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No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

CdA #72 – Novela (1992) e Giselle (1980)

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Nesse episódio Emerson Teixeira recebe o grande Malforea, vocalista da banda Distintivo Blues para, juntos, indicarem dois filmes. Voltamos ao formato de recomendações em grande estilo, com duas obras nacionais: o polêmico Giselle (1980) e o curta-metragem Novela (1992). Ambos filmes completamente diferentes, o papo envolveu assuntos interessantes como as novelas do nosso país e a comodidade de muitos em relação à cultura.

Filmes citados:

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Veneno Para As Fadas (1984)

Veneno Para As Fadas (Veneno para las Hadas, México, 1984) Direção: Carlos Enrique Taboada

Carlos Enrique Taboada foi um grande diretor mexicano, dirigiu filmes de diversos gêneros mas se consolidou mesmo com o terror, inclusive é muito citado pelo Guillermo del Toro que vê no realizador de clássicos como “Hasta el Viento Tiene Miedo” (1968) e “Más Negro que la Noche” (1975) uma grande inspiração. Quem conhece os dois diretores percebe imediatamente a ligação óbvia, principalmente em relação à atmosfera densa e utilização de crianças para provocar o medo ou desconforto, sem contar o vislumbre visual que, com sua escuridão, sombras, contrastes e ângulos, insere imediatamente o espectador em um contexto macabro.

“Veneno Para As Fadas” (1984) representa o grande ápice do diretor e, curiosamente, se trata do seu último trabalho relevante – depois Taboada faria alguns pequenos trabalhos na TV e roteiros -, isso porque mistura diversos elementos que vão desde a bruxaria, passando pela maldade intrínseca e inerência do ser humano em abusar da fraqueza emocional alheia, todos esses temas, genuinamente maus, enraizados em uma única personagem: Verónica – interpretada pela Ana Patricia Rojo, que depois, a título de curiosidade, participaria de novelas que ficaram famosas no Brasil como “Maria do Bairro” e “Esmeralda”.

A protagonista é apresentada antes mesmo dos créditos iniciais, a força da obra se encontra na sua presença e em todos elementos místicos que a envolvem. Sua imagem de menina delicada é subvertida à exaustão, a doçura do olhar passa, através de uma sequência de truques narrativos e técnicos, a provocar a dúvida e essa ambiguidade é importante para a experiência imersiva que o filme propõe. A menina é cercada pela escuridão, ausente de carinho e proteção, tem como Norte apenas as histórias que sua cozinheira conta, todas elas envolvem bruxaria e misticismo. Verónica afirma ser uma bruxa, na escola sofre preconceito por causa disso, no entanto as coisas começam a mudar com a chegada de uma nova aluna chamada Flavia (Elsa María Gutiérrez).

Há uma evidente tendência ao terror, mas a trilha sonora pontual e a narrativa com doses oníricas, escondem um verdadeiro drama sobre a solidão e as consequências da imaginação e controle mental. Verónica passa a controlar Flavia por afirmar ser “bruxa”, o que começa como brincadeira se transforma em algo sério quando o medo passa a coagir alguém. Esse jogo psicológico, cuja verdade é oculta até o final, transforma esse filme em uma preciosidade no que diz respeito a um estudo de personagem. As consequências de uma mensagem pesada imposta para uma criança, ganha proporções enormes quando essas mesmas informações são utilizadas como ferramentas de manipulação.

Sempre quando Verónica é registrada na sua casa, é feito de forma sufocante, a ausência de luz e o ângulo alto – plongée – dão a impressão de que sua vida é repleta de opressão. O único refúgio da garota é se esconder em um possível mundo inventado.

No entanto é curioso perceber a diferença de iluminação ou mesmo a posição quando está perto da Flavia. O papel inverte, o filme sugere constantemente “domínio”.

“Veneno Para As Fadas” (1984) é uma das maiores obras que desenvolvem o terror em base à fantasia, depositando todas as suas fichas em duas personagens mirins centrais e na relação de amizade entre elas, a perversidade é esquecida pelo brilho que a infância evoca, no entanto, o maior mérito do diretor Carlos Enrique Taboada, que também assume o roteiro, é trabalhar questões políticas e filosóficas subliminarmente.

Verónica não tem ninguém; mas pertence a algo. Verónica se sente só, mas tem um propósito; Verónica é fraca, mas manipula brincando de criar. Verónica envenena, mas a bruxa queima.

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Pieles (2017)

Peles (Pieles, Espanha, 2017) Direção: Eduardo Casanova

Como em qualquer arte, o cinema respira insanidade. O realismo é maravilhoso e boa parte das obras independentes se apoiam na visceralidade do cotidiano. Mas há de se imaginar que a normalidade assusta, tanto quanto o terror ou suspense, a falta do abstrato limita o potencial criativo. É por esse motivo que devemos aplaudir quando ideias diferentes são apresentadas no cinema porque, diferentemente de outras artes, o audiovisual envolve muitos realizadores, todos trabalhando em suas camadas para se atingir um mesmo resultado. A insanidade precisa se fragmentar em diversos pedaços de modo que atinja a arte como um todo, caso contrário, mesmo uma mensagem poderosa alcançará à mediocridade. Ainda sobre isso, é preciso ter coragem para apresentar obras como Pieles (2017) pois como se sabe o artista produz um filme e ele é apresentado em uma experiência coletiva e, por diversas vezes em casos como esse, a sensibilidade é a única coisa que separa aqueles que entenderam ou não determinado recado do realizador.

