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No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

Little Forest: Summer/Autumn (2014) de Junichi Mori

Little Forest: Summer/Autumn (Ritoru Foresuto Natsu Hen-Aki Hen, Japão, 2014) Direção: Junichi Mori

Algumas pessoas conseguem manter o hábito de levantar pela manhã e caminhar escutando uma boa música. Talvez ainda consigam andar por entre um lugar bonito, repleto de árvores, ou na calçada beirando o mar. Essa é a sensação que tive ao assistir “Little Forest: Summer/Autumn” (2014), uma profunda paz ao acompanhar a Ichiko (Ai Hashimoto) que volta ao campo para viver da simplicidade, fazendo experiências culinárias, principalmente com alimentos que ela própria planta.

Baseado em um mangá de Daisuke Igarashi, esse filme é no mínimo curioso e pode afastar algumas pessoas por não ter uma história bem definida e normal, basicamente acompanhamos a protagonista através das receitas que ela faz. É um passo a passo culinário com uma abordagem e fotografia delicada, onde os pratos e as realizações se confundem com o passado da personagem e as próprias estações do ano.

No dia 31/12/2016 me tornei vegetariano, uma ideia que há tempos refletia e que cuja decisão fora feita de forma brusca e irreversível. A partir do momento que pensei sobre o porquê, não existiu dificuldade na readaptação alimentar, o que só me trouxe benefícios. Meu “espírito” ficou mais leve, mas cito o carinho por cozinhar como uma das coisas que mais ficaram evidentes na minha vida. Descobrir receitas, misturar as cores da salada, enfim, apesar da personagem do filme não ser vegetariana, o seu carinho com o alimento é extremamente envolvente e encantador.

“Cozinhar é um espelho que reflete sua mente”

“Little Forest: Summer/Autumn” (2014) é uma obra acolhedora, que proporciona uma experiência romântica pela culinária natural. Como história, deixa a desejar, ainda que seja possível estabelecer uma evidente ligação entre a postura da protagonista e o seu passado com a mãe, mas essa não é a preocupação aqui. A atmosfera e cumplicidade do ser humano com o meio ambiente são energias transmitidas através da simplicidade, seja visual ou do texto.

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Steel Butterfly (2012)

Steel Butterfly (Stalnaya babochka, Rússia, 2012) Direção: Renat Davletyarov

Steel Butterfly (2012) é um filme russo, dirigido pelo desconhecido Renat Davletyarov e que não sabe muito bem qual caminho quer seguir. Começa como um típico filme policial, com resquícios altos de terror, ao mostrar uma menina caminhando, sozinha, pela noite e sendo vítima de um “maníaco do parque” que está assolando uma cidade. Depois somos apresentados à uma gangue onde a líder é uma jovem chamada Vika Chumakova (Darya Melnikova) que, depois de ter problemas com a polícia, se vê ajudando-os servindo como isca para o maníaco enquanto segue sendo observada pelos tiras. Junto a isso, temos a relação dessa garota órfã com o policial Hanin, visto que ele a leva para sua casa enquanto trabalha com ela.

O filme começa com características típicas do gênero policial, passa pelo romance – pelo menos aquele que se projeta na protagonista, afinal, ela não tem lar, muito menos afeto, portanto se sente atraída pelo seu hospedeiro – e termina como um drama artificial. Desde o começo a narrativa se perde por querer introduzir o humor em uma circunstância má preparada para tal, o que acaba desviando a atenção do perigo iminente. No segundo ato se esquece completamente o propósito da inserção da garota em uma missão da polícia o que, inclusive, não faz nenhum sentido, quiça coesão ética. Afinal, utilizar uma jovem desabrigada como isca para um assassino não desperta o mínimo de empatia no espectador e, sendo assim, todas as situações derivadas dessa monstruosidade definitivamente não se encaixam.

A polícia tenciona utilizar mulheres para servirem de isca ao maníaco, a ideia é deveras machista e, se não bastasse, há duas cenas onde três policiais sentam em suas cadeiras com poses autoritárias e julgadoras, enquanto observam essas mulheres e suas vestimentas, como se estivessem imaginando o que chamaria mais atenção do psicopata das ruas. “Talvez uma saia curta?” “Peitos grandes?”… O que fica mais agravante quando eles têm a “grande” ideia de utilizar uma menor de idade (?), como se fosse um objeto insignificante apenas por ter cometido atos de vandalismo. O que contrastará seriamente com os ataques de [falsos] moralismos de Hanin em relação à idade da protagonista.

Como é possível imaginar, o tom leve que tenta ser reforçado a cada cena é uma tentativa tola. A trama é incoerente e, apesar do esforço dos atores, o texto que têm em mãos é excessivamente vazio. A atriz Darya Melnikova chama atenção, pelo talento e beleza estonteante, é mesmo uma pena que sua evidente dedicação esteja acima do material disponibilizado. A incoerência temática, indecisão da direção e soluções clichês fazem desse filme uma obra descartável.

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Heartstone (2016)

Heartstone (Hjartasteinn, Islândia, 2016) Direção: Guðmundur Arnar Guðmundsson

O cinema produzido na Islândia é brilhante. O pouco acesso que temos para assistir as obras do país não nos impede de perceber a regularidade das produções, principalmente em relação à sensibilidade. Se Friðrik Þór Friðriksson desenvolve temas relacionadas ao tempo em seus trabalhos, Benedikt Erlingsson recentemente nos presenteou com uma obra contempladora que une o ser humano e os cavalos, explorando o místico provocado pela natureza e verdade.

[Você pode ler outras críticas que escrevi sobre filmes da Islândia clicando aqui]

“Heartstone” (2016), dirigido pelo Guðmundur Arnar Guðmundsson – conhecido principalmente por um curta-metragem chamado “Hvalfjörður” (2013) – se assemelha bastante aos dois diretores citados. Por coincidência ou não, a juventude aqui é trabalhada com tamanho respeito que a associação com Friðrik Þór Friðriksson é imediata. Quem já assistiu “Bíódagar” (1994) sabe perfeitamente disso. Nessa obra,  Friðrik acompanha a vida de um garoto apaixonado por cinema que precisa se afastar e morar em uma casa no campo. Esse deslocamento causa um incomodo grande no garoto e as consequências desse fato são observados da forma mais visceral e sincera possível.

