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No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

Kagero (Hideo Gosha, 1991)

Uma pequena menina testemunha o seu pai sendo assassinado após um jogo de cartas. Ela segue os passos dele, se torna uma jogadora e encontra a chance ideal para se vingar dos eventos do passado.
Essa obra de Hideo Gosha faz tudo menos seguir a risca essa história principal, acrescenta uma série de camadas e problemas de modo a não se transformar somente em um filme de jogatinas clandestinas. É importante ressaltar a forma que a mulher é representada aqui, tendo um vínculo com o jogo e, mais do que isso, precisando enfrentar um mundo rodeados de homens.

A atriz Kanako Higuchi de filmes como Shara (2003) e O Assassinato No Inferno De Óleo (1992) tem toda a responsabilidade da obra em suas costas, inclusive a carrega com as suas lindas tatuagens que quebram a figura delicada e inocente. Com o visual espetacular, o vermelho é uma cor bem utilizada aqui para ressaltar os perigos e conflitos iminentes do submundo do qual cada vez mais ela se envolve, o filme perde sua força com o roteiro nebuloso, algo aliviado somente com a força do terceiro ato onde a ascensão da ação se faz presente e coreografia da cena é muito boa.

Apesar de ser uma obra cinematograficamente bem executada, o longa apresenta fragilidade na narrativa e aspectos importantes que são desperdiçados conforme o desenvolvimento. Não é das melhores obras do grande Hideo Gosha, no entanto é interessante ao mostrar o mundo da máfia, das jogatinas clandestinas – há poucos filmes com o tema e esse é um bom representante – principalmente quando acrescentamos a mulher como protagonista e pertencente real e poderoso desse meio -, algo de suma importância em relação à representatividade.

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Ken Park (2002) e a ciclicidade do conceito família

Larry Clark chocou o mundo com Kids (1995) e o fez de forma dinâmica, sem pudores, com o auxílio de um jovem roteirista chamado Harmony Korine – talvez o grande símbolo da jovialidade do cinema norte-americano dos anos noventa e, por que não, sinônimo de grande visceralidade, principalmente em relação à conscientização dos adultos sobre as necessidades e liberdade dos jovens, a sua sexualidade e descobrimento, crescimento ao ponto de sofrer as consequências e não mais ignorá-las. Dois artistas com a mesma intenção que se separaram pelo tempo mas que, por graça divina, se reuniram sete anos depois para realizarem outra obra-prima que prima pelo extremismo chamada “Ken Park” (2002).

Ken Park é um garoto que anda de skate, possui sonhos e amores, ainda é, assim julgam, um aprendiz na condição de existir, buscando em si a figura de um filho, de colega ou pai, pouco se sabe sobre ele que não suas infinitas possibilidades. Em dois minutos ele está morto. O personagem que dá nome ao filme se esvai de forma súbita, quase tão sorrateiro quanto uma borboleta. A partir do momento que a linha lógica se quebra, o espectador pressente (afinal, somos orgulhosos ao ponto de tentarmos constantemente antever o que fatalmente será) que a obra em questão pode ser todas as coisas, menos linear ou condizente com a forma padrão de se apresentar o jovem e sua vida escolar/familiar.

Quando Ken Park comete o suicídio – suponhamos que o fizera por saber que seria pai, ainda que não há explicações para esse tipo de coisa – somos convidados, assim como ele, a nos ausentarmos para que assim possamos refletir sobre nossas questões mais profundas em base a quatro personagens, eles possuem em comum a mesma incomunicabilidade com a família, são frutos de um desperdício da palavra e os garotos precisam lidar com a imposição da masculinidade como prova de poder e dominação, ao passo que a única personagem feminina entre eles, Peaches (Tiffany Limos), sofre a mesma opressão vindo do seu pai, um homem extremamente religioso e que reflete na filha a imagem da sua esposa que falecera.

Os pais também são filhos, esquecemos disso constantemente. A família é desenvolvida aqui como uma entidade cínica, caminhando por entre o desespero de sentir e educar, como um impulso instintivo que anseia que as próximas gerações não sejam tão fracassadas quanto a anterior.