Pieles (2017), portanto, é feito para chocar. Mas o choque é somente a primeira camada – a qual certamente o diretor sabe que a maioria irá atingir – para uma imensidão de temas relevantes que englobam a conduta obsessiva do ser humano em busca da perfeição física e como esse corpo dialoga com outros, existe uma nudez que teimamos em esconder, o corpo casto é, hoje mais do que nunca, motivo de vergonha em um mundo imediatista e expositivo.

Se esconder o corpo se tornou uma atividade corriqueira em tempos onde a artificialidade “mostra os dentes”, ganha ainda mais forças com a facilidade de manipulação que o registro audiovisual provoca no indivíduo, desde estrelas de cinema até famosos do Instagram, todos são protagonistas de uma vida que chama as atenções e, por elas, se tornam reféns. Emagrecer é a solução e o passar do anos simboliza um inimigo mortal. Enquanto isso, a boa parte da população que se mantém invisível – e se diz confortável com essa condição – é obrigado à viver em um mundo de consumo onde o padrão são os manequins das lojas. Tudo é preciosamente imposto e deliciosamente oportunista e nós? bem, somos escravos e, por esse motivo, ainda não nos habituamos com a ideia de que somos e são todos imperfeitos.

Eduardo Casanova é um jovem de vinte e seis anos que parece compreender isso e ter a audácia de falar há tempos sobre a questão, desde o curta “Eat my Shit“, o qual serviu como inspiração para esse longa. Pieles (2017) resgata a atmosfera surreal e maluca de Jodorowsky com o charme e narrativa direta do Almodóvar, ainda há uma inteligência por parte do diretor em conduzir uma grande história em pouco tempo e que ainda acompanha momentos da vida de diversos personagens. O resultado de tudo isso é que o espectador ama ou odeia essa obra, mas é inevitavelmente incrível quando a percepção sobre o grotesco vai se modificando em base à qualidade argumentativa e toda a bizarrice se transforma em poesia.

As cores rosa e roxo se dividem no protagonismo das cenas, e ainda ilustram perfeitamente algumas lacunas emocionais, é possível compreender exatamente os conflitos que unem todas personagens e os detalhes que as separam, dores exclusivas são ressaltadas com a leve diferenciação das cores e iluminação. A sintonia aqui tem resquícios depressivos, os personagens são “deformados” pois assim se enxergam e esse sentimento encontra o seu agravante com os julgamentos alheios. Mas cabe ressaltar que não existe surrealidade em uma mulher que, ao invés da boca, tem um ânus no rosto, isso porque tem muita gente por aí que dedica sua vida, seja pessoal ou profissional, para falar e comer merda – perdoem-me minha impolidez, mas a obra exige o um manifesto direto; não existe monstruosidade em um menino que quer cortar as suas pernas, afinal, muitos possuem saúde e não se contentam, submetendo-se à infinitas cirurgias afim de encontrar a sua completude, como se a existência se resumisse somente no exterior.

Quanto mais as coisas se aceleram e a tecnologia encontra o seu estágio máximo, mais a humanidade se amputa. Parece que o homem em sociedade nunca está confortável, nunca se aceita como é: normal e repleto de erros. O maior erro é rejeitar a possibilidade de felicidade para vestir uma fantasia de ursinho, de modo que a fofura artificial da roupa sintetize tudo aquilo que nós poderíamos ser, mas não somos por falta de carinho com nós mesmos.

Se não bastasse, o sistema existencial cobra desses indivíduos perdidos que se achem nos espaços vazios de um outro alguém. Criam-se relações que trazem consigo uma gama de interesses movidos pela fragilidade. Se o padrão manipula nossa sagrada imagem refletida no espelho, quem dirá uma vida em dois, em três, em sucessivos infinitos.

Às vezes nos sentimos esgotados em um mundo de aparências. Sorte que todos, direta ou indiretamente, estão com os olhos tampados diante à uma imensidão de nuncas. No entanto, é triste afirmar que nem todos conseguem ultrapassar essa limitação com olhos de diamante. Resta para os outros roubar essa singularidade e evacuar no banheiro.

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A Máscara de Satã (1960)

A Máscara de Satã (La Maschera del Demonio, Itália, 1960) Direção: Mario Bava

“Quando eu faço filmes de horror, meu objetivo é assustar as pessoas, mas ainda assim eu sou um covarde de coração fraco. Talvez por isso que meus trabalhos ficam tão bons em apavorar o público, pois eu me identifico com meus personagens… Seus medos também são os meus”.

Essa frase do mestre do terror italiano Mario Bava serve como um desabafo profundo, no mesmo tempo que funciona como uma ponte para compreender os seus filmes. A imersão do espectador nas suas obras é excelente, isso por conta da atmosfera bizarra e onírica que o diretor desenvolve em seus trabalhos.

Mario Bava é um dos maiores nomes do cinema de horror e teve um impacto muito grande na era de ouro – cujo período vai de 1957 até 1979. Os seus filmes alinham uma técnica impecável, tanto visual quanto sonora, com os roteiros geralmente a frente do seu tempo. Muitas das suas histórias chocavam o público conservador, isso em décadas onde a exposição no cinema ainda era debatida entre os intelectuais por conta da pluralização do audiovisual.

