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No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

A Quinta Estação (2012) de Jessica Hope Woodworth e Peter Brosens

A Quinta Estação (La Cinquième Saison, Bélgica/França/Noruega, 2012) Direção: Jessica Hope Woodworth e Peter Brosens

O ser humano, desde o seu primórdio, se sente o centro da existência, a última estância no que diz respeito à evolução. Com o passar do tempo percebeu suas fraquezas e sobrevive desde então através da consciência e manipulação de ferramentas. O humano acostumou-se com o fácil, preservou-se da luta e acomodou-se com a rotina. Hoje o declínio psicológico comprova justamente a inércia do homem em relação às facilidades do mundo. Nós comemos como reis, poluímos os dias com o a ocupação do tempo, como se os minutos existissem para serem descartados e vivemos pouco o presente. O corpo e mente estão em lugares opostos, enquanto um molda o futuro, o outro move-se lentamente e tenta compreender o hoje. Se não bastasse, o ser humano justificando sua própria fraqueza, se apropria de outros seres vivos e classifica-os como escravos. Imaginamos um mundo de bondade mas permitimos que matem para comermos, comemos mais do que o suficiente e temos mais do que precisamos.

“A Quinta Estação” (2012) reúne diversas facetas de abusos e conformidades humanas e move apenas um detalhe para que possamos perceber o quanto somos mal-acostumados e oportunistas. Basta a natureza rebelar-se contra a humanidade, para a humanidade fingir ser a natureza.

As cenas partem de um trabalho de composição fantástico, onde os personagens e paisagem assumem uma importância enorme na criação surreal dos simbolismos. A direção de Jessica Hope Woodworth e Peter Brosens é inteligente na condução desses momentos aparentemente desconexos mas que representam fielmente a intenção por traz da estranheza. Desde a primeira cena, onde um homem encara um galo em cima da mesa, passando por uma em que temos uma personagem encostada em uma rocha e uma água começa a escorrer lentamente – lágrimas exteriorizadas em forma simbolicamente profunda – e no contraste entre o plongée quando mostrado o abatedouro e o contra-plongée para ressaltar a grandeza das árvores. O irônico é ver o desespero contemplativo de todos da pequena aldeia e, principalmente, a busca pelos porquês. A atitude é de devastação interna que percorre o todo, mas o sentimento sempre reduz qualquer atitude, como se fossemos merecedores da manipulação.

A dança conjunta e totalmente fora de sincronia, em um primeiro momento, bem como a filmagem estática e frontal, aliado com a constante fotografia pura e ao mesmo tempo gélida, os elementos fílmicos falam por si, por isso os diálogos em muitos momentos são desnecessários. A impressão é de que subliminarmente todos se perguntassem quem são os seres humanos? ou o que fizeram até tal momento. O filme é desenvolvido como se os dilemas éticos envolvessem os personagens e partisse, uma transformação ilusória, impulsionada por questões de segundos.

A quinta estação é o segmento psicológico, onde a adaptação acontece por interesse e não por solidariedade. “A Quinta Estação” (2012) não é primoroso como tenciona ser, mas é eficiente na reflexão do egoísmo humano e sua fragilidade diante aquilo que acredita possuir. Nessa trilha de interesses, basta a natureza estalar os dedos para nos amedrontar e exigir-nos uma readaptação.

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Quando o primordial do cinema são os espaços

Hong Sang-soo, um diretor moderno que trabalha os espaços de forma singular.

Quantos trabalham internamente e se dedicam em compreender o que há entre um espaço e outro? quantas vezes o silêncio e o vazio foram confundidos com a despreocupação ou incompetência? o momento exato que o homem atinge a sua completude artística é justamente quando compreende que os espaços são elementos fundamentais para a observação, seja qual for a matéria prima.

Com o imediatismo cada vez mais ascendente, principalmente com o apoio das mais diversas mídias, as palavras “parar” e “lento” ganharam fama de empecilhos mortais para a vida adulta. Tudo o que há de existir, precisa condizer com o ritmo acelerado da sociedade, caso contrário, se trata de um obstáculo para as coisas que realmente importam: status e visibilidade. Quantos sites de cinema existem e que possuem a urgência dos fatos, se veem como criadores, assim são chamados, mas a sua produção em alta escala se baseia apenas na repetição, não no argumento. O que vale mais, nesse exemplo, é a quantidade ou conteúdo? sem desmerecer os que enriquecem – espiritualmente e financeiramente – com essa proposta, mas essa interrogação é sensível ao ponto de demonstrar o interesse sincero no coração do escritor e não apenas na sua produção desenfreada. O tempo é uma ilusão criada para temermos o acordar, contudo, no campo artístico, seja na sua produção ou análise, temos a oportunidade de esquecer que essa palavra existe e, quando perdemos o interesse na classificação, estamos livres para pensar e agir como quisermos.

