Mulheres da Noite, 1948

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★★★★

Qualquer pessoa com o mínimo de interesse em pesquisar o cinema japonês já ouviu falar, mesmo que brevemente, de Kenji Mizoguchi. Um verdadeiro mestre do drama e lembrado, principalmente, por ser um dos artistas que mais apoiou as mulheres na sua luta por igualdade.

Falar sobre feminismo, dificuldades e preconceitos sobre as mulheres hoje em dia é muito comum, aliás, isso é ótimo. Eu acredito que a única forma de se alcançar a evolução é através do caos, mesmo que ele parta da discussão ou debate. Mas o fato é que discutir o papel e valor da mulher na nossa sociedade, hoje em dia, é muito mais fácil do que na década de 40, com o mundo em plena guerra.

“Mulheres da Noite” é tão ousado como imortal, no que diz respeito ao poder do registro. Funcionando como uma síntese de todo um trabalho de um ícone do cinema japonês, foi lançado em 1948 e aborda as consequências da guerra, sob a perspectiva das mulheres que, perdendo os seus maridos e filhos na guerra, se veem sem saída, e com a iminente desestruturação da família, precisam encontrar abrigo nas ruas, como prostitutas.

A protagonista, Fusako Owada, interpretada por uma das melhores atrizes de todos os tempos, Kinuyo Tanaka – ela, inclusive, trabalhou ao lado de diversos mestres do cinema nipônico – é a perfeita representação da mulher em um momento de total desespero. Não à toa o filme começa acompanhando os personagens em uma cidade destruída e, assim, a destruição adentra cada vez mais, ao longo, na particularidade das personagens, que se desconstroem cada vez mais, se perdem cada vez mais.

A abordagem crível de Kenji Mizoguchi faz jus a grandiosidade do seu nome, de forma elegante e sem exageros, compõe uma rede de observações frias e verdadeiras, primeiramente imparciais até, consecutivamente, gritar para o mundo o seu apoio às mulheres e a falta de atenção da sociedade para com elas. Ele abraça a causa sem em nenhum momento julgar ou se achar superior, pregando a igualdade, é um comunicado simples, real e doloroso de que a humanidade precisa ter mais carinho e atenção com a situação das mulheres, principalmente referente a desigualdade.

O filme começa com uma música densa, demonstrando que o drama será tão pautado na realidade, que ultrapassa o limite para o terror. O cartaz na rua, que será importante para a compreensão da obra como um todo, traz a mensagem: “as mulheres que saírem à noite serão presas”. Contudo, se as primeiras cenas são cruéis, no final atinge o ápice, como se o próprio Japão castigasse as suas habitantes só pelo fato de serem mulheres, isolando-as e exaltando os jovens que perderam a vida na guerra. O cartaz, novamente, aparece e o letreiro é muito mais direto e horrível: “casa da luz: aberto para todas as mulheres desgraçadas”.

Quando é sugerido a prostituição como uma forma de sobrevivência à protagonista, é dito que ela precisaria “enfeitiçar” para conseguir dinheiro. É espantoso que um filme de 1948 tenha tamanha audácia em confundir palavras como forma de explicar uma ideia. Todas as mulheres do longa parecem não possuir uma alma, um rosto, tornando-se um objeto de feitiço, como se fossem as reais vítimas de toda uma transformação social causada, principalmente, por erros superiores.

A sequência final é de uma força inabalável; – mulheres, por favor, assistam esse filme e o use como arma de união, como veículo de grito e hino para a revolução, lembrando que a revolução não começa com a massa e sim com o indivíduo – a protagonista, no terceiro ato, quer se desprender, caminhar diante a liberdade, mas precisa sofrer as consequências, ter uma atitude em um mundo direcionado é como enfrentar o fácil, depois que ela apanha por sua força, é possível ver a sua silhueta através de um vidro, como uma sombra – sua imagem se modifica, se ausenta – é então que o diretor, inteligentemente, foca na imagem de Maria com Jesus em seus braços, como símbolo de bondade e força mas, acima de tudo, mulher, representando não só um ideal como mais uma jornada inteira modificada para se alcançar uma mensagem conservadora e uniforme.

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emersontlima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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