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No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

Annabelle: Creation (David F. Sandberg, 2017)

Annabelle 2: A Criação do Mal (Annabelle: Creation, EUA, 2017) Direção: David F. Sandberg

O cinema de terror atual se divide claramente em duas esferas completamente diferentes, contudo, as duas vertentes narrativas têm como prioridade a qualidade no que diz respeito à ambientação e o processo de sugestividade. Obras como “No Cair da Noite” (2017), A Bruxa (2016), Sob a Sombra (2016) utilizam a contemplação e os silêncios como forma de incentivar a atenção absoluta do espectador, de modo que o sentimento aja em virtude da curiosidade, reflexão, desconforto ou mesmo o medo; por outro lado, os mais populares, motivados pelo sucesso de novos inteligentes diretores como James Wan, Mike Flanagan, David F. Sandberg etc, compreenderam através da manifestação do público, que o gênero terror moderno precisa caminhar em outra direção afim de não se acomodar no óbvio. É possível perceber, portanto, uma evolução em filmes como “Invocação do Mal 2” (2016), “Quando as Luzes se Apagam” (2016) ou “Ouija 2” (2016), mesmo que alguns citados tenham qualidades finais duvidosas, há de se observar alguns detalhes oportunos em cada um deles, a direção de Wan e habilidade em referências dentro do gênero, a utilização da ausência de luz – medo primitivo – como forma de fragilização psicológica e a competência de Flanagan em trabalhar com o som em seus filmes.

Quando o primeiro “Annabelle” foi lançado, em 2014, a ideia era aproveitar o sucesso do “Invocação do Mal”. E o maior problema do filme é justamente nunca ser pensado por si, mas como extensão de algo maior. O desenvolvimento rápido tirava qualquer possibilidade de mergulho nas sombras que uma boneca amaldiçoada evoca, no fim, um grande potencial fora perdido em prol a um filme exibicionista. Mas na continuação eles acertam, a começar pela escolha de David F. Sandberg para dirigir, um artista que errou em seu primeiro longa-metragem mas que possui diversos curtas-metragens medonhos e, por incrível que pareça, nenhum passa de dois minutos – alás, dois deles são referenciados em momentos oportunos em “Annabelle: Creation”.

O filme começa da maneira mais comum possível, mostrando o passado de uma família onde um acidente fatal com uma menina desencadeia uma série de problemas paranormais em uma mansão de aspecto tenebroso. Fato que se agrava ainda mais a partir do momento onde cinco meninas de um orfanato são convidadas a se hospedarem no local. A apresentação da protagonista Janice (Talitha Bateman) acontece de forma oportuna, pois ao descer do ônibus a câmera se posiciona no degrau ao passo que mostra a dificuldade da menina em descer por conta da sua limitação física em uma das pernas, ponto importante não só pela questão psicológica, a menina se sente a mais fragilizada e vagarosamente vai perdendo as esperanças de ser adotada, como também no desespero causado em diversas cenas de eventos sobrenaturais, onde o fato de não poder correr obriga a personagem a enfrentar o medo ou mesmo fechar os olhos, se esconder, enquanto o espectador enxerga o que está acontecendo em volta, algo que potencia a experiência e exige um bom trabalho com os espaços e objetos da casa.

A maior força do primeiro ato é na exploração dos elementos que futuramente serão importantes para as cenas de sustos, a tetricidade dos objetos fazem desse filme impactante em diversos momentos, inclusive a quantidade de possibilidades que se formam em todos os cômodos da casa são incríveis, parece que cada boneco, sombra ou pano pode se tornar um acessório para provocar o medo. Quando o espectador assimila o espaço, fica constantemente em alerta com o que acontece no segundo plano, e isso é muito oportuno no gênero, mas dificilmente é bem feito.

As atrizes mirins têm ótimas performances, mesmo que o longa dependa da extrema coragem de duas personagens para dar sequência ao roteiro. O diretor David F. Sandberg resgata sua melhor competência – demonstrada nos curtas-metragens sem diálogos, caseiros e com somente uma personagem – em criar cenas assustadoras sem recorrer aos artifícios mais comuns, apesar de tê-los como obrigação, nunca mostra aquilo que esperamos no mesmo tempo ou maneira, sempre tem algum detalhe que nos tira a atenção e surpreende.

O terceiro ato destoa do desenvolvimento mostrado até então, o equilíbrio da exposição e sugestão dá lugar as soluções apressadas e decisões que se retardaram afim de se encaixarem no roteiro. Mas ainda assim, “Annabelle: Creation” segue sendo um ótimo filme desse universo criado pelo “Invocação do Mal” e que continuará nos próximos anos apresentando as mais diversas figuras demoníacas perseguindo as mais inocentes almas.

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Eugenie e o Caminho da Perversão (Jesús Franco, 1970)

Eugenie e o Caminho da Perversão (Eugenie… The Story of Her Journey Into Perversion, Espanha, 1970) Direção: Jesús Franco

A metalinguagem atinge o limite quando Eugenie (Marie Liljedahl) segura e comenta brevemente sobre um livro do Marquês de Sade que ainda não teve oportunidade de ler. Personagem criada pelo autor, ela segura em mãos sua própria alma, enquanto o quarto que a abriga devora a inocente vestal dentro de si gradualmente.