A inspiração desse devaneio parte do naturalismo e espaçamento visto no trabalho do Giotto di Bondone. Um artista que precedeu o Renascimento e que quebrou a convencionalidade artística ao dar espaço aos personagens de sua pintura, sendo assim, a partir do momento que se quebra o limite – ainda que isso só seja possível em doses homeopáticas – temos uma arte que explora o visceral, aproxima aqueles que observam com a sua própria realidade. É possível estender essa discussão para o cinema, onde temos filmes que trabalham com a ausência de diálogos como forma de simular o dia a dia, afinal, a existência não se sustenta apenas na comunicação verbal, mas sim infinitas expressões e movimentos, os quais são silenciosos e, por isso, facilmente confundidos com “lento”, “parado” e “irrelevante”.

Se retornarmos ao teatro como forma de ilustrar uma questão importante, percebemos que o roteiro é escrito em base ao exagero, nesse local sagrado tudo pode, todos sons são estridentes, a visão ampla é por si só a imersão que o público necessita para a provocação da visceralidade, a partir disso só temos a exibição. No cinema é o contrário, a gramática cinematográfica existe para transformar parte do todo em uma verdadeira composição metafórica, o quadro explora não só o significado real do ambiente como também utiliza parte dela para provocar uma ideia, a linguagem acontece não só pelo texto – com isso expressões, interação com o cenário, sons etc – como também a posição da câmera e o modo que ela é utilizada, ou seja, a percepção inicial do espectador fora modificada pelo artista, de modo que o quadro fale antes mesmo do diálogo. Por isso o cinema conta verdades através da mentira, pois o que sentimos como realidade representa tão somente o interno das personagens, não a totalidade.

Por conta disso, a sétima arte dialoga muito com os novos tempo, com o dinamismo citado anteriormente, ao passo que isso traduz com perfeição a postura do espectador enquanto sentado na sala de cinema ou no sofá da sua sala. A impaciência parece cria do “ritmo lento”, isso acontece porque fomos treinados desde pequenos com a linguagem norte-americana, a qual impõe que toda evolução da narrativa passa pela linguagem verbal e que a mise en scène funciona como uma agente em prol unicamente dos personagens e não o contrário.

Existem diversos filmes que desenvolvem suas personagens de forma indiferente, transformando-as em alienígenas em meio ao vislumbre do cenário e os diversos sentimentos provocados pelas decisões fotográficas ou auditivas. Com isso, a preocupação primordial do espectador passaria a ser no trajeto, nas consequências, nos intervalos e no silêncio. A câmera estagnada e um personagem caminhando de um lado do quadro para o outro, ou mesmo personagens falando em off como acontece em diversos filmes do Hong Sang-soo, essas são formas de traduzir o mundo tal como ele é: brando.

Em última estância, é primordial o estudo da nossa impaciência com os mais diversos ritmos cinematográficos que existem, é muito comum julgamentos sobre o fato de determinada obra “não dizer nada”, ledo engano, são nas ausências que se acontecem as mais maravilhosas observações sobre o homem, prova disso são nomes como o Terrence Malick, Nicolas Winding Refn ou mais extremo Lav Diaz. Que a nossa intolerância ao menos nos deixe em paz quando relacionamos com o campo artístico, pois o indivíduo que não compreende a magia do espaço, não consegue respeitar a si e muito menos a intenção daquilo que não compactua.

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A Ghost Story (David Lowery, 2017)

A Ghost Story (Idem, EUA, 2017) Direção: David Lowery

A Ghost Story (2017) não é um filme de terror – pelo menos no sentido literal – pois recusa constantemente a ideia de que o sobrenatural se desprende da realidade da qual conhecemos, é como se o fim proporcionasse uma experiência transcendental do experimento de si, da trajetória. O fantasma, associado evidentemente ao campo sensorial, é trabalhado aqui de forma curiosa: o diretor e roteirista David Lowery opta por mostrá-lo de forma infantilizada e clássica, as formas humanas são escondidas em um lençol com dois buraquinhos, os quais funcionam como ferramentas para captar a vida, mas que cuja escuridão não reflete a condição do florescimento do dia-a-dia.

A história é sobre um casal M (Rooney Mara) e C (Casey Affleck) que enfrentam a rotina entre a incomunicabilidade e o afeto, porém tudo muda quando C falece em um acidente de carro. O espectador é convidado para uma jornada com o seu fantasma, o qual observa atentamente a condição da sua esposa, bem como se mantém enraizado com o lar.

É de se notar, ainda sobre a figura do fantasma, os detalhes referentes aos olhos que, desgastados pelo tempo, vão alongando de modo que estejam coerentes com o tamanho da tristeza do protagonista; as sujeiras do lençol também são importantes para essa reflexão. Contudo, por se tratar de uma presença quase imóvel e que não tem diálogos, senão, por gestos, os sutis movimentos de câmeras e a fotografia falam pelo personagem e, mais do que isso, demonstram com perfeição sua psicologia desestruturada pela existência massante.

A razão de aspecto reduzida é uma decisão importante e diferente, assim como o conceito geral da obra, desde o início parece se tratar do passado dos personagens, e isso definitivamente faz todo sentido, pois passado, presente e futuro aqui simplesmente não importa. O cinema como reflexo da vida resgata a condição maravilhosa de se ater ao meio e não à finitude das histórias. O formato de tela traz uma sensação parecida com aquela provocada por uma fotografia antiga, ainda que seja possível relacioná-la, também, com a visão reduzida dos personagens que circulam pelo ambiente e tencionam fugir, de alguma maneira.

