografia azulada para reforçar essa ideia -, que acompanha a jornada de uma personagem e revela em doses homeopáticas, e fora de ordem cronológica, a sua vida amaldiçoada. No entanto, a força da sua existência se encontra na coragem demonstrada ao proteger o seu futuro, lutando contra um passado que teima em se repetir e se desprendendo a cada passo, alcançando a liberdade ao se isolar sob a proteção das águas que a dividem da ira dos homens.

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O Padre e a Moça, 1966

O Padre e a Moça (Idem, Brasil, 1966) Direção: Joaquim Pedro de Andrade

Em 1966 a ditadura caminhava em direção as proibições artísticas afim de preservar a moral e, principalmente, crenças religiosas do povo brasileiro. É nesse contexto que foi lançado O Padre e a Moça (1966), obra baseada em um famoso poema do Carlos Drummond de Andrade que possui como temas principais o aprisionamento e a possibilidade de liberdade através de uma paixão proibida entre uma jovem menina e um padre.

A história acontece em Minas Gerais, São Gonçalo do Rio das Pedras, um novo padre chega à cidade e se interessa pelo caso de uma jovem chamada Mariana. Aos dez anos ela foi dada pelo pai para um comerciante local criar, no entanto, a relação paterna deu lugar ao interesse carnal, o comerciante pretende se casar com a moça. O padre se sensibiliza pela menina, no mesmo tempo que se apaixona e entra em um conflito ético.

O padre furtou a moça, fugiu
Pedras caem no padre, deslizam
A moça grudou no padre, vira sombra,
aragem matinal soprando no padre.
Ninguém prende aqueles dois,
Aquele um

O filme é poderoso no uso da pequena cidade, existem três personagens centrais para a trama, mas o contexto é muito significativo para o desenvolvimento. Isso vai desde as casas simples, abrigando mulheres e homens extremamente religiosos e unidos, até a própria população – os figurantes são os próprios moradores, o que traz uma elegância realista à obra. Os diálogos são diretos, as mensagens literais e metafóricas são transmitidas em base à rudimentaridade.

O padre, interpretado pelo sempre magistral Paulo José, representa não só uma imagem de esperança como também serve como os olhos do espectador diante àquela realidade. Os seus passos carregam uma infinidade de questionamentos, começam com a própria função religiosa em um local de extrema carência espiritual – o padre é visto como um salvador por boa parte das pessoas, há inclusive uma cena em que várias senhoras o acompanham pelas ruas, conversando, animadas, ressaltando que sua presença é o Norte para os corações aprisionados – até chegar na ascensão dos sentimentos proibidos pela Mariana. É interessante a relação entre os dois, pois se constrói em base à dilemas pessoais, ele está refletindo a sua fé e capacidade de liderança religiosa e vê em uma moça fragilizada sexualmente, a oportunidade de se libertar. Ela parece desde as primeiras cenas se sentir enclausurada naquele lindo e exótico espaço, porém, limitado, e ainda por cima precisa lidar com o abuso e opressão, esse tormento encontra um oásis quando ela se depara com um padre jovem, repleto de luz e, principalmente, casto.

É a metáfora primordial do isolamento do homem da sua perversidade. Não à toa, em uma cena crucial, Mariana fala para o padre sobre a possibilidade de viverem juntos, visto que a única coisa que os impedia era a batina, ou seja, uma vestimenta com valor simbólico. Essa cena acontece em meio de campo deserto – como uma referência bíblica, visualmente esse momento se assemelha com as tentações que Jesus sofreu no deserto pelo Diabo, troque os valores religiosos e coloque o homem e a mulher, essa tentação termina no exato momento em que o padre encosta e sente a pele de Mariana, movimento que representa o sexo puro. A famosa cena do beijo no ombro, por fim, é o gozo. Jesus não consegue resistir à tentação de ser um homem como todos os outros.

A obra cinematográfica, que foi indicada ao Urso de Ouro em Berlim, é inteligente ao rejeitar a ordem cronológica do poema homônimo, o desejo aqui é trabalhado de forma suave, ainda que o ápice da fuga emocional seja quando as personagens chegam em uma gruta, fugindo dos moradores e o seu conservadorismo. O Padre e a Moça (1966) é extremamente importante para o cinema brasileiro pois se desprende das fórmulas convencionais quanto as histórias de amor, pois os sentimentos aqui partem de dores profundas, da melancolia; a narrativa visceral é um exercício importante, principalmente quando relacionado com as ótimas performances de Paulo José e Helena Ignez. Para finalizar, a fotografia é excelente, é notável a preocupação em estabelecer a diferença entre o padre e a moça através das luzes e sombras, – essa diferença se estende, também, para o figurino, ela está constantemente com um vestido branco, enquanto ele é absorvido pelo preto – além de que é comum enquadramentos onde eles estão na parte inferior direita ou esquerda, ressaltando a pequenice de ambos em relação ao lugar que habitam. Uma verdadeira poesia que ganha proporções maiores quando pensado o contexto histórico da sua exibição.

