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No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

Os Esquecidos, 1950

Os Esquecidos (Los Olvidados, México, 1950) Direção: Luis Buñuel

Luis Buñuel é o artista que representa perfeitamente o impulso imaginativo, do tipo que rejeita o formato padrão e constrói o seu universo peculiar em base à realidade mas, quando lhe é proposto o registro dela, o faz de forma surrealista. Existem infinitas verdades no surrealismo, porém elas são trabalhadas de forma subliminar, inerente à experiência social e filosófica do artista.

Luis Buñuel é um filósofo com uma capacidade de absorção da realidade inimaginável, como comprovação temos a sua própria trajetória, que evidencia a sua insatisfação com o cômodo. Tendo estudado diversas áreas – incluindo a religiosa – antes de adentrar os saberes das letras e filosofia, essa mistura de conhecimentos funcionou ao diretor como uma oportunidade única de trabalhar brincando com os mais diversos elementos místicos. Sem contar as viagens do diretor pelo mundo afim de encontrar um refúgio criativo, o qual permitiu que ele olhasse o objeto e dilemas sociais com uma certa distância.

A sua fixação no México simboliza exatamente essas transições enquanto estudante dos métodos artísticos, apesar de relacionado com outras artes, por sorte Buñuel resolveu ser cineasta e, se tinha apresentado, anos antes, ao mundo o surreal “Um Cão Andaluz” (1928) – que quebrou qualquer barreira narrativa imaginável, através da exploração do visual – o início do seu trabalho no novo país é pautado na realidade.

“Los Olvidados” (1950) é mais um exemplo do talento incomparável do diretor em desmoronar as dores do mundo, dobrar e fazer um barquinho. Os problemas sociais, questões de ética e opressões são desenvolvidos com um lirismo visceral tão denso que parecem cacos de vidros.

O filme acompanha um grupo de crianças e adolescentes nos subúrbios da Cidade do México. Eles passam os dias vandalizando, inclusive cometendo pequenos roubos. O líder dessa “gangue” é Jaibo (Roberto Cobo) que em um dia, junto com pequeno Pedro (Alfonso Mejía) espanca um menino até a morte. A partir desse momento a obra investiga as consequências emocionais do fato para a vida do Pedro, um menino que, dentre todos, parece ter mais envolvimento familiar e alguma esperança, porém as suas atitudes e companhias o impedem de evoluir. Por outro lado, Jaibo é um inconsequente, suas atitudes ultrapassam a linha natural e atingem a perversidade, no entanto há infinitas possibilidades de relacionar suas palavras e ações às fragilidades na estrutura da sua família, no passado – ele cita o seu pai em um momento e, a ilustração mais evidente dessa analogia, ele se apaixona pela mãe do Pedro.

A obra é incrível visualmente, o preto e branco se faz presente e, mesmo sendo bonito, ressalta as sujeiras das ruas. No entanto, essas sensações são reforçadas com a coragem em expor as perversidades das suas personagens, como em momentos onde as crianças agridem deficientes físicos. As atitudes monstruosas são tamanhas, que a experiência do espectador se torna pesada e ao longo dos oitenta e cinco minutos a sensação de sufocamento é constante. Algo está errado no poder, para as crianças terem chegado ao ponto de ultrapassar qualquer senso de cidadania. Vemos a miséria, a fome, devastação social, mas o que mais assusta é a barbaridade dos seres em formação.

A mensagem é crua e direta, a briga por interesses e despreocupação da política com a situação do seu povo, cria monstros. O título “Os Esquecidos” sugere essa ideia, principalmente quando relacionado com o contexto histórico e o próprio desenvolvimento da obra. É válido ressaltar que o filme começa com avisos sobre os fatos serem reais e distantes de qualquer otimismo, não poderia ser mais oportuno. Já na primeira cena Jaibo caminha pelas calçadas da cidade, rodeado de crianças ao seu redor, pois todos estão curiosos para saber como foi a sua experiência na prisão. Ele se engrandece e detalha momentos da estadia, inclusive coloca a sua liberdade como uma opção. Essa postura demonstra não só um ser que viola as autoridades, como também a visão de Jaibo sobre as ruas, afinal, elas também são prisões, ele só escolheu outra opção. Ainda sobre a cena, as crianças pequenas, frenéticas, em volta de Jaibo, escutam atentas as suas palavras, é como se ele fosse um Messias do caos – inclusive há cenas que ressaltam essa mensagem, trazem Jaibo sob uma iluminação diferente dos demais, como na própria imagem que ilustra esta crítica.