A partir disso, a fotografia é fantástica ao demonstrar, junto com a trilha, todas as dores, solidões e silêncios que o casal sente, mesmo que separados pelo término. As grades da janela aprisionando o fantasma, bem como sua presença desconfortavelmente estática ao fundo enquanto, em primeiro plano, M come uma torta com um misto de raiva, descontrole e desamparo – e essa posição se repete diversas vezes, o símbolo visual é forte ao exibir M constantemente nos cantos da tela, ao passo que o fantasma permaneça simetricamente no meio quando só.

A transição de tempo nessa cena, por exemplo, é feita com um símbolo em comum (música) através de duas perspectivas diferentes e sendo ressaltadas através da fotografia. O passado em cores quentes e o presente azulado, frio.

O diretor David Lowery é um nome interessante para acompanharmos nos próximos anos, jovem e que visivelmente possui muito talento e imaginação, consegue transitar com facilidade pelo alternativo e o popular, dirigiu o “Meu Amigo, o Dragão” (2016) no mesmo tempo que fez “Amor Fora da Lei” (2013), duas propostas completamente diferentes e ambos muito bons. É difícil encontrar um artista que em tão pouco tempo consegue assimilar esse dinamismo criativo e, mais do que isso, deixar sua marca autoral independente da grandeza do produto. No segundo exemplo, inclusive, foi o começo da sua parceria com o Casey Affleck e Rooney Mara.

Casey Affleck marca presença no primeiro ato de “A Ghost Story” (2017) e faz algo parecido com o seu personagem em “Manchester by the Sea” (2016), embora seja similar, o conceito do personagem também resgata uma tristeza mórbida, pois é sugerido o seu estado conformista durante os primeiros minutos, o deslocamento é uma tortura para ele. Já Rooney Mara demonstra mais uma vez o seu enorme talento ao se ater às nuances de uma personagem distanciada forçadamente do afeto. Contudo, as performances acolhedoras do começo são deixadas de lado em uma decisão corajosa no momento que o fantasma assume o protagonismo, a partir de então a narrativa passa a ter uma postura pouco convencional onde os inúmeros personagens, situações e ambientes possuem uma força deslumbrante sobre o fantasma que observa o tempo e os diálogos como forma de preencher sua curta existência afim de encontrar um meio de partir.

Há ainda uma participação do músico Will Oldham em uma pequena mas impactante cena, cujo conteúdo sintetiza a obra, demonstrando com isso o pessimismo de uma vida, feitos e criação esquecida pelo tempo. A ideia que é construída é dolorosamente visceral, o indivíduo se apagando aos poucos até se tornar um veículo, aquilo que passou significa pouco para o mundo, embora seja tudo para ele. Talvez a consciência desse fato – teoricamente simples mas inacreditavelmente complicado de ser aplicado na prática – represente toda a busca dos homens que, desde o princípio, busca o seu reflexo ao reproduzir a sua rotina artisticamente. Por que tencionamos construir um lar e uma cumplicidade com um outro alguém, sendo que cada um possui o seu tempo-espaço-necessidade individual?

“A Ghost Story” (2017) é feliz na criação de perguntas elementares, sem ter a mínima pretensão de respondê-las. Assim como o fantasma, contextualiza o espectador em uma belíssima oportunidade de refletir sobre a obra primordial, aquela que investiga os porquês das decisões, preocupações e patrimônios que nos deixam cada dia mais desumanizados. Apesar de delicado, o único momento agridoce da obra é justamente no ponto que momentos da vida do protagonista passam pelos seus olhos, onde as memórias alcançam o seu auge. Todos nós teimamos viver lindas ilusões para, no fim, desenterrarmos o nosso bilhete engolido pelo lar/conforto.

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Santa Monica (Felipe André Silva, 2016)

 A estética desse filme e a ausência de diálogos escondem o baixo orçamento, no mesmo momento que ilustram que qualquer trabalho audiovisual, com o mínimo de conteúdo, encontra o seu caminho mesmo com as adversidades. Dirigido pelo Felipe André Silva de forma simples e oportuna, o filme fala sobre a sensação causada pela distância do amor, aqueles dias e todas as sensações que eles trazem. Portanto, as limitações citadas são utilizadas a favor do conceito geral, no momento que o protagonista se envolve com o mundo mas não é, por ele mesmo, sentido. O jovem procura se apoiar em conversas e sorrisos alheios, mas existe uma tristeza que o impede de ser e o espectador de conhecê-lo. Se a captação de áudio é um problema, a solução é transformar a incomunicabilidade em ferramenta que sintetiza, também, a forma que o personagem se entende no mundo após a decepção.

Vivemos em tempos onde fazer cinema com o celular é comum, mas há de se lembrar que o recurso, mesmo que mínimo, precisa estar coerente com a arte. Aqui acontece isso, mesmo que ainda não seja excelente pois evidentemente se trata de um experimentalismo, o jovem é desenvolvido de forma verdadeira, assim como a nítida entrega em fazer cinema e, mais do que isso, registrar uma história, uma dor e solidão.

