Annabelle: Creation (David F. Sandberg, 2017)

Annabelle 2: A Criação do Mal (Annabelle: Creation, EUA, 2017) Direção: David F. Sandberg

O cinema de terror atual se divide claramente em duas esferas completamente diferentes, contudo, as duas vertentes narrativas têm como prioridade a qualidade no que diz respeito à ambientação e o processo de sugestividade. Obras como “No Cair da Noite” (2017), A Bruxa (2016), Sob a Sombra (2016) utilizam a contemplação e os silêncios como forma de incentivar a atenção absoluta do espectador, de modo que o sentimento aja em virtude da curiosidade, reflexão, desconforto ou mesmo o medo; por outro lado, os mais populares, motivados pelo sucesso de novos inteligentes diretores como James Wan, Mike Flanagan, David F. Sandberg etc, compreenderam através da manifestação do público, que o gênero terror moderno precisa caminhar em outra direção afim de não se acomodar no óbvio. É possível perceber, portanto, uma evolução em filmes como “Invocação do Mal 2” (2016), “Quando as Luzes se Apagam” (2016) ou “Ouija 2” (2016), mesmo que alguns citados tenham qualidades finais duvidosas, há de se observar alguns detalhes oportunos em cada um deles, a direção de Wan e habilidade em referências dentro do gênero, a utilização da ausência de luz – medo primitivo – como forma de fragilização psicológica e a competência de Flanagan em trabalhar com o som em seus filmes.

Quando o primeiro “Annabelle” foi lançado, em 2014, a ideia era aproveitar o sucesso do “Invocação do Mal”. E o maior problema do filme é justamente nunca ser pensado por si, mas como extensão de algo maior. O desenvolvimento rápido tirava qualquer possibilidade de mergulho nas sombras que uma boneca amaldiçoada evoca, no fim, um grande potencial fora perdido em prol a um filme exibicionista. Mas na continuação eles acertam, a começar pela escolha de David F. Sandberg para dirigir, um artista que errou em seu primeiro longa-metragem mas que possui diversos curtas-metragens medonhos e, por incrível que pareça, nenhum passa de dois minutos – alás, dois deles são referenciados em momentos oportunos em “Annabelle: Creation”.

O filme começa da maneira mais comum possível, mostrando o passado de uma família onde um acidente fatal com uma menina desencadeia uma série de problemas paranormais em uma mansão de aspecto tenebroso. Fato que se agrava ainda mais a partir do momento onde cinco meninas de um orfanato são convidadas a se hospedarem no local. A apresentação da protagonista Janice (Talitha Bateman) acontece de forma oportuna, pois ao descer do ônibus a câmera se posiciona no degrau ao passo que mostra a dificuldade da menina em descer por conta da sua limitação física em uma das pernas, ponto importante não só pela questão psicológica, a menina se sente a mais fragilizada e vagarosamente vai perdendo as esperanças de ser adotada, como também no desespero causado em diversas cenas de eventos sobrenaturais, onde o fato de não poder correr obriga a personagem a enfrentar o medo ou mesmo fechar os olhos, se esconder, enquanto o espectador enxerga o que está acontecendo em volta, algo que potencia a experiência e exige um bom trabalho com os espaços e objetos da casa.

A maior força do primeiro ato é na exploração dos elementos que futuramente serão importantes para as cenas de sustos, a tetricidade dos objetos fazem desse filme impactante em diversos momentos, inclusive a quantidade de possibilidades que se formam em todos os cômodos da casa são incríveis, parece que cada boneco, sombra ou pano pode se tornar um acessório para provocar o medo. Quando o espectador assimila o espaço, fica constantemente em alerta com o que acontece no segundo plano, e isso é muito oportuno no gênero, mas dificilmente é bem feito.

As atrizes mirins têm ótimas performances, mesmo que o longa dependa da extrema coragem de duas personagens para dar sequência ao roteiro. O diretor David F. Sandberg resgata sua melhor competência – demonstrada nos curtas-metragens sem diálogos, caseiros e com somente uma personagem – em criar cenas assustadoras sem recorrer aos artifícios mais comuns, apesar de tê-los como obrigação, nunca mostra aquilo que esperamos no mesmo tempo ou maneira, sempre tem algum detalhe que nos tira a atenção e surpreende.

O terceiro ato destoa do desenvolvimento mostrado até então, o equilíbrio da exposição e sugestão dá lugar as soluções apressadas e decisões que se retardaram afim de se encaixarem no roteiro. Mas ainda assim, “Annabelle: Creation” segue sendo um ótimo filme desse universo criado pelo “Invocação do Mal” e que continuará nos próximos anos apresentando as mais diversas figuras demoníacas perseguindo as mais inocentes almas.

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No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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Eugenie e o Caminho da Perversão (Jesús Franco, 1970)

Eugenie e o Caminho da Perversão (Eugenie… The Story of Her Journey Into Perversion, Espanha, 1970) Direção: Jesús Franco

A metalinguagem atinge o limite quando Eugenie (Marie Liljedahl) segura e comenta brevemente sobre um livro do Marquês de Sade que ainda não teve oportunidade de ler. Personagem criada pelo autor, ela segura em mãos sua própria alma, enquanto o quarto que a abriga devora a inocente vestal dentro de si gradualmente.

