Os senhores que se confundem com a sujeira das ruas

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On The BoweryOn The Bowery, Estados Unidos, 1956. ) Direção: Lionel Rogosin

★★★★★

Esse filme é, provavelmente, um dos mais avassaladores da década de 50. Muito à frente do seu tempo, lidou com um tema pesadíssimo de uma forma extremamente visceral, com a ajuda de uma fotografia inesquecível e direção impecável.

A influência que “On The Bowery” exerceu na história do cinema é gigantesca, a começar pelos próprios documentaristas da época que se apropriaram da mesma linguagem para construir os seus registros. John Cassavetes, um dos maiores nomes do circuito independente norte-americano, disse uma vez que Rogosin era “provavelmente o maior documentarista que existia”.

Outro influenciado pela obra é Paul Thomas Anderson, principalmente para a composição do filme “The Master“. O diretor pediu para Joaquin Phoenix assistir esse documentário e o ator, por sua vez, mencionou o filme como a essência do personagem Freddie Quell. Peguem a obscuridade abordada na obra de PTA, a bebida como forma de degradação humana e perca da razão, o ser sem lugar no mundo e, enfim, teremos a alma de respectivos filmes, tanto “On The Bowery” como “The Master” repercutem a mesma ideia, de formas diferentes e tão importantes quanto, a principal diferença é que o primeiro foi esquecido pelo tempo, sendo restaurado recentemente.

“On The Bowery” se passa em três dias, acompanha os senhores da rua Bowery. A ótica do diretor permanece sobre as suas vidas movida pela desesperança, frutos da crise, e moradores de lugar nenhum. Os personagens registrados deitam nas ruas, confundem-se com a sua sujeira e os únicos sentidos que encontram são a bebida e os bares, cercados de cigarros e sorrisos, no mesmo tempo que o álcool cria um elo com a felicidade, aprisiona-os na ilusão.

O documentário é uma mistura de ficção e realidade, mentira e verdade se relacionam da forma mais impactante que existe. A história inicia-se com a chegada de Ray Salyer na cidade, depois percorre à sua tristeza e existencialismo regrado a álcool e cigarro. A câmera estática é uma intrusa nas conversas, muitas delas referentes à possíveis empregos invisíveis, os senhores dialogam na esperança de esquecer que, à noite, terão que dormir no chão.

As cenas são maravilhosamente bem fotografadas por Dick Bagley, tanto que começamos o longa com imagens de senhores dormindo em papelões espalhados pelo chão, homens “presos” em valas, bêbados caminhando como se o mundo fosse um palco onde o maior espetáculo é a solidão. A fotografia pressiona o espectador, provoca sentimentos, o preto e branco transmite melancolia em cada segundo, há diversos momentos que os personagens são filmados entre grades, sugerindo o aprisionamento daqueles seres sem alma, sem dignidade.

A cena mais impactante é quando o protagonista(?) – Ray Salyer, em teoria, é o protagonista, mas a rua e as vidas o consome constantemente e o protagonismo se perde – entra em um abrigo para pegar comida e dormir, enquanto ouve as regras que dizem que na primeira noite, o cidadão deve dormir no chão. O prazo para ficar nesse local é de uma semana, no intuito de que nesse período os homens possam conseguir um emprego, mas é evidente que não existe emprego, não existe dinheiro, não existe existência. Os senhores, todos cordiais e unidos, se arrastam juntos à caminho do vício e da enganação.

Um velho afirma que não se pode vencer todo dia, essa é a síntese do documentário, vemos três dias de derrota. Alguns buscam conforto em deus, no mesmo tempo que, em off, ouvimos um homem dizendo em seu depoimento que perdeu a fé há 24 anos.

A mensagem final é para destruir, no mesmo tempo que cria a expectativa de fuga, há uma frase de um personagem que sugere “a volta”. Como um círculo, pessoas trabalhando os seus próprios conceitos de solidão, vítimas da sociedade, do poder e do vício. Uma hora de duração; uma hora de realidade em forma de arte.

Ray Salyer, o personagem principal, recebeu um convite para trabalhar em Hollywood após fazer o documentário. Mas ele recusou, continuou vivendo em Bowery, na sua maldição e benção. A fuga espera pela volta ansiosamente e o homem se embriaga para esquecer a sua própria fraqueza.

emersontlima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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