É questão de tempo a identificação com o caminhar sem propósito do personagem, enquanto tudo acontece no tempo comum, analisamos sua perspectiva diferente, seus passos não assimilam o tempo e espaço, o imediatismo do jovem não traduz seus melancólicos sentimentos.

Santa Monica (2016) conversa com o público que desenvolve, fala sobre a instabilidade emocional e como as nuances dos encontros e desencontros impactam a vida e despreparam, muitas vezes, o indivíduo para continuar enfrentando sua jornada. O filme, assim como o preto e branco de sua fotografia, percorre momentos, talvez dias ou anos, uma pessoa mergulhada no processo de entender-se só, mas que de forma alguma se sente pleno nessa condição.

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Doentes de Amor (Michael Showalter, 2017)

Zoe Kazan estabelece, a cada trabalho, seu nome no topo dos indies agridoces e românticos. Com isso, sua atuação cai na mesmice e até mesmo o esteriótipo de suas personagens são os mesmos. Isso é legal na reunião de inúmeros fãs pelo mundo, no entanto chega um momento – principalmente se a obra for de qualidade duvidosa em relação ao roteiro, principalmente – que cansa o público. Escrevo sobre a atriz, antes de mais nada, pois assistindo seus novos filmes percebo algo parecido com o que acontece com a Zooey Deschanel.

The Big Sick (2017) tem muito de In Your Eyes (2014) e Será Que? (2013), porém sem a mesma qualidade em estabelecer um elo emocional entre o casal como forma de aproximar o espectador ao drama que os envolvem. A partir disso, aqui se repete diversas coisas que de tão utilizadas se tornaram medíocres, como doenças, amor proibido, não aceitação da família etc. O envolvimento do casal acontece de forma tão abrupta, que tudo o que se desenvolve a partir de então se torna, no mínimo, risível. No primeiro ato há a tentativa desesperada de estabelecer o protagonista, o paquistanês Kumail (Kumail Nanjiani), como um moço incrivelmente bem-humorado, no entanto suas colocações levianas simplesmente o torna infantil, o que certamente não condiz com a reação das pessoas que o envolvem, ainda mais em uma situação tão séria.

Se um romance em uma comédia romântica não causa nenhum tipo de empatia já é algo estranho, acrescente uma comédia que não funciona na maioria dos casos e, pior, só direciona o espectador para outro caminho, que não o mostrado. Os diálogos não possuem harmonia, as situações são impostas em base ao absurdo e precisamos aceitar, caso contrário não haveria filme e as tentativas de dar profundidade aos dilemas como preconceito e limitação cultural perdem todo o sentido no momento que não são construídos com inteligência.

Cinco meses de namoro aqui parecem somente três dias. É de se notar, ainda, que nesse tempo o casal nunca tenha conversado sobre as diferenças de tradições entre eles, pois quando Emily (Zoe Kazan) descobre que o seu namorado não pode assumi-la para a família porque seria expulso, sua reação é realizado de maneira tão incoerente com a jovialidade e desprendimento até então demonstrado, que a cena e principal motivação se torna uma verdadeira comédia – algo terrível, visto que o tema é muito sério.

Ainda que poucas coisas boas possam ser tiradas desse filme, destaco a família da Emily, principalmente sua mãe interpretada pela Holly Hunter, que realmente rouba a cena todas as vezes que aparece e, impressionantemente, é a única que faz jus à situação que se encontra e segue o mesmo perfil até o final. Sendo uma figura forte, cômica, no mesmo tempo que passa por um conflito pessoal no relacionamento e, evidentemente, com a filha. O humor falho que tentam empurrar para o Kumail, é muito melhor realizado com a despretensão e naturalidade dela.

O diretor Michael Showalter parece despontar como um grande nome das comédias indies, depois de dirigir a série Love, fez Doris, Redescobrindo o Amor (2015) e, até agora, vem experimentando através dos trabalhos populares. Aqui faz parceria com o ator e roteirista Kumail Nanjiani – que imprime boa parte de suas experiências, pois nasceu no Paquistão e trabalha há anos fazendo comédia nos Estados Unidos. Pena que a imaturidade como roteirista se sobressaia e que bons momentos referentes à sua cultura sejam desperdiçadas em uma tentativa frustada de se esconder em um romance clichê, repleto dos esteriótipos criados pela meiga – e sempre com carinha de menina de treze anos – Zoe Kazan.

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Voyage of Time: Life’s Journey (Terrence Malick, 2016)

Terrence Malick criou para si um legado místico, transitou pelos anseios da moral e parou no transcendentalismo que somente as perguntas vazias podem proporcionar. Suas obras a partir de A Árvore da Vida (2011) são continuações desse ciclo interminável e, muitas vezes, cansativo de pensar e sentir. O diretor olha para o âmago, para a natureza e compõe a jornada em busca de explicações com a utilização de elementos que só podem ser inseridos no homem moderno – aquele rodeado da mais alta arquitetura, onde a humanidade, assim como pretendia com a Torre de Babel, visa apertar a mão do seu criador, no mesmo tempo que ironicamente perde a cada dia o único vínculo com Ele: a fé; o coração corrompido pelo ego não impede o último suspiro e o sentimento puro que ele traz. Terrence Malick parece sentir, no auge dos seus setenta e três anos, que está a segundos da morte e todo o seu material visual, a partir dessa ciência, se traduz em testamento de um ser curioso sobre o tempo, um andarilho espalhando sua palavra em troca de comida e água.