“Heartstone” (2016) possui a mesma habilidade em se utilizar do jovem para discutir temas importantes que abrangem a desestabilização familiar e descoberta da sexualidade. Dois garotos, Þór e Kristján, possuem uma forte amizade e entre a rotina de brincadeiras e passeios ambos parecem fugir da desestruturação familiar enquanto o sentimento de amizade é confundido com interesse amoroso. Eles passam a se ajudar e veem um no outro uma forma de fugir dos pesadelos da indiferença, ódio e preconceito.

A beleza do pequeno vilarejo da Islândia abriga amigos que se deliciam em meio à pureza mágica do ambiente. O azul do céu e da água envolve os garotos que, na primeira cena do filme, aguardam em silêncio enquanto pescam. A ação de um adulto, a pesca se trata de uma das atividades que mais necessitam de paciência o que, em um primeiro momento, todos os meninos têm. Mas o silêncio para uma criança é a própria morte, e logo a calma é quebrada pelo protagonista que permanece em primeiro plano enquanto um de seus amigos mexe (imagina?) nos pelos de sua axila e peito. Eles pegaram os peixes e, a partir desse momento, podem voltar correndo e contar a novidade para os pais.

O contra-plongée mostra uma visão de dentro da água para fora o que demonstra claramente uma intenção de duplicar a imagem dos personagens. Esse simbolismo se repetirá de outras formas ao longo, e a intenção sempre é a mesma: expor o fato de que Þór e Kristján dividem suas vidas entre a liberdade total, quando estão juntos, e a limitação e desconforto quando inseridos nos seus respectivos lares. Desse modo, é possível notar que diversas vezes a imagem deles, refletidas em algo, é borrada.

Þór volta para sua casa e deixa os peixes que pescou fora. Representando suas próprias emoções – cabe destacar que seu melhor amigo, Kristján, conseguiu apenas pegar um “peixe pedra” e é zombado pelos colegas por isso. No banheiro, através da imagem refletida no espelho vemos o protagonista brincando com o seu corpo, isso inclui a masturbação. Sua nudez é o refúgio de liberdade o que, rapidamente, se dissipa com as brincadeiras das suas irmãs adolescentes referentes ao seu corpo despido.

Outra simbologia visualmente importante no filme é o contraste existente nos enquadramentos dos personagens e como mudam quando externos ou internos. Quando os amigos estão passeando, nadando, acampando, enfim, vivendo, os planos são abertos e, além disso, não há objetos ou móveis “poluindo” o enquadramento. O que não acontece quando eles estão dentro das casas ou sendo vistos por alguém inserido no lar. Geralmente os personagens tem campos de espaços reduzidos, e pequenos ou grandes objetos são perceptíveis como forma de opressão visual.

O filme possui o clima convidativo de grandes filmes dos anos oitenta, mas com a profundidade do bom cinema contemplativo. A fotografia acerta em cheio nos tons azulados, exalando melancolia mesmo em meio à paisagem magnífica que envolve todos e, por muitos, é ignorada.

A amizade aqui representa a condição de amparo e necessidade. É agradável assistir uma obra que não precisa explicar muito o que é óbvio, a importância das relações são nítidas e incomunicáveis, senão, pelas performances. Nesse sentido, Baldur Einarsson é verdadeiramente um achado, extremamente talentoso, dá densidade ao seu papel, fazendo com que Þór receba todas as atenções, transitando entre o carinho, insegurança e raiva de maneira singular.

Com a sensibilidade apurada, Guðmundur Arnar Guðmundsson transforma uma história comum em algo extraordinário. É triste saber que em muitas histórias de infância há o abandono como elemento principal, dificultando o processo de adolescer e experimentar. O jovem que respira diferente, necessita de cuidado e atenção, da repetição das palavras de conforto, pois crescer é se sentir um monstro. No final, o peixe pedra precisa voltar para o mar e partir em busca de uma nova chance.

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Charles Chaplin – Entre as lágrimas e o Sorriso