Buñuel faz um relato perturbador sobre os desdobramentos sociais envolta da miséria. As consequências da indiferença sendo retratada da forma mais fiel e visceral possível. Simplesmente um filme obrigatório em todas aulas de sociologia e filosofia. Há ainda uma impressionante cena de um sonho perverso, onde é acrescentado ruídos sonoros incômodos que representam brilhantemente toda a experiência de se assistir Os Esquecidos.

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Fotografia como arma contra o totalitarismo

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A Cidade dos FotógrafosLa Ciudad de los Fotografos, Chile,2008) Direção: Sebastián Moreno

Esse documentário Chileno reforça o poder da fotografia como registro da verdade e, mais do que isso, captura de sentimentos, arma de protesto e rebeldia, ferramenta que dá poder e voz ao povo, que imortaliza o tempo e funciona como um documento histórico.

Em 80 minutos acompanhamos relatos de destemidos fotógrafos e fotojornalistas que documentaram as greves e protestos durante a ditadura militar de Augusto Pinochet no Chile. Esses homens e mulheres impulsionaram a revolução através do registro, incentivaram a subversidade com a utilização de câmeras e captaram um período obscuro em grupo, exigindo concentração e coragem.

Documentários sobre fotografia me conquistam facilmente, ainda mais quando possui alguma relevância social ou filosófica, como é esse o caso. Surpreendente desde o primeiro momento, o documentário dirigido pelo Sebastián Moreno é justo em utilizar o período histórico como contexto para os verdadeiros protagonistas. Os fotógrafos são presença constante nos relatos e é impressionante a distribuição de pontos de vistas, além de ser uma experiência maravilhosa aprender história com imagens e com aqueles que as produziram.

Há ainda espaços para brilhantes ideias sobre a união como elemento crucial para a revolução, coragem e rebeldia, esses fotógrafos representaram muito para o povo que, alimentados pelo registro, moviam-se em direção à sua liberdade. A fotografia, em geral, se tornou a segurança dos civis pela certeza de que seriam lembrados através das imagens, que seus movimentos e as consequências seriam imortalizadas e que suas lutas seriam sentidas eternamente como um ato heroico.

Em dado momento os fotógrafos afirmam que o governo começou a se sentir ameaçado por eles, muitos intrusos tentaram entrar no grupo, mas os fotógrafos descobriam o disfarce pelo manuseio da câmera. Como consequência, as revistas foram obrigadas pela censura a retirarem todas fotos de suas páginas, como se fosse possível banir do mundo o seu reflexo. O totalitarismo atinge diversas camadas sociais, mas não consegue compreender e oprimir a arte, portanto, a própria opressão transforma a arte em arma.

O documentário possui uma força impressionante, sendo extremamente necessário tanto para quem quer estudar a história do Chile, quanto para fotógrafos. É a arte como entidade do caos, movida pela coragem de homens e revolução de um povo.

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A Cortina Carmesim, 1953

A Cortina Carmesim ( Le rideau cramoisi, França, 1953 ) Direção: Alexandre Astruc

Um oficial (Jean-Claude Pascal) passa alguns dias na casa de uma família burguesa e se apaixona pela filha do casal (Anouk Aimée). É preciso começar as observações com a própria família que, abrigada em uma mansão luxuosa, não falam, não se olham e não demonstram nenhum tipo de sentimento, mesmo assim a atração do oficial pela jovem Albertine é cercada de dilemas, provocando medo e desejo no protagonista, que também assume a narração – inclusive ela se aproxima bastante do livro “Lolita”, escrito por Vladimir Nabokov, lançado dois anos depois, pois demonstra com perfeição o homem sendo destruído pelo conflito entre o desejo e a ética.

 Os demais personagens não falam durante os quarenta e quatro minutos do filme, são imagens representando a situação que o oficial se encontra, portanto a narração é importante pois funciona como um diário, encontrando o caminho da compreensão do personagem da forma mais rápida e envolta de muita poesia. A paixão acontece abruptamente e morre na mesma velocidade, deixando uma sensação amarga seja no protagonista ou em quem assiste – prova disso é que o diretor, na segunda metade, passa a filmar os seus protagonistas com um espaço reduzido dentro da mansão.