No documentário Voyage of Time: Life’s Journey (2016) ele aproveita o seu material de A Árvore da Vida (2011) e faz algo pouco comum: um vislumbre visual que percorre a criação do universo mas que não se dedica a explicar as nuances de pequenas evoluções, pelo contrário, a narração aprazível da maravilhosa Cate Blanchett surge em momentos pontuais apenas para acrescentar ainda mais dúvida não sobre o que é, mas por quê.

As partículas, as águas e o fogo pontuam o ritmo da experiência, bem como o processo de criação, temos a oportunidade de enxergarmos o nosso princípio, presentes em um momento de puro vácuo. Através do cinema voltamos à estaca zero e temos a oportunidade de refletir nossa imagem até tal ponto. As imagens das diversas culturas acrescentadas ao longo dão essa sensação, uma ligação horripilante e verdadeira entre os primeiros seres rastejantes e nós, os seres humanos que se enxergam como o ápice evolutivo sem nem ao menos compreenderem suas limitações intelectuais ou físicas.

Mesmo que a temática de Malick possa soar repetitiva – hei de concordar que prefiro a versão estendida desse documentário, “A Árvore da Vida” – vejo a necessidade de sentir com atenção exatamente tudo o que ele tem a dizer. Cada vislumbre fotográfico embalado com os instrumentais fascinantes e que movimentam a cena assim como o movimento circular constante da vida, me sinto menos só. Me sinto parte de um sistema existencial que se preocupa não somente em seguir, como refletir sobre o porquê de ter chegado a tal ponto. Cada passo do homem faz com que ele tenha a oportunidade de ser lembrado, não apenas como vagante, mas como uma delicada flor amarela de jardim, onde todos seus irmãos são iguais e frutos do mesmo início.

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De Canção Em Canção (Terrence Malick, 2017)

Esse é mais um representante dessa nova etapa artística do diretor Terrence Malick, onde o universo, técnica e figuras importantes do cinema parecem entrar em comum acordo para representar a angústia da existência. Talvez seja justamente por isso que o diretor consiga agregar tantos nomes poderosos em um único trabalho, mesmo que sejam cortados na edição, pois eles sabem que o estilo do diretor transcende a narrativa dita através dos anos como convencional, a sua câmera invade a privacidade da performance, bem como por vezes se recusa a aceitar o óbvio ou o ascendente. Perceba momentos que o movimento de câmera acontece e para nos detalhes, como na mão de uma personagem na maçaneta da porta. Às vezes a reação facial das personagens esconde trejeitos, a postura, enfim, uma série de características que compõe a sua personalidade. No mesmo tempo que o cinema funciona como uma janela para observar a vida, o seu formato e padronização impede que tenhamos a perspectiva completa, admirar a paisagem pela janela, dentro de casa, e no exterior são duas coisas completamente diferentes, sendo assim, Malick é como um garoto rebelde, mesmo que sua mãe o castigue e o impeça de sair, ele foge e faz questão de registrar absolutamente tudo aquilo que lhe convém, mesmo que soe como corrupção da performance e convencionalidade.
Sua câmera se movimenta de forma ondeante, obrigando o espectador à árdua tarefa de assimilação espacial, as sensações dizem respeito ao etéreo, como se tivéssemos analisando o comum sob a perspectiva de uma deidade.

De Canção Em Canção (2017) segue esse padrão, o mesmo de A Árvore da Vida (2011), Cavaleiro de Copas (2015) e Amor Pleno (2013) e, por isso, pode ser injustamente acusado como repetitivo e sem sentido. Mas o curioso é que visivelmente o diretor compreende que esses adjetivos fazem parte do processo, ainda mais quando o produto artístico é tão complexo e transcendental. Nem todas pessoas estão dispostas à falarem de si mesmas, e fazê-lo de modo a contemplarem diversas realidades que não condizem com a sua é certamente ainda mais difícil.

Nesse longa a incoerência do amor e cumplicidade são analisados a partir do universo das estrelas da música. A produção musical que exige individualidade e momentos curtos de sincronia. É de se notar a flexibilidade fotográfica que ora se dedica intimamente às figuras que acompanha, ora os recusa, transformando-os em invisíveis em meio à ambientação – diferença estética que faz jus a instabilidade do mundo que acompanha.

As narrações em off durante boa parte do filme são simples e diretas, parecem realmente trechos de músicas e não me espantaria se de fato fossem. Elas dialogam com o cotidiano e abrem espaço para o visual, onde pequenas demonstrações de afeto, posição no quadro e palavras fazem dos inocentes movimentos das personagens experiências incrivelmente intensas.