A donzela se perde no caos da ansiedade sexual burguesa, seus passos pueris despertam os mais insanos desejos, a sua nudez, outrora natural, se torna um deleite ao consciente deturpado do maníaco pela carne. Existe manipulação nesse filme, bem como a estranheza narrativa faz jus ao elemento místico que envolve as relações nada convencionais entre os três personagens principais. A iluminação vermelha em momentos cruciais, todos eles envolvidos pesadamente com o sexo, tentação e tortura – física ou mental – é oportuna em criar as mais belas e impactantes rimas visuais, ainda que seja inevitável não mencionar a cena final onde o pequeno passarinho vê a luz do sol e sua silhueta representa o alívio de uma doce menina que atravessara os rios perigosos do ego e sofrera os mais profundos delitos do poder.

A agressão de Eugenie se dá, inicialmente, a partir do momento onde há a corrupção da juventude em prol à libertinagem extrema e violação da vida. As grades que aparecem em primeiro plano ao longo, deixam explícita a ideia de enclausuramento generalizado, onde a mansão permanece como o legítimo refúgio de transgressão. A beleza estonteante da Marie Liljedahl relaciona-se muito bem com a psicologia de sua personagem, é de se notar atenciosamente suas principais características, a presença da atriz exala delicadeza – Jesús Franco reforça constantemente o alto grau angelical de sua protagonista, em contraponto com a perversão do meio. Não à toa existe uma harpa no meio da sala, instrumento musical igualmente agridoce e associado ao celestial.

Como um ótimo representante do sexploitation, “Eugenie…” (1970) tem como mérito nunca reduzir-se apenas ao sexo. O trabalho excelente é quando associado às lacunas psicológicas das personagens e como são preenchidas pela exposição carnal. Apesar da perca do ritmo no segundo ato e eventuais sandices narrativas e/ou performáticas, Jesús Franco consegue transportar bem os escritos de Sade para o cinema e o faz de forma crível, onde a violação da integridade física e emocional de Eugenie permanece extremamente vinculado com o impressionante trabalho visual. Quem gosta do diretor, certamente apreciará esse clássico.

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Ao Cair da Noite (2017)

Ao Cair da Noite (It Comes at Night, EUA, 2017) Direção: Trey Edward Shults

O mundo desiste e os humanos enfrentam a devastação, o silêncio, o antes. O perigo sempre está um passo a frente em It Comes at Night (2017), os personagens são comprimidos em todos os sentidos, visualmente envoltos de sombras, ambientes estreitos, ainda que as luzes representem a fuga espiritual e psicológica, mas a consciência da iminente finitude desperta as condições mais primitivas do ser, a proteção familiar e vinculação afetiva assumem o mandato e a esfera trabalhada é a política, onde a teia familiar passa a representar um Estado, regendo sua continuidade em base à desconfiança, e é justamente essa posição filosófica no sentido metafórico e frágil enquanto realidade, que se origina o terror nesse longa: a negação intensa das circunstâncias do mundo em prol à prolongação da vida, é justamente o motivo da desestruturação desse Estado criado pela mãe, pai e filho (Carmen Ejogo, Joel Edgerton e Kelvin Harrison Jr., respectivamente).

Nesse sentido, é interessante perceber que o inimigo aqui é a própria sensação de perigo, como um vazio rastejante do externo; quando uma segunda família é apresentada, imediatamente o espectador percebe que a desconfiança mútua é consequência da realidade e que de nenhum personagem é mau, mas todos são frutos da condição selvagem que a sobrevivência exige. Retomando ao princípio, o escuro aqui trabalhado é o mesmo da pré-história, o limite físico e mental fica ainda mais intenso a partir do momento que não há o deslocamento.

As paredes da casa aprisionam todos e, por esse motivo, não existe expectativa de fuga. O designer de som é tão extremo que parece eterno, a narrativa cautelosa reforça a verdadeira intenção de investigar a família no seu âmago e disfuncionalidade.  Um pai é historiador e o outro é ligado com trabalhos braçais, a diferença é atenuada e a exploração mental é a mesma, ainda que o primeiro esteja em forte (des)vantagem por estar vinculado a um lar. Em dado momento, os dois compartilham uma bebida e a garrafa em cima da mesa é visualmente o que os separam. Dois lados quebrados pela perda da consciência.

Seis personagens desconhecem o que temem, mas são íntimos do incômodo. Não à toa a praga assola, primeiramente, os filhos e é a partir deles que surge o conflito físico entre os pais. Quando o futuro supostamente é violado, os poderes não se importam mais em manter escondida a sua guerra.

Ao Cair da Noite (2017) é um filme de drama sob clássicas características do subgênero pós-apocalíptico, mas sua força maior diz respeito ao talento de encontrar, em tais circunstâncias, o terror e relacioná-lo com eventos que ainda não aconteceram. O espectador desconhece os fatos, tampouco os personagens; ao passo que a direção do Trey Edward Shults merece menção por nunca deixar que essas lacunas façam com que o roteiro perca o ritmo. Pelo contrário, os poucos personagens se agigantam em momentos variados e a fotografia de Drew Daniels – que já havia trabalhado com o diretor no ótimo Krisha (2015) – repleta de simbolismos acrescenta ainda mais na experiência catástica que esse filme proporciona. O medo que emana do interno do homem é, sem dúvida, o mais assombroso que existe.

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Viy (1967)

Viy – A Lenda do Monstro (Viy, Rússia, 1967) Direção: Georgi Kropachyov e Konstantin Yershov

O terror no seu ápice é mesmo um gênero fascinante quanto à analise social e psicológica de um indivíduo. É muito interessante pesquisar sobre culturas diferentes e contextos históricos e perceber, com isso, como as crenças diferem de uma realidade para outra e, consecutivamente, lendas são criadas e os medos adquirem as mais diversas formas.

