Os Esquecidos, 1950

Os Esquecidos (Los Olvidados, México, 1950) Direção: Luis Buñuel

Luis Buñuel é o artista que representa perfeitamente o impulso imaginativo, do tipo que rejeita o formato padrão e constrói o seu universo peculiar em base à realidade mas, quando lhe é proposto o registro dela, o faz de forma surrealista. Existem infinitas verdades no surrealismo, porém elas são trabalhadas de forma subliminar, inerente à experiência social e filosófica do artista.

Luis Buñuel é um filósofo com uma capacidade de absorção da realidade inimaginável, como comprovação temos a sua própria trajetória, que evidencia a sua insatisfação com o cômodo. Tendo estudado diversas áreas – incluindo a religiosa – antes de adentrar os saberes das letras e filosofia, essa mistura de conhecimentos funcionou ao diretor como uma oportunidade única de trabalhar brincando com os mais diversos elementos místicos. Sem contar as viagens do diretor pelo mundo afim de encontrar um refúgio criativo, o qual permitiu que ele olhasse o objeto e dilemas sociais com uma certa distância.

A sua fixação no México simboliza exatamente essas transições enquanto estudante dos métodos artísticos, apesar de relacionado com outras artes, por sorte Buñuel resolveu ser cineasta e, se tinha apresentado, anos antes, ao mundo o surreal “Um Cão Andaluz” (1928) – que quebrou qualquer barreira narrativa imaginável, através da exploração do visual – o início do seu trabalho no novo país é pautado na realidade.

“Los Olvidados” (1950) é mais um exemplo do talento incomparável do diretor em desmoronar as dores do mundo, dobrar e fazer um barquinho. Os problemas sociais, questões de ética e opressões são desenvolvidos com um lirismo visceral tão denso que parecem cacos de vidros.

O filme acompanha um grupo de crianças e adolescentes nos subúrbios da Cidade do México. Eles passam os dias vandalizando, inclusive cometendo pequenos roubos. O líder dessa “gangue” é Jaibo (Roberto Cobo) que em um dia, junto com pequeno Pedro (Alfonso Mejía) espanca um menino até a morte. A partir desse momento a obra investiga as consequências emocionais do fato para a vida do Pedro, um menino que, dentre todos, parece ter mais envolvimento familiar e alguma esperança, porém as suas atitudes e companhias o impedem de evoluir. Por outro lado, Jaibo é um inconsequente, suas atitudes ultrapassam a linha natural e atingem a perversidade, no entanto há infinitas possibilidades de relacionar suas palavras e ações às fragilidades na estrutura da sua família, no passado – ele cita o seu pai em um momento e, a ilustração mais evidente dessa analogia, ele se apaixona pela mãe do Pedro.

A obra é incrível visualmente, o preto e branco se faz presente e, mesmo sendo bonito, ressalta as sujeiras das ruas. No entanto, essas sensações são reforçadas com a coragem em expor as perversidades das suas personagens, como em momentos onde as crianças agridem deficientes físicos. As atitudes monstruosas são tamanhas, que a experiência do espectador se torna pesada e ao longo dos oitenta e cinco minutos a sensação de sufocamento é constante. Algo está errado no poder, para as crianças terem chegado ao ponto de ultrapassar qualquer senso de cidadania. Vemos a miséria, a fome, devastação social, mas o que mais assusta é a barbaridade dos seres em formação.

A mensagem é crua e direta, a briga por interesses e despreocupação da política com a situação do seu povo, cria monstros. O título “Os Esquecidos” sugere essa ideia, principalmente quando relacionado com o contexto histórico e o próprio desenvolvimento da obra. É válido ressaltar que o filme começa com avisos sobre os fatos serem reais e distantes de qualquer otimismo, não poderia ser mais oportuno. Já na primeira cena Jaibo caminha pelas calçadas da cidade, rodeado de crianças ao seu redor, pois todos estão curiosos para saber como foi a sua experiência na prisão. Ele se engrandece e detalha momentos da estadia, inclusive coloca a sua liberdade como uma opção. Essa postura demonstra não só um ser que viola as autoridades, como também a visão de Jaibo sobre as ruas, afinal, elas também são prisões, ele só escolheu outra opção. Ainda sobre a cena, as crianças pequenas, frenéticas, em volta de Jaibo, escutam atentas as suas palavras, é como se ele fosse um Messias do caos – inclusive há cenas que ressaltam essa mensagem, trazem Jaibo sob uma iluminação diferente dos demais, como na própria imagem que ilustra esta crítica.

Buñuel faz um relato perturbador sobre os desdobramentos sociais envolta da miséria. As consequências da indiferença sendo retratada da forma mais fiel e visceral possível. Simplesmente um filme obrigatório em todas aulas de sociologia e filosofia. Há ainda uma impressionante cena de um sonho perverso, onde é acrescentado ruídos sonoros incômodos que representam brilhantemente toda a experiência de se assistir Os Esquecidos.

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emersontlima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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