Existem tantas cenas simbólicas – muitas delas perceptivelmente improvisadas pelo ótimo elenco – que precisaria de muito tempo para as analisar metaforicamente. Por exemplo um momento em que o casal Faye (Rooney Mara) e BV (Ryan Gosling) fazem uma brincadeira relacionada à confiança. Os dois personagens, inclusive, assim como Rhonda (Natalie Portman) são os mais interessantes como início da reflexão sobre a condição de corrupção e decepção de um jovem esperançoso inserido no meio musical. Cook (Michael Fassbender) é um personagem completamente sedado pela conquista, é a personificação do fascínio perigoso que o poder teima em sussurrar nos ouvidos como a perfeita solução.

De Canção Em Canção (2017) é uma obra sensorial, que exige muita atenção e a maior imersão possível afim de proporcionar a melhor experiência. No entanto, atrás da narrativa pouco convencional, não se esconde um material complexo como a sua forma – como acontece em outros trabalhos do diretor. Ainda assim é um filme extremamente relevante e que apura os sentidos, pois transforma o cotidiano e a realidade desgastante da fama em poesia; sustentado principalmente pela fotografia de Emmanuel Lubezki e pelos impulsos naturais performáticas de um elenco incrivelmente talentoso, mas que pela própria linguagem são sabotados em muitos momentos.

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Interpretando o filme “Mother!”de Darren Aronofsky

Dilema

No cinema nenhum diretor trabalha o tema obsessão como Darren Aronofsky; mais do que isso, poucos são tão habilidosos em fazê-lo de modo extremamente identificável, pois o diretor nunca desenvolve suas obras do ponto óbvio, sempre retrocede de tal maneira que universalize o objeto de estudo. “Réquiem para um Sonho” (2000) é muito poderoso e impactante na questão dos vícios pois a personagem que mais se desconstrói ao longo é justamente aquela vivida pela Ellen Burstyn, cuja obsessão é ser magra para aparecer em um programa de Tv – algo cada dia mais comum e perigosamente aceito por uma sociedade que prima pelas aparências; em “Cisne Negro” (2010) a exigência física de mental de Nina vai muito além da profissão que exerce, além de ser bailarina ainda parece pressionada por todos os lados por conta da sua sexualidade e busca pelo êxito. Ora, não somos todos obrigados, desde crianças, a atingirmos o estado de plenitude na vida, seja emocional, profissional, acadêmico etc?

Outro ponto que relaciono “Cisne Negro” (2010) com o mais recente do diretor – além da câmera perseguindo a nuca de sua protagonista, como se tivesse invadindo a sua particularidade, bem como contextualizando-nos no seu ponto de vista diante às caóticas ações daqueles que a rodeiam – se encontra no elemento “arte” como veículo para a desconstrução psicológica e criação de infinitas metáforas. O dilema sugerido em “Mãe!” está estreitamente vinculado com a concepção artística, moldação da matéria prima, compartilhamento, confirmação e colaboração do público.

Peguemos essas etapas da elaboração artística, seja qual for, e analisaremos a partir da bailarina Nina de “Cisne Negro” (2010): concepção artística é o desenvolvimento corporal e assimilação da intenção artística do seu coreógrafo; moldação da matéria prima é o processo de estudo e repetição afim de encontrar a perfeição dos movimentos; compartilhamento é o momento onde o produto artístico é apresentado e, por fim, a atenção do público bem como os diversos preenchimentos interpretativos a partir das experiências e conhecimentos de cada um.

“Mãe!” é a continuação desse conceito, é a palavra “perfeição” proferida pela Natalie Portman no final de “Cisne Negro” (2010), onde a artista exausta morre para, finalmente, renascer como aquela que já gozou e que, a partir de então, somente colherá os frutos pela conclusão da performance ou criação. Nesse ponto de vista, seja o indivíduo uma escritora, bailarina, cantora, diretor(a) (Darren Aronofsky) ou mãe, todos passam pelo mesmo processo criativo e, mais do que isso, são traduzidos aqui como “Deus”. O artista traz ao mundo o seu, esculpindo o tempo e desbravando mares de obstáculos criativos e se refugiando na inspiração que, por sua vez, aparece personificado como musa, como Jennifer Lawrence.

“Mãe!” (2017) não é um filme de terror como foi vendido, mas ironicamente fala em dado momento da separação entre produto e intenção. Corajosamente, se trata de um filme completamente simbólico, onde tudo é exatamente o que não demonstra.

Criação

A sinopse não convém, pois de muitas formas posso fazê-la, ainda que nenhuma seja fiel à complexidade da trama. O ponto principal, antes de mais nada, é relacionar essa obra com o extremismo de Lars von Trier, psicologia de David Lynch e desconfortabilidade provocada por nomes como Roman Polanski e Luis Buñuel. Só existe um personagem-criador-deus aqui e, curioso, é que se trata do “coadjuvante”. Javier Bardem dá um tom sóbrio e distante, compõe o seu personagem – Ele – de forma brilhante. É um escritor passando por um bloqueio criativo, suja sensibilidade o faz estar atento aos acasos da vida nem que isso custe a invasão de sua própria consciência. Depois de um incêndio em sua casa (consciente), o processo criativo encontra o seu repouso e é possível relacionar isso com a frase de Tyler Durden em “Clube da Luta” (1999) “só quando perdemos tudo é que estamos livres para fazer qualquer coisa”.

