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No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

Casa Vazia (2004)

O silêncio está muito presente no cinema, principalmente na Europa, é bem comum encontrarmos um filme onde os protagonistas são cercados de uma alma silenciosa para, enfim, desenvolver através de gestos e alguns artifícios técnicos – como fotografia, por exemplo – o que se passa, realmente, com as personagens. No caso de “Casa Vazia”, filme de 2004, dirigido pelo excelente Kim Ki Duk, o silêncio é muito mais do que um artifício, passa a ser uma entidade, um personagem complexo, talvez, o maior personagem do filme.
É recorrente atribuirmos ao silêncio um poder grande na relação, seja ela qual for. É inerente ao ser, achar que o outro consegue entender sem apenas um diálogo, uma frase. Palavras soam infantis, quando se comparado com atitudes. Conversas. Enfim, o silêncio é uma virtude, para aqueles que o entendem e, consecutivamente, usam para o bem próprio, basicamente se entender. O barulho impede a reflexão sobre nós e, sejamos francos, entender nós mesmos é a nossa única missão nesse mundo.
O filme mostra um rapaz, jovem, que vive invadindo as casas de famílias enquanto os mesmos viajam, passam dias fora. Ele não rouba ou nada do tipo, simplesmente se hospeda lá e, em troca, oferece pequenos favores, consertando alguma coisa da casa que ele percebe que está quebrada – se tratando, evidentemente, de uma metáfora. Em uma dessas suas aventuras bizarras, ele se depara com uma mulher que, ao invés de acompanhar o marido na suposta viagem, fica em casa, ela também se encontra perdida como o pobre garoto, então analisa ele silenciosamente e, após alguns desentendimentos, parte com ele em rumo à outras casas.
Enfim, o personagem principal não tem uma fala sequer, bem, tentarei explicar o meu entendimento sobre o porquê isso acontece mais a frente. Acho relevante revelar que, misteriosamente, eu tive alguns processos de identificação muito estranhos no cinema e, imaginem só, muito parecidos, ao longo da minha vida cinéfila. “Following”, filme de 1998 dirigido pelo Nolan, ainda me causa um desconforto, para quem não lembra, tem um escritor que segue pessoas desconhecidas na rua, pretendendo adquirir inspiração para escrever o seu livro. Enfim, é algo totalmente insano, mas mais insano ainda é se identificar com isso, algo parecido aconteceu comigo quando assistia esse belíssimo filme Sul Coreano, o fato de ter um cara, sem rumo, dormindo em casas de desconhecidos me chamou a atenção. Eu não precisava de mais nada para ter certeza que tinha que assistir.
Para minha surpresa, o filme é mais que uma ideia sensacional. O silêncio, como disse acima, é uma metáfora, assim como a invasão das casas, o próprio personagem principal, os acontecimentos, enfim, nada me parece ter um sentido literal. É um verdadeiro quebra cabeça mesmo, onde a sensibilidade traduz com perfeição as estranhezas e nos aproxima da ideia que, de fato, assistimos um filme extremamente real.
O protagonista é um perdido, sem família e sem amor, pois o mesmo é uma sombra, um andarilho, ele não invade casas, ele invade lares, sentimentos. Em toda casa por onde passa, ele tira uma foto dele mesmo perto de algum quadro dos donos da casa, pessoas que, por sinal, apesar de aparentemente terem tudo, são vazios, até mais vazios que ele próprio. Como visto, a casa que tem uma maior profundidade é a qual uma personagem, uma bela mulher, acaba se interessando pelo modo de vida do rapaz, aliás, ela é casada e visivelmente não vai nada bem no casamento, me parecendo que aquela “aventura” que ela está prestes a fazer, a remete para uma vida passada, seja com o próprio marido ou não, enfim, o protagonista é sombra dela, assim como é sombra do marido. Ele é um camaleão, se adapta a realidades e declínios em prol a atitude de mudar.
A posse é extremamente frágil, assim como o rótulo. As casas que ele invade, apesar de muito belas e cheias de frescura – como uma TV com muitos canais e etc – não o iludem. Ele não está interessado no ter, ele só quer ter um teto para viver até o próximo dia. Talvez ele seja exatamente o que todos os seres humanos são: sobreviventes, porém sem a necessidade de usar máscaras. A mulher, pelo contrário, tem que viver com o fardo de possuir, seja uma casa ou um casamento, apesar da ânsia de se desprender dessas amarras, ela ainda é uma pessoa enjaulada. Mas pensa fora da caixa, isso a faz ser a única que consegue ver o jovem, depois que ele desenvolve técnicas para, literalmente, se esconder atrás da pessoa, imitando seus movimentos.
Enfim, assim como “Primavera, Verão, Outono, Inverno e… Primavera” do mesmo diretor, “Casa Vazia” é uma obra difícil, porém sensível ao extremo, vale pela experiencia e reflexão, desde uma vida acorrentada pelo medo de fugir, passando pelo poder do silêncio, principalmente nos momentos certos.
Obs: Texto originalmente publicado em 16 de janeiro de 2015

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Onde Fica a Casa do Meu Amigo? (1987)