Em sessenta e sete era lançado o primeiro filme de terror da antiga União Soviética, “Viy”, que se baseia diretamente em um conto folclórico ucraniano e que tem como maiores características a ambientação tétrica, narrativa simultaneamente estrambólica e perversa e inteligência ao usar os efeitos especiais – principalmente se levarmos em consideração o ano que foi feito – mas nada se compara com a atmosfera que pressupõe constantemente perigo, o medo nesse clássico se aproxima bastante do homem medieval, onde o alienígena era obrigatoriamente mal e a suposição aprisionava a razão.

O longa é dirigido por Georgi Kropachyov e Konstantin Yershov, conta a história de um seminarista chamado Khoma (Kuravlyov) que, ao voltar para casa com os amigos, pede abrigo à uma velha senhora em uma fazenda. Ela se revela uma bruxa posteriormente e, quando o protagonista a mata, sua imagem se transforma, virando uma bela e jovem mulher. Ao voltar para o seminário, ele fica encarregado de orar três noites para uma moça que falecera recentemente o que, para a sua surpresa, se trata da bruxa que ele havia conhecido dias antes.

A jornada de Khoma é essa: precisa lutar contra as forças do mal e sua própria ausência de fé, visto que as perversidades da bruxa, nessas três noites, o afetam profundamente.

É importante ressaltar que um dos maiores clássicos do terror – o filme virou um cult, apesar de ser definitivamente desconhecido pelo grande público – se envolve com o humor da primeira cena à última, embora o segundo e terceiro ato sejam amedrontadores. A trilha sonora delicada e infantil do início suaviza a trama, o primeiro contato com a bruxa também, pois ela monta em Khoma e o faz de “vassoura”, tudo isso se assemelha com a proposta de um conto de fadas, onde o terror é trabalhado paulatinamente de modo que provoque bastante a concentração de quem lê para, em seguida, expor a ideia em sua totalidade. Outro ponto que ilustra essa comparação é o fato de o primeiro ato estar repleto de animais.

Algo importante, ainda sobre a apresentação, é em relação ao protagonista, por ser um integrante direto do Catolicismo seria comum que o personagem se distanciasse do espectador por conta da sua função e conhecimento, mas isso é abandonado nas primeiras cenas. Primeiro que o próprio afirma que “não sabe quem é sua mãe e pai… e nem de onde vem” e em outro momento que está mentindo fala “que um raio me atinja se estiver mentindo”. Essas duas frases ilustram a fragilidade emocional de Khoma, sua solidão familiar se estende, também, pela perdidão em meio à sua religião, visto que por diversas vezes ele demonstra ser cético, chegando ao ponto de zombar da fé. A função social que ele desemprenha é quebrado no primeiro ato, o espectador passa a compreender rapidamente que se trata de um homem, vulnerável e que teme, assim como todos. O resultado é excelente, pois em outro caso, com um personagem sólido e seguro não transpareceria tanta preocupação como acontece aqui, o pavor do protagonista passa a ser também o de quem assiste.

O quarto que abriga a jovem morta é repleto de vermelho, assim como é possível perceber que a cor acompanha os personagens que possuem ligação com a bruxa, como o pai dela. Na primeira noite de oração, Khoma já sente que sua tarefa não será fácil e que forças do mal o assolarão, mas o filme é oportuno em deixar claro que o medo desenfreado dele e a sugestão podem ser facilmente os criadores de todas situações, existe muita profundidade nesse clássico, mesmo que em alguns momentos não pareça.

O vermelho que está sempre próximo do pai da moça falecida

O protagonista, sempre chamado de filósofo pelos moradores da pequena cidade – o que, certamente, é uma grande ironia, pois em nenhum momento há uma reflexão racional sobre os eventos – sofre a sua tortura espiritual, motivada pela culpa. As noites de oração ficam piores, a sensação é de que a trama nos prepara para a terceira onde, definitivamente, é a melhor e inesquecível para o cinema. Os efeitos práticos e especiais, maquiagens e atuações despertam a atenção e provocam arrepio. Khoma praticamente enxerga o inferno saindo pelas paredes, vampiros, lobisomens e outros monstros, todo medo vindo das crenças caminham em direção a um homem só, que não veio de lugar nenhum, sem família e que fora abandonado pela própria igreja para enfrentar aquilo que possivelmente sabiam que não seria capaz.

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CdA #74 – Réquiem para um Sonho e o vício

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Nesse episódio Emerson Teixeira convidou o Fernando Machado para uma discussão sobre o filme do Darren Aronofsky “Réquiem Para um Sonho” (2000). Em base a obra, falamos sobre o vício e os perigos reais da obsessão. Como que esses temas estão relacionados com o nosso cotidiano? enfrente conosco esse que é, sem dúvidas, um dos filmes mais chocantes do século vinte e um.

