Casa Vazia (2004)

O silêncio está muito presente no cinema, principalmente na Europa, é bem comum encontrarmos um filme onde os protagonistas são cercados de uma alma silenciosa para, enfim, desenvolver através de gestos e alguns artifícios técnicos – como fotografia, por exemplo – o que se passa, realmente, com as personagens. No caso de “Casa Vazia”, filme de 2004, dirigido pelo excelente Kim Ki Duk, o silêncio é muito mais do que um artifício, passa a ser uma entidade, um personagem complexo, talvez, o maior personagem do filme.
É recorrente atribuirmos ao silêncio um poder grande na relação, seja ela qual for. É inerente ao ser, achar que o outro consegue entender sem apenas um diálogo, uma frase. Palavras soam infantis, quando se comparado com atitudes. Conversas. Enfim, o silêncio é uma virtude, para aqueles que o entendem e, consecutivamente, usam para o bem próprio, basicamente se entender. O barulho impede a reflexão sobre nós e, sejamos francos, entender nós mesmos é a nossa única missão nesse mundo.
O filme mostra um rapaz, jovem, que vive invadindo as casas de famílias enquanto os mesmos viajam, passam dias fora. Ele não rouba ou nada do tipo, simplesmente se hospeda lá e, em troca, oferece pequenos favores, consertando alguma coisa da casa que ele percebe que está quebrada – se tratando, evidentemente, de uma metáfora. Em uma dessas suas aventuras bizarras, ele se depara com uma mulher que, ao invés de acompanhar o marido na suposta viagem, fica em casa, ela também se encontra perdida como o pobre garoto, então analisa ele silenciosamente e, após alguns desentendimentos, parte com ele em rumo à outras casas.
Enfim, o personagem principal não tem uma fala sequer, bem, tentarei explicar o meu entendimento sobre o porquê isso acontece mais a frente. Acho relevante revelar que, misteriosamente, eu tive alguns processos de identificação muito estranhos no cinema e, imaginem só, muito parecidos, ao longo da minha vida cinéfila. “Following”, filme de 1998 dirigido pelo Nolan, ainda me causa um desconforto, para quem não lembra, tem um escritor que segue pessoas desconhecidas na rua, pretendendo adquirir inspiração para escrever o seu livro. Enfim, é algo totalmente insano, mas mais insano ainda é se identificar com isso, algo parecido aconteceu comigo quando assistia esse belíssimo filme Sul Coreano, o fato de ter um cara, sem rumo, dormindo em casas de desconhecidos me chamou a atenção. Eu não precisava de mais nada para ter certeza que tinha que assistir.
Para minha surpresa, o filme é mais que uma ideia sensacional. O silêncio, como disse acima, é uma metáfora, assim como a invasão das casas, o próprio personagem principal, os acontecimentos, enfim, nada me parece ter um sentido literal. É um verdadeiro quebra cabeça mesmo, onde a sensibilidade traduz com perfeição as estranhezas e nos aproxima da ideia que, de fato, assistimos um filme extremamente real.
O protagonista é um perdido, sem família e sem amor, pois o mesmo é uma sombra, um andarilho, ele não invade casas, ele invade lares, sentimentos. Em toda casa por onde passa, ele tira uma foto dele mesmo perto de algum quadro dos donos da casa, pessoas que, por sinal, apesar de aparentemente terem tudo, são vazios, até mais vazios que ele próprio. Como visto, a casa que tem uma maior profundidade é a qual uma personagem, uma bela mulher, acaba se interessando pelo modo de vida do rapaz, aliás, ela é casada e visivelmente não vai nada bem no casamento, me parecendo que aquela “aventura” que ela está prestes a fazer, a remete para uma vida passada, seja com o próprio marido ou não, enfim, o protagonista é sombra dela, assim como é sombra do marido. Ele é um camaleão, se adapta a realidades e declínios em prol a atitude de mudar.
A posse é extremamente frágil, assim como o rótulo. As casas que ele invade, apesar de muito belas e cheias de frescura – como uma TV com muitos canais e etc – não o iludem. Ele não está interessado no ter, ele só quer ter um teto para viver até o próximo dia. Talvez ele seja exatamente o que todos os seres humanos são: sobreviventes, porém sem a necessidade de usar máscaras. A mulher, pelo contrário, tem que viver com o fardo de possuir, seja uma casa ou um casamento, apesar da ânsia de se desprender dessas amarras, ela ainda é uma pessoa enjaulada. Mas pensa fora da caixa, isso a faz ser a única que consegue ver o jovem, depois que ele desenvolve técnicas para, literalmente, se esconder atrás da pessoa, imitando seus movimentos.
Enfim, assim como “Primavera, Verão, Outono, Inverno e… Primavera” do mesmo diretor, “Casa Vazia” é uma obra difícil, porém sensível ao extremo, vale pela experiencia e reflexão, desde uma vida acorrentada pelo medo de fugir, passando pelo poder do silêncio, principalmente nos momentos certos.
Obs: Texto originalmente publicado em 16 de janeiro de 2015
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emersontlima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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