O cinema iraniano, e acredito que já escrevi isso aqui outras vezes, é um dos – ou o maior – cinema que me encanta. Há diversas obras que usam como base a sensibilidade e realismo, incluindo alguns filmes nacionais, porém, o cinema iraniano ainda mescla mais um elemento importantíssimo e que, pessoalmente, eu amo: a criança. Bem, é lógico que nem todos os filmes tem uma criança como protagonista, é o caso do grande “Close-up” dirigido pelo Abbas Kiarostami, cuja trama se desenvolve, ainda assim, em cima de uma ação que beira a infantilidade, uma mentira, cuja importância lá é mostrada com tamanha importância que, aqui, comparo com a arte. Ou seja, Abbas une o realismo, sensibilidade para nos provar que a mentira pode e, muitas vezes é, de fato, uma forma de se fazer arte.
Outro cinema que traz a criança como centro de um universo aliado com um hiper senso de realismo é a Suécia, porém ainda vejo em alguns filmes isso como um elemento da narrativa. Um truque. Assim como o silêncio. Existem muitos filmes silenciosos, porém alguns chegam a dar sono, causando um tédio, eu sou um apreciador das poucas palavras no cinema – assim como longos diálogos – e confesso que, quando o silêncio me causa u cansaço, eu já analiso que é um artifício. Algo que nunca me aconteceu com o cinema Iraniano, nunca me cansei pela naturalidade, pelo contrário, a mesma me emociona, pelo simples fato de estar acontecendo, sendo o ápice do coração no cinema.
“Onde Fica a Casa do Meu Amigo”, de 1987, veio antes de “Close-Up”, citado acima, e já demonstra a capacidade, quase assustadora, de Abbas para trabalhar em cima do olhar da criança, para com o mundo que o cerca e, por diversas vezes, vemos o mesmo sendo transformado. Ora, não a toa geralmente temos, a partir do tema principal, o surgimento de várias pessoas que dividem com os outros personagens e nós espectadores, um pouco do que acreditam. Ou sua história. Como se estivéssemos sentados em uma praça, ouvindo história de pessoas que não conhecemos, enquanto nosso filho se diverte criando um mundo próprio, onde os seus objetivos não são entendidos pelos pais. Somos – nós, espectadores – moscas analisadoras de um roteiro humano. Um exemplo disso seria o senhor que, ao final do filme, ajuda o garoto protagonista a finalmente encontrar a casa do seu amigo.
Aliás, creio que eu me apressei, já nos 10 primeiros minutos de filme, o diretor faz questão de revelar a pressão que os meninos passam em sala de aula, para a realização de suas tarefas, além de terem um mestre altamente impaciente para com atrasos e demais eventos que soam mais como detalhes. Quase como um ritual, todos os dias a primeira coisa que ele faz – depois de dar bom dia para os alunos – é passar nas carteiras, uma por uma, afim de corrigir as tarefas, Ahmad se vê sensibilizado pelo seu amigo, pois ele não fez as atividades, então já temos um close no rosto dele, em uma emoção hiper sensível que me faz pensar “onde raios acharam esse garoto? Que atuação é essa”, lembrando que isso é nos primeiros dez minutos, e lembrando também que, muitos dos atores dos filmes iranianos, não são atores. Enfim, esse carinho para com o amigo continua no intervalo, quando ele cai, machuca o joelho, e vemos nosso protagonista – herói – cuidando com a maior atenção do mundo o ferimento.
Se existe pressão até na sala de aula, nos sentimos, junto com o personagem, o sufocamento que sua casa e as responsabilidades causam, o menino é cercado de tarefas onde não cabe mais tempo para ele pensar em seus próprios problemas, enfim, essa é uma realidade daquele país. Mas existe uma falta de comunicação muito grande entre ele e a sua mãe, pois a mesma também é muito preocupada. Enfim, é de se imaginar quando há uma pausa para o afeto. Não existe uma resposta para isso, além do próprio desenrolar da história, o menino supera os seus medos para ir atrás do amigo, conhecendo pessoas que o ajudam, mesmo com suas limitações, como o adorável velhinho que ele encontra ao longo. Enfim, em meio a dúvidas, até mesmo a descobertas, nosso pequeno herói vai descobrindo o cuidado, causando então a comoção, simplesmente pelo registro visceral dessa passagem de auto-descoberta. Feita sem truques.
– “Porque se for um preguiçoso não será útil para a sociedade… Na sociedade as crianças devem manter incorporado o sentido de disciplina. Devem obedecer os seus pais e respeitar todas as tradições.”
Obs: Texto originalmente publicado em 17 de janeiro de 2015

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CdA #74 – A Casa dos Maus Espíritos e Viy

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Nesse episódio Emerson Teixeira convidou Sergio Junior para uma conversa sobre duas obras do terror clássico: A Casa dos Maus Espíritos (1959) dirigido pelo William Castle e estrelado pelo Vincent Price e o filme russo Viy (1967) onde um seminarista enfrenta uma bruxa demoníaca sozinho.