O pai que se embriaga e ensina o filho a pegar peso; a mãe que mesmo sozinha com a filha permite que ela assista conteúdo impróprio na TV; o que mais existe aqui é essa inerência do ser em projetar sua melancolia nos filhos e vice-versa. Há uma necessidade de todos os personagens em serem aceitos, por isso Shawn (James Bullard) é apresentado visualmente prendendo o seu irmão em uma brincadeira enquanto impõe que ele diga que o ama. O papel do jovem rebelde é desmitificado quando Shawn deixa de lado essa figura agressiva para se tornar um filho carinhoso no quarto da sogra, a qual também é sua amante. Por ela ser mais velha, ensina a ele os segredos do sexo, no mesmo tempo que media a relação entre o prazer e a comunicação, se fazendo de simples amante no mesmo tempo que se sente tocada quando o menino cria uma comparação entre ela e a filha, passado e futuro se confrontam e o tempo é sentido como um dilema crucial para o entendimento do vazio familiar que Larry Clark trabalha tão bem.

A cena de sexo sugere um carinho maternal, onde Rhonda (Maeve Quinlan) acolhe o filho e o direciona à sua vagina, ao despertar. Shawn compreende sua posição e repousa, libertando-se das amarras e da culpa.

Se há dúvidas sobre a questão da cena citada acima, na transição dela temos um outro filho, invertendo os papeis e cortando as unhas da sua mãe. A fotografia alaranjada é muito parecida com a cena anterior, o elo visual e metafórico está instalado, mães e filhos dialogam e buscam sua origem.

A relação de Claude (Stephen Jasso) e o seu pai é a mais explícita, conflito de personalidade onde será explorada questões de opção sexual, culpa e retardamento. Uma cena simbólica é quando o seu pai quebra o skate aparentemente sem motivo algum, logo em seguida cai e chora, bêbado. O skate, representando veículo e liberdade, ao ser quebrado limita o personagem ao espaço comum, de modo que seja obrigado a confrontar os seus sentimentos mais profundos e que constantemente tenta ignorar.

Se todas histórias aqui possuem um elo temático e visual, bem como diversas transições de cenas acontecem e reinterpretam ou dão ainda mais significados à anterior – de um pai chorando na calçada por ter quebrado um skate para o outro na mesa, prestes a tomar o café e que cujo costume é fazê-lo de joelhos, como se estivesse se punindo a cada refeição, momento este vinculado às interações familiares – a mais contundente, sem dúvida, é a de Tate (James Ransone). Sua vida é mostrada de forma diferente, boa parte das suas motivações e melancolia são ocultas do espectador, seus avós o tratam muito bem e momentos de ira do jovem são causados pela sua interpretação dos fatos, não em base ao contexto geral. Existe um passado cuja importância apesar de transparente jamais é mencionada, o que faz do personagem ser extremamente delicado, até por se tratar da ação mais violenta de todas contra os adultos.

Tate é o último degrau, onde a consequência do silêncio e abandono atinge o seu nível máximo, através dele percebemos o perigo do distanciamento do jovem com sentimentos relacionados à pureza. O personagem é o contraponto da “Ilha do Paraíso” mencionada ao final, em uma cena que destoa intencionalmente de todo o desenvolvimento até então, o sexo é mostrado e relacionado com a liberdade. A utopia inserida nesse momento é a chave para compreender as amarras humanas que vinculados ao seu dever ético enquanto pertencente a um meio social, esquecem quem são e por que vieram, afastando o individuo cada vez mais da sua feminilidade e, por consequência, da sua versão nua.

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CdA #77 – Do imediatismo à estagnação intelectual

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Emerson Teixeira Sandro Macena discutem sobre o imediatismo da sociedade, o que se estende para a inerência do homem moderno ao conforto e, por que não, o quanto viramos reféns das informações rápidas. A tecnologia nos auxilia, sem dúvidas, mas quais são os perigos dessa vida interligada às redes sociais? Estamos esquecendo o simples?