A Máscara de Satã (1960) começa com uma cena na Idade Média, onde uma bruxa está prestes a ser queimada na fogueira. Ela tem o seu rosto dilacerado por uma máscara cheia de lâminas, mas antes de morrer joga uma praga em todos os homens presentes. Dois séculos depois o local permanece amaldiçoado e muitas pessoas sofrerão as consequências.

Esse é um dos primeiros filmes do diretor e sem dúvida mais uma grande prova da sua transgressão. Se não bastasse algumas cenas fortes, tecnicamente o filme é impecável. Desde a edição de som – que por vezes cria ruídos afim de acrescentar tensão ao clima soturno – até a magnífica fotografia monocromática, todos os segmentos andam lado a lado para a construção de um universo gótico e ameaçador. Ainda sobre o visual, é importante ressaltar as decisões de enquadramento do diretor que filma os seus personagens, principalmente os vulneráveis, através de pequenos espaços, algo que traz uma sensação de desconforto, como se estivessem sendo seguidos e observados constantemente. O uso excelente das sombras também é importante, acrescenta toques macabros em uma obra que prima pela sua ambientação aterradora, seja em exteriores com as névoas e floresta macabra típica ou as internas em uma mansão com detalhes mal assombrados, a provocação do horror é puramente fruto de uma orquestra.

Após a introdução na Idade Média, o filme introduz dois personagens centrais que chegam ao local amaldiçoado duzentos anos depois. Essa apresentação é feita de maneira direta e inteligente, sintetizando o que teremos a partir de então. Um personagem entende alguns conceitos da bruxaria, enquanto o outro se mostra ávido por informações. Essa divisão facilita o roteiro que se desenvolve em base ao imediatismo de informações sem, contudo, esquecer a ordem e equilíbrio, a proposta é mesmo a imersão no horror através de algumas cenas pesadas para a época e outras inevitavelmente engraçadas.

No entanto, esse é um dos trabalhos mais brilhantes do mestre Bava. Uma perfeita demonstração de alguns dos principais conceitos que perseguiram o seu trabalho, principalmente no que tange o perfeccionismo técnico. Há de ser mencionado também a atuação da Barbara Steele – que diversas vezes lembra muito o Michael Jackson – que provoca o pavor somente com os olhos. Sua expressão gélida é totalmente sincronizada com a energia da obra. 

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Stanislavski e a Preparação do Ator

A palavra teatro (théatron) deriva dos verbos gregos “ver, enxergar” e significa lugar de onde se vê. A grande afirmação para essa questão é: não existe um só lugar que não enxergamos a vida acontecer diante dos nossos olhos. Como tal, o teatro funciona como um reflexo da realidade, movimentos cautelosos ou violentos criados a partir da ânsia do homem em se imortalizar. A expressão corporal e vocal exala uma propriedade mística, por isso desde o começo do teatro – cuja origem segue sem explicação – ele está estritamente ligado com rituais para o divino.

Quem sabe a teatralidade tenha começado na pré-história, talvez com algum homem imitando os animais, brincando, não sei. A única coisa que tenho certeza é que o homem existe e, por isso, modifica o meio e sua própria vida para seguir sobrevivendo; é isso que fazemos, reinterpretamos constantemente tudo e duplicamos nossa própria vida em busca de outras experiências. Não seria exatamente essa a maior dor que existe? as infinitas possibilidades desperdiçadas, os caminhos misteriosos do “e se?”.

Nesse artigo irei analisar alguns aspectos importantes da preparação do ator em base ao livro A Preparação do Ator de Constantin Stanislavski. Clássico literário que serve como essência para a formação de atores e cuja importância histórica é gigantesca. A título de curiosidade, Charles Chaplin citou uma vez o livro e o analisou como excelente não só para os interessados em atuar, como para a vida. Em base a essa frase, pode ter certeza que o livro te ajudará a aplicar alguns conceitos teatrais nos seus projetos, seja eles no audiovisual, teatro ou em qualquer área profissional, artística ou não.

Constantin Stanislavski nasceu na cidade de Moscou em 5 de Janeiro de 1863 e desde cedo teve contato diretos com a arte. Inclusive na sua casa ajudava na manutenção de um pequeno teatro, onde haviam apresentações para algumas pessoas da sua família. O mesmo local era um abrigo eventual para grandes intelectuais da época.

Com 25 anos ele fundou junto com algumas pessoas a Sociedade Literária de Moscou visava discutir sobre a arte performática. Com o passar do tempo, mesmo com o relativo sucesso, ele não consegue mais sustentar esse grupo, pois todos os custos saiam do bolso deles e o negócio se tornou inviável.

Mas o milagre artístico aconteceria mesmo 10 anos depois, quando após diversas correspondências dele com o Vladímir Dântchenco, os dois resolveram se encontrar e desse encontro surge a ideia de criar o Teatro de arte de Moscou. E esse foi o princípio da mudança do teatro mundial, pois os dois mestres intelectuais discutiam e inventavam a cada dia métodos teatrais que resgatavam a visceralidade performática que estava sendo esquecida na época. Essa contribuição foi e é impactante, pois quebrou o conservadorismo e deu um pontapé na liberdade de expressão, cujos movimentos no palco deveriam ser pautados na realidade e não no exagero, ou como o próprio Stanislavski cita bastante… “atuação mecânica”.

