Jim & Andy (2017, Chris Smith)

Um curioso caso de possessão performática

Stanislavski bradou, na profundidade máxima da super disposição em “violar-se”, que a atuação deve ser completa, leia-se vinda do âmago, traduzindo a realização em um espetáculo total do ator, onde ele funciona como veículo de toda uma vida multi-interpretada e por isso é necessário a sua devoção, antes de mais nada, na respiração, na observação de si.

O “método” mora sempre na violação, quando um sujeito simples e indecifrável decide quebrar as cascas do que quer que seja, há de notar inclusive que quando elas são representadas pela sua própria figura, esse movimento em rumo à revolução é muito mais intenso e demonizador. O bom ator sabe que atuar é uma operação constante e que, desse modo, faz jus ao milagre de perceber-se sozinho diante o silêncio do universo. Essa leveza e inerência da atuação começa na análise, nas inspirações, na reflexão, e a partir dai existem milhares de técnicas, mas o que realmente importa é o quanto conseguimos mensurar os detalhes daquilo que vemos ou sentimos.

Jim Carrey absorveu desde novo os pontos mais imperceptíveis de Andy Kaufman, de modo a desenvolver uma persona bem parecida no quesito humor. Se tem uma coisa que Kaufman foi brilhante, é na resinificação do sentido da plateia, cujas expectativas muitas vezes não condizem com o interesse ou necessidade real daquele(a) que apresenta. Mais do que isso, quem que assiste deveria estar preparado para atrever-se, caminhar ao desconhecido, portanto um show de comédias já possui uma série de regras pré-estabelecidas, o riso é uma obrigação e expectativa; e a expectativa, todos sabemos, alimenta almas destroçadas. Andy Kaufman, por fim, era, estava e fazia; violava sua própria imagem em prol à catarse geral, até a última estância onde a plateia se surpreende com sua própria bestialidade confrontada no espelho ao rir do que se desconhece, uma relação, por vezes, estreitamente relacionada com a imoralidade(?).

A oportunidade de vermos Jim Carrey retrocedendo aos seus próprios processos de atuação é um milagre, perceber o contraste emocional entre o jovem e o velho. Ele carrega muitos papeis que já atuou, embora as linhas de expressão e barba grisalhas denunciem que a única realidade é que o tempo passa e bons trabalhos caem no ostracismo. O documentário é perfeito em não tentar engrandecer o ator a cada minuto, é mais um devaneio sobre formas de se atingir um mesmo fim, transcendendo os limites psicológico para criar o que quer que seja. Essa crítica, por exemplo, exige muito esforço e dedicação, posso optar em escrever sobre o filme ou sê-lo. A arte sempre dará a oportunidade de escolher.

Carrey escolheu, até por meio da sua capacidade ímpar, entregar seu corpo às entidades do teatro e, através do seu fascínio, transformou-se em veículo para um ser etéreo. Sua atuação foi uma libertação, como se o menino empolgado na frente da Tv resolvesse doar sua energia para a composição de um personagem. O constante da performance é a prova de que qualquer criação artística atinge o seu ápice quando há uma simbiose entre o objeto, artista e público.

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emersontlima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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