Entram curvos, como numa igreja
feita para fiéis ajoelhados.
Entram baixos
terreais
na posição dos mortos, quase.
A gruta é funda
a gruta é mais extensa do que a gruta
o padre sente a gruta e o padre invade
a moça
a gruta se esparrama
sobre o musgo, o calcário, o úmido medo
à maneira católica do sono.

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Retrato de uma garota do fim dos anos 60 em Bruxelas, 1994

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No ano de 1994 foi ao ar, na TV francesa, uma série chamada “Tous les garçons et les filles de leur âge” – traduzindo seria algo como “Garotos e Garotas de Todas as Épocas” – que possuía nove episódios, todos dirigidos por pessoas diferentes e que analisava, em uma curta duração, a vida de jovens inseridos no contexto de determinada década.

Foi muito elogiado pela crítica e se destacou justamente pela despretensiosidade e marcas pessoais deixadas pelos diretores, muito por conta da liberdade criativa. André Téchiné, Chantal Akerman, Claire Denis, Olivier Assayas, Laurence Ferreira Barbosa, Patricia Mazuy, Émilie Deleuze, Cédric Kahn e Olivier Dahan foram os nomes que construíram, a sua maneira, uma porta para a reflexão sobre a vida e angústias dos jovens, tendo resgatado isso de forma visceral, com o auxílio de atores e atrizes desconhecidos.

Depois de “U.S Go Home“, da diretora Claire Denis, fui ver o maravilhoso “Retrato de uma garota do fim dos anos 60 em Bruxelas” e, de imediato, pude perceber algumas mudanças cruciais que fazem, esse segundo, ser o fiel representante da ideia excelente de criar pequenos filmes que abraçam a causa do jovem.

O filme é dirigido pela Chantal Akerman e acompanha a história de uma garota, de 15 anos, que desiste da escola e vai para o cinema todos os dias. Além disso, a personagem transita pelas ruas de Bruxelas, em 1968, conversando, se apaixonando e demonstrando, sempre, uma perfeita ciência do que acontece ao seu redor.

A produção foi feita visivelmente com poucos recursos, a abordagem técnica é prejudicada, também, por ser uma obra destinada à TV. No entanto, existe um brilho na intenção de existir um conteúdo audiovisual tão profundo e de acesso facilitado. O maior mérito desse longa está nos diálogos que, sustentando-se no fato de ter, em mãos, uma personagem extremamente complexa e madura, se deleita em cada indagação filosófica ou até mesmo nas referências literárias.

A força feminina está em cada cena, a protagonista se vê em meio à uma série de interesses e jamais se deixa levar, mantendo-se fiel à sua personalidade sincera, despreocupada e um tanto rebelde.

Ela foge para o cinema e, esse momento, não é trabalhado com sentimentalismos, pelo contrário. Ela chega a dizer, em dado momento, que nem se lembra do nome do filme que acabara de ver. A fuga é trabalhada na sua condição mais pura, isolada de qualquer possível disfarce artístico.

“[…] eu gosto dos livros sobre incomunicabilidade[…]”

Uma cena que destaco é quando a menina está no cinema, ao lado de um rapaz e mesmo concentrada no filme, ela sugere ao garoto que a beije. De forma completamente direta e sem vergonha. Depois na rua eles passam a refletir sobre o beijo. Se ela afirma que gosta de livros que abordam a incomunicabilidade, o longa expõe seus atores de forma contrária, extraindo deles a palavra, mesmo que ela ilustre um pequeno detalhe.

Ainda sobre tempo para diálogos bem engraçados como “você têm um corpo bonito, quero te ver nu” e, reparem, todos pautados na mesma naturalidade. Complementando, as músicas são bem utilizadas e a jovem faz jus à força feminina. Em comparação com “U.S Go Home” – que abusa das referências musicais e trabalha com uma personagem indecisa – é infinitamente melhor, no entanto são dois lados de um ser em formação, envolto de muita vontade e pouco conhecimento.

