When Marnie Was There (2014)

Studio Ghibli é sinônimo de pureza, dedicação e sensibilidade. Eu poderia criar uma lista interminável de adjetivos, mas seria inútil, pois me sinto um ignorante em relação à grandiosidade desse estúdio. Nunca fui um especialista em animações japonesas ou animes, mas certamente sou um grande curioso, pois a cultura do Japão vê no desenho – seja animes, filmes ou manga – a sua alma. Studio Ghibli representa algo extremamente poderoso, uma entrega quase que absoluta à arte, é impossível não se emocionar, pois as histórias estão diretamente relacionadas com o nosso lado criança, desbravando um mundo mágico. E, nesse mundo mágico, acontecem coisas que se aproximam do exagero, porém é exatamente isso que torna os filmes cativantes e únicos. Poderia afirmar que a Pixar, há alguns anos atrás, era fruto dessa magia, uma pena que agora anda errando bastante, mas é basicamente a mesma coisa, se sustenta em grandes criadores e, principalmente, humanos extraordinários que têm muito amor e simplicidade em seus respectivos corações. Se a Pixar tem John Lasseter, o Studio Ghibli tem Hayao Miyazaki e Isao Takahata dois gênios que ensinaram os mais jovens a fazer filmes como, por exemplo, Hiromasa Yonebayashi que assina a direção desse último filme do estúdio chamado “When Marnie Was There”.

Hiromasa Yonebayashi fez “O Mundo dos Pequeninos” que, igualmente ao mais recente, nos brinda com um mundo fantástico e mistérios, levados as últimas consequências nesse último, aliás, ouso dizer que temos ai um grande nome para suceder o grande Hayao Miyazaki, poderia estar cometendo uma injustiça, mas vejo nesse jovem diretor de 40 anos um potencial enorme.

When Marnie Was There ao contrário de “O Mundo dos Pequeninos” é inteiramente adulto, não só pelos temas que descreverei a seguir, como também pela profundidade. Não lembro de um filme sequer desse estúdio querido, que não possua temas interessantes, mas são desenvolvidos sobre um olhar infantil, quase doce, não que isso não aconteça aqui, mas há uma dose de confusão, quase um misticismo envolto de lembranças, algo que comove muito mais os adultos. Conta-nos a história de Anna, uma garota solitária e tristonha, que por motivos de saúde vai passar um tempo no campo, para se manter bem tanto fisicamente quanto emocionalmente, ela se vê diante de uma vida monótona, até que encontra uma mansão misteriosa. Essa mansão traz algum tipo de lembrança para a menina, mesmo que a própria e nós, espectadores, não saibamos. Há boatos na pequena cidade de que não mora ninguém na mansão, mas surpreendentemente Anna enxerga sempre uma menina loira através da janela, isso a intriga ao ponto de transformar esse mistério em obsessão. Conhecendo um pouco mais dessa menina, além de fazer uma belíssima amizade com a mesma, Anna descobre que ela está cercada de mistérios.

O filme começa e Anna está sentada em uma praça, qualquer atividade é atrapalhada por aflições da personagem sobre a sua pessoa, ela visivelmente passa por problemas de auto-estima, sempre meio deslocada, a própria começa afirmando com propriedade: “[…] nesse mundo há um círculo mágico invisível[…]”, ela olha para outras garotas e continua “[…]ou você está dentro ou fora dele.”, curiosamente no mesmo tempo que ela sintetiza o filme, ainda coloca sua figura, o que representa, fora desse círculo mágico, que podemos traduzir como a vida. Ela não faz parte de nada, pelo menos o sentimento é esse, isso só se agrava ainda mais por ela ser adotada, distanciando-a, psicologicamente, da normalidade, por mais que sua mãe teime em dizer que está tudo normal. O coração de Anna sente que algo está errado e, mais além, sente que precisa passar por algo para compreender sua real situação, aquele famoso soco no estômago da vida, para aceitação da sua própria imagem, tão deturpada por si própria.

Ela segue rumo à cidadezinha, no interior, onde a natureza se faz ainda mais presente e influenciável, soando como o paraíso das crianças. Ela, pelo contrário, fica no quarto, escreve cartas, enfim, com seu jeito tímido e delicado, quase que constante.  Quando a solidão não é mais cabível e a iniciativa para fazer amizade é nula, surge a possibilidade de enfrentar o desconhecido – representado brilhantemente pelo barco, do qual ela deve remar -, com a mansão e seus mistérios, que acabam impulsionando uma nova e rápida amizade. Tão veloz que soa artificial, no mesmo tempo que é estável, quase que natural, o mistério está jogado ao espectador, soluções clichês começam a aparecer, mas o filme em nenhum momento se torna fraco por isso, pelo contrário, esse enigma é surpreendente, talvez não inédito, mas envolto de, igualmente, muita magia e emoção.

Essa amizade/história pode ser tudo amigo imaginário, fantasma, ela mesma, enfim, tudo que é possível caber nesse mundo invisível, citado no começo do filme, pode ter uma dose de religião, como uma reencarnação, o que me parece uma grande viagem, mas é esse o real legado, pensar e solucionar algo que está muito claro, ela simplesmente precisa se sentir parte de algo, bem como transformar esse algo no seu templo, afim de seguir à diante.

Esse amor que nasce é tão poderoso, que não se explica em nenhum momento, nem dá espaço para entendermos, é um tanto romântico às vezes, no mesmo tempo confuso, pois os fatos são conflitantes, mas acima de tudo são de extrema sinceridade. A explicação começa a dar lugar às lágrimas, não por saber, mas simplesmente por estar acontecendo.

Adaptado de um livro com o mesmo nome – o qual eu fiquei curioso para ler – “When Marnie Was There” faz jus ao anterior do estúdio “Princesa Kaguya” e nos transporta para um mundo incrivelmente maravilhoso, deixando de lado nossas interpretações para, tão somente, sentir.

“Eu te amo mais do que qualquer outra garota que já conheci.”

Obs: Crítica originalmente publicada no dia 4 de abril de 2015.

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emersontlima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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