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Brawl in Cell Block 99 (S. Craig Zahler, 2017)

Quando S. Craig Zahler apresentou ao mundo o faroeste Bone Tomahawk (2015) rapidamente despertou a atenção, principalmente pelo dinamismo dos diálogos e violência gráfica trabalhada de forma orgânica, ainda que extrema. O fato é que surgia uma grande promessa, pois era nítido o excelente trabalho com atores, além dos pontos citados anteriormente.

Em Brawl in Cell Block 99 (2017) o jovem diretor mostra o seu talento novamente, se consagra como um grande nome e passa a despertar ainda mais expectativas em relação ao seu futuro. O filme prima pelas atuações como forma de conexão rápida entre os personagens e as situações ou lugares percorridos por eles. A discussão moral aqui é tão interessante quanto as cenas de ação, inclusive esse é justamente o ponto que faz esse longa agradar os interessados no gênero, mas não esquece em nenhum momento do drama profundamente filosófico, onde o estudo de personagem impera.

A introspecção leva o espectador a uma esfera repleta de sossego, ao passo que abruptamente somos rasgados com a deliciosa máquina da realidade. O personagem outrora inquebrável é o primeiro a desmoronar, ainda que o faça com uma classe assustadora. Nesse sentido, Vince Vaughn apresenta até então a melhor performance masculina do ano ao compor um personagem em constante ciência do redor, estritamente equilibrado e que ama imensamente sua família, tanto que vai do tranquilo ao psicótico em questão de segundos. O protagonista é violado pelas suas próprias decisões e permanece prisioneiro do amor, ainda que sua leve e útil prepotência faça com que ele rejeite a condição de “perdedor”, por isso nunca há desespero, nem mesmo diante da possibilidade de morte.

Assistir Brawl in Cell Block 99 (2017) é como adentrar no inferno, a violência gráfica – expositiva em diversos momentos, o que contrasta com a realidade chocante desenvolvida até então – não é nada se comparada com a fúria do roteiro, que vai transgredindo os conceitos “família”, “união” e “proteção”. Por consequência os personagens são conduzidos (obrigados) à enfrentarem a mais ordinária existência. A prisão que é mostrada através de camadas, que inclusive condizem diretamente com as atitudes de seus detentos, simboliza o psicológico do Bradley Thomas (Vince Vaughn) que alcança o seu máximo de degradação com os cacos de vidros da sua cela, representando o seu coração despedaçado pela distância e o passar dos dias, além da desesperança ao saber que não recepcionará sua filha na sua chegada ao mundo. Retrocedendo ao máximo, o filme é humano ao dispensar a violência e escolhas erradas em prol da relação de amor entre um pai e filha.

Sobre essa relação, é válido apontar duas cenas que dialogam entre si: a primeira é quando Bradley acorda com os pontapés da filha na barriga de sua esposa, ele fica tão entusiasmado que grita e, percebendo que ela continua dormindo, conversa particularmente com a filha. No final do filme acontece a mesma coisa, através do celular.

A tatuagem de uma cruz atrás da cabeça do protagonista tem valor extremamente importante na trama, não à toa é a primeira coisa exibida no começo. O personagem caminhando, em um dia péssimo, sua cruz é como uma fuga do convencional, tornando nobre um homem de figura rude. A benevolência do perdão está presente desde o princípio e a moralidade é outro tema trabalhado. Bradley reconhece que o caminho que passa a seguir após a sua demissão é perigosa, visivelmente abdicou da normalidade no momento que aceitou essa condição. Mas o real interesse passa a ser no homem de classe e disposto à enfrentar consequências de suas escolhas, tendo que se adaptar às regras do sistema que ele próprio inocentemente imaginava ignorar. Na primeira vez que Bradley Thomas briga com um policial, afim de mudar de prisão e realizar sua missão, um outro pisa em sua cabeça, exatamente na cruz. A fé passa a ser no homem e sua versão selvagem de sobrevivência e proteção, a violência é a tradução de um amor tão grande que transcende a ética.

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O Rolo Compressor e o Violinista, 1961

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Andrei Tarkóvski é um dos maiores diretores de todos os tempos, um artista que transcende o cinema e atinge diversas esferas do conhecimento, contemplando a filosofia, política, enfim, um visionário que escreve com a luz.

