Pássaros rebeldes sentindo a magia da entrega mútua

Antes do Amanhecer (1995) e Antes do Pôr do Sol (2004)

E se vivêssemos em um mundo onde “descer do trem” fosse visto como estupidez?

Assistir “Antes do Amanhecer” (1995) justamente na fase da adolescência onde a conquista assume papel importante na vida, definitivamente, foi a benção e maldição da minha vida. No auge do descobrimento não só físico como emocional, observei os sentimentos guardados no meu coração e foi questão de tempo para perceber que era um romântico crônico. Pronto! quando a vida enxerga um menino brincando de ser poeta, parece que a cada dia lhe dá diversas pistas de que um encontro nunca será apenas um encontro, que um beijo nunca será à toa, consecutivamente, uma despedida nunca será fácil, no entanto sempre permanecerá amiga. Afinal, o que seriam dos sensíveis sem a necessidade de aprender a transformar melancolia em arte?

Tive certeza que assisti filmes demais, isso modificou tudo, parece que me sentia obrigado a acreditar que de repente, andando no meio da rua, viajando, ou sentado na praça, simplesmente ia acontecer a mágica de encontrar alguém sentindo a monotonia tanto quanto eu e, por mágica das energias do mundo, se entregaria ao desconhecido, transformando um dia em uma oportunidade linda de viver, imortalizar e criar. Nessa confusão de pensar e sentir, o tempo vai dizendo que o mecanismo do encontro funciona de modo distante à essa utopia.

Percebemos, portanto, que a tarefa nos tira o olhar sincero sobre o meio, que uma viagem de trem significa, quase que necessariamente, que há um destino e que a quebra dessa linha lógica significaria algo próximo ao fracasso. Porque acontece esse pensamento subliminarmente, de que um ser vagante o é por, simplesmente, não pertencer à nada. Não fazer parte, não significa exclusivamente fracasso; estar disposto à enfrentar o desconhecido, descer dos trens, percorrer o mesmo, com uma visão estritamente pura, não deveriam esses serem exemplos de coragem. A existência tende a ser tão séria, nascer e morrer simbolizam uma distância tão curta, é inocente a nossa tentativa de adaptação às normas pré-estabelecidas da vida, como se cada idade trouxesse consigo uma lista das conquista que deveriam estar presentes.

É frustante o fato de que o romance de cinema não existe na realidade, pois se a arte imita a vida, as mensagens existem no coração de pessoas, e se existem é porque desejam, se desejam é porque é real; a não aplicação disso só diz respeito ao indivíduo. Por outro lado, é difícil sonhar sozinho, mais do que isso, quando a entrega acontece com desequilíbrio, um dos lados tende a se ferir. Richard Linklater parece conhecer a vida como poucos, ou finge incrivelmente bem. Pois transforma Jesse e Celine em conceitos incríveis, representações de pássaros rebeldes que estão entregues ao “agora”.

Qual o sentido de projetar todo o nosso hoje no amanhã ou no ontem? não dá para ter credibilidade alguma na mente que produz para alcançar em algum momento que não seja agora. Parece onírico essa ideia? a sociedade nos diz isso, basicamente o sistema inverte as coisas de modo que acreditemos que o que deveria ser realidade, se trata na verdade de algo surreal. Se há um estilo de vida que deve ser priorizado, com certeza seria a mente que não “está”, que “é”. Uma mente vazia ao ponto de não ansiar pelos acontecimentos futuros, transformando o amanhecer, a despedida passaria a ser um começo.

Jesse está no trem a caminho de um lugar perdido, Celine tem uma obrigação, mas visivelmente se mantém sabiamente preparada para as surpresas da vida. Ambos são unidos por um casal que discute intensamente. Em poucos minutos percebemos o quanto a palavra é importante para eles. Inundados de conhecimentos e olhares atentos sobre o que acontece ao redor, o diálogo funciona como musa, que os conectam e facilmente os aproximam. Jesse e Celine percebem que se conhecem, que pertencem ao amor. Quantos milagres desse acontecem todos os dias? Quantos desses, talvez a maioria, caem justamente no maior sofrimento humano: a oportunidade desperdiçada? É a troca de olhar que não ultrapassa a barreira do diálogo; o diálogo que não se atreve; o atrevimento que não se sustenta na empatia; a pressa. São infinitos os motivos, o fato é que recusamos, desde o momento que pisamos nesse mundo, histórias maravilhosamente sinceras, pelo simples fato de que nosso coração não suporta as intensas possibilidades que temos de vislumbre todos os dias. Então somos tolos o suficiente em nos contentarmos com a incompletude emocional, a entrega pela metade, o carinho, o bom, quando deveríamos nos dar a chance de, somente por um dia ou dois, permitirmos que o amor total nos invada por completo. Amor completo, leia-se, aquele que pertence ao hoje, que talvez acabe ao amanhecer mas que, de qualquer modo, represente a magia de dois corações presos na mesma condição de perder completamente a terrível pretensão de que uma história só é verdadeira se existir para se estender. Dane-se o próximo dia, quando a mente é vazia e silenciosa, você se torna um andarilho(a) disposto a compartilhar. Que histórias representem não a intenção, mas todos os sentimentos que proporcionou; não existe tempo para esse tipo de coisa.