Sonhador, abusado, explorador, independente, gênio, melancólico, palhaço, amante, mulher, garoto, pobre, rico, mendigo… Por ai vai, por tudo foi. Ao tentar analisar a carreira do grandiosíssimo Sir Charles Spencer Chaplin nos deparamos com a máxima de que “um ponto de vista é a vista de um ponto”. Muitos ainda tentam confundir-nos, banalizando a linha tênue e significativa que separa a personalidade da sua criação, sua arte. E, esse homem, que lutou contra todos os outros homens, era um artista, do qual a sua própria genialidade não é digna do mundo do qual ele pisou. O mundo não era – e é – digno de o ter como lar, mas nós somos dignos – devemos ser – de resgatar a mensagem principal que ele nos deixou: Sorrir é o melhor remédio. Mesmo quando o medicamento seja para retardar uma doença incurável.
Incurável é a dor que sinto com seus filmes. Suas obras, seus espetáculos. E realmente são. A atuação é estruturada por duas entidades místicas, conhecidas como: Drama e humor. O que Chaplin faz é elevar o respeito e equilíbrio pelas duas. Nunca as abandonando, nem mesmo quando finge o fazer. Ele era perfeccionista. O seu cinema era perfeito, sabe o motivo? ambos nasceram juntos, portanto o entendia mais do que ninguém.
O cinema começa e, por não existir a voz, a dinamização da nova tecnologia é possível. O mundo inteiro poderia ver uma história sem nenhuma barreira. Como se aquela fosse uma oportunidade real de unificação de ideias, pois, nesse berço, ainda não se pensava em cinema como arte. Entretenimento desconhecido que instigava a curiosidade. Essa etapa do cinema é uma fase tão enigmática que transcende as barreiras da realidade. Cria da fotografia, uma nova forma de exercício intelectual se iniciava, quase que uma teia de desenvolvimentos artísticos. A atuação deveria encaixar nas possibilidades da época, o humor deveria ser ao extremo para segurar a atenção, as histórias tinham que ser curtas. Mas o que raios era aquilo? Qual era o objetivo?
Eu passei longos cinco anos pesquisando o trabalho do Chaplin, não quero aqui ser didático, por mais que em uma outra oportunidade pretendo ser, queria só expor o quanto esse ser humano representou para uma desconhecida oportunidade. Tamanha sua curiosidade, foi desbravando os meios, criando suas piadas – inspirando-se pelas experiências com a mãe e o pai alcoólatra – até que chega um momento do desprendimento, onde esse cara vai fazer a sua obra. Eu fico fascinado com o ataque de oportunismo, o poder desse visionário de dar a cara a tapa para fazer diferente, extrair um conteúdo que já vinha fazendo, mas de uma forma completamente diferente. Ele estava pensando nas pessoas? Ele estava pensando que iria mudar o mundo? Não! Ele queria crescer profissionalmente, mas tudo o que tocava virara flores, pois, como percebemos, Chaplin era dedicado/diferenciado, disposto a entregar um pensamento subversivo sobre o que, realmente, é “sentir”. Sua vida não fora anormal até então, menino abandonado pela vida, criado atrás das cortinas dos teatros, esperto, pobre… Ele soube aproveitar um pouco do tudo que passou e criou um pouco de todos que existe no mundo.
Vagabundo
O seu personagem, imortalizado, é extremamente cordial. As adversidades que passa não são sentidas no seu comportamento. Ele não trata diferente, é sempre o mesmo. Delicado, sensível, apaixonado e cavalheiro, um conquistador. Parece estranho, não é? Se sentir apaixonado por um vagabundo. Sua doce arte nos ensina que, ser vagabundo, não o tira a possibilidade de ter esperança nas pessoas. É claro que ele tem muitos envolvimentos com mulheres, mas por que ele desperta o interesse nelas, me parece que tanto homem, quanto as mulheres recebem o mesmo tratamento do nosso querido vagabundo. Ele é um palhaço que vaga, não procurando um lar, procurando compartilhar a sua inocência. Encantando e sendo encantado. Oras com seu humor incomparável, oras com sua tristeza costumeira. Independente, faz-nos amar estar triste para, só assim, sorrir. O sorriso se transforma em conquista árdua, diante a crueldade dos homens que ainda não aprenderam a amar. Chaplin nos diz que um dia irão, não a massa, mas o indivíduo sim.
A sua roupa demonstra que ele não precisa de muito para ser elegante. Basta um chapéu coco e uma bengala para ser lindo, basta ser, basta o olhar, basta o sorriso tímido ao fim de Luzes da Cidade, basta ser o bastante. O vagabundo é um ícone, uma ideologia. Uma lembrança de que existe muita gente por ai querendo gritar ao mundo que muita coisa está errada. Só de pensar eu fico sufocado. Se uma criança está jogada no meio da rua, o vagabundo olha para cima como se quisesse dizer “Não pode ser, de novo?”. Gente, preste atenção no que vou dizer, sinta-me, essa é uma cena de um filme de 1921! Estamos em 2014, situações cada vez piores acontecem e há noventa e três anos atrás um homem gritava por socorro. Através do humor, mas com muito drama, muita verdade.
Um garoto-pai
Caminhando, só, pelas ruas
Se sente infeliz quando olha para o céu
Estão caindo anjos agora? – ele pensa
Anjos com asas quebradas, 
à procura de ajuda da verdade,
Existir e ser pai como deve,
Sem a hipocrisia do nascer,
Buscando no choro a sua canção mais doce.
No cobertor rasgado, a sua melhor proteção.
Não deixe que isso acabe papai,
Um dia fui anjo, 
Hoje te entreguei minhas asas.
Quebraremos vidros da ousadia,
Sentados pelas calçadas perdidas, 
Nas florestas de nossos corações solitários.
Sigamos em frente. 
– Escrevi quando tinha 13 anos, logo após assistir “O Garoto” pela primeira vez.
Charles Chaplin está sempre relacionado nas listas infinitas de homens que mudaram a história do mundo, gênios etc. Não vejo muitos conhecendo-o, de fato. Muitos conhecem a sua criação, a figura, mas poucos o nobre senhor por trás dela. Até para ter o mínimo de consciência sobre qual é o limite da sepração entre a vida pessoal e profissional, principalmente relacionando-o com a arte audiovisual, que serve como um apanhado de várias outras artes, trabalhando em conjunto. Estou repetindo tanto sobre a personalidade do Chaplin pois, como se imagina, era muito forte. Essa força para a composição, tanto de músicas como personagens e contextos, surgem de uma pessoa extremamente misteriosa. Um intelectual da entrega, da mulher.
O garoto fala, também, sobre ser pai, então a identificação foi imediata, essa postura dele, esse carinho, mesmo sem ter nada para oferecer ao garoto, sempre me fisgou, de alguma maneiro. Vou até me corrigir, ele tinha muito para oferecer, uma verdadeira boa vida. O tudo do pouco. Comparo a situação social dos seus filmes com a própria felicidade. Você não é feliz, você está feliz. Felicidade não nasce junto com as pessoas, ela vem, mediado por situações de momentos, ela pode, inclusive, acabar no dia seguinte. E é isso, Chaplin, o vagabundo, é indiferente a felicidade, ele renuncia essa benção para nos mostrar que não temos que ser felizes, temos que saber aproveitar a felicidade. E essa mensagem maquiagem nenhuma esconde.
A vida se torna muito simples com o Charles Chaplin. Qualquer coisa vira piada, dentro do grande drama que contextualiza os seus personagens sem lugar. Mas não pense que não ter lugar é algo ruim, é provado em seus filmes que existe lar em qualquer lugar. Mas o vagabundo não pode parar nos lugares que passa, por mais que doa o coração partir. Ele está sempre em busca de novas oportunidades, novas experiências, para preencher a sua eterna esperança de amar perdidamente.
Obs: Texto originalmente publicado em 10 de julho de 2014

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Todo lo que tú quieras (2010)

A dor da perda talvez seja a mais frustrante que exista. Se pensarmos, somos os únicos animais com consciência da finitude da vida, porém, é inegável que a mesma não adianta muita coisa quando acontece. Aliás, essa é uma palavra pertinente para quem já passou por isso, acontece, acontece, acontece, acontece… aconteceu comigo.

