Veneno Para As Fadas (1984)

Veneno Para As Fadas (Veneno para las Hadas, México, 1984) Direção: Carlos Enrique Taboada

Carlos Enrique Taboada foi um grande diretor mexicano, dirigiu filmes de diversos gêneros mas se consolidou mesmo com o terror, inclusive é muito citado pelo Guillermo del Toro que vê no realizador de clássicos como “Hasta el Viento Tiene Miedo” (1968) e “Más Negro que la Noche” (1975) uma grande inspiração. Quem conhece os dois diretores percebe imediatamente a ligação óbvia, principalmente em relação à atmosfera densa e utilização de crianças para provocar o medo ou desconforto, sem contar o vislumbre visual que, com sua escuridão, sombras, contrastes e ângulos, insere imediatamente o espectador em um contexto macabro.

“Veneno Para As Fadas” (1984) representa o grande ápice do diretor e, curiosamente, se trata do seu último trabalho relevante – depois Taboada faria alguns pequenos trabalhos na TV e roteiros -, isso porque mistura diversos elementos que vão desde a bruxaria, passando pela maldade intrínseca e inerência do ser humano em abusar da fraqueza emocional alheia, todos esses temas, genuinamente maus, enraizados em uma única personagem: Verónica – interpretada pela Ana Patricia Rojo, que depois, a título de curiosidade, participaria de novelas que ficaram famosas no Brasil como “Maria do Bairro” e “Esmeralda”.

A protagonista é apresentada antes mesmo dos créditos iniciais, a força da obra se encontra na sua presença e em todos elementos místicos que a envolvem. Sua imagem de menina delicada é subvertida à exaustão, a doçura do olhar passa, através de uma sequência de truques narrativos e técnicos, a provocar a dúvida e essa ambiguidade é importante para a experiência imersiva que o filme propõe. A menina é cercada pela escuridão, ausente de carinho e proteção, tem como Norte apenas as histórias que sua cozinheira conta, todas elas envolvem bruxaria e misticismo. Verónica afirma ser uma bruxa, na escola sofre preconceito por causa disso, no entanto as coisas começam a mudar com a chegada de uma nova aluna chamada Flavia (Elsa María Gutiérrez).

Há uma evidente tendência ao terror, mas a trilha sonora pontual e a narrativa com doses oníricas, escondem um verdadeiro drama sobre a solidão e as consequências da imaginação e controle mental. Verónica passa a controlar Flavia por afirmar ser “bruxa”, o que começa como brincadeira se transforma em algo sério quando o medo passa a coagir alguém. Esse jogo psicológico, cuja verdade é oculta até o final, transforma esse filme em uma preciosidade no que diz respeito a um estudo de personagem. As consequências de uma mensagem pesada imposta para uma criança, ganha proporções enormes quando essas mesmas informações são utilizadas como ferramentas de manipulação.

Sempre quando Verónica é registrada na sua casa, é feito de forma sufocante, a ausência de luz e o ângulo alto – plongée – dão a impressão de que sua vida é repleta de opressão. O único refúgio da garota é se esconder em um possível mundo inventado.

No entanto é curioso perceber a diferença de iluminação ou mesmo a posição quando está perto da Flavia. O papel inverte, o filme sugere constantemente “domínio”.

“Veneno Para As Fadas” (1984) é uma das maiores obras que desenvolvem o terror em base à fantasia, depositando todas as suas fichas em duas personagens mirins centrais e na relação de amizade entre elas, a perversidade é esquecida pelo brilho que a infância evoca, no entanto, o maior mérito do diretor Carlos Enrique Taboada, que também assume o roteiro, é trabalhar questões políticas e filosóficas subliminarmente.

Verónica não tem ninguém; mas pertence a algo. Verónica se sente só, mas tem um propósito; Verónica é fraca, mas manipula brincando de criar. Verónica envenena, mas a bruxa queima.

emersontlima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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