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Os Esquecidos, 1950

Os Esquecidos (Los Olvidados, México, 1950) Direção: Luis Buñuel

Luis Buñuel é o artista que representa perfeitamente o impulso imaginativo, do tipo que rejeita o formato padrão e constrói o seu universo peculiar em base à realidade mas, quando lhe é proposto o registro dela, o faz de forma surrealista. Existem infinitas verdades no surrealismo, porém elas são trabalhadas de forma subliminar, inerente à experiência social e filosófica do artista.

Luis Buñuel é um filósofo com uma capacidade de absorção da realidade inimaginável, como comprovação temos a sua própria trajetória, que evidencia a sua insatisfação com o cômodo. Tendo estudado diversas áreas – incluindo a religiosa – antes de adentrar os saberes das letras e filosofia, essa mistura de conhecimentos funcionou ao diretor como uma oportunidade única de trabalhar brincando com os mais diversos elementos místicos. Sem contar as viagens do diretor pelo mundo afim de encontrar um refúgio criativo, o qual permitiu que ele olhasse o objeto e dilemas sociais com uma certa distância.

A sua fixação no México simboliza exatamente essas transições enquanto estudante dos métodos artísticos, apesar de relacionado com outras artes, por sorte Buñuel resolveu ser cineasta e, se tinha apresentado, anos antes, ao mundo o surreal “Um Cão Andaluz” (1928) – que quebrou qualquer barreira narrativa imaginável, através da exploração do visual – o início do seu trabalho no novo país é pautado na realidade.

“Los Olvidados” (1950) é mais um exemplo do talento incomparável do diretor em desmoronar as dores do mundo, dobrar e fazer um barquinho. Os problemas sociais, questões de ética e opressões são desenvolvidos com um lirismo visceral tão denso que parecem cacos de vidros.

O filme acompanha um grupo de crianças e adolescentes nos subúrbios da Cidade do México. Eles passam os dias vandalizando, inclusive cometendo pequenos roubos. O líder dessa “gangue” é Jaibo (Roberto Cobo) que em um dia, junto com pequeno Pedro (Alfonso Mejía) espanca um menino até a morte. A partir desse momento a obra investiga as consequências emocionais do fato para a vida do Pedro, um menino que, dentre todos, parece ter mais envolvimento familiar e alguma esperança, porém as suas atitudes e companhias o impedem de evoluir. Por outro lado, Jaibo é um inconsequente, suas atitudes ultrapassam a linha natural e atingem a perversidade, no entanto há infinitas possibilidades de relacionar suas palavras e ações às fragilidades na estrutura da sua família, no passado – ele cita o seu pai em um momento e, a ilustração mais evidente dessa analogia, ele se apaixona pela mãe do Pedro.

A obra é incrível visualmente, o preto e branco se faz presente e, mesmo sendo bonito, ressalta as sujeiras das ruas. No entanto, essas sensações são reforçadas com a coragem em expor as perversidades das suas personagens, como em momentos onde as crianças agridem deficientes físicos. As atitudes monstruosas são tamanhas, que a experiência do espectador se torna pesada e ao longo dos oitenta e cinco minutos a sensação de sufocamento é constante. Algo está errado no poder, para as crianças terem chegado ao ponto de ultrapassar qualquer senso de cidadania. Vemos a miséria, a fome, devastação social, mas o que mais assusta é a barbaridade dos seres em formação.

A mensagem é crua e direta, a briga por interesses e despreocupação da política com a situação do seu povo, cria monstros. O título “Os Esquecidos” sugere essa ideia, principalmente quando relacionado com o contexto histórico e o próprio desenvolvimento da obra. É válido ressaltar que o filme começa com avisos sobre os fatos serem reais e distantes de qualquer otimismo, não poderia ser mais oportuno. Já na primeira cena Jaibo caminha pelas calçadas da cidade, rodeado de crianças ao seu redor, pois todos estão curiosos para saber como foi a sua experiência na prisão. Ele se engrandece e detalha momentos da estadia, inclusive coloca a sua liberdade como uma opção. Essa postura demonstra não só um ser que viola as autoridades, como também a visão de Jaibo sobre as ruas, afinal, elas também são prisões, ele só escolheu outra opção. Ainda sobre a cena, as crianças pequenas, frenéticas, em volta de Jaibo, escutam atentas as suas palavras, é como se ele fosse um Messias do caos – inclusive há cenas que ressaltam essa mensagem, trazem Jaibo sob uma iluminação diferente dos demais, como na própria imagem que ilustra esta crítica.