Atuação mecânica, resumidamente, seria aquela postura do ator em exagerar os seus movimentos de forma a caracterizar uma interpretação, o ator se exibindo como ator. Em síntese, o teatro busca a realidade na sua mentira, por isso há pluralidade e possibilidades infinitas quando pensamos em escolha de elenco. O diretor deve escolher o ator e ele, por sua vez, deve sentir o seu personagem. Caminhar com ele e entendê-lo – sobre qualquer circunstância – até mesmo no camarim ou nos intervalos de cena.

Sobre isso, há uma passagem interessante no livro:

“Lembrem-se disso: todos os nossos atos, até mesmo os mais simples, que nos são de tal modo familiares na vida cotidiana, tornam-se forçados quando surgimos atrás da ribalta, perante um público de mil pessoas. Por isso é que temos que nos corrigir e aprender a andar novamente, a nos mover de um lugar para o outro, a sentar ou deitar. É essencial nos reeducarmos para olhar e ver no palco, para escutar e ouvir”.

Qualquer pessoa que já atuou sabe o quão impactante e verdadeiro é esse trecho. Um levantar de braços durante uma apresentação parece que dura uma eternidade, como se pequenos detalhes fossem difíceis de realizar. Claro, a insegurança é quebrada conforme as repetições e ensaios, no entanto, no sentido filosófico, nenhuma ação enquanto apresentação é simples. Quando o ser humano se torna o centro das atenções e expectativas, não existe meio termo: ou ele se sente poderoso demais ou de súbito percebe a sua pequenice. Pessoalmente, sinto que o trabalho constante do ator é encontrar o meio termo entre esses dois extremos.

Stanislavski dizia também que o ator deve ser um intelectual, se interessar por áreas diferentes e observar o que acontece diariamente ao seu redor. Isso porque precisa absorver os detalhes do cotidiano de forma a compor as suas personagens. Essa ideia parece óbvia hoje, mas imagina na época? os seus métodos tecnicistas envolvem uma série de conhecimentos, que vão desde a medicina, alongamentos, passando pela psicologia, meditações, enfim, os seus escritos demonstram um alto domínio de tudo que envolve a construção da arte teatral.

A sua escrita é inteligente pois mistura a ficção de modo a estruturar com mais força os seus métodos. A sua proposta é fragmentar o papel do ator e transformá-lo em um equilíbrio ambulante, para que ele consiga buscar em si exatamente os conceitos que unem a atenção, desprendimento e espiritualidade. O ator precisa ser curioso ao ponto de perceber nuances da voz e interrogar aquilo que não compreende; ter coragem para se jogar no palco e não se interessar pelas consequências mas sim pelo sentimento do momento em relação à entrega total, fisica e psicologicamente;

Em um artigo que expliquei como e por onde começar a estudar cinema, enfatizei a importância de estudar separadamente a história e métodos do teatro – inclusive um dos livros que recomendei é justamente A Preparação do Ator.

Analisar a atuação no cinema é mais complicado pois existem centenas de ferramentas artísticas que manipulam a performance, mas aos cinéfilos e estudiosos do cinema, é interessante a leitura do Stanislavski justamente para entender a dificuldade do bom ator em reunir uma série de informações e as carregar consigo enquanto tenta se manter em equilíbrio entre a sua verdade e a criação de uma nova vida que, porque não, será moldada a partir de uma mesma essência.

Stanislavski, assim como outros pensadores, contribuiu para o pensamento crítico da arte mais pura de todas. Ele elaborou uma série de sequências didáticas, popularmente conhecidos como “sistema Stanislavki”, que assumem uma importância histórica enorme pois dialoga com outras áreas do conhecimento humano. As técnicas, nas palavras dele, “não fabricam a inspiração, mas criam um terreno favorável pra ela.”

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Anticristo (2009)

O homem é uma semente rebelde da natureza

O prólogo de Anticristo (2009) está repleto de informações e é a única sequência do filme que é maravilhosamente delicada – e tal afirmação pode ser entendida de forma monstruosa, dado o contexto do início. Charlotte Gainsbourg interpreta “Ela” e Willem Dafoe faz “Ele” – e é dessa maneira que irei me referir aos personagens ao longo do texto. Em pleno orgasmo não existe mãe ou pai, somente duas vidas tentando encontrar o prazer em uma energia simbiótica cujos movimentos são conhecidos popularmente como “sexo”. E é isso que o ser humano faz, ele busca prazeres, até mesmo na estagnação.

O filme para mim, é importante ressaltar desde o início, conversa com o espectador e suas dores sobre o estado puro do homem, o qual remete diretamente para a origem da vida e do pecado. O homem primata possuía o mundo como palco, mas estava repleto de limitações territoriais. A noite era representação do perigo, as caças eram sinônimo de poder e a conversação com as divindades eram feitas através da arte rupestre. De imediato percebemos a conexão infinita da humanidade com a natureza e a tentativa frustada de sobreviver nela.

Resta ao ser somente o prazer. Estar presente sem propósito é sufocante, por isso que é importante sentir a felicidade, mesmo que ela se origine de uma ilusão. E é isso que o homem sempre buscou, inclusive na modernidade. Buscamos a felicidade, mesmo as que duram apenas alguns segundos, tudo isso porque não aguentamos a realidade despida.

