Os zumbis bêbados de vinhos do Jean Rollin

Nessa resenha, inicio uma coluna que há tempos tencionava fazer. O Cine Underground chega para retomar minhas pesquisas (cof, cof, cof) do mundo B do cinema, aqueles filmes perdidos, antigos, toscos, de baixo orçamento, sexploitations, eróticos, de artes marciais, com zumbis, ninjas, entre outras pérolas.

“Les Raisins de la Mort!” ou “As Uvas da Morte”, o filme que trago para a estréia da coluna não poderia ser de outro, senão um dirigido por um dos maiores nomes do terror B da França: Jean Michel Rollin Le Gentil, mais conhecido como Jean Rollin!

Desde novo apaixonado por cinema, tem como característica o domínio grande da técnica cinematográfica, principalmente pelo fato de suas obras na maioria serem de baixo orçamento. A criatividade do argumento e genialidade em trabalhar o obscuro mesmo com tamanha simplicidade são pontos que fazem o seu trabalho ser espetacular. Tirando os conceitos profundos, é válido ainda acrescentar que seus trabalhos vivenciam suas protagonistas de uma maneira ímpar, sempre acompanhado de belas mulheres, não só a nudez está presente como também uma significante exaltação do feminino. Em “Fascinação” (1979) é possível visualizar exatamente essa afirmação, visto que um personagem masculino é tratado como ignorante perante uma imensidão de segredos de duas mulheres que moram sozinhas em uma mansão. Além do mais, ocorre um jogo psicológico, onde o intruso se transforma em um alimento e a perversão é tanta que, antes das mulheres devorá-lo, brincam com sua fraqueza e corpo.

Lançado um ano antes, “As Uvas da Morte” (1978) não pode ser considerado um dos melhores do diretor, no entanto é divertido e tem doses certas de desconforto. Graficamente o filme é interessante pois possui cenas gore – a maquiagem é muito boa por sinal – mas sua força se encontra justamente na protagonista que, se a interpretarmos com cuidado, se vê sozinha, perdida e tonta em meio a um caos que nasce do súbito.

O filme começa com Élisabeth e sua amiga viajando de trem. Ela está indo de encontro ao namorado, no interior da França, e, saberemos posteriormente, que ele está diretamente relacionado com uma epidemia zumbi que se alastrou por um pequeno povoado. Um pesticida experimental espalhado em videiras está transformando as pessoas em monstros assassinos. Sim! Todo mundo que bebe vinho, começa a apodrecer.

A protagonista é frágil e isso é perceptível desde o primeiro momento. Interpretada pela atriz Marie-Georges Pascal – extremamente bonita, inclusive – sua posição no filme é se deparar com diversos eventos horríveis e não ter tempo para pensar.

As duas imagens acima sintetizam a apresentação da protagonista: ela olha preocupada, aparentemente sem motivo, para o além e antevê o medo. O trem vazio dá ainda mais proporções para o desconforto e o trabalho com os reflexos indicam que ela precisará se fragmentar para aguentar os eventos que acontecerão.

A descida da Élisabeth do trem ilustra a perfeita divisão entre a garotinha que teme a sugestão e a mulher que, mesmo que com atitudes duvidosas, se depara com a morte. As fatalidades são muito rápidas, personagens surgem de forma abrupta e, do mesmo modo, se vão – característica que acompanha os roteiros do diretor, inclusive -, tudo isso é muito estranho mas, para a surpresa de muitos, Rollin consegue se equilibrar entre o pavor e o cômico sem se render ao trash.

O ritmo lento incomoda pois conflita com a urgência das ações, mas nada irrecuperável. Existe também uma nebulosidade quanto o comportamento dos zumbis, uns são conscientes, outros não, outros são assassinos, outros simplesmente seguem um líder zumbi. A transformação, como era de se esperar, é bem simples, umas gosmas no rosto ou corpo, muito pus e sangue também.

No segundo ato ainda tem a participação da atriz pornô, e musa do Jean Rollin, Brigitte Lahaie. Ela fez diversos trabalhos com ele, incluindo o já citado “Fascinação” (1979). Aqui sua personagem é interessante, se esconde na casa do prefeito morto da pequena cidade e se vangloria pela segurança que o conforto exala. Mas a mulher não sabe que o vinho é causador dos males e acaba mudando de lado.

“Uvas da Morte” (1978) zomba da situação com seriedade, com os seus zumbis bêbados de vinhos caminhando em direção à lugar nenhum, matando geral e uma menina apaixonada no meio de tudo isso só esperando a hora de acabar. É um dos mais divertidos do diretor e, mesmo em meio às piadas, é possível sentir a energia hipnotizante que só Jean Rollin sabe provocar.

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emersontlima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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