Interpretando o filme “Mother!”de Darren Aronofsky

Dilema

No cinema nenhum diretor trabalha o tema obsessão como Darren Aronofsky; mais do que isso, poucos são tão habilidosos em fazê-lo de modo extremamente identificável, pois o diretor nunca desenvolve suas obras do ponto óbvio, sempre retrocede de tal maneira que universalize o objeto de estudo. “Réquiem para um Sonho” (2000) é muito poderoso e impactante na questão dos vícios pois a personagem que mais se desconstrói ao longo é justamente aquela vivida pela Ellen Burstyn, cuja obsessão é ser magra para aparecer em um programa de Tv – algo cada dia mais comum e perigosamente aceito por uma sociedade que prima pelas aparências; em “Cisne Negro” (2010) a exigência física de mental de Nina vai muito além da profissão que exerce, além de ser bailarina ainda parece pressionada por todos os lados por conta da sua sexualidade e busca pelo êxito. Ora, não somos todos obrigados, desde crianças, a atingirmos o estado de plenitude na vida, seja emocional, profissional, acadêmico etc?

Outro ponto que relaciono “Cisne Negro” (2010) com o mais recente do diretor – além da câmera perseguindo a nuca de sua protagonista, como se tivesse invadindo a sua particularidade, bem como contextualizando-nos no seu ponto de vista diante às caóticas ações daqueles que a rodeiam – se encontra no elemento “arte” como veículo para a desconstrução psicológica e criação de infinitas metáforas. O dilema sugerido em “Mãe!” está estreitamente vinculado com a concepção artística, moldação da matéria prima, compartilhamento, confirmação e colaboração do público.

Peguemos essas etapas da elaboração artística, seja qual for, e analisaremos a partir da bailarina Nina de “Cisne Negro” (2010): concepção artística é o desenvolvimento corporal e assimilação da intenção artística do seu coreógrafo; moldação da matéria prima é o processo de estudo e repetição afim de encontrar a perfeição dos movimentos; compartilhamento é o momento onde o produto artístico é apresentado e, por fim, a atenção do público bem como os diversos preenchimentos interpretativos a partir das experiências e conhecimentos de cada um.

“Mãe!” é a continuação desse conceito, é a palavra “perfeição” proferida pela Natalie Portman no final de “Cisne Negro” (2010), onde a artista exausta morre para, finalmente, renascer como aquela que já gozou e que, a partir de então, somente colherá os frutos pela conclusão da performance ou criação. Nesse ponto de vista, seja o indivíduo uma escritora, bailarina, cantora, diretor(a) (Darren Aronofsky) ou mãe, todos passam pelo mesmo processo criativo e, mais do que isso, são traduzidos aqui como “Deus”. O artista traz ao mundo o seu, esculpindo o tempo e desbravando mares de obstáculos criativos e se refugiando na inspiração que, por sua vez, aparece personificado como musa, como Jennifer Lawrence.

“Mãe!” (2017) não é um filme de terror como foi vendido, mas ironicamente fala em dado momento da separação entre produto e intenção. Corajosamente, se trata de um filme completamente simbólico, onde tudo é exatamente o que não demonstra.

Criação

A sinopse não convém, pois de muitas formas posso fazê-la, ainda que nenhuma seja fiel à complexidade da trama. O ponto principal, antes de mais nada, é relacionar essa obra com o extremismo de Lars von Trier, psicologia de David Lynch e desconfortabilidade provocada por nomes como Roman Polanski e Luis Buñuel. Só existe um personagem-criador-deus aqui e, curioso, é que se trata do “coadjuvante”. Javier Bardem dá um tom sóbrio e distante, compõe o seu personagem – Ele – de forma brilhante. É um escritor passando por um bloqueio criativo, suja sensibilidade o faz estar atento aos acasos da vida nem que isso custe a invasão de sua própria consciência. Depois de um incêndio em sua casa (consciente), o processo criativo encontra o seu repouso e é possível relacionar isso com a frase de Tyler Durden em “Clube da Luta” (1999) “só quando perdemos tudo é que estamos livres para fazer qualquer coisa”.

O escritor finge continuar, mas o medo pelo bloqueio é percebido desde o começo. A protagonista, mãe, interpretada pela Jennifer Lawrence, é quem reconstrói a casa depois do incêndio e se preocupa com o bem estar e segurança do espaço, ao passo que o escritor age por impulso e solidariedade irreal aos desconhecidos parasitas, pois, evidentemente, ele pretende se perder na possibilidade de criar.

Pense em um ser em busca de produzir, sem ao menos saber como começar e por quê. Ele passa então a perseguir histórias, sem perceber que é ele quem está sendo perseguido. Ele está prestes a fazer algo primordial, só precisa do equilíbrio entre a inspiração e trabalho. A mãe é a musa, o âmago da criação e pureza, é a matéria prima que obriga o artista a manipulá-la carinhosamente para transformar o bruto em ternura. O artista concebe a ideia e acompanha os seus primeiros passos, desmistifica as nuances e transforma musa em método, silêncio em ruído.

A mãe no filme se sente perdida pois não existe, senão, como âmago e não como veículo. A inspiração se enclausura no meio da vida, realidade e desespero, no exato momento que guerras e mortes começam a acontecer na casa no terceiro ato. O lar é a segurança da arte em seu estado vestal, no entanto a ideia passará a enfrentar as influências turbulentas do dia-a-dia, por isso os intrusos na casa, pois eles são as influências externas para a criação.

Essa interpretação pode facilmente ser contextualizada através do ponto de vista bíblico, onde a simbiose entre deus e natureza (Javier Barden e Lawrence) é quebrada a partir do momento que Adão e Eva (Ed Harris e Michelle Pfeiffer) adentra o espaço outrora vazio e sem forma – preenchendo a uniformidade do ambiente com suas próprias necessidades e criatividades (filhos) e se tornando artistas, capazes até mesmo de subjugarem o criador.

Conclusão

Assim como o escritor do filme que deixa sua criação morrer para imortalizá-la, temos a chance de participar efetivamente da arte no momento que nos permitimos senti-la. “Mãe!” (2017) conversa com o espectador de forma desconfortavelmente necessária, em um jogo psicológico entre criador e criatura, sobressai o fato de que o processo de experimentação é singular e sombrio, há infinitas virgulas até se atingir o ponto final. As metáforas aqui são dolorosamente reais em um mundo onde se venera muito fácil e não se dá importância para a jornada espiritual pelo qual todo artista passa.

Escrever é deixar ir, é criar soluções e reinventar a realidade. Perigoso é aquele que se deixa envolver por fáceis e obsessivas admirações momentâneas enquanto se perde nas invasões de privacidade intelectual, se distanciando cada vez mais da sua especial condição de inspirar e ser inspirado.

(Visited 150 times, 3 visits today)

emersontlima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

More Posts - Website

Follow Me:
TwitterFacebookGoogle PlusFlickrYouTube

Textos relacionados