“Ele” e “Ela”, em Anticristo, representam toda a humanidade que luta contra a natureza no momento que padroniza a sua existência. Criando laços afetivos e se acomodando como conforto. “Ela” é a primeira a se desprender dessa realidade inevitável, ao passo que goza. O gozo traz consigo a dor da vida e morte e o ciclo se repete infinitas vezes. O prazer, que outrora era personificação do homem individual e egoísta, cria novas oportunidades e seres, todos fadados à enfrentarem a mesma maldição e benção de existir.

A cena do prólogo é envolta de uma música gregoriana chamada “Rinaldo, lascia ch’io pianga”, cuja letra é bem significativa para o entendimento do filme:

“Deixe que eu chore minha sorte cruel, que eu suspire pela liberdade. A dor quebra estas cadeias de meus martírios, só por piedade!”

O slow motion traz a beleza visual de movimentos simples e catastróficos, no mesmo tempo que diferencia aquele instante dos infinitos outros que se passarão a seguir na vida do casal. Enquanto fazem sexo, o filho cai da janela e encontra o seu fim. A apresentação do trágico não poderia ser mais claro, o vento que abre a janela (portal da morte e desesperança) é quase perceptível, a câmera focaliza três soldados em cima da mesa, todos juntos trazem a seguinte mensagem: Dor, tristeza, desespero”. E é exatamente esses três sentimentos que estarão presentes ao longo de uma hora e quarenta e oito minutos. 

A tristeza invade os protagonistas e, por consequência, o espectador. “Ela” é a que mais sente o falecimento do filho, principalmente pela culpa. Na verdade, a mulher aqui é a que não teme exibir suas dores, no mesmo tempo que “Ele”, por ser um psicanalista, se esconde atrás da sua profissão e passa a se dedicar na recuperação da esposa. O laço familiar – que é intrínseco ao homem ou é imposto pela própria sociedade? – é quebrado, a esposa passa a ser objeto de estudo, uma simples paciente, cobaia e escudo.

Um momento que comprova o início da obsessão por parte do marido, é a cena do hospital. Onde ele acompanha os mínimos avanços psicológicos da esposa e se coloca como superior ao médico e se prontifica a curá-la, com a justificativa de que “ninguém a conhece tão bem quanto ele”. Essa afirmação não só demonstra a sua arrogância, como também deixa ainda mais ambíguo o seu estado psicológico, visto que está em pleno desequilíbrio entre o profissional e pessoal.

Os diálogos iniciais apresentam sempre “Ele” em primeiro plano e “Ela” ao fundo, com o rosto desfocado – elemento que será repetido no final do filme, onde diversas mulheres com o rosto borrado invade a floresta. Ainda mais, em vários momentos ela está posicionada abaixo do marido, como se fosse visualmente inferior a ele por conta da debilidade psicológica. Essa postura ilustra uma verdade social: a de que o ser humano, muitas vezes, recusa até o último momento expor as suas fraquezas, mesmo quando o desabafo é a única maneira de continuar caminhando.

Homem e mulher passam pela mesma dor. Mas a forma que eles lidam com ela determina exatamente as consequências que veremos a partir de então. Em singelas cenas, “Ele” é filmado entre paredes, lugares desproporcionais, ângulos diferentes, que representam os seus sentimentos silenciosos diante à fatalidade.

Quando “Ele” pede para sua esposa se imaginar no Eden – floresta que representa o maior medo dela -, ela o faz e se vê caminhando por entre a mata em câmera lenta. Assim como o prólogo, o tempo indica a fusão entre o ser humano/mulher e a natureza. A humanidade está livre e abandonada, a frase “a natureza é a igreja de Satã” ilustra exatamente isso. O conceito de Satã, nesse momento, faz referência à filosofia de Anton LaVey, que classifica satã como uma metáfora da natureza, não apenas como uma síntese do mal.

A comunicação dos protagonistas na floresta sempre é distante, ambos se apoiam um no outro e na ilusão para o equilíbrio. Ela usa da persuasão para soar como curada; ele simplesmente se apoia na intelectualidade. Ela é o cervo que carrega em sua traseira o filhote morto e ele é a raposa que come a si próprio, ambos retornam para suas versões selvagens, inclusive ele ouve a raposa dizer “O caos reina”, frase que contradiz a sua posição profissional até o momento.

A jornada de retrocesso filosófico, onde um homem e uma mulher se aceitarão como uma só dor e compreenderão que a maldição do homem civilizado é recusar a verdade de ele e a natureza são a mesma coisa, chega ao seu ápice quando a dor psicológica transborda ao ponto de ambos se agredirem fisicamente. A começar pelo sexo na floresta, onde há um corte e unido com uma ausência sonora assustadora, é possível ver diversos corpos enterrados em baixo das raízes de uma grande árvore – seria o fruto proibido? – até culminar na agressiva cena onde a mulher masturba o seu marido e ele ejacula sangue. A vida e morte se encontram nesse momento. A esperança morre e os três mendigos assumem o mandato, não só do casal, mas do mundo. Afinal, dor, desespero e luta é o que há, a realidade que teima em ser rejeitada por momentos ilusórios de felicidade.

