O Menino e o Mundo (2014)

Com traços despretensiosos, algo próximo aos desenhos infantis, somos apresentados a um garotinho ou, como pode ser interpretado, nós mesmos. Afinal, todos somos crianças, mesmo que seja apenas nas lembranças. Crescendo na zona rural, em um lugar afastado, sua imaginação se transforma em um parque de diversões, onírico e sensível somos transportados para uma dimensão maravilhosa, onde a brincadeira, mesmo que solitária, ilumina nossos corações, trazendo lembranças de nossa própria infância, pois ainda tivemos oportunidade de ter uma, coisa que não acontece com essa nova geração.
O menino no mundo, mundo do menino, mundo grande e menino pequeno, menino grande para um mundo minúsculo. Enfim, o mundo não tem graça sem o nosso olhar para moldá-lo. Nesse ponto, percorremos uma grande aventura por entre um mundo particular de sorrisos, lágrimas e críticas sociais, no que podemos classificar como a melhor animação do Brasil. Assim como uma animação para adultos, mesmo que os tais traços infantis estejam presentes, ainda acredito que o entendimento por completo se dá através de uma experiência maior, eu assisti com minha irmã de 9 anos e, a todo momento, eu dava uma explicada só para contextualizar e, assim, deixar ela interpretar sozinha.
Com três fiozinhos de cabelo na cabeça, muita curiosidade no olhar, o menininho é corajoso em desbravar o mundo, isso é brilhante. Por outro lado, temos que entender que a falta do pai mexe muito com ele, um desmoronamento familiar, cujos pedacinhos ele tenta juntar a todo instante como, por exemplo, guardando as notas da flauta do pai em um potinho e unindo com a canção da mãe. Extremamente lindo e sutil.
Com algumas colagens, que por sinal achei fascinante, o trabalho artístico é impecável, se não bastasse a ideia cheia de significados, temos, visualmente, uma obra fantástica, repleta de enigmas, quando o menino parte para a cidade, há críticas sutis ao consumismo e propaganda, assim como a vida interiorana deixa de existir, tudo passa a ser mecânico, sem verdade, até a estética do filme muda, antes abusava bastante do giz e das falhas propositais da pintura, remetendo-nos a inocência, passamos a ver paisagens bem mais realistas e uniformes.
Enfim, uma grande animação, filme, feito em nosso país, merece ser visto, merece ser interpretado, certamente servirá como catarse, como uma ponte entre você e o menino, menino e o mundo, trazendo-nos aquela vontade de criar com pouco, usar a imaginação para viajar, querer mergulhar nas nuvens e conseguir, no algodão, claro. Mas será mesmo?
Obs: Texto originalmente publicado em 7 de fevereiro de 2015
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emersontlima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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