Mesmo com a pouca duração, é possível perceber um brilhante uso dos objetos como forma de auxiliar o roteiro, um exemplo é quando Albertine fica diante de um espelho, como se a sua imagem se desprendesse da condição de opressão; algo que será mais trabalhado com a posição da personagem na mesa de jantar que, consecutivamente, causa dúvidas no narrador sobre suas reais intenções quando, na verdade, são bem óbvias: o movimento indica uma tentativa de liberdade.

O final, apesar de ser desenvolvido rapidamente, indo ao desencontro da forma que vinha sendo exibida até então, deixa uma mensagem clara sobre o quanto o homem é cabível de esquecer um sentimento em prol da sua própria vaidade e reputação. Enfim, é uma boa história, contada com uma fotografia oportuna e direção segura, traz ainda, de brinde, uma participação da lindíssima e talentosa Anouk Aimée.

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O Túnel, 2016

O Túnel (Teo-neol, Coréia do Sul, 2016) Direção: Kim Sung Hoon

Jung-su sai do trabalho e dirige até a sua casa. No caminho um túnel despenca, deixando-o preso entre os escombros. Em um ambiente apertado e destruído, uma das suas ferramentas de comunicação com o mundo exterior é justamente um celular e, a partir dele, toma consciência da sua situação perturbadora e é aconselhado a economizar água afim de aguentar os sete dias para a concretização do resgate.

O primeiro ato é trabalhado com dedicação pelo diretor Kim Sung Hoon, de forma que o protagonista e sua história seja desenvolvida através da catástrofe. Mas no decorrer, o que se percebe é a incapacidade de relacionar o espaço limitado em que o personagem se encontra com a sua vida, visto que não há propostas dramáticas além da própria situação traumática, limitando o roteiro e, principalmente, afastando o espectador da identificação.

Existem cenas realmente impactantes e tensas, mas a claustrofobia é deixada de lado no momento em que esse espaço, do nada, aumenta. A intenção é muito clara: um roteiro fragilizado chega a um ponto que se perde completamente, para contornar essa situação, é preciso colocar mais personagens e situações-conflito para o protagonista resolver.

Se o roteiro se perde em meio aos dilemas individuais de um homem só, lutando pela sobrevivência e limitando-se a esperar o impossível, isso chega a um estágio enorme quando quando analisamos a obra politicamente. É curioso notar que a operação de resgate é inacreditavelmente grande, resultado de enormes investimentos e ainda por cima é acompanhado pela mídia, mas tudo isso é para salvar a vida de apenas um homem. Agora, pensando friamente, em que mundo utópico algo assim aconteceria? O potencial filosófico é desperdiçado. O resultado é um filme clichê que se salva por pequenos momentos, mas que entrega apenas o aceitável. Recusando, portanto, qualquer dilema moral ou social, se atendo apenas ao óbvio.

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Não Quero Ser Um Homem, 1918

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Essa é uma obra de comédia, muda, feita na Alemanha e lançado em 1918 e deve ser o primeiro filme feminista da história do cinema – isso levando em conta que quatro anos depois teríamos o ótimo “La Souriante Madame Beudet” que, em muitas listas, é creditado como o primeiro.

A ideia é bem básica e o humor está presente em cada minuto do filme. Gira em torno de uma menina rica que se sente incomodada com a sua vida e, através da rebeldia, expressa o seu desconforto. A menina fuma, bagunça, fala o que pensa, entre outras coisas, até que decide se vestir de homem e viver uma noite como tal.

O filme foi dirigido pelo Ernst Lubitsch, um importante diretor e roteirista dos primórdios do cinema alemão, e aqui ele ousa bastante, levanta algumas reflexões referentes a esteriótipos de gêneros e o faz em plena censura rigorosa. É de se destacar, com isso, a atuação da Ossi Oswalda que precisa, com todas as limitações técnicas da época, se reinventar e interpretar dois papeis, carregando todos os seus dilemas e preocupações.