Anticristo se trata de um monólogo de um diretor amargo e submerso na depressão que retrocede ao ponto em que todos os homens estão nus, cegos e incompreendidos pela própria natureza. Através da melancolia ele consegue desenvolver uma obra que conta uma só história repleta de referências bíblicas e filosóficas, e que, por isso, consegue se desdobrar e envolver diversas camadas, principalmente as relacionadas com a natureza humana e sua postura diante do inevitável processo de abandono e fim.

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Wend Kuuni, 1983

Wend Kuuni (Idem, Burkina Faso, 1983) Direção: Gaston Kaboré

Burkina Faso é um país altamente pobre do continente Africano. A pequena população passa fome, as crianças, na sua maioria, são desnutridas, ao ponto de terem que se alimentar de lagartas das árvores de karité para sobreviver. Mas uma curiosidade que chama muito a atenção é que o pequeno país produz uma quantidade enorme de filmes, inclusive sedia o maior festival de cinema do Continente Africano: o Fespaco.

Inclusive um filme da Burkina Faso já ganhou a Palma de Ouro em Cannes, se trata do maravilhoso “Tilaï”, ou “Questão de Honra” (1990). Essa obra traz consigo um registro visceral do povo, com uma narrativa que se desdobra, dentre outras coisas, em uma relação proibida.

Wend Kuuni foi lançado sete anos antes, dirigido pelo Gaston Kaboré – cujos filmes são raros, mas de extrema relevância quando tratamos sobre o cinema Africano – e que tem em sua essência a linguagem documental. A relevância da obra é justamente acompanhar um povo e a sua rotina, principalmente os seus trabalhos, através dos olhos de um pequeno menino que se perde e é adotado por uma nova família.

Quem interpreta o protagonista, Wend Kuuni, é o Serge Yanogo. Um trabalho impressionante pois determina exatamente a energia do filme, a sua performance é pautada na naturalidade, no entanto a força da sua expressão faz com que a história ganhe novas proporções. É de se notar que todos os eventos partirão da sua, a princípio, incomunicabilidade – o menino, após o trauma de se perder, não tem forças para falar e isso é altamente metafórico -, passando pela adaptação com o novo povoado. Os passos do protagonista representam não só as dores das suas tristes experiências, como também sinalizam o caminho que o espectador percorrerá. A partir dele, vários temas subliminares aparecem, o mais expressivo deles, sem dúvida, é a condição da mulher e o seu aprisionamento dentro do próprio sistema de vida. Isso pode ser ilustrado em dois momentos: um é quando acontece uma briga entre um casal no povoado, onde a mulher se revolta com o seu marido, o qual grita que a castigará fisicamente. O segundo momento é uma pequena garotinha – que passa a ser a irmã do Wend Kuuni – imaginando ser homem, chega inclusive a mencionar uma história de “espíritos que transformam mulher em homem”.

Mas os temas, motivados pela simplicidade do filme, afinal, é perceptível o orçamento quase inexistente, aparecem de forma tímida, sempre enraizadas com a cultura. A proposta é mesmo ser extremamente visceral e tanto o estilo de vida do povoado, quando a paisagem seca, ajudam nessa intenção.

A trilha sonora é constante, a música delicada pontua um cotidiano comum e regrado de trabalho, principalmente o artesanato. Importante ressaltar que o protagonista, na sua outra vida, era um caçador. Portanto precisa se adaptar, também, a um estilo de vida equilibrado, mesmo diante a fome e pobreza.

Mesmo que Wend Kuuni nunca atinja um ápice dramático, se trata de um filme altamente importante do país, principalmente por se tratar de uma arte altamente real. Existe muita beleza na simplicidade das cenas, das atuações e da própria história. O cinema parece ser feito disso, oportunidades únicas e ideias que captam a realidade de determinado grupo social, indivíduo sem lugar e adaptações com o diferente. O potencial dramático de um garoto calado, sofrendo suas dores sozinho, é grande, principalmente quando ele representa a história e condição de um país inteiro.

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A Harpa da Birmânia, 1956

A Harpa da Birmânia (Biruma no Tategoto, Japão, 1956) Direção: Kon Ichikawa

A mesma guerra que transforma indivíduos em heróis, ganha contornos épicos e salienta os interesses do poder, transforma vidas cabíveis dos mais diversos sentimentos em corpos podres jogados no chão. É a personificação da brutalidade do homem, inerente às suas raízes, vai de encontro ao fim, provando sua força e coragem, sob o respaldo de uma intenção dos gigantes que, confortáveis, repousam nas suas salas de estar.

Ninguém pensa no soldado que, em meio ao desespero, desiste de ser herói. Aquele que, ao ver o seu amigo despedaçado por um tiro de canhão, clama por perdão, principalmente por estar em meio à uma peça de xadrez, onde os intelectuais movimentam seus peões e os sacrificam. A guerra transforma o ser humano em um amante do vazio, reduzindo o seu intelecto à uma programação segmentada; faminto, refém e permanentemente envolvido com a morte.

A Harpa da Birmânia vai de desencontro do famoso cinema popular de guerra, e concentra a sua atenção nas consequências dela no psicológico de um indivíduo, bem como a união de um grupo que, mesmo em meio ao caos, ainda tem forças para cantar. De imediato, percebemos uma proposta de reflexão do filme em questionar a situação que percorre, sem fazer propagandas, exaltação de feitos heroicos ou apontar vilões. É muito comum filme do gênero estabelecer imediatamente o inimigo, como forma de engrandecer um dos lados. Na verdade, isso se trata de uma ilusão, pois estando na guerra qualquer grande feito é criação de muitas mortes e dores, não existe inimigo e mocinho quando ambos defendem aquilo que acreditam.