  • Site e canal do youtube do Fernando Machado
  • Especial da Revista Moviement sobre o Faroeste com a participação do Emerson Teixeira
  • Podcast Frequência Fantasma
  • E-mail: contato@cronologiadoacaso.com.br
  • Twitter: @cronodoacaso
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Little Forest: Summer/Autumn (2014) de Junichi Mori

Little Forest: Summer/Autumn (Ritoru Foresuto Natsu Hen-Aki Hen, Japão, 2014) Direção: Junichi Mori

Algumas pessoas conseguem manter o hábito de levantar pela manhã e caminhar escutando uma boa música. Talvez ainda consigam andar por entre um lugar bonito, repleto de árvores, ou na calçada beirando o mar. Essa é a sensação que tive ao assistir “Little Forest: Summer/Autumn” (2014), uma profunda paz ao acompanhar a Ichiko (Ai Hashimoto) que volta ao campo para viver da simplicidade, fazendo experiências culinárias, principalmente com alimentos que ela própria planta.

Baseado em um mangá de Daisuke Igarashi, esse filme é no mínimo curioso e pode afastar algumas pessoas por não ter uma história bem definida e normal, basicamente acompanhamos a protagonista através das receitas que ela faz. É um passo a passo culinário com uma abordagem e fotografia delicada, onde os pratos e as realizações se confundem com o passado da personagem e as próprias estações do ano.

No dia 31/12/2016 me tornei vegetariano, uma ideia que há tempos refletia e que cuja decisão fora feita de forma brusca e irreversível. A partir do momento que pensei sobre o porquê, não existiu dificuldade na readaptação alimentar, o que só me trouxe benefícios. Meu “espírito” ficou mais leve, mas cito o carinho por cozinhar como uma das coisas que mais ficaram evidentes na minha vida. Descobrir receitas, misturar as cores da salada, enfim, apesar da personagem do filme não ser vegetariana, o seu carinho com o alimento é extremamente envolvente e encantador.

“Cozinhar é um espelho que reflete sua mente”

“Little Forest: Summer/Autumn” (2014) é uma obra acolhedora, que proporciona uma experiência romântica pela culinária natural. Como história, deixa a desejar, ainda que seja possível estabelecer uma evidente ligação entre a postura da protagonista e o seu passado com a mãe, mas essa não é a preocupação aqui. A atmosfera e cumplicidade do ser humano com o meio ambiente são energias transmitidas através da simplicidade, seja visual ou do texto.

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Steel Butterfly (2012)

Steel Butterfly (Stalnaya babochka, Rússia, 2012) Direção: Renat Davletyarov

Steel Butterfly (2012) é um filme russo, dirigido pelo desconhecido Renat Davletyarov e que não sabe muito bem qual caminho quer seguir. Começa como um típico filme policial, com resquícios altos de terror, ao mostrar uma menina caminhando, sozinha, pela noite e sendo vítima de um “maníaco do parque” que está assolando uma cidade. Depois somos apresentados à uma gangue onde a líder é uma jovem chamada Vika Chumakova (Darya Melnikova) que, depois de ter problemas com a polícia, se vê ajudando-os servindo como isca para o maníaco enquanto segue sendo observada pelos tiras. Junto a isso, temos a relação dessa garota órfã com o policial Hanin, visto que ele a leva para sua casa enquanto trabalha com ela.

O filme começa com características típicas do gênero policial, passa pelo romance – pelo menos aquele que se projeta na protagonista, afinal, ela não tem lar, muito menos afeto, portanto se sente atraída pelo seu hospedeiro – e termina como um drama artificial. Desde o começo a narrativa se perde por querer introduzir o humor em uma circunstância má preparada para tal, o que acaba desviando a atenção do perigo iminente. No segundo ato se esquece completamente o propósito da inserção da garota em uma missão da polícia o que, inclusive, não faz nenhum sentido, quiça coesão ética. Afinal, utilizar uma jovem desabrigada como isca para um assassino não desperta o mínimo de empatia no espectador e, sendo assim, todas as situações derivadas dessa monstruosidade definitivamente não se encaixam.

A polícia tenciona utilizar mulheres para servirem de isca ao maníaco, a ideia é deveras machista e, se não bastasse, há duas cenas onde três policiais sentam em suas cadeiras com poses autoritárias e julgadoras, enquanto observam essas mulheres e suas vestimentas, como se estivessem imaginando o que chamaria mais atenção do psicopata das ruas. “Talvez uma saia curta?” “Peitos grandes?”… O que fica mais agravante quando eles têm a “grande” ideia de utilizar uma menor de idade (?), como se fosse um objeto insignificante apenas por ter cometido atos de vandalismo. O que contrastará seriamente com os ataques de [falsos] moralismos de Hanin em relação à idade da protagonista.

Como é possível imaginar, o tom leve que tenta ser reforçado a cada cena é uma tentativa tola. A trama é incoerente e, apesar do esforço dos atores, o texto que têm em mãos é excessivamente vazio. A atriz Darya Melnikova chama atenção, pelo talento e beleza estonteante, é mesmo uma pena que sua evidente dedicação esteja acima do material disponibilizado. A incoerência temática, indecisão da direção e soluções clichês fazem desse filme uma obra descartável.

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Heartstone (2016)

Heartstone (Hjartasteinn, Islândia, 2016) Direção: Guðmundur Arnar Guðmundsson

O cinema produzido na Islândia é brilhante. O pouco acesso que temos para assistir as obras do país não nos impede de perceber a regularidade das produções, principalmente em relação à sensibilidade. Se Friðrik Þór Friðriksson desenvolve temas relacionadas ao tempo em seus trabalhos, Benedikt Erlingsson recentemente nos presenteou com uma obra contempladora que une o ser humano e os cavalos, explorando o místico provocado pela natureza e verdade.

