Masculin Féminin de Jean-Luc Godard na ebulição política dos frames.

Os seis primeiros minutos de Masculino Feminino filme de 1966 do diretor Jean-Luc Godard alegorizam perfeitamente a dinâmica da sociedade moderna, a confusão mental, desencontro, violência, desilusão e acima de tudo indiferença. A forma como o diretor explora o diálogo entre os personagens denotando um dos personagens apenas em quadro, em contraste a um outro que indaga, expõe quase que um aspecto documental da narrativa. É pelos anseios das personalidades de suas personagens que o diretor expõe na diegese a dialética ideológica, como a chave de entendimento desse jogo, é a contiguidade da fala quebrada que evoca os traços psicológicos dessa juventude francesa em crise, que ainda a montagem cisma em recortar, com inserções de telas pretas frases ou números que veiculam uma ideologia dominante tanto do espaço do artista (diretor) quanto do espaço (diegese) abordado, ideologia essa vinculadora de questões da contra-cultura e da burguesia dominante, ideologias em choque aqui no momento histórico de manufaturação do espaço fílmico, espelhado.

A juventude que vive na sociedade de consumo, que aprecia os seus produtos e que ao mesmo tempo a contesta, os que lutam e os que se divertem, os que admiram os que lutam e os que nem sabem que se luta. Ano de 1965, ano de eleições, ano de esperança e ano de desencanto. Paul (Jean-Pierre Léaud) procura participar na luta política sem deixar por isso de ter o direito de ter problemas de mulheres e encontra (a deliciosa) Madeleine (Chantal Goya) a quem se lamenta das agruras dos 16 meses de serviço militar que acaba de cumprir.

Agora analisando outro aspecto técnico, a questão do som é fundamental, porque ao mesmo tempo que traz realismo a película com uma ambientação sempre em ebulição, evocando ao mesmo tempo aspectos dissonantes, com barulhos contra-diegéticos, ou mesmo falas atropeladas. O lugar de fala aqui é diametralmente e espacialmente determinado imerso em confusão, uma dissonância extremamente arquitetada visando a inserção do espectador na própria inconstância dessa dinâmica da modernidade, e dessa juventude que parece não encontrar-se em ideias e ideais diluídos pela própria dinâmica Social e Política, pois o simples ato da fala ou encontro é caracterizado por componentes políticos explorados por Jean-Luc Godard, nao passando incólume em quadros extremamente bem compostos.

A inserção da tela negra com comentários sobre o filme abre precedente para uma dupla ação do diretor que comanda a película e ao mesmo tempo comenta-a, sendo assim orador e comentarista, subjugando suas indagações em movimentos contínuos, expressos nas inconstâncias de suas personagens alegóricas, que elevam suas interpretações ao nível da caricatura do desencontro, mas que ao mesmo tempo são construtos da ideologia recorrente de Godard, fundados em uma dupla função e ideologia, complexos assim como qualquer outro ser. Além de, o filme é um constante exercício de metalinguagem, o filme dentro do filme, o diretor dentro ou fora de seus personagens de acordo com sua visão ou negação de mundo, o status quo de una Arte que constantemente se confronta dentro da montagem e narrativa, uma ideologia…

No momento precedente do ato final  no filme, a personagem principal em um estúdio de gravação, cantando uma música, faz o paralelo ideal entre realidade e aparência, e como o aparato tecnológico e capitalista (na visão do diretor) transforma a persona e a “enfeita” de acordo com sua demanda em criar uma artista, o que consequentemente a afasta de Paul. Mas afinal, quanta hipocrisia, desses constituintes do sistema? Godard responderá de acordo com seu aparato fílmico teórico em constante choque e construção dialética, de um cinema que se renova a cada jump-cut convidando-nos a expiar nas quebras da quarta parede e nesse isolamento do plano, uma verdadeira estética do mundo burguês em desconstrução.

 

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Neylan

Um estudante e produtor de cinema constantemente em busca do Sonho Lúcido. Hello Stranger.

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