Em um tom bem despreocupado, somos apresentados a protagonista da melhor forma possível: a menina está fumando, a governanta a repreende achando um absurdo uma mulher fumar e, depois, ela mesma fuma. Se não bastasse, há alguns momentos que existe clara mensagem de que a vida do homem é mais fácil, pois existe um encantamento e respeito muito maior.

Há diversas cenas que envelheceram na sua ideia, principalmente no que diz respeito ao cavalheirismo, mas como o cinema é um reflexo do seu tempo, isso jamais poderia se transformar em algo ruim, pelo contrário, só pontua as diferenças e semelhanças com o nosso tempo. Nesse caso, é triste perceber que existe muitas diferenças de tratamento com homem e mulher, seja no trabalho, faculdade etc, no entanto, é emocionante ver que há quase cem anos um diretor trabalhava o humor como forma de crítica social e para transmitir uma mensagem atemporal: não existe melhor, nem pior; fácil ou mais difícil – e, se existe mais dificuldade, é culpa do nosso egoísmo – somos todos seres humanos, independente se homens ou mulheres.

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Tara Maldita, 1956

Tara Maldita (The Bad Seed, EUA, 1956) Direção: Mervyn LeRoy

“Tara Maldita” era uma história conhecida e aclamada do teatro quando migrou para o cinema. Isso é interessante, levando em conta que se trata de uma obra clássica de terror que, em nenhum momento deixa se levar por sustos ao invés de questionamentos e conflitos psicológicos. Certamente o sucesso prévio do roteiro no teatro gerou atenções, complicando ainda mais a vida do diretor e atores que, mesmo conhecendo a essência da obra, ainda se viam diante de um novo formato e público.

Felizmente a adaptação liderada pelo Mervyn LeRoy faz jus a grandiosidade filosófica da história que, por sua vez, traz uma garotinha de nove anos chamada Rhoda (Patty McCormack) que comete assassinatos, mente, elabora planos diabólicos, tudo isso sem levantar suspeitas, afinal, se trata de uma criança e, como tal, inocente aos olhos da sociedade. Em uma estrutura teatral, o conflito começa quando sua mãe Christine Penmark (Nancy Kelly) suspeita da própria filha, após a menina não demonstrar sentimento algum com o falecimento de um colega próximo da sua sala de aula.

O inimigo de todo o arco dramático é improvável, o conflito e questionamento sobre os limites da psicopatia, principalmente relacionado à idade, se tornam o triunfo de uma obra que é definitivamente muito maior do que “mais um filme de terror”. A força narrativa se encontra na naturalidade do desenvolvimento que, se baseando fortemente no desespero de sua protagonista – a mãe, cujas decisões são suspendidas diante a agonia provocada pela dicotomia entre o certo e a proteção materna – acontece de maneira despreocupada, como se o espectador fosse obrigado a, também, desacreditar que a angelical Rhoda tenha forças para agir de maneira tão monstruosa.

Ledo engano, o roteiro é inteligente em brincar com a relação entre a dúvida, moral e realidade quando os indícios se tornam claros, à medida que as ações da menina vão se tornando mais extremos. O texto é sustentado por uma direção maravilhosa, com ótimas decisões de enquadramentos – utilizações de espelhos são comuns e deveras importante – e atuações sensacionais. Destaque para a Eileen Heckart que aparece em cenas curtas como a mãe do falecido Claude, amigo da escola de Rhoda. A força da sua performance dá um brilhantismo para as consequências dos atos do pequeno anjo malvado, é quando as emoções das vítimas nos faz relembrar que por trás da imagem inocente existe um ser diabólico que, apesar do tamanho, tem o poder de causar sérios traumas nas vidas que estão ao redor. Eileen Heckart, inclusive, chegou a ser indicada ao Oscar.

A profundidade do tema é tão grande que essa clássica obra inspirou diversos filmes que, posteriormente, também se utilizariam de crianças como os vilões. Mas não é só pela novidade que é lembrado, mas também a boa utilização dos espaços da casa, isso é importante pois praticamente toda a história se desenvolve nela, com certeza alguns movimentos vêm das apresentações teatrais, visto que a mise en scène é sublime e existe uma sincronia que dá leveza e flexibilidade visual.