A donzela se perde no caos da ansiedade sexual burguesa, seus passos pueris despertam os mais insanos desejos, a sua nudez, outrora natural, se torna um deleite ao consciente deturpado do maníaco pela carne. Existe manipulação nesse filme, bem como a estranheza narrativa faz jus ao elemento místico que envolve as relações nada convencionais entre os três personagens principais. A iluminação vermelha em momentos cruciais, todos eles envolvidos pesadamente com o sexo, tentação e tortura – física ou mental – é oportuna em criar as mais belas e impactantes rimas visuais, ainda que seja inevitável não mencionar a cena final onde o pequeno passarinho vê a luz do sol e sua silhueta representa o alívio de uma doce menina que atravessara os rios perigosos do ego e sofrera os mais profundos delitos do poder.

A agressão de Eugenie se dá, inicialmente, a partir do momento onde há a corrupção da juventude em prol à libertinagem extrema e violação da vida. As grades que aparecem em primeiro plano ao longo, deixam explícita a ideia de enclausuramento generalizado, onde a mansão permanece como o legítimo refúgio de transgressão. A beleza estonteante da Marie Liljedahl relaciona-se muito bem com a psicologia de sua personagem, é de se notar atenciosamente suas principais características, a presença da atriz exala delicadeza – Jesús Franco reforça constantemente o alto grau angelical de sua protagonista, em contraponto com a perversão do meio. Não à toa existe uma harpa no meio da sala, instrumento musical igualmente agridoce e associado ao celestial.

Como um ótimo representante do sexploitation, “Eugenie…” (1970) tem como mérito nunca reduzir-se apenas ao sexo. O trabalho excelente é quando associado às lacunas psicológicas das personagens e como são preenchidas pela exposição carnal. Apesar da perca do ritmo no segundo ato e eventuais sandices narrativas e/ou performáticas, Jesús Franco consegue transportar bem os escritos de Sade para o cinema e o faz de forma crível, onde a violação da integridade física e emocional de Eugenie permanece extremamente vinculado com o impressionante trabalho visual. Quem gosta do diretor, certamente apreciará esse clássico.

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Ao Cair da Noite (2017)

Ao Cair da Noite (It Comes at Night, EUA, 2017) Direção: Trey Edward Shults

O mundo desiste e os humanos enfrentam a devastação, o silêncio, o antes. O perigo sempre está um passo a frente em It Comes at Night (2017), os personagens são comprimidos em todos os sentidos, visualmente envoltos de sombras, ambientes estreitos, ainda que as luzes representem a fuga espiritual e psicológica, mas a consciência da iminente finitude desperta as condições mais primitivas do ser, a proteção familiar e vinculação afetiva assumem o mandato e a esfera trabalhada é a política, onde a teia familiar passa a representar um Estado, regendo sua continuidade em base à desconfiança, e é justamente essa posição filosófica no sentido metafórico e frágil enquanto realidade, que se origina o terror nesse longa: a negação intensa das circunstâncias do mundo em prol à prolongação da vida, é justamente o motivo da desestruturação desse Estado criado pela mãe, pai e filho (Carmen Ejogo, Joel Edgerton e Kelvin Harrison Jr., respectivamente).

Nesse sentido, é interessante perceber que o inimigo aqui é a própria sensação de perigo, como um vazio rastejante do externo; quando uma segunda família é apresentada, imediatamente o espectador percebe que a desconfiança mútua é consequência da realidade e que de nenhum personagem é mau, mas todos são frutos da condição selvagem que a sobrevivência exige. Retomando ao princípio, o escuro aqui trabalhado é o mesmo da pré-história, o limite físico e mental fica ainda mais intenso a partir do momento que não há o deslocamento.

As paredes da casa aprisionam todos e, por esse motivo, não existe expectativa de fuga. O designer de som é tão extremo que parece eterno, a narrativa cautelosa reforça a verdadeira intenção de investigar a família no seu âmago e disfuncionalidade.  Um pai é historiador e o outro é ligado com trabalhos braçais, a diferença é atenuada e a exploração mental é a mesma, ainda que o primeiro esteja em forte (des)vantagem por estar vinculado a um lar. Em dado momento, os dois compartilham uma bebida e a garrafa em cima da mesa é visualmente o que os separam. Dois lados quebrados pela perda da consciência.

Seis personagens desconhecem o que temem, mas são íntimos do incômodo. Não à toa a praga assola, primeiramente, os filhos e é a partir deles que surge o conflito físico entre os pais. Quando o futuro supostamente é violado, os poderes não se importam mais em manter escondida a sua guerra.

Ao Cair da Noite (2017) é um filme de drama sob clássicas características do subgênero pós-apocalíptico, mas sua força maior diz respeito ao talento de encontrar, em tais circunstâncias, o terror e relacioná-lo com eventos que ainda não aconteceram. O espectador desconhece os fatos, tampouco os personagens; ao passo que a direção do Trey Edward Shults merece menção por nunca deixar que essas lacunas façam com que o roteiro perca o ritmo. Pelo contrário, os poucos personagens se agigantam em momentos variados e a fotografia de Drew Daniels – que já havia trabalhado com o diretor no ótimo Krisha (2015) – repleta de simbolismos acrescenta ainda mais na experiência catástica que esse filme proporciona. O medo que emana do interno do homem é, sem dúvida, o mais assombroso que existe.

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Viy (1967)

Viy – A Lenda do Monstro (Viy, Rússia, 1967) Direção: Georgi Kropachyov e Konstantin Yershov

O terror no seu ápice é mesmo um gênero fascinante quanto à analise social e psicológica de um indivíduo. É muito interessante pesquisar sobre culturas diferentes e contextos históricos e perceber, com isso, como as crenças diferem de uma realidade para outra e, consecutivamente, lendas são criadas e os medos adquirem as mais diversas formas.