Temos a necessidade de depositar a nossa existência à algo maior, um outro plano, no qual a vida é eterna e o reencontro seja possível. Infelizmente eu não consegui ter essa crença, tive uma educação católica, com todas essas lindas histórias de “fazer o bem para ganhar o sempre” mas eu não consegui acreditar. Resta-me refletir sobre a morte como uma possível imortalidade construída pela arte, aqui na terra, claro. Por isso prezo tanto pelas inúmeras mensagens que diretores, roteiristas, atores e atrizes nos deixam. Eles, assim como nós, são humanos e, inconscientemente ou não, sabem que o seu trabalho significa mais que “fama de passagem”, é um registro eterno, nem que seja nos corações de inocentes admiradores. Sendo assim, é fácil identificar o artista e o nome. Por essas e outras, eu escrevo sobre o cinema alternativo para resgatar a arte invisível, não para ser conhecido como cult. Mas, de fato, queria sim ser associado. O cinéfilo é, antes de mais nada, um amigo do audiovisual e, como bom amigo, nunca o quer apenas para si mesmo. Ele divide. E, por essa mesma razão, é fácil identificar a divisão por paixão e por interesses pessoais.
Enfim, todos precisamos sobreviver, o cinema se tornou mais uma das diversas lojas que existe. Como perceberam, sempre antes de escrever sobre os filmes, eu gosto de resgatar as reflexões que eu tive durante e, aqui, tento destacar a falta de atenção para com algumas obras. Tem muita gente falando de cinema mas, infelizmente, pouca gente falando de homem. Como disse, feliz aqueles que fazem do cinema o seu sustento mas, por favor, não se esqueça de dividir, pelo menos, a importância da arte audiovisual para as pessoas. A importância da procura, da pesquisa, não didática, simplesmente estar aberto para experimentar. Só assim a ideia da imortalidade será revivida, não apenas para um seleto grupo, mas para todos. A mensagem não precisa – e nunca será – clara para todo mundo, mas sem dúvida todos sentirão.
Todo lo que tú quieras 
Leo e Alicia são casados e moram com a filha Dafne, de quatro anos. Como numa família tradicional, a mãe preocupa-se em cuidar da filha e educá-la, enquanto o pai vive fora de casa, trabalhando. Contudo, a morte repentina de Alicia por um ataque epiléptico abala radicalmente esse equilíbrio familiar. Sentindo uma falta brutal da figura materna, a menina tem grandes dificuldades de superar a perda. Tentando atender como pode as demandas da filha, Leo chega ao ponto de renunciar a si próprio, colocando em jogo sua própria identidade.
Então, é incrível como alguns filmes escolhem quem o assiste. Há três anos encontrei o poster desse filme, e li o seguinte: “ele abandonou a sua própria identidade.” Assisti dois dias depois, e logo no inicio adentro no mundo dos transformistas, com diversas fotos de transformações. Imaginem, eu não sabia de nada, e nunca passou pela minha cabeça que o filme iria usar algo tão recriminado pela sociedade para compor um “acontecer” tão natural quanto a perda. E como é bonito.
Eu sempre falei que, se eu fosse ator, queria interpretar três personagens – mesmo que eu tivesse que escrevê-los – um palhaço, uma mulher e um morador de rua. Muito por conta do visual. Sempre fui um admirador das cores, mesmo que me enxergue em preto e branco. É incrível como a maquiagem te faz outra pessoa, como o sexo interfere nos olhares de outrem e suas condições financeiras e vestimentas aumentam o julgamento.
Julgamento. Essa é outra palavra muito forte no filme, quando um dos personagens mais interessante que eu já vi fala “Eu já vi esse olhar muitas vezes na vida, são os olhos do julgamento.” Aliás, esses dois lados serão discutidos, mesmo que bem intimista, durante todo o filme. A sociedade e o indivíduo.
Eu sou um amante de pessoas, porém, na sua individualidade. Não gosto das massas, pois elas são falsas. As pessoas se transformam para se adaptar ao meio, essa transformação, da qual eu também sou refém, não me atrai. Um ser só é verdadeiro quando sozinho. Uma cena que identifica isso muito bem é quando Leo, o protagonista, está destruído por dentro mas continua conversando sobre o trabalho com o amigo, como se nada tivesse acontecido. Até que o amigo após o fim da conversa, pergunta se está tudo bem e é ai que ele começa a falar dele mesmo, onde solta “honestamente eu não sei”.
Uma coisa que preciso destacar é que, o transformismo, serve apenas para compor. Não é o objetivo do filme conversar sobre a questão, até porque da mesma o único ponto relevante para trama é a maquiagem. Como disse, misturado com a fotografia do filme, um tanto quanto pesada/escura, representa o luto. A diferença mora no fato que, mas do que simplesmente o luto, a maquiagem representa a lembrança. E ficará claro isso em breve.
Esses outros elementos, como o transformismo e preconceito só existem para expor essa ideia da diferença, esses extremos chamados “só” e “junto”. E o quão isso interfere nos seus próprios conceitos. Veja, por exemplo, que quando Leo está com a Marta, um possível romance, ele despreza e ofende Alex e depois recorre a ele para ajudá-lo a se transformar na Alicia, a mãe da garotinha.
Como disse, Alex é um dos personagens mais interessantes que eu já vi, pois ele representa tudo isso, a massa. Tanto é que fala sobre o preconceito/julgamento/olhares com muita propriedade em uma das cenas mais bonitas do filme.
– Você quer falar com um viado de merda?
– É exatamente isso que queria dizer. Quero que me perdoe pelo outro dia. Eu não quis dizer isso.
– Não? Marta disse que sim, que foi exatamente o que queria dizer. Por que me odeia tanto? O que te incomoda em mim? Minha homossexualidade ou minha velhice?
 