É sem dúvida um grande clássico do cinema e que, de brinde, nos apresentou a talentosa Patty McCormack, com um trabalho primoroso, pois sua personagem exige uma consciência madura escondida atrás de uma artificialidade infantil, o que na prática resulta em expressões e diálogos repletos de camadas. Simplesmente inesquecível.

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Fragmentado, 2017

Fragmentado (Split, EUA, 2017) Direção: M. Night Shyamalan

M. Night Shyamalan parece caminhar de forma diferente dos demais seres humanos, no que diz respeito aos trabalhos. Quando novo, realizou obras maravilhosas e, após a experiência, parece que se desencontrou  da sua melhor versão. Diferentemente do comum, a maturidade não fez bem ao diretor que soa constantemente forçar o tecnicismo, esquecendo drasticamente o lado audacioso de se entregar à arte sem medo de errar e, principalmente, sem querer ser aceito pela maioria. O processo criativo não visa, em um primeiro momento, o lucro e, se o faz, está completamente errado. A construção do roteiro demanda atenção unicamente à ideia, não a aplicação do conteúdo às grandes massas.

A história é sobre um rapaz chamado Kevin (James McAvoy) que possui vinte e três personalidades diferentes e que interagem entre si, servindo como um escudo para a sua consciência que, tendo presenciado situações complicadas quando criança, bloqueou a realidade através da multiplicação de facetas. Uma dessas personalidades, aparentemente a líder delas, sequestra três jovens. Elas precisam estudar o seu raptor de modo que suas ações entrem em comunhão com as suas fragilidades, o que não será nada fácil.

Anya Taylor-Joy interpreta uma das garotas, Casey. A personagem, quando analisada separadamente, é bem interessante. Dotada de uma inteligência e equilíbrio, infelizmente elementos que nunca estão lado a lado em personagens de filmes de terror, principalmente femininas, utiliza a sua postura como proteção diante à situação complicada que se encontra. Em um primeiro momento, chama a atenção e aproxima o espectador da identificação, algo muito importante para filmes que se utilizam do sequestro para causar o desespero.

Mas o principal objetivo do filme parece mesmo discutir psicologia. Utilizando a mente do Kevin como uma forma extrema de extrair a novidade e relacioná-la com o terror clichê. Nesse ponto, estamos falando de um filme medíocre, que simplesmente entrega uma série de dilemas de forma infantil e não se preocupa em sustentar isso de forma coerente, tampouco dá valor à uma personagem que poderia acrescentar nessa abordagem: a psicóloga. No primeiro diálogo dela com uma das personalidades de Kevin, ela se mostra totalmente preparada em relação à situação do seu paciente, chegando inclusive a mencionar o fato de que “conhecia as vinte três personalidades”reparando em nuances e sustentando uma postura intelectual. Em trinta minutos isso é derrubado pelo próprio roteiro, até chegar a uma conclusão infame, que não só ofusca o trabalho dos profissionais da mente como também nos faz perder qualquer senso de seriedade ao enfrentar a tortura chamada “Fragmentado”. É visível os momentos em que o roteiro perde forças, prejudicando inclusive as excelentes performances dos seus atores principais, principalmente o James McAvoy que compõe algumas das principais personalidades de forma eletrizante, chegando a assumir uma que, por motivos pessoais, quer se passar por outra, a transição é perfeitamente ilustrada através de expressões sutis e bom trabalho vocal. Esse ator é um talento, a sua entrega é tão absurda que, curiosamente, ultrapassa os limites do seu próprio texto.

Começamos com uma apresentação frágil, passamos por poucos bons momentos onde o sentimento de ansiedade se sobressai e as abordagens psicológicas soam como maravilhas para quem gosta do tema, de repente, no entanto, isso é descartado e o óbvio assume o comando. A psicóloga especialista e concentrada dá lugar a uma senhorinha insegura, desesperada e, pior, despreparada; os flashbacks, que prometem agregarem à história um valor dramático, demoram a se resolver e o espectador fica esperançoso por uma explicação e, quando a tem, é tão lamentável que seria melhor ser completamente ignorado; e, por fim, transições da consciência, ilustradas por uma performance arrebatadora, passam a ser físicas e uma obra que pretendia demonstrar as obscuridades da psicologia humana se rende ao clichê do monstrinho perseguindo uma mulher desprotegida que, aos poucos, vai perdendo pedaços da roupa. É isso, volte a ser jovem da próxima vez M. Night Shyamalan!

