O Que Está Por Vir, 2016

O Que Está Por Vir ( L’avenir, França, 2016 ) Direção: Mia Hansen-Løve

★★★

2016 certamente foi um ano precioso na carreira da excelente Isabelle Huppert – pessoalmente considero a melhor atriz ainda em atividade no cinema mundial – pois, pegando como exemplo dois dos seus filmes lançados no Brasil, além de um deles, “Elle”, ter uma interpretação considerada forte o suficiente para ser indicada ao Oscar – e, se a premiação for justa, sairá vencedora – tanto no já citado filme do Paul Verhoeven quanto em “O Que Está Por Vir” ela têm a oportunidade de trabalhar com personagens femininas de imagem e postura fortes, lidando com os sentimentos mais profundos com muita classe, ocultando a fraqueza com as expressões fortes e equilibradas.

Dirigido pela Mia Hansen-Løve de forma intimista, suavizando os movimentos de câmera e dando importância gigantesca ao cenário e como as personagens ocuparão o espaço, todos os elementos básicos parecem favorecer a sua protagonista, é como se a diretora percebesse o potencial reflexivo da sua trajetória e, da forma mais simplista possível, construísse um monumento ao seu redor como iniciativa de contemplação do cotidiano abalado por uma decisão egoísta que, em nenhum momento, é julgada. Essa sincronia entre a direção e o roteiro acontece pois Mia Hansen-Løve assina ambos; outro motivo claro é que a história é uma homenagem a sua mãe, uma professora de filosofia.

O filme acompanha a professora de filosofia Nathalie (Huppert) que possui como obrigação, enquanto educadora, permitir que seus alunos pensem por si, motivando reflexões sobre questões profundas, acontecimentos atuais e política sem a necessidade de uma implementação de ideias prontas – algo que fica evidente nas primeiras cenas, onde a professora se recusa a realizar um debate em sala onde os alunos, consecutivamente, esperavam ouvir a sua posição política. Sua vida, aparentemente, dialoga com a completude, inclusive financeiramente, mas a sua mãe cobra atenção por conta da avançada idade e a relação com o marido, que dura vinte e cinco anos – pode estar em processo de transformação por conta de uma possível traição.

O título e a tradução sugerem a posterioridade. O longa é inteligente ao oferecer, em seu prólogo, mensagens rápidas e profundas sobre o “depois”. Como as ondas do mar, Nathalie se depara com o percurso de entender-se só, aceitando a sua condição de caminhante em meio à diferentes princípios – ela possui um passado ativo politicamente e, no auge da idade, se sente conservadora.

Se não bastasse, a obra representa um dilema presente na vida de muitas mulheres que, influenciadas pelas ideias abomináveis da sociedade e da mídia, se veem invalidadas ao chegar na terceira idade, como se a “idade avançada” representasse somente a espera da morte, um ponto final nesse grande texto chamado vida. A morte certamente está por vir, mas nem por isso escraviza uma existência.

O movimento das ondas vão e vêm, mas durante esse movimento infinito existem diversas situações, diversos momentos a serem investigados com entrega e ousadia. A protagonista, após a separação, passa a se estudar, reinventando-se para, na posterioridade, descobrir-se sobre outra perspectiva – algo que será transmitido em planos que a diretora dá uma importância grande, no quadro, para a paisagem, como se o meio estivesse ofuscando o brilho da protagonista.

É de se notar a sensibilidade na singela construção narrativa como no final que a protagonista é filmada entre as paredes do seu quarto, da mesma forma que o marido no começo, provocando a sensação de que toda relação é positiva pois transforma, independente do tempo que se mantenha. O Que Está Por Vir é simples na composição, mas profundo na abordagem, pois não há maneiras de ignorar o quão especial é a jornada de evolução: com a mãe, um aluno e o ex-marido Nathalie interage com o passado; com os filhos e a nova gata, Pandora, ela sente o presente e assim vai se preparando para o próximo dia, onde o natal é comemorado sem um integrante importante da família, mas nem por isso perde a sua luz.

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emersontlima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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