Celine pergunta para Jesse o que é um “problema para ele”. A resposta é tão rápida, orgânica, o rapaz responde: “você, provavelmente”. Nesse momento o fim importa, mas o trajeto, a estrada é tão presente, tão profundamente mágica, que diz constantemente para o casal que não existe início ou término, não enquanto houver palavras, gestos, silêncios infinitamente significativos, olhares que se atraem e confundem, que se perdem.

“Antes do Amanhecer” (1995) é tão doce e tão amargo. Doce no contexto geral, por contemplar o inesperado. E amargo pelo fato de nos fazer lembrar de todas as vezes que não começamos um assunto, que não fomos sinceros o suficiente, que não convidamos para um café. Intenso no momento que percebemos que o tempo passa e que encontros vãos não representam o que merecemos, mas o que nos contentamos. Mas e sua mente, pertence ao agora? diga-me, como é viver em um mundo onde as pessoas lidam com o “descer do trem” como sintetização da decisão estúpida?

 Antes do Pôr do Sol (2004)

Se Antes do Pôr do Sol (2004) não representa, em seu início, o romance intenso como o filme anterior, transborda realismo sentimental ao evocar a mensagem de que as pessoas temem serem esquecidas e que cada uma com o passar dos dias lida de uma forma diferente com essa preocupação. Jesse escreveu um livro e Celine procurou Jesse em cada nova história que viveu. Vejo esse segundo filme, feito nove anos depois, muito sob a perspectiva de um artista contemplando a sua maior arte.

Jesse, outrora um menino que recusava se entregar totalmente ao romance, aos sonhos, agora se vê diante da emoção em trazer à vida o seu amor. Ele escreveu suas lembranças, tencionando viver o “hoje” novamente com a mesma intensidade que fizera na juventude. Se por um lado é doloroso o choque de que o tempo passou e aquela história ficou para trás, é maravilhoso perceber o quanto ela marcou os dois. Encontros e desencontros existem aos montes, mas o quanto deles deixam marcados na nossa pele conhecimentos profundos sobre quem somos no estágio mais profundo de sensibilidade?

Nesse filme existe uma urgência, tendo pouca duração, o desenvolvimento narrativo acontece com uma naturalidade, os minutos passam como segundos. É tão dolorosamente verdadeiro, que por momentos nos pegamos ansiosos pelo fato de que o filme (verdade que teimamos recusar) vai acabar e que a continuidade não será exposta. Essa urgência também atinge ambos os personagens que, em um estágio da vida onde a imposição social determina que tudo esteja em perfeita ordem até o fim do mundo, se vêem presos em escolhas movidas pelos erros da consciência sufocada, todas partem de um mesmo fato: Jesse e Celine não se encontraram seis meses depois. A história deles é incompleta e, sendo assim, segue sendo perfeita. Mas o coração humano não foi feito para aceitar facilmente histórias perfeitas, mas histórias que duram. Não conseguimos suportar a dor da beleza, sem as consequências de tamanho sentimento.

Jesse esperava o reencontro, se transformou no poeta. Se pudesse voltar no tempo, talvez ele mesmo teria escrito o poema para eles no primeiro encontro. Talvez ele mesmo teria sido a cigana que leu a mão da Celine. Talvez ele teria olhado mais para Celine e chorado, chorado como um bebê, pois se tratava do exato momento momento mágico que só acontece quando nos desarmamos da condição imunda de que os contos de fadas acabam meia-noite.

Antes do Pôr do Sol (2004) é muito mais um filme da Celine, pois ela simplificará através de suas angústias a dor do tempo que passa depressa e o coração que teima olhar para trás e que busca, em histórias vividas, um modo de aceitar as do presente, mesmo que não seja o suficiente. Quando ela menciona o fato de que o término de relacionamentos representa algo muito doloroso, pois todos são “somas de belos detalhes” é de uma profundidade espinhosa, benção da verdade dura e maldição pelo mesmo motivo.

Todo o caminho é também um palco para desabafos. Até por esse motivo a diferenciação dos lugares pelos quais os protagonistas passam. Se no primeiro filme os lugares aparecem depois, vazios, solitários, no segundo acontece a mesma coisa justamente no início. É a antecipação, o palco é apresentado antes dos artistas, inversão do tempo e espaço. Que também simboliza as diferenças não só psicológicas dos personagens, como também as suas emoções.

Nessa perspectiva, curioso é notar que os assuntos brotam entrem os dois como flores em um jardim bem cuidado. O carinho que um demonstra para com as palavras do outro, o equilíbrio entre a pronúncia e a atenção, tudo brilhantemente orquestrado por dois atores extremamente talentosos. Ethan Hawke e Julie Delpy nasceram para mostrar ao mundo esse ritual do “antes”.

Os diálogos são constantes, flexíveis, com exceção do final. Quando Celine desce do carro e Jesse a acompanha até sua casa, é sentido uma tensão entre eles. Principalmente na moça. Pois a idealização de um sonho personificado em um ser humano, sua história e paixão, está em pé ao seu lado, prestes a conhecer uma vida particular que até então somente a abrigava enquanto sonhava. Sua casa se tornar também um palco é algo que provavelmente nunca passou pela sua cabeça, pois fazer isso é como gritar para o mundo que a partir daquele momento sonho e realidade se confundem. Toda a sequência dela cantando para Jesse, imitando Nina Simone, é de uma beleza, do tipo pouco visto na história da arte. Toda a insegurança, por um momento, é deixada de lado, com um sorriso tendencioso Celine afirma(questiona, sonha?) que Jesse irá perder um avião… ele sorri.

Nós sorrimos?

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emersontlima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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