Sing Street – entre a descoberta do amor e uma nota musical

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A vida é cheia de alegrias, decepções, reflexões… enfim, um eterno dilema. Complicamos demais as coisas, demoramos demais, quando se possui pouco tempo. Eu cresci, mas ainda me lembro daquele Emerson que deixei em um passado recente, extremamente ansioso, que matava dias de aulas para ficar na rua, conversando, brincando e vivendo.

Eu cresci com a música, o rock’n’roll funcionou como um símbolo de coragem na minha vida, ousei ser eterno através da rebeldia e, como consequência, acredito que a revolta é a única maneira de se conquistar uma evolução, seja pessoal ou social. Uma mudança depende do caos, por isso somos perigosos e frágeis: a linha que separa o homem da sua sanidade e total loucura é muito tênue.

Já ousei fazer, experimentar a vida e os seus prazeres, no mesmo tempo que crescia sendo treinado a ser apático, me envolvi com os sentimentos. Utilizava as palavras para contornar uma dor profunda, queria fugir e pensei em fazê-lo por diversas vezes, o que sempre me impedia era a coragem dos meus ídolos. A arte me deu tudo, mas me tirou tudo por enxergar algo grande demais, tendo conquistado pouco demais.

E, então, me pego pensando, vez ou outra, que me tornei um pouco aquilo que odiava. Mas de todas as dúvidas que me cercam, talvez, a que mais me dói é a pergunta: “por que escrevo?” Então o Emerson dentro do Emerson que está dentro do Emerson responde: “por que essa é a sua maldição“.

Lembro-me que morava em uma cidade e estudava em outra; nesse trajeto escutava todos os álbuns possíveis do Johnny Cash, então eu via na sua imagem, voz e no seu comportamento rebelde, uma porta para a identificação. A música funcionou para mim como uma ilusão, contextualizando-me na simplicidade de que as coisas são. Por algum motivo sempre rejeitei essa hipótese, criava muito em cima de pouco e transformava o simples em algo impenetrável, descomedido.

Se eu posso citar algo terrível de mim, é justamente a minha mania de ser, sentir, fazer e observar o meu redor de maneira muito intensa. Mas volto a pergunta: por que estou escrevendo tudo isso para abordar, a seguir, um filme? Talvez não aja explicação, mas sigo buscando de todas as formas me encontrar em cada palavra, em cada filme e em cada música. Como uma forma de enxergar algo que, no momento, não alcanço, conhecer um lugar improvável, amores e momentos.

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Eu poderia ser tradicional e classificar “Sing Street” como um filme excelente, com uma direção segura – por conta da maravilhosa utilização das músicas, de forma a obrigar ao roteiro uma evolução a cada minuto – mas não estou seguro de que seja isso que o diretor John Carney queria que avaliássemos com a sua mais recente obra. Não! Fico pensando que ele é como eu, um menino que cresceu ouvido música dos anos 80 e sem medo de se propagar como um apaixonado, portanto, peço licença pois sei que a sua intenção é fazer-nos enxergar as possibilidades da nossa vida, através da inocência de uma banda jovem, uma musa inspiradora, um líder apelidado, pelo seu amor, de “cosmo” e um irmão mais velho que, assim como eu, tentou de todas maneiras mas cansou, então dedica-se em observar e compartilhar.

O protagonista, Connor, pensa em montar uma banda para conquistar uma menina. Com o passar do tempo ela lhe sugere o nome artístico “Cosmo”, ou seja, o universo em sua totalidade.

Connor começa o filme cantando e, ao ouvir a discussão dos seus pais, mescla a letra da canção com o que ele ouve dos dois adultos. Depois a sua vida começa a ser inundada por regras e, só então, a partir de um romance platônico, ele resolve enfrentar a revolução e mudar. Influências musicais são constantes, para os amantes da boa música, o filme é um deleite. Parece que a própria montagem se intercala com as canções e citações, no mesmo tempo que a recriação dos anos 80 é simplesmente fantástica, dialogando com a nostalgia, podemos classificar “Sing Street” como um milagre audiovisual que têm, como maior pretensão, provocar o espectador com a sua despreocupação.

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O irmão Brendan – interpretado brilhantemente pelo Jack Reynor – é o personagem que mais me chama a atenção, pois ele transita por entre o passado, presente e futuro, é o motivo do meu desabafo no início desse artigo. Me identifico com ele, abro o meu coração, pois tenho uma irmã menor e nossa relação também é construída através da arte, sinceridade e despretensiosidade.

Em uma cena de confissão, Connor desabafa para o seu irmão sobre o seu interesse romântico. Ele afirma, docemente, que “às vezes gostaria de olhar para ela e chorar“. É de uma preciosidade quando um artista consegue, em uma frase, captar a tal da ansiedade proposta acima, consegue captar tamanha verdade a ponto de assustar.

Então, quando me pergunto por que escrevo, sempre me surgem oportunidades como essa, em que eu posso relembrar o quanto é importante, para mim, a arte e como me sinto completo estende-la.

Com carinho,
Emerson T.

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No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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