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O Cadáver de Anna Fritz, 2015

O Cadáver de Anna Fritz ( El Cadáver de Anna Fritz, Espanha, 2015 ) Direção: Hèctor Hernández Vicens

Cadáver, corpo sendo violado, necrotério, filme espanhol… Nacho Cerdà?

Nacho Cerdà chocou o mundo com o curta-metragem “Aftermath”, onde basicamente trabalhou temas como violação do corpo, instinto selvagem, fragilidade da carne etc, através da necrofilia. A narrativa se pauta no silêncio, não há diálogos, apenas música clássica em um som extra diegético e os gemidos do violentador, agindo como um animal irracional. A crítica e ironia é evidente desde os primeiros momentos.

Hèctor Hernández Vicens com certeza assistiu o curta e se inspirou no quesito coragem, mas sem nenhuma pretensão de criar algo com a mesma qualidade ou profundidade filosófica. A história em “El Cadáver de Anna Fritz” começa com notícias sobre a repentina morte de uma famosa atriz espanhola chamada Anna Fritz. Seu corpo, que outrora despertava desejo nos homens ao redor do mundo, é levado ao necrotério e fica sob observação do jovem Pau (Albert Carbó) que, fascinado por estar acompanhado do cadáver de uma linda e famosa atriz, tira foto do seu rosto e envia para os amigos. Posteriormente os convida para olhar o corpo de Anne, levantando o desejo em um deles e, consecutivamente, um estupro coletivo.

Os primeiros minutos do filme são excelente, mesmo em um formato convencional consegue provocar alguns temas extremamente reflexivos, por diversas vezes é possível imaginar o quão superficial é o desejo carnal: a fama aqui é um caminho certo para essa questão, visto que muito famosos sustentam a sua carreira em base ao desejo físico, portanto, o que acontece com o seu corpo frio, morto? Todo o fascínio se esvai ou, como visto aqui, esse impulso ainda se mantém?

Os dois amigos convidados por Pau iriam para uma balada na mesma noite que são convidados. Mesmo que um deles relute até o fim, o primeiro contato acontece e, uma das primeiras coisas que o “líder” faz é colocar as mãos nos seios de Anna Fritz. Pau dá detalhes sobre o sexo com um cadáver, deixando implícito que já abusou de outro corpo e a confissão é que poderia ser uma menor de idade.

A atriz mundialmente conhecida está ali, imóvel e sem vida, vulnerável, assim como o estupro sugere, só que sem a resistência. Portanto, o primeiro ato consegue estabelecer com primor essas questões de ética, onde os próprios jovens repensam os seus atos e enfrentam as consequências,afinal, só eles estão no local, portanto permanecem isentos de qualquer julgamento, senão, das suas próprias consciências.

A técnica, seja visual ou narrativa, é comum mas não desaponta. Há momentos de tensão que são fortemente prejudicadas por cenas repetitivas. Todos os atores estão dando o máximo nas expressões que exigem, uma relação estreita com sentimentos como medo, raiva, arrependimento e incerteza. O diretor explora bem as atuações mas peca em criar cenas claustrofóbicas, algo que seria relativamente fácil, visto que os personagens permanecem em boa parte do filme em um ambiente fechado.

 Existe uma limitação física de um dos personagens aqui que resulta em cenas realmente angustiantes, além de o espaço ser bem explorado ao longo dos setenta e seis minutos de filme.

Curioso é notar como é o tratamento dos cadáveres pelos jovens: antes de relevar o corpo de Anna para os amigos, Pau mostra um cadáver de um senhor, desfigurado, no mesmo tempo que obtém como resposta: “cubra esse lixo”. Momentos depois o mesmo personagem fala que o corpo, sem vida, da Anna é “delicioso”. Um contraste obscuro, limitado e doente.

Mesmo com as limitações – não espere uma obra extremamente diferenciada – Hèctor Hernández Vicens conduz uma história dinâmica que, mesmo com pouco tempo, consegue trazer questões éticas e chocar com imagens de necrofilia e desrespeito dos personagens para com o corpo (templo) de uma mulher que perdera a vida precocemente. Os desenvolvimento do roteiro cai e as reviravoltas são repletas de truques; ainda existe uma ideia de vingança má explorada mas que, certamente, aliviará os corações mais revoltosos.