Em “O Rolo Compressor e o Violinista” o diretor realiza o seu trabalho de conclusão em um curso de cinema, apesar da imaturidade que essa afirmação possa provocar, estamos falando de um dos seus melhores filmes, mesmo que seja quase impossível estabelecer uma ordem de qualidade das suas obras, pois todas atingem o mesmo patamar.

O filme acompanha a história, em 45 minutos, ou seja, se trata de um média-metragem, do pequeno Sasha. Um menino que toca violino e é constantemente agredido por seus colegas de bairro que querem, de toda a forma, destruir o seu instrumento. Sasha desenvolve uma amizade com um motorista de rolo compressor, que o ajuda com os garotos.

Primeiro que a história é leve e super flexível, nada muito reflexivo e complicado. No entanto, o desenvolvimento carinhoso não impede o diretor de, desde então, provocar o espectador com alguns temas pertinentes. O primeiro deles, e sem dúvida o mais importante, é a dicotomia que existe entre dois mundos, um “sujo” e o outro “limpo”. Metaforicamente o limpo seria a arte, que está diretamente envolvida com o luxo. Não à toa os meninos do bairro, aparentemente “comuns”, tentam destruir o violino do protagonista, como forma de podá-lo e torná-lo igual. Quando a amizade com o trabalhador é estabelecida, uma das primeiras coisas que acontecem é o garoto sujar as mãos com graxa, representando uma forma de humildade, é quando ele atinge a compreensão de que é possível aprender com tudo, indiferentemente da sua classe social.

Sasha passa a aprender com o Sergei tudo aquilo que se rejeita por consequência de uma vida regrada. O diretor consegue, dentro da sua sutileza e inteligência, desenvolver uma história absurdamente linda e que é atemporal. Com uma imensidade de cenas onde o reflexo se faz presente, o filme é, além de poesia pela naturalidade, um primor fotográfico. Com diversas opções interessantes visuais, a sensação que fica é que o espectador acompanha escondido os pequenos movimentos dos dois amigos pelas ruas, enquanto conversam sobre trivialidades de suma importância para ambos; culminando em uma cena belíssima onde Sasha toca o seu violino enquanto Sergei, em segundo plano, contempla a sua redução. Não que ele seja inferior, mas simplesmente aceita o fato que Sasha é o futuro, repleto de oportunidades.

Com uma abordagem minimalista, o cuidado que o protagonista demonstra ao não beber leite sem ser fervido e nos treinos cansativos de violino etc, são trocados pela linguagem despreocupada do novo, porém, temporário amigo. O apertar de mãos dos dois, no final, envolto de uma simetria incrível com o reflexo da água, é a simbolização desse compromisso: do experimento da vida com o objetivo de crescer e ser aceito.

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Especial Halloween – Filmes de terror no ano de 2017

Leia também o “Especial Halloween” de 2016 (Clique aqui)

O ano de 2017 está sendo importante para o Cronologia do Acaso em relação aos filmes de terror, principalmente pelo fato de termos tido a estréia do “Frequência Fantasma“, um podcast comandado pelo Sergio Junior e equipe, apenas sobre o gênero.

Dada a recomendação, começo citando o filme russo “A Noiva” como um dos maiores potenciais desperdiçados do ano, isso porque trabalha a fotografia, com cadáveres e nem mesmo com todos esses elementos macabros consegue construir uma atmosfera densa e, pior, não encontra uma forma interessante de desenvolvimento, senão, através do caminho óbvio de sustos sem nenhum tipo de cuidado. Na mesma situação temos “Experimento Belko”, cuja premissa é bastante parecida com “Battle Royale” (2000), acompanhamos um grupo de pessoas no trabalho que são interrompidas por uma voz alertando-os que precisarão matar um ao outro afim de continuarem vivos. O começo mediano dá atenção demais à personagens pouco cativantes, enquanto outros são ignorados e profundidades dramáticas são jogadas fora.