[Você pode ler outras críticas que escrevi sobre filmes da Islândia clicando aqui]

“Heartstone” (2016), dirigido pelo Guðmundur Arnar Guðmundsson – conhecido principalmente por um curta-metragem chamado “Hvalfjörður” (2013) – se assemelha bastante aos dois diretores citados. Por coincidência ou não, a juventude aqui é trabalhada com tamanho respeito que a associação com Friðrik Þór Friðriksson é imediata. Quem já assistiu “Bíódagar” (1994) sabe perfeitamente disso. Nessa obra,  Friðrik acompanha a vida de um garoto apaixonado por cinema que precisa se afastar e morar em uma casa no campo. Esse deslocamento causa um incomodo grande no garoto e as consequências desse fato são observados da forma mais visceral e sincera possível.

“Heartstone” (2016) possui a mesma habilidade em se utilizar do jovem para discutir temas importantes que abrangem a desestabilização familiar e descoberta da sexualidade. Dois garotos, Þór e Kristján, possuem uma forte amizade e entre a rotina de brincadeiras e passeios ambos parecem fugir da desestruturação familiar enquanto o sentimento de amizade é confundido com interesse amoroso. Eles passam a se ajudar e veem um no outro uma forma de fugir dos pesadelos da indiferença, ódio e preconceito.

A beleza do pequeno vilarejo da Islândia abriga amigos que se deliciam em meio à pureza mágica do ambiente. O azul do céu e da água envolve os garotos que, na primeira cena do filme, aguardam em silêncio enquanto pescam. A ação de um adulto, a pesca se trata de uma das atividades que mais necessitam de paciência o que, em um primeiro momento, todos os meninos têm. Mas o silêncio para uma criança é a própria morte, e logo a calma é quebrada pelo protagonista que permanece em primeiro plano enquanto um de seus amigos mexe (imagina?) nos pelos de sua axila e peito. Eles pegaram os peixes e, a partir desse momento, podem voltar correndo e contar a novidade para os pais.

O contra-plongée mostra uma visão de dentro da água para fora o que demonstra claramente uma intenção de duplicar a imagem dos personagens. Esse simbolismo se repetirá de outras formas ao longo, e a intenção sempre é a mesma: expor o fato de que Þór e Kristján dividem suas vidas entre a liberdade total, quando estão juntos, e a limitação e desconforto quando inseridos nos seus respectivos lares. Desse modo, é possível notar que diversas vezes a imagem deles, refletidas em algo, é borrada.

Þór volta para sua casa e deixa os peixes que pescou fora. Representando suas próprias emoções – cabe destacar que seu melhor amigo, Kristján, conseguiu apenas pegar um “peixe pedra” e é zombado pelos colegas por isso. No banheiro, através da imagem refletida no espelho vemos o protagonista brincando com o seu corpo, isso inclui a masturbação. Sua nudez é o refúgio de liberdade o que, rapidamente, se dissipa com as brincadeiras das suas irmãs adolescentes referentes ao seu corpo despido.

Outra simbologia visualmente importante no filme é o contraste existente nos enquadramentos dos personagens e como mudam quando externos ou internos. Quando os amigos estão passeando, nadando, acampando, enfim, vivendo, os planos são abertos e, além disso, não há objetos ou móveis “poluindo” o enquadramento. O que não acontece quando eles estão dentro das casas ou sendo vistos por alguém inserido no lar. Geralmente os personagens tem campos de espaços reduzidos, e pequenos ou grandes objetos são perceptíveis como forma de opressão visual.

O filme possui o clima convidativo de grandes filmes dos anos oitenta, mas com a profundidade do bom cinema contemplativo. A fotografia acerta em cheio nos tons azulados, exalando melancolia mesmo em meio à paisagem magnífica que envolve todos e, por muitos, é ignorada.

A amizade aqui representa a condição de amparo e necessidade. É agradável assistir uma obra que não precisa explicar muito o que é óbvio, a importância das relações são nítidas e incomunicáveis, senão, pelas performances. Nesse sentido, Baldur Einarsson é verdadeiramente um achado, extremamente talentoso, dá densidade ao seu papel, fazendo com que Þór receba todas as atenções, transitando entre o carinho, insegurança e raiva de maneira singular.

Com a sensibilidade apurada, Guðmundur Arnar Guðmundsson transforma uma história comum em algo extraordinário. É triste saber que em muitas histórias de infância há o abandono como elemento principal, dificultando o processo de adolescer e experimentar. O jovem que respira diferente, necessita de cuidado e atenção, da repetição das palavras de conforto, pois crescer é se sentir um monstro. No final, o peixe pedra precisa voltar para o mar e partir em busca de uma nova chance.

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Charles Chaplin – Entre as lágrimas e o Sorriso

