Onde Fica a Casa do Meu Amigo? (1987)

O cinema iraniano, e acredito que já escrevi isso aqui outras vezes, é um dos – ou o maior – cinema que me encanta. Há diversas obras que usam como base a sensibilidade e realismo, incluindo alguns filmes nacionais, porém, o cinema iraniano ainda mescla mais um elemento importantíssimo e que, pessoalmente, eu amo: a criança. Bem, é lógico que nem todos os filmes tem uma criança como protagonista, é o caso do grande “Close-up” dirigido pelo Abbas Kiarostami, cuja trama se desenvolve, ainda assim, em cima de uma ação que beira a infantilidade, uma mentira, cuja importância lá é mostrada com tamanha importância que, aqui, comparo com a arte. Ou seja, Abbas une o realismo, sensibilidade para nos provar que a mentira pode e, muitas vezes é, de fato, uma forma de se fazer arte.
Outro cinema que traz a criança como centro de um universo aliado com um hiper senso de realismo é a Suécia, porém ainda vejo em alguns filmes isso como um elemento da narrativa. Um truque. Assim como o silêncio. Existem muitos filmes silenciosos, porém alguns chegam a dar sono, causando um tédio, eu sou um apreciador das poucas palavras no cinema – assim como longos diálogos – e confesso que, quando o silêncio me causa u cansaço, eu já analiso que é um artifício. Algo que nunca me aconteceu com o cinema Iraniano, nunca me cansei pela naturalidade, pelo contrário, a mesma me emociona, pelo simples fato de estar acontecendo, sendo o ápice do coração no cinema.
“Onde Fica a Casa do Meu Amigo”, de 1987, veio antes de “Close-Up”, citado acima, e já demonstra a capacidade, quase assustadora, de Abbas para trabalhar em cima do olhar da criança, para com o mundo que o cerca e, por diversas vezes, vemos o mesmo sendo transformado. Ora, não a toa geralmente temos, a partir do tema principal, o surgimento de várias pessoas que dividem com os outros personagens e nós espectadores, um pouco do que acreditam. Ou sua história. Como se estivéssemos sentados em uma praça, ouvindo história de pessoas que não conhecemos, enquanto nosso filho se diverte criando um mundo próprio, onde os seus objetivos não são entendidos pelos pais. Somos – nós, espectadores – moscas analisadoras de um roteiro humano. Um exemplo disso seria o senhor que, ao final do filme, ajuda o garoto protagonista a finalmente encontrar a casa do seu amigo.
Aliás, creio que eu me apressei, já nos 10 primeiros minutos de filme, o diretor faz questão de revelar a pressão que os meninos passam em sala de aula, para a realização de suas tarefas, além de terem um mestre altamente impaciente para com atrasos e demais eventos que soam mais como detalhes. Quase como um ritual, todos os dias a primeira coisa que ele faz – depois de dar bom dia para os alunos – é passar nas carteiras, uma por uma, afim de corrigir as tarefas, Ahmad se vê sensibilizado pelo seu amigo, pois ele não fez as atividades, então já temos um close no rosto dele, em uma emoção hiper sensível que me faz pensar “onde raios acharam esse garoto? Que atuação é essa”, lembrando que isso é nos primeiros dez minutos, e lembrando também que, muitos dos atores dos filmes iranianos, não são atores. Enfim, esse carinho para com o amigo continua no intervalo, quando ele cai, machuca o joelho, e vemos nosso protagonista – herói – cuidando com a maior atenção do mundo o ferimento.
Se existe pressão até na sala de aula, nos sentimos, junto com o personagem, o sufocamento que sua casa e as responsabilidades causam, o menino é cercado de tarefas onde não cabe mais tempo para ele pensar em seus próprios problemas, enfim, essa é uma realidade daquele país. Mas existe uma falta de comunicação muito grande entre ele e a sua mãe, pois a mesma também é muito preocupada. Enfim, é de se imaginar quando há uma pausa para o afeto. Não existe uma resposta para isso, além do próprio desenrolar da história, o menino supera os seus medos para ir atrás do amigo, conhecendo pessoas que o ajudam, mesmo com suas limitações, como o adorável velhinho que ele encontra ao longo. Enfim, em meio a dúvidas, até mesmo a descobertas, nosso pequeno herói vai descobrindo o cuidado, causando então a comoção, simplesmente pelo registro visceral dessa passagem de auto-descoberta. Feita sem truques.
– “Porque se for um preguiçoso não será útil para a sociedade… Na sociedade as crianças devem manter incorporado o sentido de disciplina. Devem obedecer os seus pais e respeitar todas as tradições.”
Obs: Texto originalmente publicado em 17 de janeiro de 2015
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emersontlima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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