“A Noiva” (Svyatoslav Podgayevskiy, 2017) e “Experimento Belko” (Greg McLean, 2017)

Saindo das boas ideias e execuções frágeis, destaco seis filmes de terror no ano, começando pelo A Ghost Story (David Lowery, 2017). Um filme pouco convencional, que retrocede o medo no seu estado mais puro, onde a consciência humana reflete sobre o vazio da sua existência, se apegando ao espaço e sendo por ele engolido. É um drama torturante sobre o sentimento de estar presente mas não poder tocar, bem como o ser no seu estágio de ciência da finitude e a dor que esse conhecimento traz. (Leia a crítica completa aqui).

“Mãe!(Darren Aronofsky, 2017) é outra obra complicada de ser enquadrada no gênero, pois é muito mais um drama do que qualquer outra coisa. Mas há muito terror no meio de infinitas camadas de metáforas, das quais diversas fazem alusão à ganância do homem em relação à natureza, mulher e ele mesmo enquanto inserido no processo de criação, seja ele qual for. Além do mais, a casa que tem vida, a situação extremamente claustrofóbica, o desespero da personagem principal, cenas pesadas e direção frenética fazem deste um grande representante da lista. (leia a crítica completa).

Ao Cair da Noite (Trey Edward Shults, 2017) apareceu como uma grande surpresa também ao se dedicar inteiramente à criação da atmosfera constantemente frágil e urgente, alcançando ainda mais densidade através da união familiar e possíveis ameaças de desestabilização. O amor do pai e da mãe, bem como a interação do filho, são tão bem desenvolvidas que o espectador confronta a ética em diversos momentos, o sentido filosófico da palavra “sobrevivência” é muito bem explorado aqui. (leia a crítica completa).

Annabelle: Creation (David F. Sandberg, 2017) é até então o grande filme de terror popular do ano. É a prova de que uma direção inteligente faz toda a diferença, principalmente com um formato que clama por inovações afim de alcançar a surpresa, David F. Sandberg entende isso e o faz de forma brilhante na maior parte do tempo, ainda que o terceiro ato destoe um pouco do que vinha sendo feito até então, principalmente no que diz respeito à intensidade e equilíbrio da exposição. (leia a crítica completa aqui).

Raw ( Julia Ducournau, 2017) passa longe de ter a qualidade que se comentava nas primeiras exibições, mas tirando a expectativa criada e as promessas de cenas extremas, o filme se destaca no estudo da personagem principal, criando elos visuais e significados brilhantes no que tange a alimentação com o momento vivido pela protagonista no auge da sua juventude. A intensidade da carne, do desejo, dilemas universais sendo transmitidos literalmente.

Os fãs de Álex de la Iglesia foram presenteados com o grande “O Bar” (2017), uma obra que acompanha um grupo de distintas pessoas que ficam presas em um bar e aos poucos vão confrontando uns aos outros, derrubando as máscaras por meio de uma situação que os reúnem e exploram o máximo da sua sanidade. O espaço reduzido e o tempo como agente de transformação é a chave para a revelação do caráter dos personagens; o desenvolvimento acontece, como é comum no trabalho do diretor, através do humor negro, de modo que o verniz social se dissolva aos poucos.

Frases como “o pobre que se dane, é sempre assim” traduzem perfeitamente a intenção por traz da linguagem dinâmica, há diversas críticas políticas e os bons costumes são ridicularizados, assim como diversas outras mentiras relacionadas aos relacionamentos humanos. Em “O Bar” pequenos objetos de cena ganham importância e o sistema camuflando a real situação por interesses é pouco se comparado aos homens devorando homens por puro egoísmo.

Pior filme de terror do ano:

A melhor coisa de “Devil in the Dark”(Tim Brown, 2017) é o seu pôster, altamente enganoso, diga-se de passagem. O filme acompanha dois irmãos tipicamente diferentes um do outro – um responsável, de família e o outro um jovem adulto irresponsável, mais estereotipado impossível – que planejam caçar na floresta para assim passarem um tempo juntos e resolverem os problemas entre eles. Oitenta minutos de duração, sendo que noventa por cento dele é um drama forçado entre os dois, com direito à flashbacks injustificáveis, mas que nos vinte minutos finais resolvem acrescentar um monstro nessa floresta, cuja presença nunca se justifica, muito menos amedronta. Um longa que não respeita o espectador, nem a sua própria história.