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As Bodas de Satã, 1968

As Bodas de Satã

Seria impossível analisar “As Bodas de Satã” sem se lembrar de como o satanismo foi discutido durante os anos 60. A liberdade e o movimento hippie trouxeram, também, um outro lado obscuro que envolvia o desconhecido e, claro, o satanismo está incluso na lista.

Em 1969, um ano após o lançamento desse filme, Charles Manson assassinou a Sharon Tate que era esposa do diretor Roman Polanski e estava grávida de oito meses. Então é de se imaginar a ousadia de todos os envolvidos em lidar com esse tema de forma tão natural e impactante.

O filme é baseado em um conto do Dennis Wheatley, inclusive ele teve o Aleister Crowley como consultor para criação da sua história.

Dirigido por Terence Fisher, “As Bodas de Satã” conta a história de Duc de Richleau ( Christopher Lee ) que descobre que o seu sobrinho está envolvido com rituais satânicos e magia negra, ele passa a usar os seus conhecimentos místicos para combater o mal e os livrarem dessa situação.

A produtora Hammer é icônica na história do cinema, trabalhou exaustivamente com alguns monstros famosos como o “Drácula” e a “Múmia”, aqui trabalha com a magia negra e consegue se sair muito bem. A técnica empregada pelo Terence Fisher dá um tom elegante e o roteiro é dinâmico e aproxima o espectador do conflito principal. É uma aula de cinema para os jovens, que teimam em se utilizar dos sustos gratuitos. Aqui acontece o contrário, existe uma atenção maior para com a história, depois os personagens, o visual e só depois vem a necessidade de provocar o medo. Contudo, como o foco está totalmente na ambientação, a sensação de urgência e o trabalho inteligente com elementos diabólicos traz a sensação de medo de forma mais pura, é realmente uma experiência prazerosa.

Ainda há espaços para algumas discussões sobre o mal e o ceticismo, o que é importante, mas em nenhum momento se torna o principal na narrativa. Felizmente é tudo singelo, trabalhado de forma delicada, destoando inclusive do próprio tema, sem dúvida se trata de um dos melhores filmes da Hammer.

“-Você acredita no mal?
-Como uma ideia.
-Acredita nos poderes das trevas?
-Como uma superstição.
-Estão erradas!
O poder das trevas é muito mais que mera superstição!
É uma força viva que pode atacar a qualquer momento da noite.”

A teatralidade, com ajuda do clima gótico, faz jus a mitologia que o filme alcançou posteriormente, tendo sido inspirações dentro da música, escritores, enfim, é impossível falar de terror sem citar essa obra maravilhosa, cercada de muita dedicação e carinho e, por que não, relacionada com a curiosidade e medo da sociedade na década de sessenta.

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A imortalidade sob a perspectiva existencialista da Simone de Beauvoir

A imortalidade sob a perspectiva existencialista da Simone de Beauvoir: a obra “Todos os Homens São Mortais” como diálogo definitivo do homem e sua busca irracional pelo infinito.

Assistindo recentemente o sucesso “Logan” (2017) não pude ignorar o fato de que o tema principal discutido pelo filme é justamente a luta de um homem contra o seu tempo. Partindo desse exemplo popular, hoje trago uma resenha sobre o clássico livro de uma das minhas escritoras favoritas, a feminista  Simone de Beauvoir. A proposta não é dissecar o trabalho inteiro da escritora, irei me ater apenas em alguns dilemas do livro em questão, de forma a compor uma reflexão sobre o fim da existência – uma ideia que tem sido recusada ferozmente por diversas sociedades ao longo da história – algo que ilustra não só a ansiedade da humanidade em se dividir, seja através da arte ou não, mas também a solidão existencial motivada, principalmente, por uma sociedade que pré-determina o tempo das conquistas individuais e pressiona o indivíduo em relação ao tempo que lhe resta. Será que a nossa vida seria diferente se descobríssemos que a expectativa de vida humana passou a ser de apenas quarenta anos?