Buñuel faz um relato perturbador sobre os desdobramentos sociais envolta da miséria. As consequências da indiferença sendo retratada da forma mais fiel e visceral possível. Simplesmente um filme obrigatório em todas aulas de sociologia e filosofia. Há ainda uma impressionante cena de um sonho perverso, onde é acrescentado ruídos sonoros incômodos que representam brilhantemente toda a experiência de se assistir Os Esquecidos.

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Fotografia como arma contra o totalitarismo

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A Cidade dos FotógrafosLa Ciudad de los Fotografos, Chile,2008) Direção: Sebastián Moreno

Esse documentário Chileno reforça o poder da fotografia como registro da verdade e, mais do que isso, captura de sentimentos, arma de protesto e rebeldia, ferramenta que dá poder e voz ao povo, que imortaliza o tempo e funciona como um documento histórico.

Em 80 minutos acompanhamos relatos de destemidos fotógrafos e fotojornalistas que documentaram as greves e protestos durante a ditadura militar de Augusto Pinochet no Chile. Esses homens e mulheres impulsionaram a revolução através do registro, incentivaram a subversidade com a utilização de câmeras e captaram um período obscuro em grupo, exigindo concentração e coragem.

Documentários sobre fotografia me conquistam facilmente, ainda mais quando possui alguma relevância social ou filosófica, como é esse o caso. Surpreendente desde o primeiro momento, o documentário dirigido pelo Sebastián Moreno é justo em utilizar o período histórico como contexto para os verdadeiros protagonistas. Os fotógrafos são presença constante nos relatos e é impressionante a distribuição de pontos de vistas, além de ser uma experiência maravilhosa aprender história com imagens e com aqueles que as produziram.

Há ainda espaços para brilhantes ideias sobre a união como elemento crucial para a revolução, coragem e rebeldia, esses fotógrafos representaram muito para o povo que, alimentados pelo registro, moviam-se em direção à sua liberdade. A fotografia, em geral, se tornou a segurança dos civis pela certeza de que seriam lembrados através das imagens, que seus movimentos e as consequências seriam imortalizadas e que suas lutas seriam sentidas eternamente como um ato heroico.

Em dado momento os fotógrafos afirmam que o governo começou a se sentir ameaçado por eles, muitos intrusos tentaram entrar no grupo, mas os fotógrafos descobriam o disfarce pelo manuseio da câmera. Como consequência, as revistas foram obrigadas pela censura a retirarem todas fotos de suas páginas, como se fosse possível banir do mundo o seu reflexo. O totalitarismo atinge diversas camadas sociais, mas não consegue compreender e oprimir a arte, portanto, a própria opressão transforma a arte em arma.

O documentário possui uma força impressionante, sendo extremamente necessário tanto para quem quer estudar a história do Chile, quanto para fotógrafos. É a arte como entidade do caos, movida pela coragem de homens e revolução de um povo.

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A Cortina Carmesim, 1953

A Cortina Carmesim ( Le rideau cramoisi, França, 1953 ) Direção: Alexandre Astruc

Um oficial (Jean-Claude Pascal) passa alguns dias na casa de uma família burguesa e se apaixona pela filha do casal (Anouk Aimée). É preciso começar as observações com a própria família que, abrigada em uma mansão luxuosa, não falam, não se olham e não demonstram nenhum tipo de sentimento, mesmo assim a atração do oficial pela jovem Albertine é cercada de dilemas, provocando medo e desejo no protagonista, que também assume a narração – inclusive ela se aproxima bastante do livro “Lolita”, escrito por Vladimir Nabokov, lançado dois anos depois, pois demonstra com perfeição o homem sendo destruído pelo conflito entre o desejo e a ética.

 Os demais personagens não falam durante os quarenta e quatro minutos do filme, são imagens representando a situação que o oficial se encontra, portanto a narração é importante pois funciona como um diário, encontrando o caminho da compreensão do personagem da forma mais rápida e envolta de muita poesia. A paixão acontece abruptamente e morre na mesma velocidade, deixando uma sensação amarga seja no protagonista ou em quem assiste – prova disso é que o diretor, na segunda metade, passa a filmar os seus protagonistas com um espaço reduzido dentro da mansão.

Mesmo com a pouca duração, é possível perceber um brilhante uso dos objetos como forma de auxiliar o roteiro, um exemplo é quando Albertine fica diante de um espelho, como se a sua imagem se desprendesse da condição de opressão; algo que será mais trabalhado com a posição da personagem na mesa de jantar que, consecutivamente, causa dúvidas no narrador sobre suas reais intenções quando, na verdade, são bem óbvias: o movimento indica uma tentativa de liberdade.