O escritor finge continuar, mas o medo pelo bloqueio é percebido desde o começo. A protagonista, mãe, interpretada pela Jennifer Lawrence, é quem reconstrói a casa depois do incêndio e se preocupa com o bem estar e segurança do espaço, ao passo que o escritor age por impulso e solidariedade irreal aos desconhecidos parasitas, pois, evidentemente, ele pretende se perder na possibilidade de criar.

Pense em um ser em busca de produzir, sem ao menos saber como começar e por quê. Ele passa então a perseguir histórias, sem perceber que é ele quem está sendo perseguido. Ele está prestes a fazer algo primordial, só precisa do equilíbrio entre a inspiração e trabalho. A mãe é a musa, o âmago da criação e pureza, é a matéria prima que obriga o artista a manipulá-la carinhosamente para transformar o bruto em ternura. O artista concebe a ideia e acompanha os seus primeiros passos, desmistifica as nuances e transforma musa em método, silêncio em ruído.

A mãe no filme se sente perdida pois não existe, senão, como âmago e não como veículo. A inspiração se enclausura no meio da vida, realidade e desespero, no exato momento que guerras e mortes começam a acontecer na casa no terceiro ato. O lar é a segurança da arte em seu estado vestal, no entanto a ideia passará a enfrentar as influências turbulentas do dia-a-dia, por isso os intrusos na casa, pois eles são as influências externas para a criação.

Essa interpretação pode facilmente ser contextualizada através do ponto de vista bíblico, onde a simbiose entre deus e natureza (Javier Barden e Lawrence) é quebrada a partir do momento que Adão e Eva (Ed Harris e Michelle Pfeiffer) adentra o espaço outrora vazio e sem forma – preenchendo a uniformidade do ambiente com suas próprias necessidades e criatividades (filhos) e se tornando artistas, capazes até mesmo de subjugarem o criador.

Conclusão

Assim como o escritor do filme que deixa sua criação morrer para imortalizá-la, temos a chance de participar efetivamente da arte no momento que nos permitimos senti-la. “Mãe!” (2017) conversa com o espectador de forma desconfortavelmente necessária, em um jogo psicológico entre criador e criatura, sobressai o fato de que o processo de experimentação é singular e sombrio, há infinitas virgulas até se atingir o ponto final. As metáforas aqui são dolorosamente reais em um mundo onde se venera muito fácil e não se dá importância para a jornada espiritual pelo qual todo artista passa.

Escrever é deixar ir, é criar soluções e reinventar a realidade. Perigoso é aquele que se deixa envolver por fáceis e obsessivas admirações momentâneas enquanto se perde nas invasões de privacidade intelectual, se distanciando cada vez mais da sua especial condição de inspirar e ser inspirado.

emersontlima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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Annabelle: Creation (David F. Sandberg, 2017)

Annabelle 2: A Criação do Mal (Annabelle: Creation, EUA, 2017) Direção: David F. Sandberg

O cinema de terror atual se divide claramente em duas esferas completamente diferentes, contudo, as duas vertentes narrativas têm como prioridade a qualidade no que diz respeito à ambientação e o processo de sugestividade. Obras como “No Cair da Noite” (2017), A Bruxa (2016), Sob a Sombra (2016) utilizam a contemplação e os silêncios como forma de incentivar a atenção absoluta do espectador, de modo que o sentimento aja em virtude da curiosidade, reflexão, desconforto ou mesmo o medo; por outro lado, os mais populares, motivados pelo sucesso de novos inteligentes diretores como James Wan, Mike Flanagan, David F. Sandberg etc, compreenderam através da manifestação do público, que o gênero terror moderno precisa caminhar em outra direção afim de não se acomodar no óbvio. É possível perceber, portanto, uma evolução em filmes como “Invocação do Mal 2” (2016), “Quando as Luzes se Apagam” (2016) ou “Ouija 2” (2016), mesmo que alguns citados tenham qualidades finais duvidosas, há de se observar alguns detalhes oportunos em cada um deles, a direção de Wan e habilidade em referências dentro do gênero, a utilização da ausência de luz – medo primitivo – como forma de fragilização psicológica e a competência de Flanagan em trabalhar com o som em seus filmes.

Quando o primeiro “Annabelle” foi lançado, em 2014, a ideia era aproveitar o sucesso do “Invocação do Mal”. E o maior problema do filme é justamente nunca ser pensado por si, mas como extensão de algo maior. O desenvolvimento rápido tirava qualquer possibilidade de mergulho nas sombras que uma boneca amaldiçoada evoca, no fim, um grande potencial fora perdido em prol a um filme exibicionista. Mas na continuação eles acertam, a começar pela escolha de David F. Sandberg para dirigir, um artista que errou em seu primeiro longa-metragem mas que possui diversos curtas-metragens medonhos e, por incrível que pareça, nenhum passa de dois minutos – alás, dois deles são referenciados em momentos oportunos em “Annabelle: Creation”.