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Tangerines (2013)

Eu sou fã de filmes de guerra, mas raramente gosto de algum. Pois vejo uma certa glamourização, mesmo que muitas vezes oculta, dessa figura heróica atribuída aos soldados. Eu sou cético perante várias coisa, dentre elas a religião e política. Acredito que o homem está destinado a se corromper, enquanto existente a sua incansável busca por poder/espaço. A guerra é quase uma entidade importantíssima ao longo da história, porém, é um apressar sujo. Eu não vejo graça e heroísmo em ser fantoche de interesses grandes e pessoais. Penso na guerra como um jogo de xadrez, porém, para refletir sobre a questão, eu retiro as outras peças como o rei, rainha ou bispo, e focalizo no peão. Ele se sacrifica, grita que faz isso pelo seu país, mas e dai? O seu país é construído por homens, homens arrogantes e corrompidos, cegos. Não acho justo desperdiçar sua vida e família com algo assim. Enfim, se eu fosse para guerra não mataria ninguém, pois não sou assassino e ninguém me obrigaria a ser, mas se eu morresse, acharia uma merda essa porcaria de nem conseguir resolver a minha vida e ter que me doar pro país, fala sério.
Enfim, há filmes que abordam a guerra como eu realmente a vejo, como: “Glória Feita de Sangue”, “Vá e Veja” e “Johnny Vai a Guerra”. Esses são alguns exemplos que me agradam, mas certamente existem outros, inclusive os quais a guerra está ainda mais invisível como o documentário “Guerra Invisível” ou o próprio “Ida”, filme Polonês que disputa o Oscar 2015 e filme estrangeiro com “Tangerines”, o filme que comentarei a seguir.
Bem, logo nas cenas iniciais temos a apresentação do senhor Ivo e seu amigo, senhores que continuam na mesma comunidade, se recusando a se despedir como seus familiares e amigos, um por conta das tangerinas e o outro não fica muito explícito o porquê, mesmo que diversas vezes é mostrado o enorme vínculo que ele possui com a neta, que também fugiu.
Dois soldados o abordam enquanto ele trabalhava, pedindo um pouco de comida, Ivo os acompanha até sua casa – a dupla mantém uma postura arrogante, intimidando o espectador, mas o protagonista se mostra bem tranquilo diante a possível tensão – eles conversam um pouco, avisam sobre os perigos que cerca o velhinho e vão embora, agradecidos com a comida. Dias depois há um tiroteio em frente a sua casa e dois soldados sobrevivem, Ivo os leva, então, para sua casa, dar-lhes o devido tratamento, não como soldados, mas como humanos, independente de suas convicções ou uniforme. Ao ficarem conscientes, descobrimos que ambos estavam em lados opostos do tiroteio, cada um protegendo seus próprios ideais, ou seja, um matou os amigos do outro. Em respeito ao senhor que os salvará, ambos prometem não fazer nada enquanto não se recuperarem e, assim, quando saírem, estarão preparados para matar um ao outro.
Essa ideia é fantástica, lados opostos da guerra estão separados por quartos, cada um com a sua inocência em acreditar que, matar um ao outro, é interesse deles próprios quando, no fundo, são apenas seres humanos em busca de conforto. Eles são obrigados a lidar com a diferença, uma cena que ilustra bem isso é quando Ahamed – um dos soldados que aparece logo no início do filme – olha o crucifixo do “inimigo” Margus e este, por sua vez, fica sem graça e esconde quando ouve “nós respeitamos o cristianismo”. O filme se constrói em base a indiferença a crueldade, a morte, e ressalta a importância do carinho, do amor, na vida de pessoas, aparentemente, desconhecidas, mas que ainda assim possuem vínculos por serem frutos de uma mesma ganância.
Margus, por exemplo, era ator, Ahamed tem família, enfim, de onde vem tanto ódio? Só pode ter sido imposto por reis e bispos. Na floresta eles são apenas peões uniformizados , de perto são homens de família com muitos sentimentos. O filme ainda deixa algum espaço para alguns diálogos pertinentes, principalmente envolvendo Ivo, interpretado brilhantemente por Lembit Ulfsak e Ahamed por Giorgi Nakashidze como:
– Eu vou matá-lo!
– Quem deu esse direito a você? 
Enfim, um excelente filme, eu diria que, de todos os filmes que vi e que foram indicados ao Oscar de 2015, “Tangerines” é o melhor. Não apenas na sua categoria, de tudo mesmo. Com o uso fantástico da música, ele nos entrega performances maravilhosas, roteiro elegante, desenvolvendo personagens complexos em uma hora e vinte minutos, coisa que os ditos “melhores filmes do ano” não conseguiram, na minha opinião. Aliás, há espaços para algumas críticas sobre o próprio cinema, como as poucas produções do cinema da Estônia e, principalmente, um diálogo entre Ivo e seu amigo:
– Pensei que ia explodir como no cinema.
– O cinema é uma fraude!
Obs: Texto originalmente publicado em 21 de janeiro de 2015

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Respire (2014)

Quem não se lembra daquele grito “Au Revoir Shoshanna!” em “Bastardos Inglórios”, filme do Tarantino de 2009? Ainda mais, como esquecer aquela talentosa e lindíssima atriz que faz a tal Shoshanna? Ela se chama Mélanie Laurent e, além de ser uma excelente atriz, vem se mostrando uma brilhante diretora, vejam só, que maravilha.