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CdA #76 – Ken Park, de Larry Clark

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Nesse episódio Emerson Teixeira conversa com Sergio Junior e Mauricio Saldanha sobre o filme Ken Park (2002), obra visceral dirigida pelo Larry Clark e roteirizada pelo Harmony Korine. Com isso, falamos sobre o jovem, sexo, busca pelo feminino e diversos dilemas existenciais.

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Everything Goes Wrong (1960) de Seijun Suzuki

Everything Goes Wrong (Subete ga kurutteru, Japão, 1960) Direção: Seijun Suzuki

A cena final de “Subete ga kurutteru” (1960) sintetiza a obra da forma mais sincera e impactante possível: um casal jovem foge em um carro, a menina pergunta desesperada qual será o caminho a seguir, enquanto o protagonista, Jiro (Tamio Kawaji) olha para frente, perdido, e chama pela mãe antes de bater o carro. A sequência filosoficamente silenciosa, áspera e minuciosa simboliza a experiência vertiginosa de se assistir e sentir a acidez do antológico diretor Seijun Suzuki – falecido no começo de 2017, aos noventa e três anos. Esse é um dos seus primeiros trabalhos, mesmo que não seja o ápice do domínio técnico, principalmente referente ao ritmo, ainda é especial por utilizar a ânsia e conflito psicológico dos jovens como forma de criação artística. Explico: os elementos de composição fílmica estão constantemente em sintonia com as atitudes dos jovens personagens, o jazz animado que envolve uma cena relativamente tensa, as transições musicais, os enquadramentos nas personagens femininas que dão a sensação de enclausuramento e os closes-ups sempre oportunos na captação de pequenas nuances expressivas, quase sempre voltadas para a condição de inércia diante os dilemas triviais da existência.

O realismo é a ferramenta central para a perseguição clínica da situação e evolução dos jovens em um Japão pós-Segunda Guerra Mundial, as ruas consomem vidas que demonstram em pequenas atitudes que cada passo é um sofrimento emocional e que o mesmo movimento parte de uma busca vã. Um círculo vicioso onde o sofrimento é uma entidade invisível que alimenta a perdição espacial, exigindo que as personagens transpareçam sua versão mais pacóvia. A linha que divide os meninos das meninas é tênue, ao passo que entre meninos e adultos existe um abismo de incomunicabilidade e incompreensão. O jovem não assimila a responsabilidade e o adulto não compreende o que é existir sem propósito.

“É triste não termos tido a chance de viver como os jovens de hoje”.

A personagem Etsuko (Shinako Nakagawa), uma menina grávida do colega de quarto e que está desesperada para arrumar dinheiro para o aborto, parece que é a única com uma catástrofe emocional explícita. Sua dor canaliza o sofrimento de todo um país, que pelo contexto histórico temia a situação das gerações futuras. Há ainda a inversão, pois Jiro Sugita além de ter perdido o pai na Segunda Guerra ainda convive com o fato de ter que aceitar a sua mãe em relacionamento com outros homens. Os papeis femininos começam a ser transgredidos a partir do momento que a mãe se transforma em mulher; a mesma mãe lida com o passado ausente e que, ainda por cima, remete justamente à situação que modificou seriamente a economia e sociedade japonesa.

“Subete ga Kurutteru” (1960) é uma obra sobre consequências. Jovens frutos de arrependimentos e dores sociais, que após crescerem precisam dialogar com o fato de que são adultos e sinônimos de esperança e evolução, ainda que não saibam por onde começar. Seijun Suzuki demonstra um talento primoroso na direção, pois trabalha alguns personagens profundos e desenvolve uma trama complexa, repleta de camadas, em apenas setenta e um minutos. O estilo realista, comum no movimento Nūberu bāgu, sustenta inteligentemente toda a ousadia narrativa, onde são abordados temas como desprendimento feminino, aborto e vandalismo.