Em sessenta e sete era lançado o primeiro filme de terror da antiga União Soviética, “Viy”, que se baseia diretamente em um conto folclórico ucraniano e que tem como maiores características a ambientação tétrica, narrativa simultaneamente estrambólica e perversa e inteligência ao usar os efeitos especiais – principalmente se levarmos em consideração o ano que foi feito – mas nada se compara com a atmosfera que pressupõe constantemente perigo, o medo nesse clássico se aproxima bastante do homem medieval, onde o alienígena era obrigatoriamente mal e a suposição aprisionava a razão.

O longa é dirigido por Georgi Kropachyov e Konstantin Yershov, conta a história de um seminarista chamado Khoma (Kuravlyov) que, ao voltar para casa com os amigos, pede abrigo à uma velha senhora em uma fazenda. Ela se revela uma bruxa posteriormente e, quando o protagonista a mata, sua imagem se transforma, virando uma bela e jovem mulher. Ao voltar para o seminário, ele fica encarregado de orar três noites para uma moça que falecera recentemente o que, para a sua surpresa, se trata da bruxa que ele havia conhecido dias antes.

A jornada de Khoma é essa: precisa lutar contra as forças do mal e sua própria ausência de fé, visto que as perversidades da bruxa, nessas três noites, o afetam profundamente.

É importante ressaltar que um dos maiores clássicos do terror – o filme virou um cult, apesar de ser definitivamente desconhecido pelo grande público – se envolve com o humor da primeira cena à última, embora o segundo e terceiro ato sejam amedrontadores. A trilha sonora delicada e infantil do início suaviza a trama, o primeiro contato com a bruxa também, pois ela monta em Khoma e o faz de “vassoura”, tudo isso se assemelha com a proposta de um conto de fadas, onde o terror é trabalhado paulatinamente de modo que provoque bastante a concentração de quem lê para, em seguida, expor a ideia em sua totalidade. Outro ponto que ilustra essa comparação é o fato de o primeiro ato estar repleto de animais.

Algo importante, ainda sobre a apresentação, é em relação ao protagonista, por ser um integrante direto do Catolicismo seria comum que o personagem se distanciasse do espectador por conta da sua função e conhecimento, mas isso é abandonado nas primeiras cenas. Primeiro que o próprio afirma que “não sabe quem é sua mãe e pai… e nem de onde vem” e em outro momento que está mentindo fala “que um raio me atinja se estiver mentindo”. Essas duas frases ilustram a fragilidade emocional de Khoma, sua solidão familiar se estende, também, pela perdidão em meio à sua religião, visto que por diversas vezes ele demonstra ser cético, chegando ao ponto de zombar da fé. A função social que ele desemprenha é quebrado no primeiro ato, o espectador passa a compreender rapidamente que se trata de um homem, vulnerável e que teme, assim como todos. O resultado é excelente, pois em outro caso, com um personagem sólido e seguro não transpareceria tanta preocupação como acontece aqui, o pavor do protagonista passa a ser também o de quem assiste.

O quarto que abriga a jovem morta é repleto de vermelho, assim como é possível perceber que a cor acompanha os personagens que possuem ligação com a bruxa, como o pai dela. Na primeira noite de oração, Khoma já sente que sua tarefa não será fácil e que forças do mal o assolarão, mas o filme é oportuno em deixar claro que o medo desenfreado dele e a sugestão podem ser facilmente os criadores de todas situações, existe muita profundidade nesse clássico, mesmo que em alguns momentos não pareça.

O vermelho que está sempre próximo do pai da moça falecida

O protagonista, sempre chamado de filósofo pelos moradores da pequena cidade – o que, certamente, é uma grande ironia, pois em nenhum momento há uma reflexão racional sobre os eventos – sofre a sua tortura espiritual, motivada pela culpa. As noites de oração ficam piores, a sensação é de que a trama nos prepara para a terceira onde, definitivamente, é a melhor e inesquecível para o cinema. Os efeitos práticos e especiais, maquiagens e atuações despertam a atenção e provocam arrepio. Khoma praticamente enxerga o inferno saindo pelas paredes, vampiros, lobisomens e outros monstros, todo medo vindo das crenças caminham em direção a um homem só, que não veio de lugar nenhum, sem família e que fora abandonado pela própria igreja para enfrentar aquilo que possivelmente sabiam que não seria capaz.

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Little Forest: Summer/Autumn (2014) de Junichi Mori

Little Forest: Summer/Autumn (Ritoru Foresuto Natsu Hen-Aki Hen, Japão, 2014) Direção: Junichi Mori

Algumas pessoas conseguem manter o hábito de levantar pela manhã e caminhar escutando uma boa música. Talvez ainda consigam andar por entre um lugar bonito, repleto de árvores, ou na calçada beirando o mar. Essa é a sensação que tive ao assistir “Little Forest: Summer/Autumn” (2014), uma profunda paz ao acompanhar a Ichiko (Ai Hashimoto) que volta ao campo para viver da simplicidade, fazendo experiências culinárias, principalmente com alimentos que ela própria planta.

Baseado em um mangá de Daisuke Igarashi, esse filme é no mínimo curioso e pode afastar algumas pessoas por não ter uma história bem definida e normal, basicamente acompanhamos a protagonista através das receitas que ela faz. É um passo a passo culinário com uma abordagem e fotografia delicada, onde os pratos e as realizações se confundem com o passado da personagem e as próprias estações do ano.