Seu mais recente filme “Respire” de 2014 conta a história da Charlie, que vive uma pacata vida escolar, poucos amigos, tímida, ainda tem problemas familiares, enfim, sua vida começa a mudar com a chegada de uma nova aluna, Sarah, com uma personalidade totalmente oposta, faz o tipo popular, amada por todas, meio vida louca. Charlie começa, cada vez mais, colocar Sarah em sua vida, se esquecendo de quem realmente é. Sarah tem problemas com a mãe e se sente, de certa forma, acolhida, Charlie vê na nova amizade a oportunidade de uma nova versão de si mesmo, porém a diferença que constrói essa relação é a mesma que as leva a destruição.
O jovem respira diferente, já perceberam? Ele sente-se apressado, um tanto empolgado, diante a qualquer situação de novidade. Ele se entrega muito mais, portanto se arrepende muito mais, o mundo parece pequeno e se resume a seus problemas escolares, e de fato é. O tempo passa e vem a calma, um dia após o outro, essa tranquilidade é, talvez, a melhor qualidade do sábio. Há exceções, claro, mas em suma o jovem respira diferente. Escrevo isso, pois, assim como o título, temos diversas metáforas sobre a respiração nesse filme. Um exemplo seria a personagem principal, que tem asma.
No início do filme, eu não li sinopse nem nada, imaginei algo parecido com “Azul é a cor mais quente”, há, inclusive, algumas cenas que indicam isso, pois na amizade delas existe muitos contatos físicos, inclusive um beijo quando estão bêbadas. Mas o filme fala sobre coisas diferentes, dentre elas, escolhas. Vivemos cercados de possibilidades, rodeado de pessoas diferentes, elas são, em sua maioria, pontes para conseguirmos ser o que mais queremos, mas até que ponto é máscara? Até que ponto é possível segurar uma relação sustentada por interesses? Essa ideia de opostos, apresentado no filme, é deveras interessante, Sarah conta sobre suas diversas relações sexuais, Charlie diz ser virgem, ela completa dizendo que tentou com um namorado, mas depois doeu e ela desistiu.
Depois de uma intensa amizade passageira, movida por interesses de ambas, a verdade é que a diferença separa as duas, seja na escola ou na vida. As provocações começam. Como é um filme Francês, muitas interpretações ficam a cargo dos olhos mais atentos, acompanharemos o isolamento da protagonista, as brincadeiras de mal gosto que acontecem, enfim, consequências de uma inocente amizade. A densidade toma conta, até chegar na cena final. Um desfecho de arrepiar. Onde a atuação da Joséphine Japy vai ao topo, aliás, anotem esse nome urgentemente, essa é uma atriz de apenas 20 anos, o que ela faz nessa cena é inacreditável!
Obs: Texto originalmente publicado em 5 de fevereiro de 2015

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O Menino e o Mundo (2014)

Com traços despretensiosos, algo próximo aos desenhos infantis, somos apresentados a um garotinho ou, como pode ser interpretado, nós mesmos. Afinal, todos somos crianças, mesmo que seja apenas nas lembranças. Crescendo na zona rural, em um lugar afastado, sua imaginação se transforma em um parque de diversões, onírico e sensível somos transportados para uma dimensão maravilhosa, onde a brincadeira, mesmo que solitária, ilumina nossos corações, trazendo lembranças de nossa própria infância, pois ainda tivemos oportunidade de ter uma, coisa que não acontece com essa nova geração.
O menino no mundo, mundo do menino, mundo grande e menino pequeno, menino grande para um mundo minúsculo. Enfim, o mundo não tem graça sem o nosso olhar para moldá-lo. Nesse ponto, percorremos uma grande aventura por entre um mundo particular de sorrisos, lágrimas e críticas sociais, no que podemos classificar como a melhor animação do Brasil. Assim como uma animação para adultos, mesmo que os tais traços infantis estejam presentes, ainda acredito que o entendimento por completo se dá através de uma experiência maior, eu assisti com minha irmã de 9 anos e, a todo momento, eu dava uma explicada só para contextualizar e, assim, deixar ela interpretar sozinha.
Com três fiozinhos de cabelo na cabeça, muita curiosidade no olhar, o menininho é corajoso em desbravar o mundo, isso é brilhante. Por outro lado, temos que entender que a falta do pai mexe muito com ele, um desmoronamento familiar, cujos pedacinhos ele tenta juntar a todo instante como, por exemplo, guardando as notas da flauta do pai em um potinho e unindo com a canção da mãe. Extremamente lindo e sutil.
Com algumas colagens, que por sinal achei fascinante, o trabalho artístico é impecável, se não bastasse a ideia cheia de significados, temos, visualmente, uma obra fantástica, repleta de enigmas, quando o menino parte para a cidade, há críticas sutis ao consumismo e propaganda, assim como a vida interiorana deixa de existir, tudo passa a ser mecânico, sem verdade, até a estética do filme muda, antes abusava bastante do giz e das falhas propositais da pintura, remetendo-nos a inocência, passamos a ver paisagens bem mais realistas e uniformes.
Enfim, uma grande animação, filme, feito em nosso país, merece ser visto, merece ser interpretado, certamente servirá como catarse, como uma ponte entre você e o menino, menino e o mundo, trazendo-nos aquela vontade de criar com pouco, usar a imaginação para viajar, querer mergulhar nas nuvens e conseguir, no algodão, claro. Mas será mesmo?
Obs: Texto originalmente publicado em 7 de fevereiro de 2015

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Siren X (2008)

