Tangerines (2013)

Eu sou fã de filmes de guerra, mas raramente gosto de algum. Pois vejo uma certa glamourização, mesmo que muitas vezes oculta, dessa figura heróica atribuída aos soldados. Eu sou cético perante várias coisa, dentre elas a religião e política. Acredito que o homem está destinado a se corromper, enquanto existente a sua incansável busca por poder/espaço. A guerra é quase uma entidade importantíssima ao longo da história, porém, é um apressar sujo. Eu não vejo graça e heroísmo em ser fantoche de interesses grandes e pessoais. Penso na guerra como um jogo de xadrez, porém, para refletir sobre a questão, eu retiro as outras peças como o rei, rainha ou bispo, e focalizo no peão. Ele se sacrifica, grita que faz isso pelo seu país, mas e dai? O seu país é construído por homens, homens arrogantes e corrompidos, cegos. Não acho justo desperdiçar sua vida e família com algo assim. Enfim, se eu fosse para guerra não mataria ninguém, pois não sou assassino e ninguém me obrigaria a ser, mas se eu morresse, acharia uma merda essa porcaria de nem conseguir resolver a minha vida e ter que me doar pro país, fala sério.
Enfim, há filmes que abordam a guerra como eu realmente a vejo, como: “Glória Feita de Sangue”, “Vá e Veja” e “Johnny Vai a Guerra”. Esses são alguns exemplos que me agradam, mas certamente existem outros, inclusive os quais a guerra está ainda mais invisível como o documentário “Guerra Invisível” ou o próprio “Ida”, filme Polonês que disputa o Oscar 2015 e filme estrangeiro com “Tangerines”, o filme que comentarei a seguir.
Bem, logo nas cenas iniciais temos a apresentação do senhor Ivo e seu amigo, senhores que continuam na mesma comunidade, se recusando a se despedir como seus familiares e amigos, um por conta das tangerinas e o outro não fica muito explícito o porquê, mesmo que diversas vezes é mostrado o enorme vínculo que ele possui com a neta, que também fugiu.
Dois soldados o abordam enquanto ele trabalhava, pedindo um pouco de comida, Ivo os acompanha até sua casa – a dupla mantém uma postura arrogante, intimidando o espectador, mas o protagonista se mostra bem tranquilo diante a possível tensão – eles conversam um pouco, avisam sobre os perigos que cerca o velhinho e vão embora, agradecidos com a comida. Dias depois há um tiroteio em frente a sua casa e dois soldados sobrevivem, Ivo os leva, então, para sua casa, dar-lhes o devido tratamento, não como soldados, mas como humanos, independente de suas convicções ou uniforme. Ao ficarem conscientes, descobrimos que ambos estavam em lados opostos do tiroteio, cada um protegendo seus próprios ideais, ou seja, um matou os amigos do outro. Em respeito ao senhor que os salvará, ambos prometem não fazer nada enquanto não se recuperarem e, assim, quando saírem, estarão preparados para matar um ao outro.
Essa ideia é fantástica, lados opostos da guerra estão separados por quartos, cada um com a sua inocência em acreditar que, matar um ao outro, é interesse deles próprios quando, no fundo, são apenas seres humanos em busca de conforto. Eles são obrigados a lidar com a diferença, uma cena que ilustra bem isso é quando Ahamed – um dos soldados que aparece logo no início do filme – olha o crucifixo do “inimigo” Margus e este, por sua vez, fica sem graça e esconde quando ouve “nós respeitamos o cristianismo”. O filme se constrói em base a indiferença a crueldade, a morte, e ressalta a importância do carinho, do amor, na vida de pessoas, aparentemente, desconhecidas, mas que ainda assim possuem vínculos por serem frutos de uma mesma ganância.
Margus, por exemplo, era ator, Ahamed tem família, enfim, de onde vem tanto ódio? Só pode ter sido imposto por reis e bispos. Na floresta eles são apenas peões uniformizados , de perto são homens de família com muitos sentimentos. O filme ainda deixa algum espaço para alguns diálogos pertinentes, principalmente envolvendo Ivo, interpretado brilhantemente por Lembit Ulfsak e Ahamed por Giorgi Nakashidze como:
– Eu vou matá-lo!
– Quem deu esse direito a você? 
Enfim, um excelente filme, eu diria que, de todos os filmes que vi e que foram indicados ao Oscar de 2015, “Tangerines” é o melhor. Não apenas na sua categoria, de tudo mesmo. Com o uso fantástico da música, ele nos entrega performances maravilhosas, roteiro elegante, desenvolvendo personagens complexos em uma hora e vinte minutos, coisa que os ditos “melhores filmes do ano” não conseguiram, na minha opinião. Aliás, há espaços para algumas críticas sobre o próprio cinema, como as poucas produções do cinema da Estônia e, principalmente, um diálogo entre Ivo e seu amigo:
– Pensei que ia explodir como no cinema.
– O cinema é uma fraude!
Obs: Texto originalmente publicado em 21 de janeiro de 2015

emersontlima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

More Posts - Website

Follow Me:
TwitterFacebookGoogle PlusFlickrYouTube

Textos relacionados