36 (2012)

O diretor Nawapol Thamrongrattanarit, cujo nome me parece quase impronunciável, começa em grande estilo no universo cinematográfico. O cinema tailandês, eventualmente, nos presenteia com obras incríveis, como por exemplo o “Tio Boonmee, Que Pode Recordar Suas Vidas Passadas”, e esse “36” é um outro bom exemplo.

Tenho um contato muito grande com a fotografia, desde pequeno. Uma relação de amor e curiosidade, uma feliz nostalgia que eu tenho, meus tempos de revelar as fotos e segurar em minhas mãos aqueles momentos. (in)Felizmente não temos mais a preocupação em comprar filmes e revelar depois, e cabe aqui essa dicotomia pois, realmente, a tecnologia que nos salva, é a mesma que nos priva de sensações boas. Há muito tempo eu não tocava nas minhas fotografias, recentemente revelei um ensaio que fiz e, nossa, foi como se eu voltasse no tempo. Aquela maravilhosa sensação de acariciar minha obra. Pode soar estranho, mas faz muito sentido para mim. O filme intercala muito bem essa reflexão, na busca incansável da protagonista pelo seu amigo-amor, companheiro de registros de pequenos momentos, que serão, a partir da captura, eternos.

Ela guarda suas fotos em um HD, um HD por ano, e isso a confunde diversas vezes, a priva da sensação citada a cima, cria-se uma confusão, pois mesmo com sua ansiedade por registro, ela soa muito perdida quando entra em questão “a procura pelas fotos”. Um computador, entre a pessoa, sensibilidade e a arte, reduz a emoção da imortalidade, que a fotografia traz.

O filme começa com ela registrando um edifício abandonado, ela os procura para rodar filmes, encontra então o seu companheiro, um diretor de arte, onde durante metade do filme eles passaram lado a lado, registrando os lugares e momentos que passam, ou pessoas que encontram. Em uma das primeiras conversas, ela diz que trocou o analógico pelo digital, resultado do tempo. As coisas evoluem, e a praticidade fala mais alto. Não é errado, no mesmo tempo que se revela infantil a ideia de que, guardado as importantes fotos no computador, elas estarão a salvo.

O filme é dividido em capítulos, que mais parecem descrições de alguns detalhes que acontecerão ao longo, por exemplo: “tire uma foto para podermos ver novamente“, “a capa do livro que ela lê é uma casa sem porta”,  “o lugar tem um passado”, “um pássaro vermelho-violeta voava no céu” e “não gosto de ser fotografado”. Esses três últimos, por sinal, são os mais interessantes e cruciais para o simbolismo do filme, ele olha um pássaro e mostra para a protagonista ela então tira foto dele, e desencadeia um diálogo interessante, onde ele questiona o porquê dela não olhar com os olhos ao invés da câmera, ela responde que, se não tivesse tirado a foto, o momento se perderia para sempre. Ela é vítima de uma obsessão quase.

O final do filme é digno de emoções, pois a menina está tentando recuperar os arquivos perdidos ao lado do técnico de informática, enquanto relembra alguns momentos que passou com o seu amor, o diretor de arte, visto que tinha passado anos e eles nunca mais se viram, ela o descreve com muita propriedade, através das fotos, diz que ele gostava de fotografar desconhecidos na rua e raramente lhes entregavam ou mostrava as fotos que tirava – algo que me identifiquei profundamente – que demonstra, talvez, a sua arte como fruto solitário, particular. A menina tirou uma foto com o rapaz, porém nós, espectadores, não vemos esse momento, a filmagem continua na câmera em cima do muro, pronta para captar os dois, como se o equipamento fosse o real protagonista dessa história de amizade/amor. Simbolizando que esse momento deles, não poderá ser compartilhado com a gente, pois é particular deles. Uma metalinguagem incrível.

Obs: Texto originalmente publicado em 10 de janeiro de 2015

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emersontlima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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