 Adorável lado B do cinema, aqueles filmes que, sem dúvida nenhuma, Tarantino assistia lá na locadora. Esses filmes são os meus pipocas, a minha diversão é garantida com um bom sexploitation, trash, gore etc. Sinto-me feliz e emocionado, uma emoção tão grande que tremo e sinto vontade de tirar as calças. Extasiado com o grotesco, horror cretino e sujo, viva o cinema podre!
Trouxe um filme interessante hoje, parte de um subgênero japonês chamado “Pinku Eiga” ou traduzido “filme cor de rosa”, que é uma adoração a mulher. A mulher como personagem principal. Mas não é comédia romântica ou nada do tipo, estamos falando aqui de sexo. O sexo como o real propósito de uma histórinha bobinha. Existiam, então, assim como o sexploitation, as musas do Pinku como a lindíssima e talentosa Reiko Ike que tem em seu currículo obra como “Sex and Fury”, cujo destaque se encontra em uma cena onde ela está tomando banho em uma banheira, sua casa é invadida por capangas malvados e, sem roupa, ela sai para lutar pelo seu destino. Isso tudo na neve e, minha nossa, que coisa linda. Mais tarde Tarantino copiaria visualmente isso na luta final de Kill Bill vol. 1. Enfim, “Sex and Fury” tem a eterna ninfeta Lindberg ( já falei sobre ela lembra? Clique aqui ) e você, caro(a) amigo(a), precisa urgentemente ver essa pérola do cinema!
 Continuando, assim como tudo na vida, esses filmes influenciaram muito a indústria, mesmo com suas bizarrices, primeiro porque muitos puderam se masturbar diante aos espetáculos em forma de atrizes despidas – quer mais importância que isso? – segundo porque… mulheres!
Esse subgênero, nos anos 60, permanecia marginalizado e, com os respectivos sucessos, como filmes como “Daydream” de 1964, nos anos 70 as grandes indústrias passaram a aderir o formato para si, resultando em outros excelentes e divertidos filmes.
O que vou citar aqui é diferente, por dois motivos, ele é recente, 2008, e é um filme de terror. Geralmente esses filmes não se preocupavam tanto com a história que ligava o sexo, nesse temos, sim, uma boa história. Há exageros, filmagens grotescas, personagens estúpidos e atuações fracas, mas no todo consegue ser muito interessante e, ainda por cima, prende a atenção.

Yôjo densetsu Seirên X: Mashô no yûwaku ou, simplesmente, Siren X nos mostra um grupo de jovens realizadores que vão para uma pequena ilha afim de fazer uma paródia desses programinhas de terror, com entrevistas e caça ao monstro/mistérios, só que, claro, com o intuito de cair no sexo depois. Então temos a atriz que faz o papel da repórter, por exemplo, que está com uma mini-saia e sempre teremos, enquanto ela desbrava o local “mal assombrado”, filmagens da sua calcinha, enfim, o filme usa esse tipo de erotismo. Cai uma chuva e eles vão se abrigar aonde? Na primeira casa com aparência diabólica que eles encontram, claro.
Do nada a porta abre, são recebidos por uma mulher lindíssima e estranha. Depois de bons tratos e o oferecimento de uma estadia, eles descobrem que ela é uma devoradora de homens. Curioso é como ela faz isso, ela transa com os caras, tipo o maior sexo da vida deles, até eles gozarem – e, na minha opinião, aquele gozo não é normal, visto que em uns saem pela boca, outros cortam a garganta etc – e depois ela bebe todo o esperma, quase como sugando a alma deles por meio desse ato vampiresco até, eu diria. Temos aquela velha história, os amigos percebem a verdade, começa a fugir e, pensando estarem a salvos na cidade, a tal moça começa a aparecer em sonhos, fazendo com que eles fiquem obcecado pelo monstro no corpo de uma linda asiática e, confesso, bota linda nisso. Belos seios. O que estava falando mesmo?! Só me vem a cabeça seios agora…. espera….
As alucinações que acontecem são as melhores coisas do filme, ainda tem umas brincadeiras do que é verdade e o que não é, um dos amigos está fazendo sexo com sua namorada, imagina a tal moça e, quando percebe que não é ela, ele mata a namorada, enfim, depois os dois amigos retornam para a mansão afim de fazer o sexo de suas vidas e, consecutivamente, morrer, sufocados pelo seu próprio gozo. Realmente, um filme divertidíssimo, interessante, muito bem realizado para o que se propõe, mistura muito bem o terror e cenas de sexo, enfim, gostei bastante mesmo.
Obs: Texto originalmente publicado em 15 de fevereiro de 2015

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Confiança (1990)

Poderia escrever páginas e mais páginas sobre o querido diretor Hal Hartley, mas me contento, por agora, em resumir tudo com um “procure o trabalho dele!”. A sua história está vinculada com o cinema independente, mais precisamente, com o cinema independente norte americano dos anos 90. Eu escrevo muito aqui no Cronologia do Acaso sobre o cinema de outros países, mas jamais escondi o meu apreço pelo cinema americano, principalmente da safra que trouxe a revolução. Se analisarmos a década de 90, encontraremos grandes nomes que surgiram, a partir desse impulso pelo autoral, na lata me vêm nomes como: Paul Thomas Anderson, Wes Anderson, Todd Solodz, Tarantino e Hal Hartley. Todos resgatam elementos perdidos, por entre um fazer cinema acostumado. Roteiros impecáveis, estética transgressora, sociedade sendo vista de perto, próxima ao máximo da realidade.