Sonhador, abusado, explorador, independente, gênio, melancólico, palhaço, amante, mulher, garoto, pobre, rico, mendigo… Por ai vai, por tudo foi. Ao tentar analisar a carreira do grandiosíssimo Sir Charles Spencer Chaplin nos deparamos com a máxima de que “um ponto de vista é a vista de um ponto”. Muitos ainda tentam confundir-nos, banalizando a linha tênue e significativa que separa a personalidade da sua criação, sua arte. E, esse homem, que lutou contra todos os outros homens, era um artista, do qual a sua própria genialidade não é digna do mundo do qual ele pisou. O mundo não era – e é – digno de o ter como lar, mas nós somos dignos – devemos ser – de resgatar a mensagem principal que ele nos deixou: Sorrir é o melhor remédio. Mesmo quando o medicamento seja para retardar uma doença incurável.
Incurável é a dor que sinto com seus filmes. Suas obras, seus espetáculos. E realmente são. A atuação é estruturada por duas entidades místicas, conhecidas como: Drama e humor. O que Chaplin faz é elevar o respeito e equilíbrio pelas duas. Nunca as abandonando, nem mesmo quando finge o fazer. Ele era perfeccionista. O seu cinema era perfeito, sabe o motivo? ambos nasceram juntos, portanto o entendia mais do que ninguém.
O cinema começa e, por não existir a voz, a dinamização da nova tecnologia é possível. O mundo inteiro poderia ver uma história sem nenhuma barreira. Como se aquela fosse uma oportunidade real de unificação de ideias, pois, nesse berço, ainda não se pensava em cinema como arte. Entretenimento desconhecido que instigava a curiosidade. Essa etapa do cinema é uma fase tão enigmática que transcende as barreiras da realidade. Cria da fotografia, uma nova forma de exercício intelectual se iniciava, quase que uma teia de desenvolvimentos artísticos. A atuação deveria encaixar nas possibilidades da época, o humor deveria ser ao extremo para segurar a atenção, as histórias tinham que ser curtas. Mas o que raios era aquilo? Qual era o objetivo?
Eu passei longos cinco anos pesquisando o trabalho do Chaplin, não quero aqui ser didático, por mais que em uma outra oportunidade pretendo ser, queria só expor o quanto esse ser humano representou para uma desconhecida oportunidade. Tamanha sua curiosidade, foi desbravando os meios, criando suas piadas – inspirando-se pelas experiências com a mãe e o pai alcoólatra – até que chega um momento do desprendimento, onde esse cara vai fazer a sua obra. Eu fico fascinado com o ataque de oportunismo, o poder desse visionário de dar a cara a tapa para fazer diferente, extrair um conteúdo que já vinha fazendo, mas de uma forma completamente diferente. Ele estava pensando nas pessoas? Ele estava pensando que iria mudar o mundo? Não! Ele queria crescer profissionalmente, mas tudo o que tocava virara flores, pois, como percebemos, Chaplin era dedicado/diferenciado, disposto a entregar um pensamento subversivo sobre o que, realmente, é “sentir”. Sua vida não fora anormal até então, menino abandonado pela vida, criado atrás das cortinas dos teatros, esperto, pobre… Ele soube aproveitar um pouco do tudo que passou e criou um pouco de todos que existe no mundo.
Vagabundo
O seu personagem, imortalizado, é extremamente cordial. As adversidades que passa não são sentidas no seu comportamento. Ele não trata diferente, é sempre o mesmo. Delicado, sensível, apaixonado e cavalheiro, um conquistador. Parece estranho, não é? Se sentir apaixonado por um vagabundo. Sua doce arte nos ensina que, ser vagabundo, não o tira a possibilidade de ter esperança nas pessoas. É claro que ele tem muitos envolvimentos com mulheres, mas por que ele desperta o interesse nelas, me parece que tanto homem, quanto as mulheres recebem o mesmo tratamento do nosso querido vagabundo. Ele é um palhaço que vaga, não procurando um lar, procurando compartilhar a sua inocência. Encantando e sendo encantado. Oras com seu humor incomparável, oras com sua tristeza costumeira. Independente, faz-nos amar estar triste para, só assim, sorrir. O sorriso se transforma em conquista árdua, diante a crueldade dos homens que ainda não aprenderam a amar. Chaplin nos diz que um dia irão, não a massa, mas o indivíduo sim.
A sua roupa demonstra que ele não precisa de muito para ser elegante. Basta um chapéu coco e uma bengala para ser lindo, basta ser, basta o olhar, basta o sorriso tímido ao fim de Luzes da Cidade, basta ser o bastante. O vagabundo é um ícone, uma ideologia. Uma lembrança de que existe muita gente por ai querendo gritar ao mundo que muita coisa está errada. Só de pensar eu fico sufocado. Se uma criança está jogada no meio da rua, o vagabundo olha para cima como se quisesse dizer “Não pode ser, de novo?”. Gente, preste atenção no que vou dizer, sinta-me, essa é uma cena de um filme de 1921! Estamos em 2014, situações cada vez piores acontecem e há noventa e três anos atrás um homem gritava por socorro. Através do humor, mas com muito drama, muita verdade.
Um garoto-pai
Caminhando, só, pelas ruas
Se sente infeliz quando olha para o céu
Estão caindo anjos agora? – ele pensa
Anjos com asas quebradas, 
à procura de ajuda da verdade,
Existir e ser pai como deve,
Sem a hipocrisia do nascer,
Buscando no choro a sua canção mais doce.
No cobertor rasgado, a sua melhor proteção.
Não deixe que isso acabe papai,
Um dia fui anjo, 
Hoje te entreguei minhas asas.
Quebraremos vidros da ousadia,
Sentados pelas calçadas perdidas, 
Nas florestas de nossos corações solitários.
Sigamos em frente. 
– Escrevi quando tinha 13 anos, logo após assistir “O Garoto” pela primeira vez.
Charles Chaplin está sempre relacionado nas listas infinitas de homens que mudaram a história do mundo, gênios etc. Não vejo muitos conhecendo-o, de fato. Muitos conhecem a sua criação, a figura, mas poucos o nobre senhor por trás dela. Até para ter o mínimo de consciência sobre qual é o limite da sepração entre a vida pessoal e profissional, principalmente relacionando-o com a arte audiovisual, que serve como um apanhado de várias outras artes, trabalhando em conjunto. Estou repetindo tanto sobre a personalidade do Chaplin pois, como se imagina, era muito forte. Essa força para a composição, tanto de músicas como personagens e contextos, surgem de uma pessoa extremamente misteriosa. Um intelectual da entrega, da mulher.
O garoto fala, também, sobre ser pai, então a identificação foi imediata, essa postura dele, esse carinho, mesmo sem ter nada para oferecer ao garoto, sempre me fisgou, de alguma maneiro. Vou até me corrigir, ele tinha muito para oferecer, uma verdadeira boa vida. O tudo do pouco. Comparo a situação social dos seus filmes com a própria felicidade. Você não é feliz, você está feliz. Felicidade não nasce junto com as pessoas, ela vem, mediado por situações de momentos, ela pode, inclusive, acabar no dia seguinte. E é isso, Chaplin, o vagabundo, é indiferente a felicidade, ele renuncia essa benção para nos mostrar que não temos que ser felizes, temos que saber aproveitar a felicidade. E essa mensagem maquiagem nenhuma esconde.
A vida se torna muito simples com o Charles Chaplin. Qualquer coisa vira piada, dentro do grande drama que contextualiza os seus personagens sem lugar. Mas não pense que não ter lugar é algo ruim, é provado em seus filmes que existe lar em qualquer lugar. Mas o vagabundo não pode parar nos lugares que passa, por mais que doa o coração partir. Ele está sempre em busca de novas oportunidades, novas experiências, para preencher a sua eterna esperança de amar perdidamente.
Obs: Texto originalmente publicado em 10 de julho de 2014