A história do filme acontece no final da Segunda Grande Guerra em 1945, e se inicia com a apresentação de uma tropa japonesa que é, por ventura, liderada por um capitão apaixonado por música e que demonstra grande confiança por um dos soldados, o harpista do título, Mizushima – interpretado pelo Shôji Yasui, que fez poucos trabalhos mas imortais na história do cinema japonês. Na fronteira da Tailândia, essa tropa fica sabendo da rendição do Japão e entrega suas armas para os ingleses. Enquanto isso, o harpista é encarregado de levar a notícia para outra tropa que estava prestes a enfrentar os inimigos. No entanto, eles se recusam a perder suas dignidades através de uma rendição e morrem em batalha. Mizushima sobrevive e, ao invés de voltar para os seus amigos e esperar o dia de retornar para o seu país e ajudar na sua reconstrução, ele rouba as roupas de um monge e caminha por entre os destroços da guerra, rezando e enterrando os seus parceiros, meditando em silêncio e se desprendendo do passado.

Se trata de um dos filmes mais anti-bélicos que existem, pois mesmo que se contextualize em um ambiente assolado pelas sombras, se atém aos homens iluminados nessa jornada de purificação. A sobrevivência aqui é tratada como uma benção e maldição, em nenhum momento a tropa é vista como bondosa, apenas nos é lembrado constantemente da sua humanidade, que inclusive está diretamente ligada com a música que os envolve em momentos de tortura, seja física ou psicológica.

O vasto deserto que serve como pano de fundo para letreiros informativos no começo, é uma feliz ilustração do que está por vir. O protagonista caminhará por esse plano vazio e solitário, como se cada passo expurgasse os seus conflitos internos e traumas, fazendo com que esse ser não seja merecedor dos milagres da existência e estivesse, por consequência, fadado à andar sem propósito. O diretor Kon Ichikawa – um dos mais importantes diretores japoneses da história, tendo feito grandes clássicos como Kokoro (1955), Ten Dark Women (1961) e As Irmãs Makioka (1983) – consegue criar um filme épico e melancólico, sem querer chamar toda a atenção para si, mas sendo altamente técnico e inteligente na direção, não à toa a simetria e coerência visual que está presente desde o primeiro quadro até o último. As imagens acima ilustram um singelo corte que alinha os soldados posicionados com perfeição em meio à mata e logo em seguida os seus pés caminhando nas areias, buscando um destino. Esses cortes, imagens sobrepostas e, principalmente, posicionamento dos soldados no quadro, irão se repetir diversas vezes.

A obra é altamente metafórica quando deposita todas as suas atenções em soldados que, em diversos momentos, cantam e reconhecem de longe o som da harpa do amigo Mizushima. Como se sua harmonia soasse parecida com uma luz dos anjos, um caminho doce a ser enfrentado e, por que não, a própria esperança. A catástrofe amansia esses homens, de modo que todos interajam perfeitamente com a versão mais pueril de si, despidos de camadas sociais pois, nesse momento, são sobreviventes, são livres. Levam consigo o terror das mortes, óbvio, assim como são frutos de interesses – e isso fica nítido visualmente, pois sempre há soldados pressionados entre outros personagens, cercas etc – mas estão em plena recuperação, pois tiveram a arte funcionando como um Fio de Ariadne, que os conectava com resquícios de diversos sentimentos, como a empatia.

Visão dos soldados que encontram Mizushima transformado, solitário e vagante. Ele está ao lado de uma criança que carrega uma harpa (esperança), se encontra livre.

Já os soldados que retornarão para casa, estão apertados ao lado do outro e atrás da cerca. Juntos, sim, mas fadados à enfrentarem as consequências dos seus atos, bem como carregar as mágoas do contexto caótico para o resto de suas vidas.

Na Birmânia ou Myanmar era comum a prática do budismo de Theravada, o qual tenta resgatar perfeitamente os ensinamentos de Buda. Mizushima desde sua primeira aparição é trabalhado como o símbolo da subversão, traz a amenidade e faz emocionar somente com o movimento comum, mas grandioso, de jogar a arma para o lado e carregar a harpa. Como um escudo, como um mantra. A sua harmonia conduz os pecadores ao caminho da nova chance. Não é só os soldados, mas também o garotinho que pede esmolas.

Como não se emocionar com cenas maravilhosas como o monge caminhando na praia e avistando uma pilha de corpos no chão, no mesmo tempo que tampa os olhos e atravessa o local correndo. Como uma criança repleta de medo e que não teme demonstrá-los a quem quer que seja. Como pode um homem valente reduzir-se (agigantar-se) a tal ponto? A trilha sonora dá ênfase à profundidade dramática desses silêncios, como se conversasse com a alma. Aos pacifistas e amantes da música, é um milagre acompanhar essa jornada de um homem só, se entendendo como nada, buscando o nirvana e respeitando aqueles que se foram ao ponto de rastejar pelos seus restos como forma de manter viva as suas honras. Ele aprende a respirar diferente, pensar diferente e se comunicar, só a possibilidade de se manifestar verbalmente dói, portanto usa a sua música e um pássaro para criar mais um elo entre o estranhamento e o propósito. O ser invisível jamais voltará as suas terras, pois dela muitos partiram ao encontro do fim.

