O processo solitário de se perder

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A Influência La Influencia, Espanha, 2007.  ) Direção: Pedro Aguilera

★★★

A depressão é a doença que mais isola o ser da sua capacidade de sorrir, o faz de forma silenciosa, distanciando aos poucos o indivíduo do resto do mundo, dos olhares e gestos. O toque não satisfaz, o amor é uma sombra ou uma vergonha e o acordar é um pesadelo.

Dirigido pelo Pedro Aguilera com uma frieza assustadora, “A Influência” segue o padrão Michael Haneke, onde o estilo documental registra a dor, isolamento e tristeza de um personagem, grupo ou família. A história acompanha uma mulher que sobrevive as custas de sua loja, cuidando dos seus dois filhos, uma adolescente e uma criança. Mas ela vê sua vida desmoronar quando não consegue clientes por conta de uma crise no país, gradativamente percorreremos a transformação da personagem em rumo à depressão e desistência da vida, contrastando com a vitalidade dos filhos.

Somos apresentados à protagonista e ela está de costas, como se fosse a perfeita representação da sociedade para com a personagem. Vemos a sua loja, extremamente vazia e desorganizada, no mesmo tempo que a trilha sonora traz uma música confortável e passos são mostrados de pessoas transitando pelas ruas. Essas pessoas, possíveis clientes, não percebem a loja, ignoram o azul de suas paredes que remetem diretamente à melancolia.

O azul envolve cada segundo do filme, as cenas se pautam na cor para promover um estado de espírito, como se percebêssemos as cenas através do olhar da protagonista. O azul está na fotografia, nas paredes, no gorro do seu filho, no brinquedo que compra na loja, enfim, a alegoria da repetição é clara e se torna constante à medida que a personagem se esvai em meio à tristeza e caos psicológico.

A paleta de cores do figdiminuídaurino da protagonista só atinge a vividez quando ela está na loja. Ela começa vestindo vermelho, depois amarelo e, na última vez que entra no local, está com uma blusa amarela, desgastada, sem cor. A loja significa a última esperança que, pouco a pouco, vai sendo diminuída, como uma transição de sentimentos representados pela cor que, nessa obra, está tão presente que chega a ser onírico.

Claudia Bertorelli interpreta sua personagem com muita entrega, inclusive a mãe não tem nome, tornando-se símbolo da transformação e tristeza, um andarilho através da depressão. Os filhos, por sua vez, estabelecem o contraponto, preenchem as cenas com equilíbrio e demonstram insatisfação pela condição conturbada da mãe, no mesmo tempo que caminham em direção ao desprendimento e crescimento. Não à toa temos uma cena em que um pequeno menino pinta a sua parede azul com as tintas que ainda lhe restam e a sua irmã, ao invés de repreendê-lo, incentiva-o e ajuda a colar pedaços de uma revista no colorido da parede. Costurando um ser humano fragmentado através das suas imagens despedaçadas.

Ao final de “A Influência” a sensação é de dor e, mesmo com as repetições e ritmo que, por vezes, incomodam, a mensagem que a obra deixa é que o processo de se perder deve ser diferente para cada um e, portanto, não cabe julgamentos. Basta seguir em frente e estar presente, estar entregue.

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emersontlima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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