Closer (Mike Nichols, 2004) – amores líquidos como reflexo da contemporaneidade

O amor arcaico morreu no momento que o primeiro homem relativizou os sentimentos como forma de evolução. Mesmo sendo motivo de empatia extrema e desejo intenso, o romantismo clássico perdeu forças com o passar do tempo e muitas características típicas de amores proibidos, intensos e eternos, passaram a ser sinônimos de obsessão e opressão. O cavalheiro que se suicida, a dama que se amarga ao longo dos anos por conta de uma história incompleta, enfim, são dilemas como Goethe e Shakespeare que funcionam, na contemporaneidade, como forma de buscar versões tradicionais de se relacionar inteiramente, depositando assim toda a expectativa pessoal em um segundo ser, com todas suas infinitas imperfeições.

Uma das ideias mais impactantes do sociólogo e filósofo polonês Zygmunt Bauman é o conceito de “amor líquido”. Dada as circunstâncias, principalmente ao que refere às tecnologias, o homem moderno tende a manipular seus sentimentos com, talvez ilusoriamente, mais facilidade. Essa facilidade volta-se exclusivamente para o que diz respeito à dependência, como se a busca pelo outro fosse puramente um reflexo de nós e que essa interminável busca pelo encontro do acaso fosse artificializada através de aplicativos de encontro, onde boa parte do processo é minado e, consecutivamente, a jornada a dois passa por transformações.

É fácil aplicar esse conceito na rotina, com o advento da tecnologia, nos tornamos mais distantes, enganosamente próximos do todo. Isso causa uma confusão inerente às tamanhas responsabilidades; O relacionamento afetivo passa a ser reflexo dessa velocidade absurda de encontros e desencontros, transformando as experiências em uma síntese existencial. Filosoficamente, caminhamos em uma direção oposta ao classicismo, os encontros são mais triviais e, principalmente, o fim tende a ser mais comum e aceitável, visto que nos posicionamos nessa exata condição de conhecer, envolver, preencher lacunas e despedir, na maioria das vezes de nós mesmos.

No brilho ofuscante da pessoa escolhida, minha própria incandescência encontra o seu reflexo resplandescente” – Bauman

Em tempos onde diversas possibilidades são desperdiçadas meramente pela falta de vontade, o desejo desvirtua-se do que fora, se antes o romântico era apegado à ideia de que amorosidade significava somente momentos belos, hoje há uma propagação da visceralidade quanto à ondulação sentimental; se uma pessoa traz consigo todas suas inseguranças e limitações, o desenvolvimento de uma vida conjunta passa por inúmeros declínios, por esse motivo o “romantismo está morto”.


Closer ( Mike Nichols, 2004)

Closer ( Mike Nichols, 2004) é um exemplo de obra que conversa diretamente com a proposta do “amor líquido” de Bauman. Na trama, acompanhamos a vida de quatro personagens – Dan (Jude Law), Larry (Clive Owen), Anna (Julia Roberts) e Alice (Natalie Portman) – que têm suas vidas relacionadas de modo a compor um quadro repleto de metáforas cruas sobre o amor, indisponibilidade sentimental, insegurança, ausência de responsabilidade e perda. Os quatro personagens são eixos temáticos e que se complementam, o estilo narrativo contempla suas verdades, ainda que não revele nada além do necessário. A intimidade é julgada ao passo que o crucial do longa são os diálogos, estes extremamente enriquecedores, profundos e teatralmente melancólicos.

Antes de mais nada, é interessante deixar claro três elementos que são importantes para a significatividade da história: a câmera fotográfica; traduz-se pela inerência do registro, Anna é fotógrafa renomada e é apresentada registrando Alice e Dan, duas personagens envolvidas pelo interesse romântico, ainda que relacionado estreitamente com a fotógrafa. Outro é, curiosamente, o cigarro. Ele une três personagens e se no primeiro ato Dan pronuncia que parou de fumar, no terceiro corta abruptamente uma discussão para comprar cigarros. Por último são os nomes. “Anna” é utilizado por Dan em um chat, onde ele emprega nessa alcunha uma personalidade em busca de sexo; “Alice” é um nome que referência uma proteção emocional, é a fuga da convencionalidade e representa o medo pela finitude das relações. Ainda sobre nomes, de fato a sensação é que a frase “olá estranho” proferida pela Alice no começo, demonstra não só a sua personalidade sociável e entregue, como também personifica as quatro personagens. Elas são estranhos para todos e para elas, são humanos que convivem com os erros e parecem não aceitar a plenitude. São pequenos se comparados ao milagre de dividir e sorrir.

