O velho que carregava o seu tempo nos ombros

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Filhos da Natureza Börn náttúrunnar, Islândia, 1991. ) Direção: Friðrik Þór Friðriksson

★★★★

A Islândia é, hoje, um palco importante para o cinema. Seja com as suas produções – geralmente são exibidos em festivais alternativos pelo mundo – mas também pelo fato do custo de produção ser reduzido, portanto muitos filmes norte-americanos são rodados por lá, aproveitando-se da paisagem maravilhosa unido com a facilidade de filmagem.

O filme mais conhecido do país é, sem dúvida, um chamado “Hrafninn Flýgur” (1985 ), que aborda os Vikings. Mas o mundo cinematográfico só conheceu a Islândia  em 1992, isso por causa de uma indicação ao Oscar para o pequeno, mais profundo e importante, “Filhos da Natureza”.

O filme é dirigido pelo grande Friðrik Þór Friðriksson – um dos diretores mais cultuados no país e que ainda continua trabalhando – e lida com a velhice de forma singular, com o auxílio de excelentes atuações, paisagem devastadora e silêncio perturbador.

Um senhor chamado Thorgeir deixa a sua casa no campo e vai visitar a sua família na cidade. Ele se sente sufocado com a artificialidade, bem como percebe que a sua presença incomoda a todos. Ele se muda para um asilo e, mesmo com a companhia de alguns novos amigos, vive insatisfeito com a sua condição e foge com uma senhora chamada Stella a caminho de um lugar nenhum, redescobrindo silenciosamente o sentido da vida.

Interpretado por Gísli Halldórsson com uma carga emocional muito grande, a sensação de aprisionamento do protagonista é transmitida através dos passos lentos, envoltos de uma paisagem assustadoramente linda que, praticamente, esconde o personagem.

No início do filme temos planos médios, para ressaltar essa jornada solitária, o uso da trilha também se faz presente e dá um tom de grandiosidade para um movimento bem simples.

Chegando no apartamento dos filhos, percebemos que Gísli Halldórsson carrega uma série de objetos que o identificam de alguma forma, mas nenhuma delas é tão evidente quanto um relógio de parede enorme, como se representasse sua vida ou maldição, que carrega constantemente, como uma prova da sua humanidade.

O senhor se sente desconectado da realidade, perde-se em meio a sua família descaracterizada, – para reforçar isso, todos os personagens da casa são filmados de forma diferente do protagonista, como se não tivessem rostos ou relevância em tela – inclusive, ao ouvir um som alto, o protagonista corre até o rádio desligar, como se não aceitasse a modernidade ou estilo de vida da família e sua alienação.

Sempre senti essa aflição sobre o envelhecimento só, e a solidão, nesse caso, é mais uma prova da angústia de ver o tempo passar, as transformações sociais acontecerem, o jovem mudar e, na cabeça do idoso, ainda existir outros mundos do passado, então como adaptar as lembranças do ontem com a estranheza do hoje?

Essa ideia é refletida através do silêncio de Gísli Halldórsson. O seu caminhar lento e desajeitado, suas expressões cansadas e, mesmo assim, doces, suas atitudes simples como sentar em um balanço, no parque, e admirar ( ou temer ) os prédios e a cidade. O conceito de lar é desconstruído, pois o idoso parece não pertencer à lugar nenhum, não ser filho de ninguém, senão, da natureza.

Quando a idade chega, parece que o homem se desamarra da sua inerência ao corpo e fica livre, como um filho abastado de conhecimento, ser ambulante da vida e observador dos erros; parece que se transforma em obra de arte do universo.

Lugar central não é onde a pessoa está?”

O parceiro de quarto do protagonista o recebe com a frase feliz e esperançosa: “saudações ao eterno jovem”, enquanto percebemos um quarto sem vida, escuro, que se resume, infelizmente, em um depósito de velho. Esse abandono é quebrado, outra vez, com as flores que esse senhor recebe da sua “família”, ele pede para o protagonista cheira-las e os dois vivenciam esse momento, essa esperança, juntos.

E assim todos os significados vão sendo passados através da sutileza, como o processo de envelhecer mesmo, existe uma sincronia entre o início do filme e o desenvolvimento, os passos lentos representam a própria experiência do espectador; a paisagem, muito bem utilizada, poderia ser a beleza de uma história não contada.

“Filhos da Natureza” é uma obra-prima esquecida pelo tempo, aclamada por alguns e feliz na sua abordagem realista sobre o processo inquietante do passar das horas. Através do road movie, temos a oportunidade de relembrar o quanto a existência é complexa e que, em determinados momentos, entra em comunhão com o vento, transformando-nos em parte do todo, guiando-nos à todos os lugares, para que possamos sentir todas as histórias e amar todos os amores.

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emersontlima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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