Manchester À Beira Mar e a natureza psicológica na potência dos planos cinematográfico.

O diretor Kenneth Lonergan (Conte Comigo; Margaret) utiliza elementos fundamentais da sua trajetória como autor de teatro, roteirista e diretor de cinema, a natureza como reflexo psicológico das personagens e a contiguidade espacial nos planos cinematográfico que insere o espectador na história, convidando-o como partícipe e construtor da própria narrativa.

O filme em seu primeiro plano já apresenta todo esse flerte, o mar e o constante contraste que o macro universo natural reflete e deflete o estado emocional de Lee Chandler personagem vivido e internalizado de maneira impactante por Casey Affleck, que se vê forçado a voltar para sua cidade natal, depois da morte de seu irmão (Kyle Chandler). Esse retorno revelará todo o trauma passado, vívido e vivido neste danoso retorno, cercado pelo mar e da imensidão de seu conturbado passado. Além do mar outra constante é a neve, nas primeiras cenas do filme vemos Lee Chandler limpando o acúmulo de neve amontoado na entrada de seu prédio, cena recorrente que acomete diretamente aos acontecimentos psicológicos que se apresentarão no decorrer do filme, uma rotina de tentar se desfazer de toda a carga passada, que insiste em voltar. O fogo é outro elemento central, a chama sera o estopim de todo o passado trágico de Chandler, fogo e gelo como espectros de suas emoções.

Na questão das escolhas de direção e fotografia, lonergan consegue na contigüidade espacial entre os dois agentes de fala, dar ao mesmo tempo dinamismo dentro da idéia de espacialidade e continuidade, no meio do diálogo explorando ao mesmo tempo um plano mais estático, contendo os participantes da história, quanto também emular a solidão constante da personagem principal de Casey Affleck quando fotografa-o no extremo direito do quadro, expressando o vazio da falta de parceria e abandono de sua vida mundana. Tal espaço será muito bem preenchido à posteriori com a figura de seu sobrinho órfão interpretado porLucas Hedges, Seu sobrinho por encarar o a morte de seu pai e a vida tão diferente, vivendo as ocasiões de luto com certa normalidade, completará a vida estilhaçada de seu tio. A montagem que lembra um piscar de olhos em diversas direções, mantem uma planificação que varia do plano médio dando espaço para um enquadramento íntegro das personagens na tela, variando para o plano profile (plano da lateral do rosto), permitindo ao espectador entrar na mente da personagem, até um plano conjunto totalizando e respeitando um espaço contínuo de diálogos, servindo também à proporção da tela, preenchendo o espaço em sua totalidade.

Em algumas situações diversificar a montagem em planos inteligíveis, ao invés do usual plano/contra-plano oriundo da televisão, sugere ao espectador a necessidade de assumir os diversos pontos da narrativa, entendendo todas as nuances da história, passando de simples registro de um diálogo, convidando a participação da ação em decorrência no plano. Em adendo, é plausível o uso  de espelhos em diversas cenas, refletindo o dualismo das personagens, sendo assim não por acaso que a personagem principal soca uma janela, cortando sua mão no vidro, despedaçando-se ainda mais psicologicamente.

Em resumo Kenneth Lonergan consegue se destacar num universo de características muito próprias do melodrama, fugindo das convenções de emoções fáceis, e até apimentado as relações com um humor descabido, como em algumas cenas envolvendo a personagem de Michelle Williams (Randi Chandler) que interpreta a ex mulher de Lee Chandler. Randi foi ocultada do texto até agora pelo simples fato pontual e emocional com que suas escassas, porém pontuais aparições suscitam, qualquer comentário sobre seu papel na trama revelaria o plot central da tragédia que assola a todos, fato que culminará na cena que perfila entre as melhores do ano, o enfrentamento final de Randi e Lee, evocando atuações magistrais que catapultaram os dois atores para disputa do Oscar.

Neylan

Um estudante e produtor de cinema constantemente em busca do Sonho Lúcido. Hello Stranger.

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