Voyage of Time: Life’s Journey (Terrence Malick, 2016)

Terrence Malick criou para si um legado místico, transitou pelos anseios da moral e parou no transcendentalismo que somente as perguntas vazias podem proporcionar. Suas obras a partir de A Árvore da Vida (2011) são continuações desse ciclo interminável e, muitas vezes, cansativo de pensar e sentir. O diretor olha para o âmago, para a natureza e compõe a jornada em busca de explicações com a utilização de elementos que só podem ser inseridos no homem moderno – aquele rodeado da mais alta arquitetura, onde a humanidade, assim como pretendia com a Torre de Babel, visa apertar a mão do seu criador, no mesmo tempo que ironicamente perde a cada dia o único vínculo com Ele: a fé; o coração corrompido pelo ego não impede o último suspiro e o sentimento puro que ele traz. Terrence Malick parece sentir, no auge dos seus setenta e três anos, que está a segundos da morte e todo o seu material visual, a partir dessa ciência, se traduz em testamento de um ser curioso sobre o tempo, um andarilho espalhando sua palavra em troca de comida e água.

No documentário Voyage of Time: Life’s Journey (2016) ele aproveita o seu material de A Árvore da Vida (2011) e faz algo pouco comum: um vislumbre visual que percorre a criação do universo mas que não se dedica a explicar as nuances de pequenas evoluções, pelo contrário, a narração aprazível da maravilhosa Cate Blanchett surge em momentos pontuais apenas para acrescentar ainda mais dúvida não sobre o que é, mas por quê.

As partículas, as águas e o fogo pontuam o ritmo da experiência, bem como o processo de criação, temos a oportunidade de enxergarmos o nosso princípio, presentes em um momento de puro vácuo. Através do cinema voltamos à estaca zero e temos a oportunidade de refletir nossa imagem até tal ponto. As imagens das diversas culturas acrescentadas ao longo dão essa sensação, uma ligação horripilante e verdadeira entre os primeiros seres rastejantes e nós, os seres humanos que se enxergam como o ápice evolutivo sem nem ao menos compreenderem suas limitações intelectuais ou físicas.

Mesmo que a temática de Malick possa soar repetitiva – hei de concordar que prefiro a versão estendida desse documentário, “A Árvore da Vida” – vejo a necessidade de sentir com atenção exatamente tudo o que ele tem a dizer. Cada vislumbre fotográfico embalado com os instrumentais fascinantes e que movimentam a cena assim como o movimento circular constante da vida, me sinto menos só. Me sinto parte de um sistema existencial que se preocupa não somente em seguir, como refletir sobre o porquê de ter chegado a tal ponto. Cada passo do homem faz com que ele tenha a oportunidade de ser lembrado, não apenas como vagante, mas como uma delicada flor amarela de jardim, onde todos seus irmãos são iguais e frutos do mesmo início.

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emersontlima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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