“Para a terra não basta cobrir um morto[…] Adeus aos amigos que retornam à Pátria”.

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No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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Califórnia, 2015

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O ano é 1984. Estela vive a conturbada passagem pela adolescência. O sexo, os amores, as amizades; tudo parece muito complicado. Seu tio Carlos é seu maior herói, e a viagem à Califórnia para visitá-lo, seu grande sonho. Mas tudo desaba quando ele volta magro, fraco e doente. Entre crises e descobertas, Estela irá encarar uma realidade que mudará, definitivamente, sua forma de ver o mundo.

“Califórnia” é uma junção de diversas coisas deliciosas que estão relacionadas com um tempo específico mas que, nem por conta disso, são apenas lembranças. Mesmo que o filme se passe nos anos 80 e se utilize de algumas características como o ponto principal para a trama, seja no figurino ou as músicas que, por sua vez, impactam a personalidade dos personagens, o comportamento do jovem é um ciclo atemporal.

Marina Person é uma diretora que sempre esteve envolvida com a música e com a juventude, trabalhava na MTV; depois foi dirigir um documentário, “Person”, sobre a vida do diretor Luiz Sérgio Person. Em sua mais recente obra – e primeiro longa de ficção da sua carreira – ela imprime diversas experiências pessoais em suas personagens, utilizando-os como avatares não apenas de um tempo, como de si. Aventurando-se pela descoberta do próprio corpo e diante ao processo natural de se tornar adulto.

O filme começa com a protagonista Estela ( Clara Gallo ) menstruando. Nesse momento ela tem 15 anos e, assim como qualquer garota dessa idade, se sente um monstro, anormal.

Então acompanharemos esse caminho, repleto de singelas descobertas, comunicações frágeis e influência cultural. Ainda há espaços para temas importantes como a AIDS, novamente, inserida em um contexto, visto que nos anos 80 era impossível transar sem se preocupar com a terrível doença e a transformação física, no caso dos portadores, era muito mais evidente.

Caio Blat demonstra mais uma vez o seu talento e compõe um personagem doce, delicado e simpático, chama a atenção constantemente e simboliza o desprendimento da protagonista. A obra começa com a menstruação e termina com Estela perdendo a virgindade. Sugerindo que, a partir daquele momento, nasce uma mulher.

É um filme feliz na sua naturalidade, ideal para relembrarmos de algumas das maiores características culturais dos anos 80.  Ainda há espaço para curtir a inocente juventude com um sorriso sincero no rosto, algo muito comum em filmes como “Clube dos Cinco” que, a própria diretora afirma, serviu como inspiração para “Califórnia”.

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Imagine, 2012

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Imagine (Idem, Polônia, 2012) Direção: Andrzej Jakimowski

“Imagine”, de 2012, é um filme dirigido por Andrzej Jakimowski, que acompanha a história de um professor cego que é convidado para dar aula em uma escola – também para deficientes visuais – e, aos poucos, ele vai implementando uma forma ousada de trabalho, no qual se propõe a aumentar o senso de criatividade dos alunos em base ao som das coisas. Essa postura vai de desencontro com o que a escola acredita ser uma boa educação, ainda mais, o professor se arrisca andando sem ajuda de nenhuma ferramenta, o que preocupa ainda mais a escola pois temem que um aluno seja atropelado ao caminhar pelo pátio confiando unicamente na sua intuição e sensibilidade auditiva.

Começamos pelo maior ponto positivo que é, sem dúvida, a intenção de explorar a importância da imaginação enquanto somos vivos. Muito distante do fato da perca de visão, o filme sugere à todos espectadores uma experiência carinhosa: sermos cegos por uma hora e quarenta minutos. Ser cego todos àqueles que não reparam nos detalhes das coisas mais simples são, o filme trabalha essa questão de forma linda, cativante e realista, inverte os papeis e coloca a limitação visual apenas como mais uma barreira imposta pela vida. Com a ajuda do som – excelente durante todo o filme – podemos perceber quantos barulhos existem no mundo, cada passo no filme é alto, com a clara intenção de priorizar aquilo que os personagens estão em contato.

O som é tão destacado, que até mesmo reconhecemos os passos dos personagens principais, bem como o lugar que eles estão. Por diversos momentos me peguei fechando os olhos e escutando o filme com muita atenção, em seguida descrevia, ainda com os olhos fechados, o que se passava visualmente. É uma experiência arrebatadora e muito interessante.

No entanto, preciso mencionar os lados negativos também e começamos pelo roteiro. Mesmo que a ideia seja interessante e bonita, o desenvolvimento é praticamente o mesmo visto em inúmeros filmes que envolve um professor, uma ideia diferente, alunos e tudo isso se chocando com a ideologia da escola. Isso sem contar o ritmo lento que, infelizmente, fica ainda pior com algumas cenas que se repetem.

Por fim, “Imagine” é uma ideia muito boa, acompanhada de perto por uma má execução. Salvo, felizmente, por algumas cenas emocionantes como a do final, interpretação do Edward Hogg – é perceptível muita entrega do ator ao desenvolver o protagonista – e, claro, o som. Mas ainda assim é extremamente conhecido na polônia, tendo ganhados inúmeros prêmios incluindo direção, filme e som.

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