Bem, comento aqui o filme “Confiança”, de 1990. E que tarefa complicada! Me sinto as vezes muito pequeno perto de uma obra deveras provocativa. Provocação que parte da identificação, misturado com uma careta do tipo que pensa “o que tá acontecendo nesse filme?”. Tamanha estranheza, tamanha naturalidade, tamanha é a nossa sensação de estar diante de algo que acontece, mesmo quando o diretor tente ocultar a mensagem em diálogos, por oras, desconexos. Confiança é a captura de um fragmento chamado confiar. Essa palavrinha, essa ação, essa misteriosidade chamada depositar suas esperanças em alguém, quão complicado é, quão verdadeiro pode ser.

Acompanhamos a história da Maria, interpretada pela belíssima e talentosa Adrienne Shelly, que é uma jovem rebelde, do tipo meio burrinha, que provoca um ataque fulminante no seu pai após contar que está grávida. Sua mãe a manda embora de casa, e é ai que ela encontra um cara estranho chamado Matthew, interpretado pelo grande Martin Donovan, se percebe que ele é um rapaz um tanto descontrolado, anda com uma granada no bolso, por exemplo, muito inteligente e observador, tem problemas com o pai, um ser humano sem carinho algum, que tenta fazer de todo custo o filho engrenar na vida. Como dá para perceber, os dois tem ausências muito grande de carinho, no mesmo tempo que precisam sentir a vida e, juntos, embarcam em diálogos que, bem ou mal, os levará a outro entendimento sobre quem eles são, o que desejam. Mas isso é teoria, no fim eles não tentam encontrar respostas para nada, nem para o sentimento que surge, eles se ajudam. Por quê? Porque alguém precisava os ajudar e, por acaso, eles se encontraram.

Tem tantos detalhes, já digo logo que é impossível interpretar todos nesse singelo texto, começo, então, observando que Matthew tem, literalmente, bomba nos bolsos. Problemas. E é isso que veremos em todo o filme, problemas/bombas, em dado momento Maria, já está nas ruas, encontra uma senhora sentada com o olhar vazio, começa a contar sobre a sua vida e, no mesmo momento, a senhora começa a falar da sua. Fica nessa confusão de histórias, ao mesmo tempo, como se nenhuma das duas quisesse, realmente, prestar atenção em outra coisa senão seu próprio sofrimento. Personagens bombas, encontram-se em momentos de turbulência para, enfim, enfrentar juntos. Mas de maneira alguma acabar, pois o estar junto não significa mais força, apenas companhia. Posso estar sendo meio pessimista, mas o filme me mostrou que não precisamos de sentimentos profundos para planejar algo com alguém, basta ter respeito e admiração com uma pitada de desespero, o diretor é tão visceral nas suas palavras, que em poucas ele representa os casamentos que temos hoje. As pessoas estão se casando por nenhum motivo profundo, apenas união, estão usando a família para acreditar que estão em rumo ao final feliz, enquanto esperam ansiosos pelo começo do fim, mesmo que ainda não saibam. Espera ai, o que é mais loucura, dois jovens largarem suas famílias para viverem um momento bom, ou mulheres casadas por 20 anos, sofrendo por não amar e por estar perdendo suas vidas? Você pode assistir ao filme, não entender nada, classificar os protagonistas como insanos. Mas eu vejo que a única insana era a mãe. Ou melhor, o que o filme critica. A falta da atitude. Imaginem tudo isso, que nem consigo explicar direito, envolto de um sarcasmo, umas piadas maravilhosas que, em nenhum momento, se tornam comédia, por tamanha obscuridade.
Hal Hartley explora o ser humano, nossas escolhas, a própria Maria registra em um bloco de notas: “eu tenho vergonha de ser jovem“. Pois ela é, no começo do filme, muito inocente, vai aos poucos se tornando um pouco Matthew, tanto que assume o mandato e coloca a granada dentro de uma gaveta. Guardando os problemas, tanto do Matthew quanto dela mesma, do tipo que diz “esqueça isso tudo, pensaremos em ir caminhando ao próximo dia e só isso basta”.
“Família é como uma arma. Se apontar na direção errada pode matar alguém”
Esse filme tem uma das cenas mais lindas da história do cinema, um dos diálogos mais lindos que eu já vi, que se constrói em uma busca por definições, mas ao contrário. Primeiro há uma definição, para depois ignorar o significado. O quão fácil é dizer “eu te amo”, o quanto é complicado explicar o porquê. Maria vai fazer o aborto, em uma cena muito cômica percebemos que Matthew está bem mais nervoso que ela. Há um desentendimento, não dá certo. Os dois saem e encostam em um muro. Minutos antes ele a pediu em casamento. Ela então, ainda encostada na parede, pergunta se era verdade aquela pergunta:
– falava sério sobre casar comigo?
– Sim.
– Por quê?
– Por que eu quero.
– Não porque me ama ou algo parecido né?
– Eu te admiro e respeito.
– Isso não é amor?
– Não.
– É respeito e admiração. Acho que é melhor do que amor.
– Como?
– Quando as pessoas amam, elas fazem loucuras… ter ciúme, mentir, trair, matam a si mesmos e matam uns aos outros.
– Você vai ser pai de uma criança que não é sua.
– Crianças são crianças.
 