Agora, caros leitores, imaginem essa cena sendo interpretada pelo Juan Diego Botto e José Luis Gómez, um dos maiores atores espanhóis que existe. Aliás, Luiz Gómez entrega um Alex poderoso, no que diz respeito a sensibilidade corporal. É incrível o domínio do ator com o seu corpo que, misturado com a sua voz penetrante, soa como uma entidade confortante, amiga e sabia.
Não poderia deixar de falar mais sobre a relação pai e filha. A menininha, que por sinal é curioso tentar imaginar como é possível tamanha atuação, mesmo sendo tão jovem, tem um complexo muito grande. A falta da mãe, ou melhor, de uma presença feminina, faz com que ela crie ilusões constantes, como esconder o pai com uma maquiagem. Pode soar, ao final do filme, que o pai mexeu com o psicológico da pobre garota, mas aqui tento explicar uma coisa, nunca podemos assistir um filme e interpretá-lo pelo que ele mostra visualmente. A arte é uma entrega da qual você pode depositar todas as suas experiências e contribuir para que aquela seja ainda maior. Isso não é se iludir com o que assiste, é criar um processo contínuo de interpretação, de modo que o filme signifique ainda mais.
Voltando, o transformismo do pai é, imaginem comigo, uma criação da menina. Digo, de verdade mesmo. O personagem pai se traduz como o olhar da menina, enxergamos ele como o pai tradicional no início – que trabalha muito e chega em casa cansado – porque a menina o enxerga assim. Depois, quando ele vira a mãe é porque ela quer. Ou seja, é como se todas as cenas representasse os olhos da garotinha e a maquiagem a lembrança da mãe, não é a toa que citei a fotografia, um tanto quando triste.
O filme se resume em dois pequenos momentos. Quando ela começa constantemente chamar o pai de mamãe, Leo se desespera, procurando nos olhos da filha a sua própria identidade pois o mesmo não sabe mais quem é. Ela repete “mamãe, mamãe, você é a mamãe” até que, sensibilizada pelas diversas implorações, ela fala “papai”. Essas repetições, até chegar em pai são frenéticas, quase que um gozo. Aliás, seria uma perfeita analogia. É então que, após isso, o pai abraça a filha e, na cena seguinte, vemos ele vestido de mulher novamente. Ou seja, ele só estava interessado na palavra. Pois o olhar da menina continuaria o mesmo e ele sabia disso, pois na individualidade essa maluquice fazia sentido e, fora de casa, era só um simples transformista.
Outro ponto e, assim concluo o texto, é justamente o final do filme. Quando eles estão em um quarto de hotel e a menina fala que está com saudades do papai. O pai vai tirando a maquiagem, peruca e, lógico, a menina pede para fazer. Com suas pequenas mãos tira a sua maquiagem, delicadamente. Como se aquela visão não mas fizesse parte da sua vida. E fala que “se quiser ver a mamãe, fechará os olhos” enquanto questiona os ferimentos do papai.
Obs: Texto originalmente publicado em 9 de março de 2014

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A Felicidade não se Compra (1946)

Há milhões de pessoas que amam esse filme, essa história, o natal etc. Eu queria, muito mais do que estar escrevendo, poder ouvir um pouco da história que cada pessoa tem para contar sobre a sua vida, cheia de aventuras e medos, que fatalmente caiu(irão) na temida rotina. Considero a rotina um grande problema para a vida, mas não espero que alguém consiga viver sem ela. Pelo contrário, se sua vida tem aventuras todos os dias, então a aventura se tornará uma rotina. Outra coisa é o seguinte, o ser humano nunca está satisfeito com as coisas, sempre poderia estar melhor, desde a aparência, passando pelo presente que ganha até chegar no maior presente de deus, a vida.
Não é para menos, nos colocaram nesse lugar de malucos e nem nos disseram qual era a nossa missão. Nem sabemos ao certo se existe alguma. Seria mais fácil se tivéssemos todas as respostas para nossa existência, assim os grandes homens poderiam parar com tantas guerras e se preocupar com eles mesmos. Engraçado, olhando dessa forma eu acredito que a própria guerra é uma forma de suavizar uma grande e interminável busca por respostas.
Agora vou olhar para algo bem menos universal mas de suma importância chamado Emerson Teixeira Lima, ou melhor, eu. Passei muitos anos da minha vida tentando entender qual era o meu objetivo, muito por que meu presente me dizia sempre que não sabia fazer nada. O vazio, muitas vezes, é a pior dor que existe e “sofrer por nada” é sofrer duas vezes pois, se não bastasse o sofrimento por nada, você ainda sofre por se achar injusto por o fazer por algo tão banal, como se o mundo fosse te julgar por isso. Como se fosse proibido ser triste só por ser. Mas vamos combinar que sempre existe um motivo, não é mesmo?
Já pensei diversas vezes em me matar, ou até mesmo imaginar se as pessoas sentiriam a minha falta se eu partisse. Quase parti, confesso. Mas parece que tudo o que queria estava sendo preparado para mim, e eu só estava muito ansioso para o grande momento. Talvez um anjo tenha me dito isso e eu, cético que sou, não acreditei. O que quero dizer é que anjos existem, eles estão em toda parte. Sem poderes mágicos, somente o poder de estar perto. Muitas vezes isso é mais que o suficiente.
Assisti “A Felicidade não se Compra” com uns 15 anos. Sem nenhum motivo aparente, mas, como já disse, sempre existe um motivo. Acompanhar aquele homem de coração tão grande que mal cabe no próprio corpo foi simplesmente o que eu precisava. Sua ansiedade em conhecer o mundo, sair do lugar que estava me causou um sentimento de identificação tão grande que no meu peito faltava ar, de tanta emoção. Sabe quando você sente uma dor enorme mas em nenhum momento grita um palavrão para aliviar? Então, mais ou menos isso. Já nas primeiras cenas foi-me entregue um presente. O filme poderia acabar com 30 minutos, a sua mensagem já estava entregue.
Quando George Bailey conversa na mesa com o seu pai, explicando que o seu sonho é fazer muito mais do que ficar em um escritório é de um carinho tamanho que faz me sentir inútil em tentar explicar. O seu pai, sábio, responde dizendo que faz grandes coisas, pois é inerente ao ser querer um lugarzinho para viver, uma proteção para a família. Na verdade, eles fazem muito mais, pois fazem com amor e entrega. Tudo fica maravilhoso quando há verdade, sinceridade e humildade.
É claro que o George entendeu o recado do pai que, por sinal, resume o filme todo. “faça o melhor com o que tem, independente de onde esteja”. O filme coincidentemente aborda o natal, mas não faz dele uma necessidade para a trama. Pouco importa a data, a única coisa que importa é a verdade do fazer o bem. Mas me soa muito bonito remeter essa obra abençoada ao natal, pois é realmente um momento onde as pessoas estão abertas, onde o carinho se faz presente, pena que muito dele é falso e/ou momentâneo mas… enfim, eu ainda tento acreditar que há famílias que se renovam a cada ano, nessa exata data e isso me faz feliz de alguma forma.
Quando disse que existe muitos anjos por ai, isso pode ser ilustrado com o filme, onde George Bailey se apresenta como tal durante todo o momento que o acompanhamos. Ora, ele só não tem asas ainda, mas ajudou várias pessoas, diretamente ou não, ele representa todos nós e nossas respectivas importâncias para com o meio. E como fica feliz esse meio com a nossa ajuda. Deixando sua vida de lado para se preocupar com problemas alheios, George nos mostra que os problemas alheios podem, muito bem, ser nossos também. Forte e destemido quando jovem, ele dá lugar a um pai. Se outrora trazia a lua para sua amada, ele passa a questionar sua sanidade por ter escolhido ele.
As pessoas nos escolhe o tempo todo, nós escolhemos as pessoas e, muitas vezes, a melhor escolha está do nosso lado. Só estamos preocupados demais para entender isso. É difícil encontrar alguém que te entenda, que as horas passem devagar, que pisar na grama não seja um problema assim tão grande. A beleza sempre está nos olhos de quem vê/sente.
Finalizando, eu digo que dei espaço para uma nova versão de mim, hoje eu tenho certeza que tento fazer o bem de todas maneiras. Fazer com que o choro dê lugar ao sorriso, e ser agradecido por isso realmente não tem preço. Faço de todos os dias um natal especial, onde tento preencher de todas as maneiras os vazios, com muito carinho e respeito. Talvez eu pensa que estou fazendo isso para mim mesmo, constantemente. Pois entender do vazio faz com que você lide bem com ele, e isso é realmente significativo nos últimos tempos.
Enfim, ao assistir “A Felicidade não se Compra” no cinema, eu parei, me olhei, assim como os anjos do filme, e pude perceber que aquele jovem com medo de se assumir um apaixonado pela vida não existe mais. No fim, as histórias são tudo o que temos, e merecem ser compartilhadas.
Obs: Texto originalmente publicado em 14 de setembro de 2014

