A insatisfação do “aqui” e o vazio do crescimento

Little Birds, 2011

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★★★★

Há anos venho afirmando o meu fascínio por filmes que abordam temas relacionados com o jovem. São inúmeros grandes exemplos, que certamente acrescentam muito nesse nobre e difícil objetivo, afinal, o jovem é movido por incertezas e impulsos aparentemente irresponsáveis, registrar de forma coerente essa instabilidade é para poucos.

“Little Birds” é mais um bom representante de filme indie, do tipo que se utiliza da delicadeza para desenvolver uma história pesada e, nesse caso em específico, trabalha com perfeição a instabilidade do jovem, citada acima. É de se espantar que seja dirigido por um “novato” chamado Elgin James.

A história é sobre duas amigas chamadas Lily e Alison que moram em Salton Sea, Califórnia. As duas têm quinze anos e, no auge da perfeita divisão entre a liberdade, conhecimento e responsabilidade, enfrentam problemas próprios da idade, como namoros, isolamento, relacionamento conturbado com a família etc. Principalmente Lily – vivida pela excelente Juno Temple – que se corta e parece sempre querer provar o quanto não pertence ao lugar que vive e, na primeira oportunidade, decide fugir na sua terra natal, convidando a sua melhor amiga a entrar nessa aventura cheia de riscos e incertezas.

Os filmes de road movies são conhecidos por sempre apresentarem evoluções nítidas nos personagens, talvez seja o maior representante dessa postura de observação, caminho e conclusão, sendo uma metáfora até mesmo para o próprio roteiro; nesse filme de 2011 não é diferente, enquanto filme de estrada não apresenta nada novo, mas quando o relacionamos com a importância em se discutir os sentimentos do jovem, ai ele atinge um nível muito elevado, fugindo do contexto da própria evolução e concentra-se em um “ensaio de erros”, onde a conclusão se transforma em algo pouco previsível.

A personagem Lily tem uma fragilidade absurda, no mesmo tempo que a sua impulsividade pode ser interpretada como ignorância, é nítido que ela é vítima de um sentimento muito grande de falta de propósito. A atriz Juno Temple – que escolhe muito bem os papeis que faz – se conecta perfeitamente com a trama pois fisicamente ela preenche muitas lacunas da personagem, no mesmo tempo consegue dar ainda mais qualidade com pequenos olhares e gestos que reforçam a inocência de Lily.

Como o outro lado da moeda, mesmo que ainda estejamos falando sobre jovem, temos a Alison, vivida pela Kay Panabaker, ela se mostra sempre muito madura, repleta de informações sobre coisas aparentemente banais para a sua idade. Parece que está muito satisfeita com a sua condição e destino.

A fotografia, por vezes pendendo para o amarelo, dá um tom confortante no começo, porém vai ficando mais obscura com o passar do tempo. Principalmente com as mudanças de cenários, como se ambas meninas estivessem passando por um ritual cujo objetivo é ilustrar como o mundo é malvado e podre. Essa transformação na fotografia/cenários é a perfeita demonstração do crescimento e conhecimento.

O fato de ser duas meninas é muito interessante pois remete diretamente ao clássico “Thelma & Louise”, inclusive tem uma referência clara a esse filme. Apesar da mudança drástica dos primeiros trinta minutos para o restante, tudo é feito de forma muito consciente, a densidade é revelada na medida certa e em nenhum momento o filme se torna cansativo.

O drama familiar é pouco desenvolvido, mas por outro lado seria um erro procurar explicações no vazio das sensações da protagonista, mesmo assim é importante os pequenos momentos onde fica claro o seu estado emocional desestruturado, como por exemplo o corte que a menina faz em sua própria perna.

Por fim, “Little Birds” é excelente e, assim como o seu título, transmite uma energia de liberdade muito grande, no mesmo tempo que alerta, tudo isso sem ser didático. É um verdadeiro ensaio de atitudes inexplicáveis, senão, pela própria vontade. Quando Alison questiona a sua amiga sobre o porquê da fuga, ela pergunta: “O que tem tão bom lá?“, enquanto Lily responde, simplesmente: “Não é aqui“. E isso, sem dúvida, responde tudo e nada ao mesmo tempo, assim como o processo de se tornar adulto.

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emersontlima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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