Hill of Freedom, 2014

Hill of Freedom (Jayuui Eondeok, Coréia do Sul, 2014) Direção: Hong Sang-soo

Hong Sang-soo, a cada trabalho, imprime suas características de forma orgânica e elegante, como um maestro, sempre priorizando as relações humanas afim de questionar como o indivíduo enfrenta as mais diversas situações do dia a dia. Na sua essência, lembra o Éric Rohmer, mas o desenvolvimento têm semelhanças com o Woody Allen. Isso sem nunca soar artificial ou cópia. O diretor parece conquistar facilmente o seu espaço e respeito através de honestas crônicas onde temas como as relações, verdade e tempo serão trabalhados de uma forma agridoce.

Em Hill of Freedom ele conta a história de um japonês chamado Mori (Ryo Kase) que viaja à Coréia do Sul para reencontrar uma amiga. Com uma simplicidade enorme, assim como a sinopse sugere, acompanhamos essa trajetória e os seus inúmeros desencontros através de lembranças. É uma jornada de pequenos e importantes diálogos, onde o protagonista, em meio a uma busca, se depara com o inesperado e, nesse processo, compreende a si e seu silêncio.

A maior força da obra é mesmo o seu equilíbrio entre a técnica e o natural. A filmagem, algumas vezes, nos aproxima do objeto em um zoom e cria planos visuais limpos, acolhedores – em perfeita harmonia, inclusive, com a clara fotografia. A sensação que transparece é a de tranquilidade, se trata mesmo de um filme de viagem onde os problemas pessoais e conflitos do protagonista são esquecidos justamente pela sua maturidade diante à vida. Ele se sente um pouco desconfortável nas conversas, mas ainda assim é muito simpático, despertando atenção daqueles que estão ao redor.

A atuação do grande ator japonês Ryo Kase, que vem nos presenteando com grandes performances desde o maravilhoso e popular “Ninguém pode Saber” (2004), é primorosa nesse sentido e colabora diretamente na empatia provocada pela sua imagem doce e misteriosa. Existe muito coração nesse personagem. Suas opiniões são sempre respeitosas e a comunicação acontece de forma delicada, aliás, existe uma importância grande no que diz respeito a linguagem, não à toa o filme é quase todo falado em inglês, visto que o personagem principal não sabe falar coreano. Essa decisão, sem dúvida, ausenta os personagens de domínio um sobre o outro, visto que todos estão falando uma segunda língua, todos estão, portanto, completamente despidos.

A câmera estática representa a segurança que é adquirida conforme os dias se passam, inclusive o tempo é relativo aqui, visto que a narrativa acontece por meio de uma leitura de cartas onde todas estão fora de ordem, portanto, a alma da obra é justamente as lembranças vividas por alguém, cuja interpretação e olhar modificou os lugares e as pessoas que conheceu.

O percurso de encontrar alguém, traz consigo uma infinidade de vírgulas, uma garçonete que se interessa pelo protagonista, após ele salvar o seu cachorro, é a mais evidente. E esse pequeno relacionamento é envolto de doçura, mútuo respeito e empatia. Inclusive, é interessante notar que, à medida que há mais confiança na relação, a câmera se aproxima. Essa barreira criada para representar o turista e os limites do diálogo é excelente pois representa o sentimento universal de estar só, mesmo que rodeado de histórias, vidas e diferenças. Em meio ao trajeto de ir e vir, existe uma quantidade imensa de conhecimentos que se adquire e sente e é essa a única obrigatoriedade da existência: entregar-se.

O final do filme é a conclusão de uma simples jornada, como todas são. A grandiosidade dos movimentos está na visão daqueles que assistem ou descobrem. Dois personagens seguem em rumo a um outro país, os passos seguem uma direção, enquanto o coração teima em enfrentar todas. A delicadeza do simples é investigada por Hong Sang-soo e o resultado se dá em uma obra incrivelmente transparente.

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emersontlima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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