A jovem se descobre mulher enquanto caminha

Jolene ( Jolene, Estados Unidos, 2008 ) Direção: Dan Ireland

★★★

Quando uma obra se dedica a percorrer caminhos incertos através dos olhos de uma mulher, é de se esperar coisas diferentes. Em “Jolene” o diretor Dan Ireland explora essa necessidade se pautando na força da sua atriz principal – ainda em ascensão – de modo a provocar quem assiste com a jornada de uma menina, que aos poucos vai se transformando em mulher conforme as suas relações, lugares e prazeres.

A história gira em torno de Jolene que, assim como a famosa música de Dolly Parton, é dotada de uma beleza singular e exala uma magia nos homens, de forma a enfeitiça-los com tamanha doçura. O filme percorre dez anos na vida dessa jovem – dos dezesseis anos até vinte e seis – que começa com um casamento por interesses e como atalho para liberdade, passa pela entrega ao sexo até chegar no ápice da experiência: ser mãe.

Essa jornada é contada de forma flexível, apoiando-se na brilhante atuação da Jessica Chastain que, aqui, demonstrou para o mundo o seu talento e foi chamada posteriormente por Terrence Malick para fazer “A Árvore da Vida”. Jolene caminha por entre diversos momentos, completamente diferentes entre si mas que se complementam, cada relação que ela se envolve transforma o longa e a sua protagonista, como se fosse montado como pequenos curtas-metragens, e todos têm como essência uma feminista que não tem medo de usar a sua beleza, sexo e persuasão como ferramentas para se livrar de situações incomodas, mas que, ainda assim, exala uma inocência hipnotizante.

A semelhança com “Thelma e Louise” é grande, a questão da liberdade feminina está em cada quadro dos dois primeiros atos, mas o fato de ser uma personagem solitária preenche outros lados e diferencia bastante, como se o processo de evolução fosse em base ao silêncio e contemplação; por estar só, Jolene se vê vítima dos acontecimentos e se transforma em heroína a cada vez que tenta se recuperar.

O primeiro casamento da protagonista é uma síntese das outras relações que viriam na posterioridade. Ela é movida, subliminarmente, por uma sensação de urgência em rumo à liberdade – no entanto se vê presa na casa dos tios do seu marido – e se depara com um parceiro limitado intelectualmente e infantil; rapidamente a moça é forçada a “pular degraus” quando um homem mais velho a viola, se tratando de uma mulher que vive intensamente, sobrevive à catástrofes e se restabelece através de instintos.

Uma cena, logo no início, que simplifica questões feministas do longa é um momento que o primeiro marido de Jolene a presenteia com uma camisola enorme, como forma de estabelecer um padrão e controle a jovem – ele ainda vislumbra sua mulher com a camisola e, mesmo percebendo a desconfortabilidade dela, ainda afirma o quão sexy está, demonstrando ser apático aos gostos e reações de uma mulher.

A mensagem principal é belíssima, repleto de momentos interessantes como um striptease ao som de Nina Simone, um momento que coloca em evidência as virtudes performáticas da protagonista que mesmo podada pela vida ainda demonstra diversas aptidões artísticas.

O terceiro ato se torna repetitivo e a jornada acaba sendo prejudicada, mas nada que tire a importância desse filme, que é um verdadeiro tesouro dentro desse tema que, infelizmente, é pouco abordado no cinema. É uma pena que essa obra tenha percorrido um caminho tão estreito quanto sua personagem principal nas poucas exibições em festivais, pois a importância temática e performance maravilhosa da Jessica Chastain merecem todas as atenções.

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emersontlima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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