Desajustados, 2016

virgin mountain

Os trabalhos do Dagur Kári são sempre impressionantes. Lembro-me de tê-lo conhecido através do filme “O Bom Coração”, imediatamente me encantei com a narrativa orgânica, com os silêncios e reflexões – sempre muito oportunos – e com as atuações, principalmente do Brian Cox e Paul Dano, o segundo apresentando uma das suas melhores performances.

O diretor costuma ter uma abordagem visceral sobre o lado mais íntimo dos seus homens, lidando com a solidão como forma de motivá-los ou destruí-los. Se em “O Bom Coração” havia uma metáfora linda com o coração e confiança, no seu mais recente filme, há a mesma sutileza na abordagem de um tema complicadíssimo, e envolto de muito preconceito, chamado depressão.

A depressão pode, facilmente, ser alvo de desconfiança, isso porque se confunde com uma infinidade de sentimentos facilmente controláveis. Só quem já encarou essa doença sabe o quanto ela se apoia no desequilíbrio e no abandono. O diretor realiza, então, um dos seus trabalhos mais corajosos, baseando-se nesse isolamento e construindo uma série de mensagens através de um silêncio terrível, que machuca, mas sempre tentando desertar a reflexão no espectador e, principalmente, empatia.

A história é sobre um homem de meia-idade chamado Fúsi. Ele vive com a sua mãe, têm adoração por brinquedos colecionáveis e vive solitariamente, seja no trabalho ou em casa. Parece que não tem malícias, se comporta com constante naturalidade, mesmo que sempre demonstre, através de expressões, completa timidez do mundo. Fúsi tem depressão, mesmo que essa palavra, no início, não seja pronunciada. Mas quem assiste sabe desde o começo que ele não está bem. Contudo, com a possibilidade de fazer aulas de dança, acaba conhecendo uma mulher que o guiará através de um caminho de esperança e felicidade, mesmo que esse trajeto seja incompreensível para o protagonista.

A palavra depressão é dita apenas uma vez, por um personagem secundário que afirma que “a depressão é uma mistura de auto-piedade com preguiça”, parece-me ousado a postura do diretor em se utilizar de uma série de artifícios para refutar essa ideia egoísta. A fotografia e o posicionamento de câmera, por exemplo, sugerem o distanciamento do protagonista para com o mundo que o cerca, os objetos de cena sempre estão em primeiro plano, como se Fúsi estivesse oprimido constantemente, mesmo que pelas paredes.

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Aos poucos, no entanto, essa opressão vai se afastando e o personagem, apesar de jamais apresentar indícios de mudanças de personalidade – ora, esse nunca foi o problema – se vê próximo da sociedade como um todo, mesmo que as pessoas teimem em ser desrespeitosas com as suas decisões. Ele é extremamente frágil e inocente, mas no mesmo momento é tomado por uma segurança sem tamanho, extremamente cauteloso e ciente da maldade ao seu redor. Quando questionado pelo seu chefe, por exemplo, sobre as provocações que recebe dos colegas de profissão, ele diz que “não é nada demais, pois relacionamento entre homens são assim”, demonstrando mais uma vez a sua aversão as atitudes consideradas “naturais” pelo senso comum.

Com o desenvolvimento, o personagem vai se libertando das opressões.

Com o desenvolvimento, o personagem vai se libertando das opressões.

A atenção que o protagonista dá aos seus brinquedos são sempre ressaltados com planos detalhes, onde os seus olhos seguem com extrema atenção cada detalhe dos soldados, carros, enfim, todos os objetos pertencentes à sua coleção. Ainda mais, o personagem simula uma batalha da segunda mundial, em uma maquete, a referência e clara e faz jus a ideia popular de que “cada dia da nossa vida é uma batalha a ser vivida”. Visivelmente Fúsi não têm interesse nenhum em participar dessa batalha destinada aos adultos e decide permanecer criança, até por isso faz amizade com uma menina, sua vizinha. O filme ainda sugere uma possível desconfiança por parte dos vizinhos sobre a sexualidade do protagonista, tamanho envolvimento inocente com as crianças. É a representação de um mundo sujo, onde não se pode confiar em ninguém.

Mais uma vez, “Desajustados” é muito poderoso, desde o roteiro, passando pelos diálogos sempre viscerais e a postura do ator Gunnar Jónsson. Por ser fisicamente grande e explorar o comportamento desajustado, o espectador passa a se incomodar/identificar com diversas situações onde ele se sente um ‘peixe fora  d’ água”, as expressões do ator são sempre muito cuidadosas, parece realmente que abraçou o personagem e o desenvolveu com muito amor. Unido a isso temos as transições das cores, como a nova casa do personagem, no final do filme, que é azul claro, remetendo-nos a serenidade e tranquilidade.

Com a condição de ser único na sua proposta, essa obra da Islândia é uma verdadeira preciosidade, apresentando um personagem multifacetado, que nem ao menos sabe o que é endorfina, pois qualquer coisa relacionada com a felicidade é algo muito estranho para ele. Mas com a coragem de trocar heavy metal pela Dolly Parton, somente para agradar um amor, Fúsi continua espalhando a sua graça sem graça, o sorriso no último segundo de filme entra para a galeria dos melhores do cinema e, sem dúvida, se traduz em um alívio para o espectador.

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emersontlima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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