No dia 31/12/2016 me tornei vegetariano, uma ideia que há tempos refletia e que cuja decisão fora feita de forma brusca e irreversível. A partir do momento que pensei sobre o porquê, não existiu dificuldade na readaptação alimentar, o que só me trouxe benefícios. Meu “espírito” ficou mais leve, mas cito o carinho por cozinhar como uma das coisas que mais ficaram evidentes na minha vida. Descobrir receitas, misturar as cores da salada, enfim, apesar da personagem do filme não ser vegetariana, o seu carinho com o alimento é extremamente envolvente e encantador.

“Cozinhar é um espelho que reflete sua mente”

“Little Forest: Summer/Autumn” (2014) é uma obra acolhedora, que proporciona uma experiência romântica pela culinária natural. Como história, deixa a desejar, ainda que seja possível estabelecer uma evidente ligação entre a postura da protagonista e o seu passado com a mãe, mas essa não é a preocupação aqui. A atmosfera e cumplicidade do ser humano com o meio ambiente são energias transmitidas através da simplicidade, seja visual ou do texto.

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Steel Butterfly (2012)

Steel Butterfly (Stalnaya babochka, Rússia, 2012) Direção: Renat Davletyarov

Steel Butterfly (2012) é um filme russo, dirigido pelo desconhecido Renat Davletyarov e que não sabe muito bem qual caminho quer seguir. Começa como um típico filme policial, com resquícios altos de terror, ao mostrar uma menina caminhando, sozinha, pela noite e sendo vítima de um “maníaco do parque” que está assolando uma cidade. Depois somos apresentados à uma gangue onde a líder é uma jovem chamada Vika Chumakova (Darya Melnikova) que, depois de ter problemas com a polícia, se vê ajudando-os servindo como isca para o maníaco enquanto segue sendo observada pelos tiras. Junto a isso, temos a relação dessa garota órfã com o policial Hanin, visto que ele a leva para sua casa enquanto trabalha com ela.

O filme começa com características típicas do gênero policial, passa pelo romance – pelo menos aquele que se projeta na protagonista, afinal, ela não tem lar, muito menos afeto, portanto se sente atraída pelo seu hospedeiro – e termina como um drama artificial. Desde o começo a narrativa se perde por querer introduzir o humor em uma circunstância má preparada para tal, o que acaba desviando a atenção do perigo iminente. No segundo ato se esquece completamente o propósito da inserção da garota em uma missão da polícia o que, inclusive, não faz nenhum sentido, quiça coesão ética. Afinal, utilizar uma jovem desabrigada como isca para um assassino não desperta o mínimo de empatia no espectador e, sendo assim, todas as situações derivadas dessa monstruosidade definitivamente não se encaixam.

A polícia tenciona utilizar mulheres para servirem de isca ao maníaco, a ideia é deveras machista e, se não bastasse, há duas cenas onde três policiais sentam em suas cadeiras com poses autoritárias e julgadoras, enquanto observam essas mulheres e suas vestimentas, como se estivessem imaginando o que chamaria mais atenção do psicopata das ruas. “Talvez uma saia curta?” “Peitos grandes?”… O que fica mais agravante quando eles têm a “grande” ideia de utilizar uma menor de idade (?), como se fosse um objeto insignificante apenas por ter cometido atos de vandalismo. O que contrastará seriamente com os ataques de [falsos] moralismos de Hanin em relação à idade da protagonista.

Como é possível imaginar, o tom leve que tenta ser reforçado a cada cena é uma tentativa tola. A trama é incoerente e, apesar do esforço dos atores, o texto que têm em mãos é excessivamente vazio. A atriz Darya Melnikova chama atenção, pelo talento e beleza estonteante, é mesmo uma pena que sua evidente dedicação esteja acima do material disponibilizado. A incoerência temática, indecisão da direção e soluções clichês fazem desse filme uma obra descartável.

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Heartstone (2016)

Heartstone (Hjartasteinn, Islândia, 2016) Direção: Guðmundur Arnar Guðmundsson

O cinema produzido na Islândia é brilhante. O pouco acesso que temos para assistir as obras do país não nos impede de perceber a regularidade das produções, principalmente em relação à sensibilidade. Se Friðrik Þór Friðriksson desenvolve temas relacionadas ao tempo em seus trabalhos, Benedikt Erlingsson recentemente nos presenteou com uma obra contempladora que une o ser humano e os cavalos, explorando o místico provocado pela natureza e verdade.

[Você pode ler outras críticas que escrevi sobre filmes da Islândia clicando aqui]

“Heartstone” (2016), dirigido pelo Guðmundur Arnar Guðmundsson – conhecido principalmente por um curta-metragem chamado “Hvalfjörður” (2013) – se assemelha bastante aos dois diretores citados. Por coincidência ou não, a juventude aqui é trabalhada com tamanho respeito que a associação com Friðrik Þór Friðriksson é imediata. Quem já assistiu “Bíódagar” (1994) sabe perfeitamente disso. Nessa obra,  Friðrik acompanha a vida de um garoto apaixonado por cinema que precisa se afastar e morar em uma casa no campo. Esse deslocamento causa um incomodo grande no garoto e as consequências desse fato são observados da forma mais visceral e sincera possível.

“Heartstone” (2016) possui a mesma habilidade em se utilizar do jovem para discutir temas importantes que abrangem a desestabilização familiar e descoberta da sexualidade. Dois garotos, Þór e Kristján, possuem uma forte amizade e entre a rotina de brincadeiras e passeios ambos parecem fugir da desestruturação familiar enquanto o sentimento de amizade é confundido com interesse amoroso. Eles passam a se ajudar e veem um no outro uma forma de fugir dos pesadelos da indiferença, ódio e preconceito.