O final, apesar de ser desenvolvido rapidamente, indo ao desencontro da forma que vinha sendo exibida até então, deixa uma mensagem clara sobre o quanto o homem é cabível de esquecer um sentimento em prol da sua própria vaidade e reputação. Enfim, é uma boa história, contada com uma fotografia oportuna e direção segura, traz ainda, de brinde, uma participação da lindíssima e talentosa Anouk Aimée.

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O Túnel, 2016

O Túnel (Teo-neol, Coréia do Sul, 2016) Direção: Kim Sung Hoon

Jung-su sai do trabalho e dirige até a sua casa. No caminho um túnel despenca, deixando-o preso entre os escombros. Em um ambiente apertado e destruído, uma das suas ferramentas de comunicação com o mundo exterior é justamente um celular e, a partir dele, toma consciência da sua situação perturbadora e é aconselhado a economizar água afim de aguentar os sete dias para a concretização do resgate.

O primeiro ato é trabalhado com dedicação pelo diretor Kim Sung Hoon, de forma que o protagonista e sua história seja desenvolvida através da catástrofe. Mas no decorrer, o que se percebe é a incapacidade de relacionar o espaço limitado em que o personagem se encontra com a sua vida, visto que não há propostas dramáticas além da própria situação traumática, limitando o roteiro e, principalmente, afastando o espectador da identificação.

Existem cenas realmente impactantes e tensas, mas a claustrofobia é deixada de lado no momento em que esse espaço, do nada, aumenta. A intenção é muito clara: um roteiro fragilizado chega a um ponto que se perde completamente, para contornar essa situação, é preciso colocar mais personagens e situações-conflito para o protagonista resolver.

Se o roteiro se perde em meio aos dilemas individuais de um homem só, lutando pela sobrevivência e limitando-se a esperar o impossível, isso chega a um estágio enorme quando quando analisamos a obra politicamente. É curioso notar que a operação de resgate é inacreditavelmente grande, resultado de enormes investimentos e ainda por cima é acompanhado pela mídia, mas tudo isso é para salvar a vida de apenas um homem. Agora, pensando friamente, em que mundo utópico algo assim aconteceria? O potencial filosófico é desperdiçado. O resultado é um filme clichê que se salva por pequenos momentos, mas que entrega apenas o aceitável. Recusando, portanto, qualquer dilema moral ou social, se atendo apenas ao óbvio.

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Não Quero Ser Um Homem, 1918

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Essa é uma obra de comédia, muda, feita na Alemanha e lançado em 1918 e deve ser o primeiro filme feminista da história do cinema – isso levando em conta que quatro anos depois teríamos o ótimo “La Souriante Madame Beudet” que, em muitas listas, é creditado como o primeiro.

A ideia é bem básica e o humor está presente em cada minuto do filme. Gira em torno de uma menina rica que se sente incomodada com a sua vida e, através da rebeldia, expressa o seu desconforto. A menina fuma, bagunça, fala o que pensa, entre outras coisas, até que decide se vestir de homem e viver uma noite como tal.

O filme foi dirigido pelo Ernst Lubitsch, um importante diretor e roteirista dos primórdios do cinema alemão, e aqui ele ousa bastante, levanta algumas reflexões referentes a esteriótipos de gêneros e o faz em plena censura rigorosa. É de se destacar, com isso, a atuação da Ossi Oswalda que precisa, com todas as limitações técnicas da época, se reinventar e interpretar dois papeis, carregando todos os seus dilemas e preocupações.

Em um tom bem despreocupado, somos apresentados a protagonista da melhor forma possível: a menina está fumando, a governanta a repreende achando um absurdo uma mulher fumar e, depois, ela mesma fuma. Se não bastasse, há alguns momentos que existe clara mensagem de que a vida do homem é mais fácil, pois existe um encantamento e respeito muito maior.

Há diversas cenas que envelheceram na sua ideia, principalmente no que diz respeito ao cavalheirismo, mas como o cinema é um reflexo do seu tempo, isso jamais poderia se transformar em algo ruim, pelo contrário, só pontua as diferenças e semelhanças com o nosso tempo. Nesse caso, é triste perceber que existe muitas diferenças de tratamento com homem e mulher, seja no trabalho, faculdade etc, no entanto, é emocionante ver que há quase cem anos um diretor trabalhava o humor como forma de crítica social e para transmitir uma mensagem atemporal: não existe melhor, nem pior; fácil ou mais difícil – e, se existe mais dificuldade, é culpa do nosso egoísmo – somos todos seres humanos, independente se homens ou mulheres.

emersontlima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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