The Piper, 2015

O Flautista (The Piper, Coréia do Sul, 2015) Direção: Kim Kwang-tae

Um flautista chega à cidade de Hamelin e presencia o desespero dos habitantes por conta de uma infestação de ratos. Ele prontamente se dispõe a ajudá-los em troca de um bom pagamento. Tocando a sua flauta, o homem misterioso hipnotiza os ratos e todos seguem diretamente ao rio, onde morrem afogados. Quando o flautista retorna para receber, os poderosos da cidade se recusam a pagá-lo, alegando que ele não tinha trazido provas das mortes dos ratos. Dias depois o mesmo flautista retorna para hipnotizar as crianças da cidade e direcioná-las ao encontro da morte.

Essa história é impactante e sombria, principalmente porque se trata de uma manifestação contextual moldada diante à Peste Negra que assolava as cidades na Idade Média. Há uma mescla de ignorância e aproveitamento, bem como uma evidente intenção de vingança, o que, por sinal, são temas que combinam bastante com o cinema sul-coreano. O Flautista (2015) é realizado em base a esse conto, no entanto os eventos acontecem em outro contexto, o roteiro se preocupa em dar uma ênfase no homem e o motivo de sua ira, embora exista diferenças, as semelhanças foram escolhidas com perfeição, e ainda por cima também existe o conflito histórico como plano de fundo, pois aqui um povoado se vê preso e isolado por conta de uma guerra, o que os proíbem de se moverem, restando-os compartilharem a fixa moradia com uma enorme quantidade de ratos.

Nas primeiras cenas é possível perceber que se trata de uma jornada entre pai e filho, e como ambos se ajudarão no processo. O objetivo é ir até Seoul, pois o filho tem problemas respiratórios e um médico de tal lugar prometera uma recuperação perfeita. O caminho fica estruturado o suficiente e visualmente o filme ressalta constantemente a união do pai com seu filho e como a estrada para a sua recuperação será difícil – algo que pode ser facilmente compreendido através de uma fotografia que posiciona os personagens em estradas estreitas, engolidos por uma paisagem exuberante, pureza essa que será contrastada no final do filme, onde a fotografia fica escura e sombria, acompanhando a densidade do roteiro.

Ainda sobre a posição dos personagens em meio à natureza, essa alegoria da repetição possui uma importância enorme quando há uma tentativa de definir os exatos momentos do roteiro que a obra ganha contornos soturnos. Se o primeiro ato pai e filho estão sempre pertos e a fotografia é clara o suficiente para dizer que, apesar da doença, a união dos dois simplesmente os fazem felizes, no terceiro ato a solidão é devastadora e, com o auxílio da escuridão, a obra gira 360° graus e atinge perfeitamente elementos clássicos do gênero terror, isso sem abandonar a proposta fabulesca.

O flautista não procura a vingança; a vingança o encontra no momento que se isola da esperança. A mesma natureza que o envolvia e emanava luz, passa a escondê-lo no escuro.

 Apesar de bons momentos, a infinidade de curvas narrativas tiram a atenção do foco principal. Às vezes as viradas bruscas que vão do drama ao terror em questão de minutos, atingem o exagero e a experiência se torna cansativa. A sensação que fica é que seria melhor ter escolhido entre um caminho ou outro, assim como os próprios personagens centrais do filme. Todavia, esse é um problema que assola o primeiro e segundo ato, pois o terceiro há uma fixação dos reais interesses metafóricos de todo o trabalho desenvolvido até então, principalmente em relação ao roteiro que mais parece uma fábula com pitadas do bom cinema de vingança sul-coreano. E é surpreendente o resultado, pois a perversidade se alinha com a infantilidade, provocando o desconforto imediato.

A atuação do Seung-ryong Ryu demonstra exatamente as nuances da sua personagem que vai se quebrando aos poucos, um senhor de respeito passa a ser um predador, manipulador de pragas e vingativo. O sorriso das crianças e o seu próprio, ao ouvir as canções da flauta, não passam de ilusões que anteveem a catástrofe. A reinterpretação da história do flautista de Hamelin, é tão obscura quanto o conto original, que guarda em suas linhas um mistério sobre o desaparecimento de crianças e o sofrimento causado por doenças; ainda que o real motivo da vingança, nos dois contos, seja o homem isolado e sofrendo as consequências por confiar.

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emersontlima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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