O que é e como ser um crítico de cinema?

Esse artigo se propõe a levantar a discussão sobre o que é a crítica de cinema e como se tornar um crítico, contudo, conforme as divergências de opiniões, seja dos teóricos, críticos e leitores, cabe ressaltar que o texto se baseia unicamente na experiência do escritor que, durante os últimos cinco anos, escreve suas observações sobre cinema e estuda a prática.

O cinema é uma arte muito nova, sem dúvida provoca muitas desconfianças por parte do público comum que, em uma posição egoísta, pensa a sétima arte como um parque de diversões onde, o produto, só serve para preencher as suas necessidades. Na verdade, essa ideia foi implantada conforme os anos mas de nenhuma maneira diminui a importância do cinema para a construção do conhecimento, no fundo sempre haverá espaços para todas as ambições, seja a reflexão ou venda – aliás, uma depende da outra.

Portanto, pensar teoricamente o cinema ainda é visto como uma tentativa inocente, visto que a experiência cinematográfica se tornou, com o passar dos anos, uma iniciativa pluralizada. É fácil perceber a enorme quantidade de pensadores de cinema que compartilham suas opiniões todos os dias na internet, aliás, o caminho virtual dá a possibilidade para diversas pessoas que, anos antes, se viam direcionadas por outras mídias muito mais exclusivas. O importante é saber que, assim como o acesso à internet traz benefícios, o cinema como “mais uma loja dos shoppings” também; nem por isso tira a sua profundidade e potencial de catarse. O cinema precisa ser discutido e, por sorte, é uma das artes mais presentes entre as diferentes divisões sociais.

Com a rápida divulgação e aumento do número de críticos na internet, é questão de tempo para, individualmente, traçarmos uma comparação silenciosa e definir o que é crítica e o que não é, como se fosse possível um ato egoísta render alguma conclusão inteligente. Então, como início da reflexão, gostaria de deixar claro a minha história com a escrita sobre filmes e, a partir da minha experiência, resumir a opinião e responder a pergunta principal que dá o título a esse artigo.

Se pensarmos unicamente na escrita, sabemos todos que a resenha crítica possui um padrão muito bem definido. Mas qualquer trajeto que dependa da padronização me incomoda e, assim como todas as coisas da minha vida, tento rever meus métodos e tentar encaixar o meu desprendimento intrínseco com a necessidade daqueles que leem o que escrevo ou que me escutam – aliás, passei boa parte da minha vida virtual ignorando os acessos e comentários do Cronologia do Acaso, não por arrogância e sim por ignorância, pois não imaginava que alguém no mundo teria alguma vontade em sentir o cinema através da minha visão.

Comecei a escrever em 2012, em um primeiro momento era para exercitar a escrita e desabafar sozinho. O caminho mais fácil para isso era, na época, o poema. Quando ouvia uma música ou assistia algo que me tocava, rapidamente tentava cuspir sentimentos em formas de palavras que, se não estruturadas da forma que imaginava, não faziam sentido algum. Com o tempo passei a escrever sobre filmes com a mesma intensidade, cada texto era um pedaço de mim que cortava e alinhava com divisões pontuais; fazia questão de utilizar a arte como um veículo, onde preenchia com as minhas próprias experiências e sentimentos, imaginando um plano onde o audiovisual e o homem se fundissem.

Com o passar dos anos fiz questão – e faço – de buscar a teoria do cinema e, mais do que isso, vivenciá-las. Nas primeiras oportunidades que tive, escrevi e atuei em peças teatrais; implantei e organizei um projeto de cineclube na escola em que trabalhava; inclusive escrevi meu trabalho de conclusão de curso em base a esse projeto, ou seja, fazendo uma pesquisa estreita na questão dos impactos sociais, filosóficos e políticos que o cinema pode desempenhar nas salas de aula; sem contar os pequenos e importantes trabalhos com a fotografia. O que quero dizer é que sinto a crítica de cinema assim, como uma vivência na arte, como produção. Se pegarmos a história da análise artística, percebemos que os primeiros críticos sempre foram pessoas que tinham essa experiência direta com a criatividade, viviam alguma área e utilizavam-na para compor a sua perspectiva sobre determinada obra.

Não estou aqui excluindo os que não baseiam suas criações textuais nessa interação direta com a arte, mas certamente não concordo com uma crítica de cinema que não exale essa propriedade subjetiva, que seja, muito mais do que bonita e padronizada, uma desordem sentimental separada por vírgulas e ponto final. A crítica de cinema deve ser, por consequência da grandiosidade daquilo que aborda, uma produção artística que represente uma parte da alma do escritor.