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36 (2012)

O diretor Nawapol Thamrongrattanarit, cujo nome me parece quase impronunciável, começa em grande estilo no universo cinematográfico. O cinema tailandês, eventualmente, nos presenteia com obras incríveis, como por exemplo o “Tio Boonmee, Que Pode Recordar Suas Vidas Passadas”, e esse “36” é um outro bom exemplo.

Tenho um contato muito grande com a fotografia, desde pequeno. Uma relação de amor e curiosidade, uma feliz nostalgia que eu tenho, meus tempos de revelar as fotos e segurar em minhas mãos aqueles momentos. (in)Felizmente não temos mais a preocupação em comprar filmes e revelar depois, e cabe aqui essa dicotomia pois, realmente, a tecnologia que nos salva, é a mesma que nos priva de sensações boas. Há muito tempo eu não tocava nas minhas fotografias, recentemente revelei um ensaio que fiz e, nossa, foi como se eu voltasse no tempo. Aquela maravilhosa sensação de acariciar minha obra. Pode soar estranho, mas faz muito sentido para mim. O filme intercala muito bem essa reflexão, na busca incansável da protagonista pelo seu amigo-amor, companheiro de registros de pequenos momentos, que serão, a partir da captura, eternos.

Ela guarda suas fotos em um HD, um HD por ano, e isso a confunde diversas vezes, a priva da sensação citada a cima, cria-se uma confusão, pois mesmo com sua ansiedade por registro, ela soa muito perdida quando entra em questão “a procura pelas fotos”. Um computador, entre a pessoa, sensibilidade e a arte, reduz a emoção da imortalidade, que a fotografia traz.

O filme começa com ela registrando um edifício abandonado, ela os procura para rodar filmes, encontra então o seu companheiro, um diretor de arte, onde durante metade do filme eles passaram lado a lado, registrando os lugares e momentos que passam, ou pessoas que encontram. Em uma das primeiras conversas, ela diz que trocou o analógico pelo digital, resultado do tempo. As coisas evoluem, e a praticidade fala mais alto. Não é errado, no mesmo tempo que se revela infantil a ideia de que, guardado as importantes fotos no computador, elas estarão a salvo.

O filme é dividido em capítulos, que mais parecem descrições de alguns detalhes que acontecerão ao longo, por exemplo: “tire uma foto para podermos ver novamente“, “a capa do livro que ela lê é uma casa sem porta”,  “o lugar tem um passado”, “um pássaro vermelho-violeta voava no céu” e “não gosto de ser fotografado”. Esses três últimos, por sinal, são os mais interessantes e cruciais para o simbolismo do filme, ele olha um pássaro e mostra para a protagonista ela então tira foto dele, e desencadeia um diálogo interessante, onde ele questiona o porquê dela não olhar com os olhos ao invés da câmera, ela responde que, se não tivesse tirado a foto, o momento se perderia para sempre. Ela é vítima de uma obsessão quase.

O final do filme é digno de emoções, pois a menina está tentando recuperar os arquivos perdidos ao lado do técnico de informática, enquanto relembra alguns momentos que passou com o seu amor, o diretor de arte, visto que tinha passado anos e eles nunca mais se viram, ela o descreve com muita propriedade, através das fotos, diz que ele gostava de fotografar desconhecidos na rua e raramente lhes entregavam ou mostrava as fotos que tirava – algo que me identifiquei profundamente – que demonstra, talvez, a sua arte como fruto solitário, particular. A menina tirou uma foto com o rapaz, porém nós, espectadores, não vemos esse momento, a filmagem continua na câmera em cima do muro, pronta para captar os dois, como se o equipamento fosse o real protagonista dessa história de amizade/amor. Simbolizando que esse momento deles, não poderá ser compartilhado com a gente, pois é particular deles. Uma metalinguagem incrível.

Obs: Texto originalmente publicado em 10 de janeiro de 2015

emersontlima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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Qué Tan Lejos (2006)