A beleza do pequeno vilarejo da Islândia abriga amigos que se deliciam em meio à pureza mágica do ambiente. O azul do céu e da água envolve os garotos que, na primeira cena do filme, aguardam em silêncio enquanto pescam. A ação de um adulto, a pesca se trata de uma das atividades que mais necessitam de paciência o que, em um primeiro momento, todos os meninos têm. Mas o silêncio para uma criança é a própria morte, e logo a calma é quebrada pelo protagonista que permanece em primeiro plano enquanto um de seus amigos mexe (imagina?) nos pelos de sua axila e peito. Eles pegaram os peixes e, a partir desse momento, podem voltar correndo e contar a novidade para os pais.

O contra-plongée mostra uma visão de dentro da água para fora o que demonstra claramente uma intenção de duplicar a imagem dos personagens. Esse simbolismo se repetirá de outras formas ao longo, e a intenção sempre é a mesma: expor o fato de que Þór e Kristján dividem suas vidas entre a liberdade total, quando estão juntos, e a limitação e desconforto quando inseridos nos seus respectivos lares. Desse modo, é possível notar que diversas vezes a imagem deles, refletidas em algo, é borrada.

Þór volta para sua casa e deixa os peixes que pescou fora. Representando suas próprias emoções – cabe destacar que seu melhor amigo, Kristján, conseguiu apenas pegar um “peixe pedra” e é zombado pelos colegas por isso. No banheiro, através da imagem refletida no espelho vemos o protagonista brincando com o seu corpo, isso inclui a masturbação. Sua nudez é o refúgio de liberdade o que, rapidamente, se dissipa com as brincadeiras das suas irmãs adolescentes referentes ao seu corpo despido.

Outra simbologia visualmente importante no filme é o contraste existente nos enquadramentos dos personagens e como mudam quando externos ou internos. Quando os amigos estão passeando, nadando, acampando, enfim, vivendo, os planos são abertos e, além disso, não há objetos ou móveis “poluindo” o enquadramento. O que não acontece quando eles estão dentro das casas ou sendo vistos por alguém inserido no lar. Geralmente os personagens tem campos de espaços reduzidos, e pequenos ou grandes objetos são perceptíveis como forma de opressão visual.

O filme possui o clima convidativo de grandes filmes dos anos oitenta, mas com a profundidade do bom cinema contemplativo. A fotografia acerta em cheio nos tons azulados, exalando melancolia mesmo em meio à paisagem magnífica que envolve todos e, por muitos, é ignorada.

A amizade aqui representa a condição de amparo e necessidade. É agradável assistir uma obra que não precisa explicar muito o que é óbvio, a importância das relações são nítidas e incomunicáveis, senão, pelas performances. Nesse sentido, Baldur Einarsson é verdadeiramente um achado, extremamente talentoso, dá densidade ao seu papel, fazendo com que Þór receba todas as atenções, transitando entre o carinho, insegurança e raiva de maneira singular.

Com a sensibilidade apurada, Guðmundur Arnar Guðmundsson transforma uma história comum em algo extraordinário. É triste saber que em muitas histórias de infância há o abandono como elemento principal, dificultando o processo de adolescer e experimentar. O jovem que respira diferente, necessita de cuidado e atenção, da repetição das palavras de conforto, pois crescer é se sentir um monstro. No final, o peixe pedra precisa voltar para o mar e partir em busca de uma nova chance.

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Todo lo que tú quieras (2010)

A dor da perda talvez seja a mais frustrante que exista. Se pensarmos, somos os únicos animais com consciência da finitude da vida, porém, é inegável que a mesma não adianta muita coisa quando acontece. Aliás, essa é uma palavra pertinente para quem já passou por isso, acontece, acontece, acontece, acontece… aconteceu comigo.

