Eugenie e o Caminho da Perversão (Jesús Franco, 1970)

Eugenie e o Caminho da Perversão (Eugenie… The Story of Her Journey Into Perversion, Espanha, 1970) Direção: Jesús Franco

A metalinguagem atinge o limite quando Eugenie (Marie Liljedahl) segura e comenta brevemente sobre um livro do Marquês de Sade que ainda não teve oportunidade de ler. Personagem criada pelo autor, ela segura em mãos sua própria alma, enquanto o quarto que a abriga devora a inocente vestal dentro de si gradualmente.

A donzela se perde no caos da ansiedade sexual burguesa, seus passos pueris despertam os mais insanos desejos, a sua nudez, outrora natural, se torna um deleite ao consciente deturpado do maníaco pela carne. Existe manipulação nesse filme, bem como a estranheza narrativa faz jus ao elemento místico que envolve as relações nada convencionais entre os três personagens principais. A iluminação vermelha em momentos cruciais, todos eles envolvidos pesadamente com o sexo, tentação e tortura – física ou mental – é oportuna em criar as mais belas e impactantes rimas visuais, ainda que seja inevitável não mencionar a cena final onde o pequeno passarinho vê a luz do sol e sua silhueta representa o alívio de uma doce menina que atravessara os rios perigosos do ego e sofrera os mais profundos delitos do poder.

A agressão de Eugenie se dá, inicialmente, a partir do momento onde há a corrupção da juventude em prol à libertinagem extrema e violação da vida. As grades que aparecem em primeiro plano ao longo, deixam explícita a ideia de enclausuramento generalizado, onde a mansão permanece como o legítimo refúgio de transgressão. A beleza estonteante da Marie Liljedahl relaciona-se muito bem com a psicologia de sua personagem, é de se notar atenciosamente suas principais características, a presença da atriz exala delicadeza – Jesús Franco reforça constantemente o alto grau angelical de sua protagonista, em contraponto com a perversão do meio. Não à toa existe uma harpa no meio da sala, instrumento musical igualmente agridoce e associado ao celestial.

Como um ótimo representante do sexploitation, “Eugenie…” (1970) tem como mérito nunca reduzir-se apenas ao sexo. O trabalho excelente é quando associado às lacunas psicológicas das personagens e como são preenchidas pela exposição carnal. Apesar da perca do ritmo no segundo ato e eventuais sandices narrativas e/ou performáticas, Jesús Franco consegue transportar bem os escritos de Sade para o cinema e o faz de forma crível, onde a violação da integridade física e emocional de Eugenie permanece extremamente vinculado com o impressionante trabalho visual. Quem gosta do diretor, certamente apreciará esse clássico.

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emersontlima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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