emersontlima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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Todo lo que tú quieras (2010)

A dor da perda talvez seja a mais frustrante que exista. Se pensarmos, somos os únicos animais com consciência da finitude da vida, porém, é inegável que a mesma não adianta muita coisa quando acontece. Aliás, essa é uma palavra pertinente para quem já passou por isso, acontece, acontece, acontece, acontece… aconteceu comigo.

Temos a necessidade de depositar a nossa existência à algo maior, um outro plano, no qual a vida é eterna e o reencontro seja possível. Infelizmente eu não consegui ter essa crença, tive uma educação católica, com todas essas lindas histórias de “fazer o bem para ganhar o sempre” mas eu não consegui acreditar. Resta-me refletir sobre a morte como uma possível imortalidade construída pela arte, aqui na terra, claro. Por isso prezo tanto pelas inúmeras mensagens que diretores, roteiristas, atores e atrizes nos deixam. Eles, assim como nós, são humanos e, inconscientemente ou não, sabem que o seu trabalho significa mais que “fama de passagem”, é um registro eterno, nem que seja nos corações de inocentes admiradores. Sendo assim, é fácil identificar o artista e o nome. Por essas e outras, eu escrevo sobre o cinema alternativo para resgatar a arte invisível, não para ser conhecido como cult. Mas, de fato, queria sim ser associado. O cinéfilo é, antes de mais nada, um amigo do audiovisual e, como bom amigo, nunca o quer apenas para si mesmo. Ele divide. E, por essa mesma razão, é fácil identificar a divisão por paixão e por interesses pessoais.
Enfim, todos precisamos sobreviver, o cinema se tornou mais uma das diversas lojas que existe. Como perceberam, sempre antes de escrever sobre os filmes, eu gosto de resgatar as reflexões que eu tive durante e, aqui, tento destacar a falta de atenção para com algumas obras. Tem muita gente falando de cinema mas, infelizmente, pouca gente falando de homem. Como disse, feliz aqueles que fazem do cinema o seu sustento mas, por favor, não se esqueça de dividir, pelo menos, a importância da arte audiovisual para as pessoas. A importância da procura, da pesquisa, não didática, simplesmente estar aberto para experimentar. Só assim a ideia da imortalidade será revivida, não apenas para um seleto grupo, mas para todos. A mensagem não precisa – e nunca será – clara para todo mundo, mas sem dúvida todos sentirão.
Todo lo que tú quieras 
Leo e Alicia são casados e moram com a filha Dafne, de quatro anos. Como numa família tradicional, a mãe preocupa-se em cuidar da filha e educá-la, enquanto o pai vive fora de casa, trabalhando. Contudo, a morte repentina de Alicia por um ataque epiléptico abala radicalmente esse equilíbrio familiar. Sentindo uma falta brutal da figura materna, a menina tem grandes dificuldades de superar a perda. Tentando atender como pode as demandas da filha, Leo chega ao ponto de renunciar a si próprio, colocando em jogo sua própria identidade.
Então, é incrível como alguns filmes escolhem quem o assiste. Há três anos encontrei o poster desse filme, e li o seguinte: “ele abandonou a sua própria identidade.” Assisti dois dias depois, e logo no inicio adentro no mundo dos transformistas, com diversas fotos de transformações. Imaginem, eu não sabia de nada, e nunca passou pela minha cabeça que o filme iria usar algo tão recriminado pela sociedade para compor um “acontecer” tão natural quanto a perda. E como é bonito.
Eu sempre falei que, se eu fosse ator, queria interpretar três personagens – mesmo que eu tivesse que escrevê-los – um palhaço, uma mulher e um morador de rua. Muito por conta do visual. Sempre fui um admirador das cores, mesmo que me enxergue em preto e branco. É incrível como a maquiagem te faz outra pessoa, como o sexo interfere nos olhares de outrem e suas condições financeiras e vestimentas aumentam o julgamento.
Julgamento. Essa é outra palavra muito forte no filme, quando um dos personagens mais interessante que eu já vi fala “Eu já vi esse olhar muitas vezes na vida, são os olhos do julgamento.” Aliás, esses dois lados serão discutidos, mesmo que bem intimista, durante todo o filme. A sociedade e o indivíduo.
Eu sou um amante de pessoas, porém, na sua individualidade. Não gosto das massas, pois elas são falsas. As pessoas se transformam para se adaptar ao meio, essa transformação, da qual eu também sou refém, não me atrai. Um ser só é verdadeiro quando sozinho. Uma cena que identifica isso muito bem é quando Leo, o protagonista, está destruído por dentro mas continua conversando sobre o trabalho com o amigo, como se nada tivesse acontecido. Até que o amigo após o fim da conversa, pergunta se está tudo bem e é ai que ele começa a falar dele mesmo, onde solta “honestamente eu não sei”.
Uma coisa que preciso destacar é que, o transformismo, serve apenas para compor. Não é o objetivo do filme conversar sobre a questão, até porque da mesma o único ponto relevante para trama é a maquiagem. Como disse, misturado com a fotografia do filme, um tanto quanto pesada/escura, representa o luto. A diferença mora no fato que, mas do que simplesmente o luto, a maquiagem representa a lembrança. E ficará claro isso em breve.
Esses outros elementos, como o transformismo e preconceito só existem para expor essa ideia da diferença, esses extremos chamados “só” e “junto”. E o quão isso interfere nos seus próprios conceitos. Veja, por exemplo, que quando Leo está com a Marta, um possível romance, ele despreza e ofende Alex e depois recorre a ele para ajudá-lo a se transformar na Alicia, a mãe da garotinha.
Como disse, Alex é um dos personagens mais interessantes que eu já vi, pois ele representa tudo isso, a massa. Tanto é que fala sobre o preconceito/julgamento/olhares com muita propriedade em uma das cenas mais bonitas do filme.
– Você quer falar com um viado de merda?
– É exatamente isso que queria dizer. Quero que me perdoe pelo outro dia. Eu não quis dizer isso.
– Não? Marta disse que sim, que foi exatamente o que queria dizer. Por que me odeia tanto? O que te incomoda em mim? Minha homossexualidade ou minha velhice?
 