Se tem uma coisa que me deixa feliz nessa vida é fazer uma viagem, principalmente aquela despretensiosa. Um lugar confortável, pessoas diferentes e vontade de conhecer/desbravar. Ou, talvez, um passeio no meio do mato, acampamento, enfim, eu ainda não fiz nem a metade das coisas que gostaria, se tratando de viagem, porém, me pego as vezes perplexo com as diversas possibilidades que estão ao nosso redor e, por vários motivos, ignoramos muitas vezes. Eu sempre fui uma pessoa muito simples, desapagada de bens materiais – claro, não totalmente – e com o passar do tempo, fui questionando se era preciso “ter” mais do que “ser”, ou melhor, sentir. Cheguei a conclusões que me afastam um pouco dessa amarra de consumismo que vivemos, enquanto muitos amigos me contam, super entusiasmados, os seus planos de carro, moto etc, eu tenho exatamente a mesma reação quando conto sobre meus planos de viagem, por exemplo. As diversas coisas que pretendo ver, ares diferentes para respirar, pessoas para conhecer e me conhecerem.
Uma longa e inesperada viagem começa dentro de nós mesmos, reflexões sobre nossos objetivos, sobre o que colocaremos como prioridade na nossa vida. As vezes eu penso em comprar um celular melhor, por exemplo, mas depois cai a fixa e quero guardar dinheiro para viajar. Tudo acontece em um momento, por enquanto, vou viajando o quanto é possível para mim e, desde sempre, vou transformando o cinema no melhor guia turístico que existe, aquele que não só me mostra as belas paisagens ao redor do mundo, como me apresenta histórias particulares, me aproxima de um universo ainda não conquistado por mim, que está no campo das ideias. Para quem se interessar, eu participei do podcast Cinem(ação) falando sobre cinema e viagem ( Clique aqui ) onde indiquei diversos filmes que abordam o tema, diretamente ou indiretamente, o filme que comento hoje, inclusive, certamente entraria na lista de recomendação, se eu tivesse assistido antes, claro.
“A Que Distância”, de 2006, é um filme do Equador, o primeiro da carreira da diretora Tania Hermida. O filme segue a linha dos famosos “road movies” ou “filme de estradas”, até ai nada novo, aliás, nem o vejo com muitos diferenciais, mas certamente possui alguns detalhes cativante, como o trio de protagonistas-amigos-desconhecidos que, quando juntos, são bem divertidos. Dois personagens tem objetivos prontos, como invadir o casamento de uma paixão e levar as cinzas da vovó, o que, por si só, resulta em diálogos muito engraçados, como também situações. O personagem “Jesus”, um ator, se revela o personagem mais interessante, visto também que funciona como uma espécie de sábio para as garotas. Esperanza é a única personagem que não tem um objetivo caricato, simplesmente quer conhecer as paisagens, o que entra em questão um outro ponto forte: a visão do Equador. Bem, sendo um país um tanto quanto desconhecido – se eu tivesse a oportunidade de viajar para um país da America do Sul, certamente seria Argentina ou Chile, por exemplo – é interessante analisar algumas cidades, o povo e a cultura, sendo sincero, fiquei com vontade de conhecer o Equador depois de assistir, isso deve ser realmente importante, pois “A Que Distância” foi um dos maiores sucessos por lá, principalmente por essa propagação, a diretora através de alguns artifícios como a fotografia, consegue exaltar as estradas pelas quais as personagens passam.
– Não sei porque nunca tenho uma história com final feliz.
– Finais felizes? Depende.
– Como assim “depende”?
– Depende de onde você coloca o ponto final. Se você tivesse colocado o ponto final dessa história no dia que se apaixonou pelo cara na praia, você tinha sua história feliz. Subiam os créditos, a música, aplausos e todo mundo sairia feliz… não agora, créditos, aplausos e ai acaba a história dele. Mas a sua não, pelo contrário, a sua acaba de começar.
Bem, esse diálogo que ocorre no final do filme, uma analogia ao próprio cinema, no que diz respeito a hora de se finalizar um show, mesmo quando esse show é a sua própria infindável tentativa de viver uma história com alguém. É uma ideia simples, por acaso precisava ouvir algo assim, e esse é exatamente o espírito do filme, coisas certinhas que devem ser vistas na hora certa. Bonitos detalhes.
Obs: Texto originalmente publicado em 14 de janeiro de 2015

emersontlima

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Casa Vazia (2004)

O silêncio está muito presente no cinema, principalmente na Europa, é bem comum encontrarmos um filme onde os protagonistas são cercados de uma alma silenciosa para, enfim, desenvolver através de gestos e alguns artifícios técnicos – como fotografia, por exemplo – o que se passa, realmente, com as personagens. No caso de “Casa Vazia”, filme de 2004, dirigido pelo excelente Kim Ki Duk, o silêncio é muito mais do que um artifício, passa a ser uma entidade, um personagem complexo, talvez, o maior personagem do filme.
É recorrente atribuirmos ao silêncio um poder grande na relação, seja ela qual for. É inerente ao ser, achar que o outro consegue entender sem apenas um diálogo, uma frase. Palavras soam infantis, quando se comparado com atitudes. Conversas. Enfim, o silêncio é uma virtude, para aqueles que o entendem e, consecutivamente, usam para o bem próprio, basicamente se entender. O barulho impede a reflexão sobre nós e, sejamos francos, entender nós mesmos é a nossa única missão nesse mundo.
O filme mostra um rapaz, jovem, que vive invadindo as casas de famílias enquanto os mesmos viajam, passam dias fora. Ele não rouba ou nada do tipo, simplesmente se hospeda lá e, em troca, oferece pequenos favores, consertando alguma coisa da casa que ele percebe que está quebrada – se tratando, evidentemente, de uma metáfora. Em uma dessas suas aventuras bizarras, ele se depara com uma mulher que, ao invés de acompanhar o marido na suposta viagem, fica em casa, ela também se encontra perdida como o pobre garoto, então analisa ele silenciosamente e, após alguns desentendimentos, parte com ele em rumo à outras casas.
Enfim, o personagem principal não tem uma fala sequer, bem, tentarei explicar o meu entendimento sobre o porquê isso acontece mais a frente. Acho relevante revelar que, misteriosamente, eu tive alguns processos de identificação muito estranhos no cinema e, imaginem só, muito parecidos, ao longo da minha vida cinéfila. “Following”, filme de 1998 dirigido pelo Nolan, ainda me causa um desconforto, para quem não lembra, tem um escritor que segue pessoas desconhecidas na rua, pretendendo adquirir inspiração para escrever o seu livro. Enfim, é algo totalmente insano, mas mais insano ainda é se identificar com isso, algo parecido aconteceu comigo quando assistia esse belíssimo filme Sul Coreano, o fato de ter um cara, sem rumo, dormindo em casas de desconhecidos me chamou a atenção. Eu não precisava de mais nada para ter certeza que tinha que assistir.
Para minha surpresa, o filme é mais que uma ideia sensacional. O silêncio, como disse acima, é uma metáfora, assim como a invasão das casas, o próprio personagem principal, os acontecimentos, enfim, nada me parece ter um sentido literal. É um verdadeiro quebra cabeça mesmo, onde a sensibilidade traduz com perfeição as estranhezas e nos aproxima da ideia que, de fato, assistimos um filme extremamente real.
O protagonista é um perdido, sem família e sem amor, pois o mesmo é uma sombra, um andarilho, ele não invade casas, ele invade lares, sentimentos. Em toda casa por onde passa, ele tira uma foto dele mesmo perto de algum quadro dos donos da casa, pessoas que, por sinal, apesar de aparentemente terem tudo, são vazios, até mais vazios que ele próprio. Como visto, a casa que tem uma maior profundidade é a qual uma personagem, uma bela mulher, acaba se interessando pelo modo de vida do rapaz, aliás, ela é casada e visivelmente não vai nada bem no casamento, me parecendo que aquela “aventura” que ela está prestes a fazer, a remete para uma vida passada, seja com o próprio marido ou não, enfim, o protagonista é sombra dela, assim como é sombra do marido. Ele é um camaleão, se adapta a realidades e declínios em prol a atitude de mudar.
A posse é extremamente frágil, assim como o rótulo. As casas que ele invade, apesar de muito belas e cheias de frescura – como uma TV com muitos canais e etc – não o iludem. Ele não está interessado no ter, ele só quer ter um teto para viver até o próximo dia. Talvez ele seja exatamente o que todos os seres humanos são: sobreviventes, porém sem a necessidade de usar máscaras. A mulher, pelo contrário, tem que viver com o fardo de possuir, seja uma casa ou um casamento, apesar da ânsia de se desprender dessas amarras, ela ainda é uma pessoa enjaulada. Mas pensa fora da caixa, isso a faz ser a única que consegue ver o jovem, depois que ele desenvolve técnicas para, literalmente, se esconder atrás da pessoa, imitando seus movimentos.
Enfim, assim como “Primavera, Verão, Outono, Inverno e… Primavera” do mesmo diretor, “Casa Vazia” é uma obra difícil, porém sensível ao extremo, vale pela experiencia e reflexão, desde uma vida acorrentada pelo medo de fugir, passando pelo poder do silêncio, principalmente nos momentos certos.
Obs: Texto originalmente publicado em 16 de janeiro de 2015