A cena inicial impacta de imediato. Alice e Dan cruzam uma avenida e se olham, é o contato puramente urbano e cotidiano, a música “The Blower’s Daughter” de Damien Rice – a melodia tão bonita e delicada se opõe à própria letra que carrega consigo uma profunda lamentação de uma paixão solitária – é trágico o momento que eles se encontram de fato, motivados por um súbito acidente provocado por um automóvel. Alice, de Nova York, olha para o lado esquerdo e se esquece (desconhece) que os carros na Inglaterra vem da direita. Ainda que o arco dramático passe inteiramente pelo personagem Dan, sendo ele a estar envolvido diretamente com todos os outros personagens e as consequências caiam em cima dele, ou seja, representando o protagonista, mais do que qualquer um, sinto que a Alice é a alma do filme. É ela que simboliza a discussão, o ser sem nome que se sente profundamente melancólico por funcionar, às vezes, como parasita. Essa ambiguidade entre o ciente e o vulnerável, faz com que ela seja inteiramente complexa, uma mulher jovem, tomada pelos sentimentos e lutando bravamente para não ceder; ela caminha olhando para o lado oposto do seu oásis. Dan se apaixona pela possibilidade “Alice”, traduz suas expectativas pobres em base às esperanças da jovem, por não compreendê-la, faz um livro inspirado na musa, rouba sua vida e oculta “a verdade”, como é dito em dado momento.

– Gostou da sua foto?
– Não.
– Por que estava tão triste nela?
– Pela vida.
– O que acha da arte, no geral?
– Você quer falar sobre arte?
– Alguém tem que falar sobre isso. Sério, o que acha?
– É uma mentira. É um monte de desconhecido tristes fotografados com beleza. Todos os imbecis ricos que apreciam a arte dizem que é bonito porque é o que eles querem ver. As pessoas nas fotos são tristes e sozinhas, mas as fotos fazem o mundo parecer bonito; então a exposição é tranquilizadora, o que faz dela uma mentira. E todo mundo adora uma boa mentira.

As despedidas aqui são a morte para todos, as quatro personagens colhem os frutos por serem perdidas nessa imposição social de sentir-se completo apenas com um outro alguém. São pessoas interessantes, mas narrativamente nunca ficam sozinhas, surgem conversando, movendo-se, nunca está em repouso e a estagnação parece uma utopia. Não à toa Dan escreve obituários em um jornal, como pode um ser narcisista escrever sobre alguém que não ele próprio? por isso a morte parece ser o ideal, a cada nome escrito é como se ele salientasse que ainda continua vivo. Como se a rotina fosse uma competição e o beijo um troféu.

Se o “amor líquido” interpreta as relações atuais como ausentes, imediatistas e por isso pouco intensas, é curioso como Larry não ama Anna, mas sim o cognome criado por Dan no chat, com todas as características e desejo. A pressão que ele faz ao saber que foi traído, a rememoração do passado que provoca é infinitamente mais agressivo para Anna do que uma agressão física.

E assim seguimos, nessa confusão sentimental que cega-nos diante da beleza do pôr do sol. Buscamos nós, em cada estação; nos buscamos no outro, assim todas as suas diferenças se tornam desafios alucinantes, como se projetássemos o futuro no que é e sempre será. É o amor moderno destroçado pelo ego, encontros perdidos e conclusões diretas. Se Romeu e Julieta estivessem vivos hoje, amando ou não, estariam distantes um do outro.

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emersontlima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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