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A Quinta Estação (2012) de Jessica Hope Woodworth e Peter Brosens

A Quinta Estação (La Cinquième Saison, Bélgica/França/Noruega, 2012) Direção: Jessica Hope Woodworth e Peter Brosens

O ser humano, desde o seu primórdio, se sente o centro da existência, a última estância no que diz respeito à evolução. Com o passar do tempo percebeu suas fraquezas e sobrevive desde então através da consciência e manipulação de ferramentas. O humano acostumou-se com o fácil, preservou-se da luta e acomodou-se com a rotina. Hoje o declínio psicológico comprova justamente a inércia do homem em relação às facilidades do mundo. Nós comemos como reis, poluímos os dias com o a ocupação do tempo, como se os minutos existissem para serem descartados e vivemos pouco o presente. O corpo e mente estão em lugares opostos, enquanto um molda o futuro, o outro move-se lentamente e tenta compreender o hoje. Se não bastasse, o ser humano justificando sua própria fraqueza, se apropria de outros seres vivos e classifica-os como escravos. Imaginamos um mundo de bondade mas permitimos que matem para comermos, comemos mais do que o suficiente e temos mais do que precisamos.

“A Quinta Estação” (2012) reúne diversas facetas de abusos e conformidades humanas e move apenas um detalhe para que possamos perceber o quanto somos mal-acostumados e oportunistas. Basta a natureza rebelar-se contra a humanidade, para a humanidade fingir ser a natureza.

As cenas partem de um trabalho de composição fantástico, onde os personagens e paisagem assumem uma importância enorme na criação surreal dos simbolismos. A direção de Jessica Hope Woodworth e Peter Brosens é inteligente na condução desses momentos aparentemente desconexos mas que representam fielmente a intenção por traz da estranheza. Desde a primeira cena, onde um homem encara um galo em cima da mesa, passando por uma em que temos uma personagem encostada em uma rocha e uma água começa a escorrer lentamente – lágrimas exteriorizadas em forma simbolicamente profunda – e no contraste entre o plongée quando mostrado o abatedouro e o contra-plongée para ressaltar a grandeza das árvores. O irônico é ver o desespero contemplativo de todos da pequena aldeia e, principalmente, a busca pelos porquês. A atitude é de devastação interna que percorre o todo, mas o sentimento sempre reduz qualquer atitude, como se fossemos merecedores da manipulação.

A dança conjunta e totalmente fora de sincronia, em um primeiro momento, bem como a filmagem estática e frontal, aliado com a constante fotografia pura e ao mesmo tempo gélida, os elementos fílmicos falam por si, por isso os diálogos em muitos momentos são desnecessários. A impressão é de que subliminarmente todos se perguntassem quem são os seres humanos? ou o que fizeram até tal momento. O filme é desenvolvido como se os dilemas éticos envolvessem os personagens e partisse, uma transformação ilusória, impulsionada por questões de segundos.

A quinta estação é o segmento psicológico, onde a adaptação acontece por interesse e não por solidariedade. “A Quinta Estação” (2012) não é primoroso como tenciona ser, mas é eficiente na reflexão do egoísmo humano e sua fragilidade diante aquilo que acredita possuir. Nessa trilha de interesses, basta a natureza estalar os dedos para nos amedrontar e exigir-nos uma readaptação.

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Quando o primordial do cinema são os espaços

Hong Sang-soo, um diretor moderno que trabalha os espaços de forma singular.

Quantos trabalham internamente e se dedicam em compreender o que há entre um espaço e outro? quantas vezes o silêncio e o vazio foram confundidos com a despreocupação ou incompetência? o momento exato que o homem atinge a sua completude artística é justamente quando compreende que os espaços são elementos fundamentais para a observação, seja qual for a matéria prima.

