A poesia de ser mulher

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Antes de mais nada, quero compartilhar algo muito emocionante para mim: após mandar duas críticas/textos/desabafos para a página oficial da Petra Costa no Facebook, minhas duas análises sobre os seus filmes anteriores foram publicados no site oficial do filme Elena

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Você pode ler minhas críticas sobre os filmes anteriores da diretora: “Olhos de Ressaca” e “Elena“.

Olmo e a Gaivota, 2015

Quantas histórias esse mundo já contou? quantas possibilidades de identificação e quantas frases bem elaboradas. A palavra e a escrita é uma forma real que o homem encontrou, desde o princípio, para enfrentar a sua própria pequenice. Mas, faça esse exercício, quantas dessas milhares de obras exploram a mulher? quais grandes obras falam sobre a gravidez?

Quantas mulheres escreveram e, em algum momento da vida, enfrentaram diversos problemas por serem, como diz mesmo, “mulher”?

“Mulher”. Essa palavra é tão forte, esteve tão presente e, ao mesmo tempo, tão distante que me sinto um monstro, me sinto sujo e incoerente. Na palavra “mulher” não existe plural, pelo menos não nessa análise, pois todas brigam, mesmo que indiretamente, pela mesma causa. Somos “um” na teoria, mas, em sociedade, em conjunto, somos divididos: homens e mulheres; poder e submissão; subversão e regra; pênis e vagina; mundo e casa; desespero e mãe.

Esse devaneio é resultado do trabalho minucioso de uma diretora – aqui, duas, visto que Petra Costa co-dirige “Olmo e a Gaivota” com a dinamarquesa  Lea Glob – que dialoga, com extrema totalidade, com o universo feminino. Esse universo não precisa ser engrandecido, muito menos colocado acima dos outros infinitos, porém, é preciso, somente, falar sobre, tentar entender suas nuances e os seus intervalos.

“Olmo e a Gaivota” percorre a história de dois atores, unidos pelo amor e pela arte, transitando por entre o documentário e a ficção – existe separação entre eles? – que, de repente, descobrem a gravidez. A perplexidade toma conta dos pais, a preocupação, bem como o amor que, de mansinho, vai caminhando por outros lados, de outras formas, como se estivesse constantemente se preparando. A sensação que beira o êxtase, do processo de criar, assim como um deus, dá lugar à insegurança, medo e tristeza. Existe uma vida lá fora, existe um trabalho – afinal, o teatro é uma incontável criação de vidas e histórias – e a mãe, cuja responsabilidade/benção/maldição carrega no ventre, se vê sozinha.

Serge: – A minha presente realidade é diferente da sua.
Olivia: – Minha presente realidade também é a sua. Mas sou eu quem a carrega.

A atriz, acostumada com as luzes do palco, precisa acostumar-se, forçadamente, com a quietude de um apartamento. Onde estaria, então, o seu marido/futuro pai? esse se preocupa, apenas, em sustentar o futuro e, consecutivamente, o seu ego. Ele vive a rua. Deixa em casa uma Rapunzel, presa em uma torre no meio urbano, acompanhada dos seus demônios… uma Rapunzel sem as tranças, sem esperanças.

“Olmo e a Gaivota” é uma inconstância, tudo que se sabe e se acha é a mulher. A mídia trabalha o amor com uma imaginação ingênua; trabalha a gravidez com uma segurança devastadora mas, todos sabemos, é um assunto cercado de questionamentos. Nenhuma mãe se sente totalmente segura desde o início, nenhuma mulher precisa ser forte o tempo todo; mas eles empurram essa ideia, com correntes e sangue: a mulher precisa estar feliz por estar grávida, não pode ter dúvidas e, qualquer problema, há de arcar com a responsabilidade, afinal, foi a sua escolha.

O filme não fala nada diretamente, não julga, muito menos grita à favor do aborto, como muitos dizem, simplesmente analisa a mulher, a gravidez e todas as suas vírgulas. Nunca foi feito algo assim, principalmente com essa narrativa que se assemelha muito com o melhor do cinema iraniano.

Grande parcela da população não está interessada em discutir temas polêmicos com a arte. A maioria prefere apontar o dedo e selecionar o que é certo e o que não é – em base ao seu conservadorismo. As pessoas iludem outras com falsas chamadas de sabedoria, e dizem que analisar com calma, individualmente, não é necessário. Que priorizar os sentimentos é uma forma de alienação.

O mundo nunca pôde ser dividido em dois lados, pelo menos a arte dá a possibilidade de trabalhar uma série de camadas, por isso, é a demonstração perfeita de poder e manipulação da vida, seja aqueles que fazem ou que sentem.

A “mulher” têm crises e histórias, elas escrevem as suas todos os dias assim como qualquer um, então porque as limitações? somos donos do nosso corpo, no entanto, em massa, criamos uma série de dilemas para a manipulação. Criar uma vida dentro de si é uma escolha artística, um sentimento profundo de auto-compreensão, uma atitude que parte do equilíbrio, do melhor momento; ser mãe é, antes de mais nada, aceitar-se como mãe.

O lado positivo de “Olmo e a Gaivota” é a pronuncia, a coragem para se discutir o início da vida, humanizando esse processo seja qual for a consequência. Histórias felizes e tristes acontecem o tempo todo, mas a nossa arrogância nos tira a possibilidade de empatia. O filme estabelece essa conexão: tema, indivíduo, arte, mulher e Petra Costa, talvez Elena. O trabalho da diretora é transcender à liberdade, fazer pensar com a poesia e mergulhar no existencialismo.

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emersontlima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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