Agora, caros leitores, imaginem essa cena sendo interpretada pelo Juan Diego Botto e José Luis Gómez, um dos maiores atores espanhóis que existe. Aliás, Luiz Gómez entrega um Alex poderoso, no que diz respeito a sensibilidade corporal. É incrível o domínio do ator com o seu corpo que, misturado com a sua voz penetrante, soa como uma entidade confortante, amiga e sabia.
Não poderia deixar de falar mais sobre a relação pai e filha. A menininha, que por sinal é curioso tentar imaginar como é possível tamanha atuação, mesmo sendo tão jovem, tem um complexo muito grande. A falta da mãe, ou melhor, de uma presença feminina, faz com que ela crie ilusões constantes, como esconder o pai com uma maquiagem. Pode soar, ao final do filme, que o pai mexeu com o psicológico da pobre garota, mas aqui tento explicar uma coisa, nunca podemos assistir um filme e interpretá-lo pelo que ele mostra visualmente. A arte é uma entrega da qual você pode depositar todas as suas experiências e contribuir para que aquela seja ainda maior. Isso não é se iludir com o que assiste, é criar um processo contínuo de interpretação, de modo que o filme signifique ainda mais.
Voltando, o transformismo do pai é, imaginem comigo, uma criação da menina. Digo, de verdade mesmo. O personagem pai se traduz como o olhar da menina, enxergamos ele como o pai tradicional no início – que trabalha muito e chega em casa cansado – porque a menina o enxerga assim. Depois, quando ele vira a mãe é porque ela quer. Ou seja, é como se todas as cenas representasse os olhos da garotinha e a maquiagem a lembrança da mãe, não é a toa que citei a fotografia, um tanto quando triste.
O filme se resume em dois pequenos momentos. Quando ela começa constantemente chamar o pai de mamãe, Leo se desespera, procurando nos olhos da filha a sua própria identidade pois o mesmo não sabe mais quem é. Ela repete “mamãe, mamãe, você é a mamãe” até que, sensibilizada pelas diversas implorações, ela fala “papai”. Essas repetições, até chegar em pai são frenéticas, quase que um gozo. Aliás, seria uma perfeita analogia. É então que, após isso, o pai abraça a filha e, na cena seguinte, vemos ele vestido de mulher novamente. Ou seja, ele só estava interessado na palavra. Pois o olhar da menina continuaria o mesmo e ele sabia disso, pois na individualidade essa maluquice fazia sentido e, fora de casa, era só um simples transformista.
Outro ponto e, assim concluo o texto, é justamente o final do filme. Quando eles estão em um quarto de hotel e a menina fala que está com saudades do papai. O pai vai tirando a maquiagem, peruca e, lógico, a menina pede para fazer. Com suas pequenas mãos tira a sua maquiagem, delicadamente. Como se aquela visão não mas fizesse parte da sua vida. E fala que “se quiser ver a mamãe, fechará os olhos” enquanto questiona os ferimentos do papai.
Obs: Texto originalmente publicado em 9 de março de 2014

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