Um conhecimento básico na estrutura de roteiro é que qualquer história se divide em três atos. Entre os “pontos de viradas” – como são chamados os exatos momentos que representam a transição do primeiro para segundo ato; do segundo para o terceiro – existem diversos momentos cruciais na história, mas todos estão divididos entre as três fases primordiais.

Se viajarmos em alguns conceitos da numerologia, bem como a própria história, perceberemos que o número três é muito significativo em diversas culturas e religiões. Peguemos como exemplo a lenda de Édipo, que é interrogado pela Esfinge, muito sábia, com um questionamento oportuno sobre a essência da vida. Ela pergunta: “Qual é o animal que tem quatro patas de manhã, duas ao meio-dia e três à noite?“. O herói, após refletir um pouco, responde que é o homem. E se justifica: “O amanhecer é a criança engatinhando, entardecer é a fase adulta, que usamos ambas as pernas, e o anoitecer é a velhice quando se usa a bengala“. Três etapas sendo desmistificadas com características que resumem uma só realidade: a vida humana se modifica apenas para encontrar o seu repouso.

A existência tem como essência o movimento, a jornada da vida não é uma linha reta e limpa, é impossível reconhecer previamente os obstáculos sujos ou maravilhosos da estrada à frente. No entanto, a beleza da vida se encontra justamente na cegueira provocada pelas curvas acentuadas do caminho que tiram a nossa ciência do depois. O ser humano é o único animal capaz de imaginar o ponto final, e sempre que o faz, interpreta o fim como uma rua sem saída, cuja limitação provoca uma série de decepções. 

É corajoso da nossa parte estar aqui e continuar existindo; é ignorante da nossa parte achar que a vida existe para suprir os nossos desejos. A vida é procurada até mesmo na morte, afinal, elas partem do mesmo propósito: não existe sentido em uma estrada que não leve à lugar nenhum.

“Todos os Homens São Mortais” é um livro que investiga justamente essa questão elementar. Escrito com uma sobriedade assustadora pela sempre excelente Simone de Beauvoir, acompanharemos um personagem chamado Fosca que, em pleno século XIII, bebe uma poção que lhe prometia trazer a imortalidade. A benção da vida eterna, aos poucos, vai se transformando em maldição e esse personagem se sente incomodado com a sua presença fantasmagórica no mundo. Um ser etéreo; um homem que é enxergado pelos outros como um ser morto.

A leitura é obrigatória para os amantes do existencialismo, pois a imortalidade é trabalhada de uma forma realista, distanciando o leitor de uma visão romanceada de uma existência sem o perigo iminente da morte. A vida sem a problematização do seu fim é como uma obra de arte que fora rasgada pelo próprio artista. Os pedaços da arte, mesmo que colados, nunca mais retornaram ao mesmo princípio. Parece que o homem só anda para se reencontrar com o vazio e, se fosse possível rejeitar essa realidade, de nada adiantaria acordar.

O homem, desde o início dos tempos, encontrou na arte a forma ideal de se imortalizar. A quebra da rotina de caças e inseguranças diante os perigos de um mundo hostil, eram quebrados pela sutileza de momentos dedicados às pinturas rupestres. Atitude que nos aproximava dos deuses, trazia o conforto espiritual. É impossível um artista não ser espiritualizado, tendo como exemplo toda uma história onde os seus semelhantes sempre tentaram encontrar um lugar no mundo para espalhar as suas mensagens.

A sensação de pequenice, provocada pela finitude, é mascarada de diversos modos. Como a própria escrita que tem como função principal o domínio do escritor sobre a normalidade. O tempo limitado, como podemos sentir lendo as páginas de Simone, não se trata de uma desgraça; mas sim de uma coerência. A harmonia da vida é a delicadeza e compreensão da sua presteza.

O alento pessoal é a sincronia do coração com a natureza. Os passos são dados e a trajetória é o âmago dos desdobramentos emocionais. Afinal, ninguém se interessa por aquele que nada passou e nada passará. A história encanta, mas a conclusão é uma ilusão. Na arte não existe um fim literal, só um pequeno momento que separa o fácil do transcendental.

Na construção de um roteiro, os três atos são a essência da estrutura narrativa. Mas nós, como artistas, podemos simplesmente inverter a ordem. O fim passa a ser o começo. Não é assim que o ser humano lida com o luto? a lembrança é a maior virtude dos rebeldes.

emersontlima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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