Arte – a religião de voltar-se a si

Existe um coração universal que pulsa em cada ser humano; existe uma trajetória que os afasta do seu âmago; e existe o olhar que absorve o mundo e é, por ele, absorvido. Enquanto indivíduo, somos frágeis e delicados. Em civilização somos máscaras. O que torna o homem capaz de violar, de ser rude e ganancioso?

A existência tem como sobremesa a sobrevivência. O homem em seu estado uniforme grita aos quatro cantos o seu status, sua formação é em base à sociedade, seu comportamento e vestimenta. Mas o homem fragmentado, bem, esse representa a mágica realidade da existência pueril. Não existiu e nunca existirá na história uma única revolução que não tenha partido do caos e da revolta, e, convenhamos, o mundo precisa de grandes rebeliões para conhecer o amanhã. Portanto, é necessário que o homem se despedace afim de encontrar o começo de sua jornada. E entre um caco de vidro e outro, eis que surge o dilema da função religiosa da arte.

A arte possui uma definição subjetiva, é claro, que ganha proporções diferentes conforme o contexto histórico ou social. Contudo, é de se notar que essa entidade nunca esteve separada do ser humano. A arte não é uma ferramenta que traz ao homem uma facilitação no seu processo de imortalidade através das suas expressões artísticasa arte é o homem no seu estado inicial. A arte é o coração universal, o big bang, é a expansão e criação do homem, que fora passado para traz conforme a civilização foi se tornando sólida. A arte enquanto sociedade é apenas registro; a arte enquanto indivíduo é uma deidade.

A religião mais intensa e verdadeira que existe é a arte, pois ela traz consigo a noção de outro estado. A terra motiva o homem a superar adversários, estruturar pensamentos e atribuir significados à todas as coisas; a convivência social obriga os indivíduos a se encaixarem em uma classificação previamente planejada por um burguês – desse modo, é válido reforçar que a classificação é o alimento preferido dos ignorantes; e o tempo, por sua vez, impulsiona o ser acovardado a criar raízes. Enquanto isso, a arte e o seu “outro estado” caminha despida por entre um paraíso imaginativo, que se adapta às necessidades de cada um. A arte é a mágica do homem, é a verdade irrevogável, é a única maneira de voltar-se a si.

No campo terreno estamos envolta de conservadorismo e limitações, mas nas expressões não existem regras, não existe ditadura, não existe preconceitos. Por isso é tão difícil unir sociedade e cultura, sociedade e educação, pois desde pequenos somos treinados a definir o redor, como se fossemos dotados dessa capacidade maçante. É preciso sentir os intervalos de um diálogo e outro, de uma atitude e outra. Perceber a beleza da maldade e a leviandade do controle. Na terra dos homens existem as leis, no estado artístico a única lei é ser. Mulheres são homens e vice-versa, o amor é um só, a mensagem não é clara e nem por isso ininteligível, a palavra não é reprimida e o manifesto é consequência e milagre social.

Adoradores da arte, fundemos uma nova percepção espiritual, a sociedade do estado artístico. Um plano astral onde podemos retornar ao primórdio. Aniquilar as classificações e jogar-nos fisicamente e emocionalmente ao desconhecido prazer de sentir. A dimensão da criatividade extrema impede a corrupção de mostrar os dentes. Enquanto isso, o ignorante permanece sentado na sala de jantar, classificando o inclassificável, rejeitando o manifesto pacífico da poesia e proibindo aquilo que nunca fez e nunca fará.

Você está convidado a fazer parte dessa sociedade. Reinvente-se!

emersontlima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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