Djamilia – A força feminina como portal para o amadurecimento

Djamilia ( Dzhamilya, União Soviética, 1969 ) Direção: Irina Poplavskaya e Sergei Yutkevich

Quem é Dzhamilya? 

Quem é Dzhamilya? onde se encontra a distinção entre mulher e homem, senão, pela separação e dores da guerra? um lado existe a saudade e preocupação; do outro a saudade e o medo de não voltar. O trabalho no campo demonstra uma característica fundamental que isenta às mulher de pensar em seus maridos mergulhados na guerra: preencher suas mentes e esgotar o físico com o trabalho desenfreado. Nesse intervalo, uma doce camponesa consegue sorrir, despertando inveja e curiosidade nos demais por ser, bem, como dizem, livre.

Quem é Dzhamilya? metaforicamente, Dzhamilya é o espírito liberto e entregue à vida como se as horas fossem segundos; é a entidade que mora em cada mulher que se desprende e se rebela contra a sociedade que teima em traçar uma infeliz diferença entre o masculino e feminino, atribuindo ao primeiro a força absoluta no que diz respeito à estrutura de uma relação. Aqui, de forma poética, Dzhamilya e sua força são os perfeitos veículos para uma provocação generalizada, partindo da estranheza das demais mulheres, passando por uma ajuda inconsciente à uma criança a se entender como jovem e finalizando na paixão.

Um processo cru, visceral, poético e agridoce de uma jovem diante de si mesma e a possibilidade de desprendimento.

Essa é Dzhamilya, uma camponesa de cabelos compridos. Trabalha em meio à natureza, caminhando entre as suas irmãs, as flores. O seu marido está na guerra e o único laço afetivo da menina é o seu cunhado, um pequeno menino. Os dois se divertem em um mundo que estranha o sorriso; eles zombam do sacrifício; eles são o que são, compõe rimas com suas verdades e isso basta.

Dzhamilya sente falta do seu marido constantemente…

[…] mas sua força é extrema e o seu coração gigante ao ponto de lidar com todos os problemas de modo surpreendente: amando, compartilhando, brincando, o que a transforma em uma eterna criança sem, com isso, perder a identidade dominadora e inteligente de uma mulher.

Uma obra da União Soviética, baseado em uma novela homônima de Chingiz Aitmatov, a qual o grande escritor Louis Aragon creditou como sendo “a mais bela história de amor de todos os tempos”. E é assim, em uma primeira camada há somente o romance, mas trabalhado com lirismo. O campo, tomado por plantações de trigo, é a perfeita composição do quadro, que possui Dzhamilya como sua protagonista, aquela que traz cor ao preto e branco brilhantemente trabalhado de forma a representar as emoções tristes escondidas em todos na vila.

É irônico o longa começar com uma discussão entre dois adultos – pai e mãe – onde ele obriga Dzhamilya trabalhar e ela se mostra mais flexível. Duas mentalidades opostas, incentivando um artifício que será muito utilizado ao longo de todos os minutos. Diversos caminhos vão surgindo, restando aos personagens fazerem as escolhas dos seus destinos, bem como usar as experiências do passado. Não à toa a história é contada por meio de uma narração – do próprio escritor Chingiz Aitmatov – e simula o garoto no futuro onde, morando em uma cidade populosa, se tornou artista, inclusive todas as suas pinturas remetem as suas inesquecíveis experiências com Dzhamilya, como se ela realmente fosse a musa inspiradora tanto de liberdade quanto de inocência, despertando paixão naqueles que acreditam em suas atitudes.

A fotografia colorida e comum do presente, na cidade, dá lugar ao preto e branco do passado, no campo. Penetrante, assim como as inserções das pinturas do narrador durante os 83 minutos, de forma a contextualizar-nos no olhar do menino e como os eventos impactaram e serviram como uma ponte entre ele e o seu amadurecimento.

Desde os primeiros momentos que a protagonista é apresentada, as suas atitudes, todas vinculadas ao desprendimento, ficam claras: um homem a agarra dizendo “onde eu coloco os meus pés é o meu caminho; e a mulher que eu agarro é minha” e ela prontamente o empurra, afastando qualquer opressão e estilo de vida conservador, ela fora criada para aceitar mas se transformou em uma inconformada, rebelde e indomável.

“É difícil explicar o que houve com Dzhamilya. E como ela desejava sua alma. Eu corria atrás dela, a olhava. E assim, eu também me livrava da tristeza. Então eu não sabia que, na minha mente surgia o quadro, que depois eu chamaria de “a mulher que corre pela campina”

A trilha sonora pauta bem o clima convidativo. A sensação é de empatia imediata pela certeza da protagonista, sua maneira espontânea de enfrentar uma situação caótica. É de uma esperança e choque, ao mesmo tempo, como se alguém nos desse um soco no estômago de modo a reconhecermos que, no pior momento das nossas vidas, sempre haverá a possibilidade de dar pulinhos sobre os problemas e rir, se encantar, apaixonar-se e fugir… para depois começar tudo de novo.

Quando Dzhamilya ri, obtém como retorno uma indagação: “por que você ri? traz boas notícias?”, a heroína sabiamente responde: “simplesmente sou feliz”.

Quando um outro personagem aparece, Daniar, um amor surge. Ele, tímido, a observa e absorve mesmo que distante a sua energia, enquanto a menina/mulher o irrita de diversos modos, culminando em uma cena em que troca o saco de cereais por um mais pesado, obrigando Daniar a carregar cem quilos nas costas enquanto sobe uma escada. A brincadeira passa dos limites e a culpa se faz presente, principalmente pelo fato de Dzhamilya saber que o Daniar ficou com problemas nas pernas após retornar da guerra. O sofrimento do homem calado, carregando a sua maldição, é demonstrado como um sinônimo visual da coragem: a filmagem chega a inverter, de modo que toda a normalidade se perca.

Brilhantemente dirigido – a força extraída de todos personagens e figurantes é sublime, além da composição das cenas externas – e atuado por Natalya Arinbasarova que, com toda a sua beleza, dá a sua personagem uma doçura enorme, que certamente funciona muito bem para o rápido encanto de quem assiste.
A cena final apresenta um cavalheiro, cavalgando sobre um cavalo branco, como um príncipe. Ele persegue um cavalo negro, indomável, assim como Dzhamilya. A mensagem é pura, ousada e atemporal, uma vida sem medos, incertezas e arrependimentos, sendo transmitida da forma mais inteligente possível. Como conclusão, é um dos “maiores filmes de amor de todos os tempos”.

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emersontlima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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