Escrever é um ato religioso, exige muita concentração e coragem. A organização está no coração pois, no final do dia, as regras gramaticais são esquecidas e só sobra o conteúdo. Apesar de buscar conhecimento e tentar compreender as inúmeras regras teóricas do cinema ( leia aqui o meu texto “Como e por onde começar a estudar cinema” ) tento mesclar a técnica com a subjetividade provocada unicamente pelo tema e abordagem do longa que está sendo analisado, mas a menção técnica não pode ser um brinde exibicionista, deve ser transmitido com carinho e respeito, como conclusão, é preciso ser explicado de forma prática, principalmente ressaltando como colabora para o entendimento dos símbolos ou mensagem do filme.

Em base à muitas discussões e leituras, é questão de tempo perceber que existe diversas pessoas escrevendo sobre cinema na internet, então como saber quem é o crítico de cinema e quem não é? a resposta é simples mas, por conta da polêmica que a envolve, precisa de uma explicação: todos são críticos de cinema, pois quem dita isso é o público que segue e se interessa pelo escritor.

Há alguns que tentam criar uma divisão entre crítico de cinema e resenhista, blogueiro etc, comparando quanto determinado site ou blogue rende, seja dinheiro ou acessos. Esse talvez seja o pior erro de todos pois o conteúdo é trabalhado e pensado de forma diferente. Por exemplo: dificilmente um site de cinema ganha dinheiro apenas com críticas, no mesmo tempo que uma crítica com poucas palavras traz muito mais leitores e, mesmo que o autor queira mudar o estilo da sua escrita apenas para se adaptar ao mercado, é bem provável que a versão criada por interesses soe artificial e insuficiente – como acontece com grandes portais atualmente.

Crítico de cinema é aquele que escreve e que consegue conquistar um público. Os leitores não só o encontram como retornam e participam do processo de estudo. São os próprios leitores que indicam os espaços a serem explorados na crítica e, por esse motivo, é impossível tentar separar a crítica cinematográfica de uma “resenha no blogue”. Cada leitor compra a ideia de determinado escritor(es) e o utiliza como guia pela jornada cinematográfica.

Depois de tudo isso, gostaria de ser mais prático e deixar algumas dicas para quem está pensando em escrever sobre cinema, criar um blogue etc.

  1. Faça. Escreva de modo livre, preocupando-se apenas com as suas referências, não com a intelectualidade, formato e vivência de outrem.
  2. Escrever de modo livre não quer dizer que você precisa parar de se inspirar em outros escritores. No entanto, no começo, sugiro que você se atenha à buscar ideias em autores que não trabalhem na área que gostaria de explorar – no caso, a crítica cinematográfica. Isso porque os primeiros anos servem como uma forma de avaliação e adaptação, entre o formato, a sua capacidade, adaptação e frequência, o que poderia sofrer um atraso com a famosa tentativa de copiar alguém consolidado para alcançar um avanço rápido.
  3. Sabe àquela fórmula padrão? começar com menção ao diretor, gênero, atores, sinopse curtinha e copiada de algum lugar mas ligeiramente modificada. Depois observações gerais e conclusão referenciando o tema central? esqueça isso. Aliás, lembre-se disso mas, durante o processo criativo, ignore. Pense exclusivamente em você e na sua experiência, jogue as palavras com a mesma velocidade e felicidade que uma criança brinca com os seus brinquedos improvisados. (já perceberam isso? uma criança têm a capacidade de pegar qualquer objeto e, mesmo que seja o mais simples possível, transforma em algo especial e grandioso. O crítico e o escritor devem se inspirar nesse gesto inerente de imaginação, muitas vezes a grandiosidade se encontra em ser de verdade).
  4. Não existe um tamanho apropriado para uma crítica de cinema – a não ser que você escreva para um jornal ou algum veículo que determine quantos caracteres ou palavras a crítica precisa ter.
  5. Estude cinema. Como? R= ache a forma que mais se adapta com o seu estilo. Se você pretende abordar a parte técnica e sustentar seus escritos em qualquer área teórica, pode fazer curso, pode pesquisar por conta própria (talvez esse artigo ajude) mas busque informação (lembre-se, jogar frases prontas sobre edição, montagem, fotografia, mise en scène, plongée etc, e não explicar qual a relevância para a trama, é a mesma coisa que discordar e não apresentar um argumento, para muitos não é suficiente). Agora, se não te interessa a teoria, então se atenha exclusivamente a assistir muitos filmes. Em uma crítica de cinema fica evidente se a pessoa possui uma bagagem cinematográfica pois cada palavra revela o olhar do escritor e esse olhar se transforma drasticamente mediante a quantidade de referências que ele têm.

Essas foram as minhas considerações, espero que tenha sido útil e que te motive a escrever, se esse for o seu objetivo, ou que simplesmente repense quão importante é a crítica de cinema para a divulgação da sétima arte. No fim, todos estamos colaborando com a mesma coisa, por mais que exista individualismos, só existe uma linguagem ao abordar o cinema: paixão.

(ou assim deveria ser.)

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emersontlima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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