Wiener-Dog, 2016

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Todd Solondz é um dos meus diretores favoritos. Lembro-me de ter assistido “Felicidade” e isso me incentivou a pesquisar cada vez mais o cinema independente norte-americano. Basicamente Todd Solondz me ensinou, assim como diversos outros diretores, que o cinema vai muito além quando atinge a raiz dos problemas sociais e filosóficos.

Por isso tenho um carinho muito grande com o seu trabalho extremamente realista e doloroso. Ele alcançou o auge da sua carreira ainda nos anos 90, junto com outros nomes que despontavam no circuito independente. Filmes como o já citado “Felicidade”, de 1998 e “Bem-Vindo à Casa de Bonecas”, 1995, são sempre lembrados ao discutir sobre a carreira do diretor. No entanto, é natural apontar os seus recentes trabalhos como o auge da sua maturidade, mesmo que a fama tenha diminuído drasticamente – prova disso é que a diferença de tempo do seu, até então, último filme “Dark Horse” ( 2011 ) com o recente “Wiener-Dog” ( 2016 ), grande se comparado com outros diretores – mas ainda é possível perceber que ele ainda desperta paixão por parte de alguns seguidores.

O diretor sempre teve essa necessidade de dialogar com a verdade através de um humor áspero e natural, organizando os seus personagens como uma sinfonia desastrosa, mostrando a realidade da forma mais impactante, direta e poética quanto a grosseria permite. Apesar dessa postura, é possível enxergar muito carinho por parte do realizador, como se estivesse construindo um belo castelo com pequenos blocos, cada um é um filme que, inevitavelmente, pertence a um mesmo universo.

“Felicidade”, “Histórias Proibidas”, “Palíndromos” e  “A Vida durante a Guerra”, todos eles têm em comum a narrativa que investiga uma série de personagens, através de histórias paralelas que, de algum modo, estão relacionadas. Em seu mais recente, “Wiener-Dog”, ele continua com a mesma ideia e as histórias dos personagens são exibidas através da jornada de um cachorro, no entanto uma diferença crucial é os atores que estão no projeto, grandes nomes como: Danny DeVito – que casa perfeitamente com o universo do diretor -, Ellen Burstyn, Julie Delpy, Greta Gerwig etc.

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O mundo de Solondz é todo corrompido, na verdade ele subverte o normal e apresenta um lado oposto do costumeiro, então podemos ressaltar que essa corrupção parte, na verdade, de uma ignorância. O diretor grita constantemente em seus roteiros para que nós olhemos para um outro lado, outrora não nos espantaríamos com a sua proposta, no entanto a nossa arrogância e individualidade nos tira essa possibilidade de conforto, transformando Solondz em um contestador, brinca com o choque como função principal da narrativa, sem ser pedinte e se preocupando em agredir bem devagar, preparando-nos, acolhendo-nos.

As cores vibrantes do começo atingem um azul melancólico conforme a história se desenvolve, principalmente no primeiro segmento que acompanhamos através do cachorrinho. Essa história é realmente a mais densa, por simplesmente trazer uma série de indagações através de um garoto curioso que se questiona sobre tudo, desde o livre arbítrio, passando pela domesticação e castração até culminar em reflexões sobre o papel de Deus na sociedade. O garoto sempre pergunta à sua mãe, interpretada pela maravilhosa Julie Delpy, e recebe respostas vazias, como se a mãe quisesse ausentar o seu filho da ciência. Tratando-o como idiota e privatizando-o do crescimento. Ora, não fazemos isso ao abandonar as nossas crianças nas redes sociais?

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“Cães não são humanos e não têm sentimentos”

Se na primeira história a relação com o “Wiener-Dog” é de dúvida, na segunda, quando a Greta Gerwig aparece, é de acompanhamento. E assim continua até o final, a sua função na trama é acompanhar a linha do tempo do ser humano, a sua ânsia por conhecimento, o seu carinho, busca por amor/companheirismo, a sua depressão, o medo da morte e solidão.

É impressionante a capacidade do diretor em resgatar esses temas de forma insana, repetindo músicas, diálogos, no mínimo, doidos, um verdadeiro mundaréu de significados. É válido mencionar que a última história, com a Ellen Burstyn, o  “Wiener-Dog” ganha o nome de Câncer, isolando-o de qualquer esperança ou amor, é quando a idade atrapalha por conta da desesperança. Poucas vezes, na história do cinema, a morte foi retratada de forma tão inteligente como aqui. A sequência final é maravilhosa, quando uma só personagem se depara com todas as possibilidades que poderia ter seguido, como uma forma, novamente, do diretor gritar para o mundo a sua visão pessimista, mas acima de tudo realista sobre a vida e quem o segue. Obrigado, Todd, mais uma vez, por me salvar.

Em uma faculdade de cinema, está acontecendo uma palestra com um ex-estudante que conseguiu sucesso na indústria. Alguém pergunta: “Como a faculdade de cinema te ajudou na carreira?”. Ele responde: em nada. Querem uma dica? caiam fora daqui e façam filme. Não se aprende nada na aula.

Obs: Ouçam o podcast que gravei no Masmorracast sobre a carreira do diretor Todd Solondz: http://cinemasmorra.com.br/2013/08/13/masmorra-cast-45-filmografias-todd-solondz/

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emersontlima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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