O filme começa da maneira mais comum possível, mostrando o passado de uma família onde um acidente fatal com uma menina desencadeia uma série de problemas paranormais em uma mansão de aspecto tenebroso. Fato que se agrava ainda mais a partir do momento onde cinco meninas de um orfanato são convidadas a se hospedarem no local. A apresentação da protagonista Janice (Talitha Bateman) acontece de forma oportuna, pois ao descer do ônibus a câmera se posiciona no degrau ao passo que mostra a dificuldade da menina em descer por conta da sua limitação física em uma das pernas, ponto importante não só pela questão psicológica, a menina se sente a mais fragilizada e vagarosamente vai perdendo as esperanças de ser adotada, como também no desespero causado em diversas cenas de eventos sobrenaturais, onde o fato de não poder correr obriga a personagem a enfrentar o medo ou mesmo fechar os olhos, se esconder, enquanto o espectador enxerga o que está acontecendo em volta, algo que potencia a experiência e exige um bom trabalho com os espaços e objetos da casa.

A maior força do primeiro ato é na exploração dos elementos que futuramente serão importantes para as cenas de sustos, a tetricidade dos objetos fazem desse filme impactante em diversos momentos, inclusive a quantidade de possibilidades que se formam em todos os cômodos da casa são incríveis, parece que cada boneco, sombra ou pano pode se tornar um acessório para provocar o medo. Quando o espectador assimila o espaço, fica constantemente em alerta com o que acontece no segundo plano, e isso é muito oportuno no gênero, mas dificilmente é bem feito.

As atrizes mirins têm ótimas performances, mesmo que o longa dependa da extrema coragem de duas personagens para dar sequência ao roteiro. O diretor David F. Sandberg resgata sua melhor competência – demonstrada nos curtas-metragens sem diálogos, caseiros e com somente uma personagem – em criar cenas assustadoras sem recorrer aos artifícios mais comuns, apesar de tê-los como obrigação, nunca mostra aquilo que esperamos no mesmo tempo ou maneira, sempre tem algum detalhe que nos tira a atenção e surpreende.

O terceiro ato destoa do desenvolvimento mostrado até então, o equilíbrio da exposição e sugestão dá lugar as soluções apressadas e decisões que se retardaram afim de se encaixarem no roteiro. Mas ainda assim, “Annabelle: Creation” segue sendo um ótimo filme desse universo criado pelo “Invocação do Mal” e que continuará nos próximos anos apresentando as mais diversas figuras demoníacas perseguindo as mais inocentes almas.

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Eugenie e o Caminho da Perversão (Jesús Franco, 1970)

Eugenie e o Caminho da Perversão (Eugenie… The Story of Her Journey Into Perversion, Espanha, 1970) Direção: Jesús Franco

A metalinguagem atinge o limite quando Eugenie (Marie Liljedahl) segura e comenta brevemente sobre um livro do Marquês de Sade que ainda não teve oportunidade de ler. Personagem criada pelo autor, ela segura em mãos sua própria alma, enquanto o quarto que a abriga devora a inocente vestal dentro de si gradualmente.

A donzela se perde no caos da ansiedade sexual burguesa, seus passos pueris despertam os mais insanos desejos, a sua nudez, outrora natural, se torna um deleite ao consciente deturpado do maníaco pela carne. Existe manipulação nesse filme, bem como a estranheza narrativa faz jus ao elemento místico que envolve as relações nada convencionais entre os três personagens principais. A iluminação vermelha em momentos cruciais, todos eles envolvidos pesadamente com o sexo, tentação e tortura – física ou mental – é oportuna em criar as mais belas e impactantes rimas visuais, ainda que seja inevitável não mencionar a cena final onde o pequeno passarinho vê a luz do sol e sua silhueta representa o alívio de uma doce menina que atravessara os rios perigosos do ego e sofrera os mais profundos delitos do poder.

A agressão de Eugenie se dá, inicialmente, a partir do momento onde há a corrupção da juventude em prol à libertinagem extrema e violação da vida. As grades que aparecem em primeiro plano ao longo, deixam explícita a ideia de enclausuramento generalizado, onde a mansão permanece como o legítimo refúgio de transgressão. A beleza estonteante da Marie Liljedahl relaciona-se muito bem com a psicologia de sua personagem, é de se notar atenciosamente suas principais características, a presença da atriz exala delicadeza – Jesús Franco reforça constantemente o alto grau angelical de sua protagonista, em contraponto com a perversão do meio. Não à toa existe uma harpa no meio da sala, instrumento musical igualmente agridoce e associado ao celestial.

Como um ótimo representante do sexploitation, “Eugenie…” (1970) tem como mérito nunca reduzir-se apenas ao sexo. O trabalho excelente é quando associado às lacunas psicológicas das personagens e como são preenchidas pela exposição carnal. Apesar da perca do ritmo no segundo ato e eventuais sandices narrativas e/ou performáticas, Jesús Franco consegue transportar bem os escritos de Sade para o cinema e o faz de forma crível, onde a violação da integridade física e emocional de Eugenie permanece extremamente vinculado com o impressionante trabalho visual. Quem gosta do diretor, certamente apreciará esse clássico.

emersontlima

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