Temos a necessidade de depositar a nossa existência à algo maior, um outro plano, no qual a vida é eterna e o reencontro seja possível. Infelizmente eu não consegui ter essa crença, tive uma educação católica, com todas essas lindas histórias de “fazer o bem para ganhar o sempre” mas eu não consegui acreditar. Resta-me refletir sobre a morte como uma possível imortalidade construída pela arte, aqui na terra, claro. Por isso prezo tanto pelas inúmeras mensagens que diretores, roteiristas, atores e atrizes nos deixam. Eles, assim como nós, são humanos e, inconscientemente ou não, sabem que o seu trabalho significa mais que “fama de passagem”, é um registro eterno, nem que seja nos corações de inocentes admiradores. Sendo assim, é fácil identificar o artista e o nome. Por essas e outras, eu escrevo sobre o cinema alternativo para resgatar a arte invisível, não para ser conhecido como cult. Mas, de fato, queria sim ser associado. O cinéfilo é, antes de mais nada, um amigo do audiovisual e, como bom amigo, nunca o quer apenas para si mesmo. Ele divide. E, por essa mesma razão, é fácil identificar a divisão por paixão e por interesses pessoais.
Enfim, todos precisamos sobreviver, o cinema se tornou mais uma das diversas lojas que existe. Como perceberam, sempre antes de escrever sobre os filmes, eu gosto de resgatar as reflexões que eu tive durante e, aqui, tento destacar a falta de atenção para com algumas obras. Tem muita gente falando de cinema mas, infelizmente, pouca gente falando de homem. Como disse, feliz aqueles que fazem do cinema o seu sustento mas, por favor, não se esqueça de dividir, pelo menos, a importância da arte audiovisual para as pessoas. A importância da procura, da pesquisa, não didática, simplesmente estar aberto para experimentar. Só assim a ideia da imortalidade será revivida, não apenas para um seleto grupo, mas para todos. A mensagem não precisa – e nunca será – clara para todo mundo, mas sem dúvida todos sentirão.
Todo lo que tú quieras 
Leo e Alicia são casados e moram com a filha Dafne, de quatro anos. Como numa família tradicional, a mãe preocupa-se em cuidar da filha e educá-la, enquanto o pai vive fora de casa, trabalhando. Contudo, a morte repentina de Alicia por um ataque epiléptico abala radicalmente esse equilíbrio familiar. Sentindo uma falta brutal da figura materna, a menina tem grandes dificuldades de superar a perda. Tentando atender como pode as demandas da filha, Leo chega ao ponto de renunciar a si próprio, colocando em jogo sua própria identidade.
Então, é incrível como alguns filmes escolhem quem o assiste. Há três anos encontrei o poster desse filme, e li o seguinte: “ele abandonou a sua própria identidade.” Assisti dois dias depois, e logo no inicio adentro no mundo dos transformistas, com diversas fotos de transformações. Imaginem, eu não sabia de nada, e nunca passou pela minha cabeça que o filme iria usar algo tão recriminado pela sociedade para compor um “acontecer” tão natural quanto a perda. E como é bonito.
Eu sempre falei que, se eu fosse ator, queria interpretar três personagens – mesmo que eu tivesse que escrevê-los – um palhaço, uma mulher e um morador de rua. Muito por conta do visual. Sempre fui um admirador das cores, mesmo que me enxergue em preto e branco. É incrível como a maquiagem te faz outra pessoa, como o sexo interfere nos olhares de outrem e suas condições financeiras e vestimentas aumentam o julgamento.
Julgamento. Essa é outra palavra muito forte no filme, quando um dos personagens mais interessante que eu já vi fala “Eu já vi esse olhar muitas vezes na vida, são os olhos do julgamento.” Aliás, esses dois lados serão discutidos, mesmo que bem intimista, durante todo o filme. A sociedade e o indivíduo.
Eu sou um amante de pessoas, porém, na sua individualidade. Não gosto das massas, pois elas são falsas. As pessoas se transformam para se adaptar ao meio, essa transformação, da qual eu também sou refém, não me atrai. Um ser só é verdadeiro quando sozinho. Uma cena que identifica isso muito bem é quando Leo, o protagonista, está destruído por dentro mas continua conversando sobre o trabalho com o amigo, como se nada tivesse acontecido. Até que o amigo após o fim da conversa, pergunta se está tudo bem e é ai que ele começa a falar dele mesmo, onde solta “honestamente eu não sei”.
Uma coisa que preciso destacar é que, o transformismo, serve apenas para compor. Não é o objetivo do filme conversar sobre a questão, até porque da mesma o único ponto relevante para trama é a maquiagem. Como disse, misturado com a fotografia do filme, um tanto quanto pesada/escura, representa o luto. A diferença mora no fato que, mas do que simplesmente o luto, a maquiagem representa a lembrança. E ficará claro isso em breve.
Esses outros elementos, como o transformismo e preconceito só existem para expor essa ideia da diferença, esses extremos chamados “só” e “junto”. E o quão isso interfere nos seus próprios conceitos. Veja, por exemplo, que quando Leo está com a Marta, um possível romance, ele despreza e ofende Alex e depois recorre a ele para ajudá-lo a se transformar na Alicia, a mãe da garotinha.
Como disse, Alex é um dos personagens mais interessantes que eu já vi, pois ele representa tudo isso, a massa. Tanto é que fala sobre o preconceito/julgamento/olhares com muita propriedade em uma das cenas mais bonitas do filme.
– Você quer falar com um viado de merda?
– É exatamente isso que queria dizer. Quero que me perdoe pelo outro dia. Eu não quis dizer isso.
– Não? Marta disse que sim, que foi exatamente o que queria dizer. Por que me odeia tanto? O que te incomoda em mim? Minha homossexualidade ou minha velhice?
 
Agora, caros leitores, imaginem essa cena sendo interpretada pelo Juan Diego Botto e José Luis Gómez, um dos maiores atores espanhóis que existe. Aliás, Luiz Gómez entrega um Alex poderoso, no que diz respeito a sensibilidade corporal. É incrível o domínio do ator com o seu corpo que, misturado com a sua voz penetrante, soa como uma entidade confortante, amiga e sabia.
Não poderia deixar de falar mais sobre a relação pai e filha. A menininha, que por sinal é curioso tentar imaginar como é possível tamanha atuação, mesmo sendo tão jovem, tem um complexo muito grande. A falta da mãe, ou melhor, de uma presença feminina, faz com que ela crie ilusões constantes, como esconder o pai com uma maquiagem. Pode soar, ao final do filme, que o pai mexeu com o psicológico da pobre garota, mas aqui tento explicar uma coisa, nunca podemos assistir um filme e interpretá-lo pelo que ele mostra visualmente. A arte é uma entrega da qual você pode depositar todas as suas experiências e contribuir para que aquela seja ainda maior. Isso não é se iludir com o que assiste, é criar um processo contínuo de interpretação, de modo que o filme signifique ainda mais.
Voltando, o transformismo do pai é, imaginem comigo, uma criação da menina. Digo, de verdade mesmo. O personagem pai se traduz como o olhar da menina, enxergamos ele como o pai tradicional no início – que trabalha muito e chega em casa cansado – porque a menina o enxerga assim. Depois, quando ele vira a mãe é porque ela quer. Ou seja, é como se todas as cenas representasse os olhos da garotinha e a maquiagem a lembrança da mãe, não é a toa que citei a fotografia, um tanto quando triste.
O filme se resume em dois pequenos momentos. Quando ela começa constantemente chamar o pai de mamãe, Leo se desespera, procurando nos olhos da filha a sua própria identidade pois o mesmo não sabe mais quem é. Ela repete “mamãe, mamãe, você é a mamãe” até que, sensibilizada pelas diversas implorações, ela fala “papai”. Essas repetições, até chegar em pai são frenéticas, quase que um gozo. Aliás, seria uma perfeita analogia. É então que, após isso, o pai abraça a filha e, na cena seguinte, vemos ele vestido de mulher novamente. Ou seja, ele só estava interessado na palavra. Pois o olhar da menina continuaria o mesmo e ele sabia disso, pois na individualidade essa maluquice fazia sentido e, fora de casa, era só um simples transformista.
Outro ponto e, assim concluo o texto, é justamente o final do filme. Quando eles estão em um quarto de hotel e a menina fala que está com saudades do papai. O pai vai tirando a maquiagem, peruca e, lógico, a menina pede para fazer. Com suas pequenas mãos tira a sua maquiagem, delicadamente. Como se aquela visão não mas fizesse parte da sua vida. E fala que “se quiser ver a mamãe, fechará os olhos” enquanto questiona os ferimentos do papai.
Obs: Texto originalmente publicado em 9 de março de 2014