emersontlima

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Onde Fica a Casa do Meu Amigo? (1987)

O cinema iraniano, e acredito que já escrevi isso aqui outras vezes, é um dos – ou o maior – cinema que me encanta. Há diversas obras que usam como base a sensibilidade e realismo, incluindo alguns filmes nacionais, porém, o cinema iraniano ainda mescla mais um elemento importantíssimo e que, pessoalmente, eu amo: a criança. Bem, é lógico que nem todos os filmes tem uma criança como protagonista, é o caso do grande “Close-up” dirigido pelo Abbas Kiarostami, cuja trama se desenvolve, ainda assim, em cima de uma ação que beira a infantilidade, uma mentira, cuja importância lá é mostrada com tamanha importância que, aqui, comparo com a arte. Ou seja, Abbas une o realismo, sensibilidade para nos provar que a mentira pode e, muitas vezes é, de fato, uma forma de se fazer arte.
Outro cinema que traz a criança como centro de um universo aliado com um hiper senso de realismo é a Suécia, porém ainda vejo em alguns filmes isso como um elemento da narrativa. Um truque. Assim como o silêncio. Existem muitos filmes silenciosos, porém alguns chegam a dar sono, causando um tédio, eu sou um apreciador das poucas palavras no cinema – assim como longos diálogos – e confesso que, quando o silêncio me causa u cansaço, eu já analiso que é um artifício. Algo que nunca me aconteceu com o cinema Iraniano, nunca me cansei pela naturalidade, pelo contrário, a mesma me emociona, pelo simples fato de estar acontecendo, sendo o ápice do coração no cinema.
“Onde Fica a Casa do Meu Amigo”, de 1987, veio antes de “Close-Up”, citado acima, e já demonstra a capacidade, quase assustadora, de Abbas para trabalhar em cima do olhar da criança, para com o mundo que o cerca e, por diversas vezes, vemos o mesmo sendo transformado. Ora, não a toa geralmente temos, a partir do tema principal, o surgimento de várias pessoas que dividem com os outros personagens e nós espectadores, um pouco do que acreditam. Ou sua história. Como se estivéssemos sentados em uma praça, ouvindo história de pessoas que não conhecemos, enquanto nosso filho se diverte criando um mundo próprio, onde os seus objetivos não são entendidos pelos pais. Somos – nós, espectadores – moscas analisadoras de um roteiro humano. Um exemplo disso seria o senhor que, ao final do filme, ajuda o garoto protagonista a finalmente encontrar a casa do seu amigo.
Aliás, creio que eu me apressei, já nos 10 primeiros minutos de filme, o diretor faz questão de revelar a pressão que os meninos passam em sala de aula, para a realização de suas tarefas, além de terem um mestre altamente impaciente para com atrasos e demais eventos que soam mais como detalhes. Quase como um ritual, todos os dias a primeira coisa que ele faz – depois de dar bom dia para os alunos – é passar nas carteiras, uma por uma, afim de corrigir as tarefas, Ahmad se vê sensibilizado pelo seu amigo, pois ele não fez as atividades, então já temos um close no rosto dele, em uma emoção hiper sensível que me faz pensar “onde raios acharam esse garoto? Que atuação é essa”, lembrando que isso é nos primeiros dez minutos, e lembrando também que, muitos dos atores dos filmes iranianos, não são atores. Enfim, esse carinho para com o amigo continua no intervalo, quando ele cai, machuca o joelho, e vemos nosso protagonista – herói – cuidando com a maior atenção do mundo o ferimento.
Se existe pressão até na sala de aula, nos sentimos, junto com o personagem, o sufocamento que sua casa e as responsabilidades causam, o menino é cercado de tarefas onde não cabe mais tempo para ele pensar em seus próprios problemas, enfim, essa é uma realidade daquele país. Mas existe uma falta de comunicação muito grande entre ele e a sua mãe, pois a mesma também é muito preocupada. Enfim, é de se imaginar quando há uma pausa para o afeto. Não existe uma resposta para isso, além do próprio desenrolar da história, o menino supera os seus medos para ir atrás do amigo, conhecendo pessoas que o ajudam, mesmo com suas limitações, como o adorável velhinho que ele encontra ao longo. Enfim, em meio a dúvidas, até mesmo a descobertas, nosso pequeno herói vai descobrindo o cuidado, causando então a comoção, simplesmente pelo registro visceral dessa passagem de auto-descoberta. Feita sem truques.
– “Porque se for um preguiçoso não será útil para a sociedade… Na sociedade as crianças devem manter incorporado o sentido de disciplina. Devem obedecer os seus pais e respeitar todas as tradições.”
Obs: Texto originalmente publicado em 17 de janeiro de 2015

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No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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