Com o imediatismo cada vez mais ascendente, principalmente com o apoio das mais diversas mídias, as palavras “parar” e “lento” ganharam fama de empecilhos mortais para a vida adulta. Tudo o que há de existir, precisa condizer com o ritmo acelerado da sociedade, caso contrário, se trata de um obstáculo para as coisas que realmente importam: status e visibilidade. Quantos sites de cinema existem e que possuem a urgência dos fatos, se veem como criadores, assim são chamados, mas a sua produção em alta escala se baseia apenas na repetição, não no argumento. O que vale mais, nesse exemplo, é a quantidade ou conteúdo? sem desmerecer os que enriquecem – espiritualmente e financeiramente – com essa proposta, mas essa interrogação é sensível ao ponto de demonstrar o interesse sincero no coração do escritor e não apenas na sua produção desenfreada. O tempo é uma ilusão criada para temermos o acordar, contudo, no campo artístico, seja na sua produção ou análise, temos a oportunidade de esquecer que essa palavra existe e, quando perdemos o interesse na classificação, estamos livres para pensar e agir como quisermos.

A inspiração desse devaneio parte do naturalismo e espaçamento visto no trabalho do Giotto di Bondone. Um artista que precedeu o Renascimento e que quebrou a convencionalidade artística ao dar espaço aos personagens de sua pintura, sendo assim, a partir do momento que se quebra o limite – ainda que isso só seja possível em doses homeopáticas – temos uma arte que explora o visceral, aproxima aqueles que observam com a sua própria realidade. É possível estender essa discussão para o cinema, onde temos filmes que trabalham com a ausência de diálogos como forma de simular o dia a dia, afinal, a existência não se sustenta apenas na comunicação verbal, mas sim infinitas expressões e movimentos, os quais são silenciosos e, por isso, facilmente confundidos com “lento”, “parado” e “irrelevante”.

Se retornarmos ao teatro como forma de ilustrar uma questão importante, percebemos que o roteiro é escrito em base ao exagero, nesse local sagrado tudo pode, todos sons são estridentes, a visão ampla é por si só a imersão que o público necessita para a provocação da visceralidade, a partir disso só temos a exibição. No cinema é o contrário, a gramática cinematográfica existe para transformar parte do todo em uma verdadeira composição metafórica, o quadro explora não só o significado real do ambiente como também utiliza parte dela para provocar uma ideia, a linguagem acontece não só pelo texto – com isso expressões, interação com o cenário, sons etc – como também a posição da câmera e o modo que ela é utilizada, ou seja, a percepção inicial do espectador fora modificada pelo artista, de modo que o quadro fale antes mesmo do diálogo. Por isso o cinema conta verdades através da mentira, pois o que sentimos como realidade representa tão somente o interno das personagens, não a totalidade.

Por conta disso, a sétima arte dialoga muito com os novos tempo, com o dinamismo citado anteriormente, ao passo que isso traduz com perfeição a postura do espectador enquanto sentado na sala de cinema ou no sofá da sua sala. A impaciência parece cria do “ritmo lento”, isso acontece porque fomos treinados desde pequenos com a linguagem norte-americana, a qual impõe que toda evolução da narrativa passa pela linguagem verbal e que a mise en scène funciona como uma agente em prol unicamente dos personagens e não o contrário.

Existem diversos filmes que desenvolvem suas personagens de forma indiferente, transformando-as em alienígenas em meio ao vislumbre do cenário e os diversos sentimentos provocados pelas decisões fotográficas ou auditivas. Com isso, a preocupação primordial do espectador passaria a ser no trajeto, nas consequências, nos intervalos e no silêncio. A câmera estagnada e um personagem caminhando de um lado do quadro para o outro, ou mesmo personagens falando em off como acontece em diversos filmes do Hong Sang-soo, essas são formas de traduzir o mundo tal como ele é: brando.

Em última estância, é primordial o estudo da nossa impaciência com os mais diversos ritmos cinematográficos que existem, é muito comum julgamentos sobre o fato de determinada obra “não dizer nada”, ledo engano, são nas ausências que se acontecem as mais maravilhosas observações sobre o homem, prova disso são nomes como o Terrence Malick, Nicolas Winding Refn ou mais extremo Lav Diaz. Que a nossa intolerância ao menos nos deixe em paz quando relacionamos com o campo artístico, pois o indivíduo que não compreende a magia do espaço, não consegue respeitar a si e muito menos a intenção daquilo que não compactua.

emersontlima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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