Depois desse diálogo, temos um sobre confiança. Que coisa linda. É válido ressaltar, que essas palavras saem da boca de um rapaz com problemas com o pai, mais para frente, quando o seu pai vai procurá-lo para voltar pra casa, ele pede que o pai admita que sente sua falta, isso acontece nessa cena citada acima. A menina pede que ele admita que respeito e admiração é amor, mas o mesmo se recusa, durante todo o filme ele propaga não amar ninguém, como assim um cara durão pode amar uma desconhecida? Não sei, mas ele a admira e respeita. Outra coisa, um filho maltratado, sem carinho do pai, sem a mãe, morta quando ele nasceu, afirma que “crianças são crianças” uma frase que pode soar fria, mas é a interpretação de um sentimento de bondade e afeto tamanho, ao ponto de estar pronto para assumir um filho que não é seu, mesmo que não tenha cem por cento de certeza que é realmente capaz.
Fica claro que a menina muda drasticamente durante o filme. Assim como a importância do fator trabalho. Matthew não consegue ficar em nenhum, pois o comum é pouco para ele. Receber ordens, repetição, nada faz muito sentido, ele é um perdido. Uma pessoa com muito para dar ao mundo, que ainda não percebeu e tenta desesperadamente se encontrar. Ou pode ser simplesmente um vagabundo desajeitado, irá depender do seu ponto de vista.
– Eu gosto do jeito que ele é
– Como ele é?
– Perigoso. Mas sincero.
– Sincero e perigoso?
– Não. Perigoso porque é sincero
 
Nessa história de absurdos reais, só a verdade. Talvez uma das relações mais verdadeiras da história do cinema. Não se sabe um motivo, nem existe um objetivo. Só uma atração inexplicável. Em nenhum momento ele tenta conquistar a garota com mentiras, pelo contrário, ele é ele. Esquisito, meio existencialista, um tanto perigoso, mas tudo isso só porque ele é sincero. Poderia se apresentar como um cara perfeito e ela ir, aos poucos, descobrindo a verdade. Mas não, de tudo o melhor: Tudo parte da sinceridade dele. Então, sendo assim, ele pode ser o que for mas é confiável. E ela, simplesmente, confia.
Obs: Texto originalmente publicado em 19 de fevereiro de 2015

emersontlima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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Tempo de Embebedar Cavalos (2000)

Já falei quantas vezes que o cinema que mais gosto do mundo é o Iraniano? Enfim, afirmo novamente e você, meu caro, que ainda não assistiu nada desse país, tome vergonha na cara e corre, mas corre, aproveita que está fácil, tem muita coisa no Youtube, inclusive esse que comento hoje, certamente será uma das maiores experiências cinematográficas que você terá na vida.
“Tempo de Embebedar Cavalos”, lançado em 2000, segue a linha de vários iranianos, onde a criança será reflexo das situações horrorosas onde todos, sem exceção, são usados. As crianças são os veículos ideais pois, como é possível imaginar, representa a inocência, o novo, diante a situações de mudanças. Dessa vez, nossos corações segue a história de cinco irmãos órfãos, destaque para Ayoub e  Ameneh que, além de trabalhar para pagar a dívida de uma mula, ainda precisam se preocupar em juntar dinheiro para a operação do irmão mais novo, Madi, que sofre uma grave doença.
Madi é deficiente, evidentemente se torna um problema para uma família sem condições, mesmo assim, o amor que recebe, cuidado e carinho, é de chorar os 80 minutos de filme. Lembrando que o cinema Iraniano tem crianças que não são atores, na sua maioria, então a verdade das expressões provocam questionamentos, não entendo como é possível. Mais da metade dos mirins de Hollywood não chega aos pés do que essas crianças fazem. A irmã Ameneh demonstra tanto carinho, todo momento beija o irmãozinho, protege o irmão mais velho, que assumiu o posto de líder depois da morte do pai, em dado momento ela olha para o alto e pede que Deus ajude o irmão com problemas de saúde. A criança olha para o céu também, junto com ela, um silêncio, uma dor aterrorizante. Tão cruel, um ensaio sobre o real. A dor é tão real, inclusive, que as cenas em que o pequeno toma injeção e chora, quando está congelando no frio ou sendo arrastado por mulas, enquanto fica preso em uma “sacola”, são uma mescla de realidade e, também, tortura. O quão ético é registrar o sofrimento com o sofrimento? Enfim, é um bom exercício esses filmes, pois eles tem como proposta primordial a exibição do que acontece. Ninguém pode julgar acontecimentos. É preciso estar despido para, só então, conseguir embarcar na nova cultura.
Por sinal, esse filme se passa em um lugar diferente do Irã, localizando-se na divisa com o Iraque, o que terá uma importância na trama, visto que Ayoub faz parte dos contrabandistas, que se submetem a vários perigos de vida. A paisagem está congelada, o branco da neve, o frio, apoia a ideia de sofrimento. O trabalho pesado, o pesado sendo carregado nas costas infantis, são reflexões que terminam nas cenas finais, onde as mulas são pisoteadas, é tão doloroso vê-las carregando aqueles pneus enormes, caindo na neve, apanhando, que entramos em estado de choque, aquelas mulas são as crianças e vice-versa. O desespero é um só. Não existe idade para esse tipo de coisa.
Primeiro filme do diretor Bahman Ghobadi, que vem fazendo grande sucesso em festivais de cinema. Além de ser ótimo, parece ser um ótimo e sensível ser humano. É preciso muita passionalidade para realizar obras incríveis como ele.
Obs: Texto originalmente publicado em 13 de março de 2015