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No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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A Felicidade não se Compra (1946)

Há milhões de pessoas que amam esse filme, essa história, o natal etc. Eu queria, muito mais do que estar escrevendo, poder ouvir um pouco da história que cada pessoa tem para contar sobre a sua vida, cheia de aventuras e medos, que fatalmente caiu(irão) na temida rotina. Considero a rotina um grande problema para a vida, mas não espero que alguém consiga viver sem ela. Pelo contrário, se sua vida tem aventuras todos os dias, então a aventura se tornará uma rotina. Outra coisa é o seguinte, o ser humano nunca está satisfeito com as coisas, sempre poderia estar melhor, desde a aparência, passando pelo presente que ganha até chegar no maior presente de deus, a vida.
Não é para menos, nos colocaram nesse lugar de malucos e nem nos disseram qual era a nossa missão. Nem sabemos ao certo se existe alguma. Seria mais fácil se tivéssemos todas as respostas para nossa existência, assim os grandes homens poderiam parar com tantas guerras e se preocupar com eles mesmos. Engraçado, olhando dessa forma eu acredito que a própria guerra é uma forma de suavizar uma grande e interminável busca por respostas.
Agora vou olhar para algo bem menos universal mas de suma importância chamado Emerson Teixeira Lima, ou melhor, eu. Passei muitos anos da minha vida tentando entender qual era o meu objetivo, muito por que meu presente me dizia sempre que não sabia fazer nada. O vazio, muitas vezes, é a pior dor que existe e “sofrer por nada” é sofrer duas vezes pois, se não bastasse o sofrimento por nada, você ainda sofre por se achar injusto por o fazer por algo tão banal, como se o mundo fosse te julgar por isso. Como se fosse proibido ser triste só por ser. Mas vamos combinar que sempre existe um motivo, não é mesmo?
Já pensei diversas vezes em me matar, ou até mesmo imaginar se as pessoas sentiriam a minha falta se eu partisse. Quase parti, confesso. Mas parece que tudo o que queria estava sendo preparado para mim, e eu só estava muito ansioso para o grande momento. Talvez um anjo tenha me dito isso e eu, cético que sou, não acreditei. O que quero dizer é que anjos existem, eles estão em toda parte. Sem poderes mágicos, somente o poder de estar perto. Muitas vezes isso é mais que o suficiente.
Assisti “A Felicidade não se Compra” com uns 15 anos. Sem nenhum motivo aparente, mas, como já disse, sempre existe um motivo. Acompanhar aquele homem de coração tão grande que mal cabe no próprio corpo foi simplesmente o que eu precisava. Sua ansiedade em conhecer o mundo, sair do lugar que estava me causou um sentimento de identificação tão grande que no meu peito faltava ar, de tanta emoção. Sabe quando você sente uma dor enorme mas em nenhum momento grita um palavrão para aliviar? Então, mais ou menos isso. Já nas primeiras cenas foi-me entregue um presente. O filme poderia acabar com 30 minutos, a sua mensagem já estava entregue.
Quando George Bailey conversa na mesa com o seu pai, explicando que o seu sonho é fazer muito mais do que ficar em um escritório é de um carinho tamanho que faz me sentir inútil em tentar explicar. O seu pai, sábio, responde dizendo que faz grandes coisas, pois é inerente ao ser querer um lugarzinho para viver, uma proteção para a família. Na verdade, eles fazem muito mais, pois fazem com amor e entrega. Tudo fica maravilhoso quando há verdade, sinceridade e humildade.
É claro que o George entendeu o recado do pai que, por sinal, resume o filme todo. “faça o melhor com o que tem, independente de onde esteja”. O filme coincidentemente aborda o natal, mas não faz dele uma necessidade para a trama. Pouco importa a data, a única coisa que importa é a verdade do fazer o bem. Mas me soa muito bonito remeter essa obra abençoada ao natal, pois é realmente um momento onde as pessoas estão abertas, onde o carinho se faz presente, pena que muito dele é falso e/ou momentâneo mas… enfim, eu ainda tento acreditar que há famílias que se renovam a cada ano, nessa exata data e isso me faz feliz de alguma forma.
Quando disse que existe muitos anjos por ai, isso pode ser ilustrado com o filme, onde George Bailey se apresenta como tal durante todo o momento que o acompanhamos. Ora, ele só não tem asas ainda, mas ajudou várias pessoas, diretamente ou não, ele representa todos nós e nossas respectivas importâncias para com o meio. E como fica feliz esse meio com a nossa ajuda. Deixando sua vida de lado para se preocupar com problemas alheios, George nos mostra que os problemas alheios podem, muito bem, ser nossos também. Forte e destemido quando jovem, ele dá lugar a um pai. Se outrora trazia a lua para sua amada, ele passa a questionar sua sanidade por ter escolhido ele.
As pessoas nos escolhe o tempo todo, nós escolhemos as pessoas e, muitas vezes, a melhor escolha está do nosso lado. Só estamos preocupados demais para entender isso. É difícil encontrar alguém que te entenda, que as horas passem devagar, que pisar na grama não seja um problema assim tão grande. A beleza sempre está nos olhos de quem vê/sente.
Finalizando, eu digo que dei espaço para uma nova versão de mim, hoje eu tenho certeza que tento fazer o bem de todas maneiras. Fazer com que o choro dê lugar ao sorriso, e ser agradecido por isso realmente não tem preço. Faço de todos os dias um natal especial, onde tento preencher de todas as maneiras os vazios, com muito carinho e respeito. Talvez eu pensa que estou fazendo isso para mim mesmo, constantemente. Pois entender do vazio faz com que você lide bem com ele, e isso é realmente significativo nos últimos tempos.
Enfim, ao assistir “A Felicidade não se Compra” no cinema, eu parei, me olhei, assim como os anjos do filme, e pude perceber que aquele jovem com medo de se assumir um apaixonado pela vida não existe mais. No fim, as histórias são tudo o que temos, e merecem ser compartilhadas.
Obs: Texto originalmente publicado em 14 de setembro de 2014