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Bé Omid É Didar (2011)

O cinema Iraniano vem amadurecendo a cada ano, inclusive essa realidade acabou aumentando ainda mais com o Oscar para “A Separação”, porém, o país ainda enfrenta grandes dificuldades e, me parece, que os filmes sempre terão como pauta principal buscar uma forma de utilizar personagens como metáforas para as diversas situações que ocorrem e que eu – assim como muitos – não entendo completamente pois não vivo no Irã.
No mesmo tempo que a arte produzida nesse país um tanto quando “exótico” cresce a cada dia, o poder permanece autoritário e tenta podar seus melhores artistas como, por exemplo, Jafah Panahi, que foi preso por desagradar as autoridades apoiando um candidato oposicionista em 2009. Esse fato desencadeou, inclusive, o belíssimo documentário “Isso Não é um Filme”, onde o próprio Panahi se filma preso em seu apartamento e reflete sobre a criação artística, enfim, foi um processo bem turbulento sendo, inclusive, alvo de atenções de grandes nomes do cinema como Steven Spielberg e Juliette Binoche. Bem, ao lado de Jafah Panahi, um outro diretor menos conhecido, porém, de suma importância, chamado Mohammad Rasoulof, também foi preso, mas ao contrário do primeiro, que inicialmente foi proibido de filmar por 20 anos, Rasoulof conseguiu permissão para continuar com o seu projeto “Bé Omid É Didar”, que viria a ser lançado em 2011, um ano depois desse episódio catastrófico para o cinema.
Com o contexto citado, posso dizer que “Bé Omid É Didar” ou “Adeus” sustenta sua crítica na figura de um jornalista, cujos textos afetam diretamente o poder e, por esse motivo, se vê preso em uma onda de investigações e opressão. Quem sofre tudo isso é sua mulher, que está grávida, ela anseia poder sair do país mas, enquanto isso, acompanhamos a trajetória de uma mãe desesperada e perdida pois irá trazer a esse mundo sujo uma criança, que não tem culpa de absolutamente nada, ainda mais, essa personagem principal permanece sozinha, o marido se esconde, a mãe que chega para ajudá-la parece que a sufoca, enfim, está solta, presa dentro de uma série de questionamentos.
Essa mulher, interpretada brilhantemente pela linda Leyla Zareh, parece desprendida daquela imagem submissa, afinal, é jovem e advogada, porém tem sua licença cassada, ou seja, a fuga se mostra inteiramente presente em cada quadro, em duas cenas a moça está no terraço do seu apartamento e, subitamente ao fundo passa um avião, como se viesse ao encontro dela. Outra metáfora em meio a um silêncio perturbador seria quando ela, delicadamente, coloca uma tartaruguinha em uma vasilha, joga umas sementes, mas o filhote de tartaruga quer sair daquele lugar, ela sai do quadro e a câmera permanece estática no bichinho, quando a moça retorna, ela cerca a vasilha com jornais, ou seja, palavra, ou seja, censura. O filme tem uma linguagem extremamente complicado, é facilmente confundido com monótono, mas há um senso crítico poderoso, em meio a tanta solidão, representado, também, pela fotografia magnífica, uma dose certa de distância, um azulado remetendo a melancolia, enfim, um vislumbre visual.
O fato dela estar grávida deixa tudo ainda mais interessante, principalmente quando percebemos que esse fato se torna uma maldição ao longo, um fardo, em qualquer outro lugar seria altamente normal, mas não ali, não pressionada, não naquela situação, ter um filho passa a ser uma previsão catastrófica, repetir o erro de estar vivo em um lugar que não se merece a vida, a personagem está no seu limite de tolerância, começa, então, a ser indiferente, seja aos homens que vão investigar sua casa a procura do marido ou a própria mãe, tudo não passa de algo natural, menos o fato de que é mãe, isso nunca motiva um sorriso dela, muito menos um choro, está, simplesmente, acontecendo, e está buscando a melhor forma de lidar com isso, sozinha, fugir não é uma opção pois tenta incansavelmente ir para outro lugar, a fuga não seria um aborto, ou a criança vir ao mundo normal, tudo está anormal, o fato da sua filha ter síndrome de down, descobrimos isso ao longo, é só uma extensão daquela situação, a nossa protagonista só precisa de um lugar para viver em paz.
– O que anda fazendo?
– Não posso mais aguentar. Esse país não é lugar para se ficar.
– Mas a que preço?
– O preço da liberdade. Preço da vida.
– Vou dar a luz a ela e renascerei
– O bebê é inocente… é um pecado mantê-la em tempos como esse
Obs: Texto originalmente publicado em 28 de março de 2015

emersontlima

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