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36 (2012)

O diretor Nawapol Thamrongrattanarit, cujo nome me parece quase impronunciável, começa em grande estilo no universo cinematográfico. O cinema tailandês, eventualmente, nos presenteia com obras incríveis, como por exemplo o “Tio Boonmee, Que Pode Recordar Suas Vidas Passadas”, e esse “36” é um outro bom exemplo.

Tenho um contato muito grande com a fotografia, desde pequeno. Uma relação de amor e curiosidade, uma feliz nostalgia que eu tenho, meus tempos de revelar as fotos e segurar em minhas mãos aqueles momentos. (in)Felizmente não temos mais a preocupação em comprar filmes e revelar depois, e cabe aqui essa dicotomia pois, realmente, a tecnologia que nos salva, é a mesma que nos priva de sensações boas. Há muito tempo eu não tocava nas minhas fotografias, recentemente revelei um ensaio que fiz e, nossa, foi como se eu voltasse no tempo. Aquela maravilhosa sensação de acariciar minha obra. Pode soar estranho, mas faz muito sentido para mim. O filme intercala muito bem essa reflexão, na busca incansável da protagonista pelo seu amigo-amor, companheiro de registros de pequenos momentos, que serão, a partir da captura, eternos.

Ela guarda suas fotos em um HD, um HD por ano, e isso a confunde diversas vezes, a priva da sensação citada a cima, cria-se uma confusão, pois mesmo com sua ansiedade por registro, ela soa muito perdida quando entra em questão “a procura pelas fotos”. Um computador, entre a pessoa, sensibilidade e a arte, reduz a emoção da imortalidade, que a fotografia traz.

O filme começa com ela registrando um edifício abandonado, ela os procura para rodar filmes, encontra então o seu companheiro, um diretor de arte, onde durante metade do filme eles passaram lado a lado, registrando os lugares e momentos que passam, ou pessoas que encontram. Em uma das primeiras conversas, ela diz que trocou o analógico pelo digital, resultado do tempo. As coisas evoluem, e a praticidade fala mais alto. Não é errado, no mesmo tempo que se revela infantil a ideia de que, guardado as importantes fotos no computador, elas estarão a salvo.

O filme é dividido em capítulos, que mais parecem descrições de alguns detalhes que acontecerão ao longo, por exemplo: “tire uma foto para podermos ver novamente“, “a capa do livro que ela lê é uma casa sem porta”,  “o lugar tem um passado”, “um pássaro vermelho-violeta voava no céu” e “não gosto de ser fotografado”. Esses três últimos, por sinal, são os mais interessantes e cruciais para o simbolismo do filme, ele olha um pássaro e mostra para a protagonista ela então tira foto dele, e desencadeia um diálogo interessante, onde ele questiona o porquê dela não olhar com os olhos ao invés da câmera, ela responde que, se não tivesse tirado a foto, o momento se perderia para sempre. Ela é vítima de uma obsessão quase.

O final do filme é digno de emoções, pois a menina está tentando recuperar os arquivos perdidos ao lado do técnico de informática, enquanto relembra alguns momentos que passou com o seu amor, o diretor de arte, visto que tinha passado anos e eles nunca mais se viram, ela o descreve com muita propriedade, através das fotos, diz que ele gostava de fotografar desconhecidos na rua e raramente lhes entregavam ou mostrava as fotos que tirava – algo que me identifiquei profundamente – que demonstra, talvez, a sua arte como fruto solitário, particular. A menina tirou uma foto com o rapaz, porém nós, espectadores, não vemos esse momento, a filmagem continua na câmera em cima do muro, pronta para captar os dois, como se o equipamento fosse o real protagonista dessa história de amizade/amor. Simbolizando que esse momento deles, não poderá ser compartilhado com a gente, pois é particular deles. Uma metalinguagem incrível.

Obs: Texto originalmente publicado em 10 de janeiro de 2015

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