A Frente Fria Que a Chuva Traz, 2016

Obs: Hoje, dia 31/07/2016, alteramos a imagem do cabeçalho aqui do Cronologia do Acaso e colocamos o desenho criado pela artista Julia de Andrade. A ideia é fazer uma referência ao filme “Magnólia”, do Paul Thomas Anderson. Agradecemos a Julia, em especial, e recomendamos aos leitores que visitem o seu site para conhecerem o seu trabalho.

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★★★★

A beleza da Bruna Linzmeyer transcende o natural, sua aparência chama a atenção e o diretor Neville de Almeida usa isso à favor da sua mais recente obra. O diretor sempre soube trabalhar as relações de forma, no mínimo, curiosa, e agora, depois de tempos sem um trabalho de grande expressão, ele se mostra muito inteirado na vida dos jovens – interessante que o filme trabalha com a hipótese dos jovens terem se habituado a permanecer em um nível inferior, principalmente no que diz respeito ao objetivo.

O filme segue alguns jovens em um dia, onde no final da noite, eles farão uma festa em uma das favelas do Rio de Janeiro. Cercados de drogas, bebidas, funk e sexo, a obra levanta algumas reflexões sobre essa forma de vida, principalmente de menininhos e menininhas ricas, através de uma personagem complexa chamada: Amsterdã. Ela se prostitui para alimentar o seu vício em heroína e mantém uma amizade com esses jovens, completamente diferentes, apenas para conseguir bebidas, baseados e cigarros.

Há um preconceito gigante, hoje mais do que nunca, com os filmes nacionais. Na verdade isso não passa de uma ignorância pois o nosso cinema é maravilhoso, basta pesquisar um pouco e encontrar diretores fantásticos e artistas talentosíssimos. Infelizmente sempre estaremos cercados de visões conservadoras que, inclusive, relacionam o cinema nacional com a nudez e sexo.

O cinema Sueco foi considerado libertino nas décadas de 50/60/70 e ainda assim é um dos melhores do mundo. Trabalhar a sexualidade e o sexo não é um crime, e escrevo isso porque “A Frente Fria Que a Chuva Traz” traz, em seu vasto conteúdo, extensos diálogos e gestos que sugerem o ato sexual, mas todos eles compõem a intenção de desconstruir a vida dos jovens repleta de vazios e alegrias passageiras preenchidas ignorantemente pelo prazer, seja sexual ou as drogas.

Na vida há, sim, coisas maravilhosas, muitas das quais são consideradas proibidas e/ou tabus, mas a degradação humana está mais vinculada a forma como é feita a nossa transição do que propriamente os erros. Quase todas as personagens nesse filme são despreocupadas, mimadas e sem objetivos, só o fato de ter dinheiro as tiram da responsabilidade de viver, elas se arrastam atrás de pequenos momentos. Por outro lado, em um país de terceiro mundo, quem tem dinheiro são os que continuarão comandando e, sob essa perspectiva, nossa liderança não vai nada bem.

Logo nas cenas iniciais é possível perceber que na laje, onde acontecerá a festa, está repleta de bolinhas, daquelas que vemos em shoppings, todas coloridas, isso remete a infantilidade. Os que se acham “adultos”, não passam de crianças isolada em um mundo de faz de conta, onde a felicidade pode ser comprada. No mesmo tempo que o jovem domina, ele é constantemente dominado.

Outra coisa interessante é que o segurança ( um homem adulto ) que foi pago por um dos jovens ( criança ) é chamado duas vezes ao longo do filme de “ninguém”, enfatizando e generalizando os adultos como seres monstruosos e sem forma, sem riso e disposição para a boemia.

Mas é na analise humana que o filme se sai maravilhosamente bem, Bruna Linzmeyer dá a sua Amsterdã uma intensidade muito grande, utilizando a beleza exótica ao seu favor. A atriz emagreceu para viver a sua personagem e, se não bastasse, a maquiagem sempre borrada e o olhar perdido demonstram uma perfeita sintonia entre o desequilíbrio, loucura e o medo.

Linzmeyer se mostra um verdadeiro talento e, se no ano passado fez o terrível “O Amuleto”, agora consegue demonstrar que, além de diferenciada, é perfeita para papeis intensos. A sua personagem é aqueles “papeis brindes” que todo ator quer ganhar, é de se impressionar que ela o tenha conseguido tão jovem e, mais ainda, feito jus a complexidade do papel.

Qualquer chuva trás consigo uma mudança. “A Frente Fria Que a Chuva Traz” é uma discussão e reflexão de dois mundos, o da inconsequência e da realidade, elementos que serão representados da forma mais improvável em cenas de festas, beijos e sexo. Se o Harmony Korine fez algo parecido com “Spring Breakers”, podemos então colocar o filme do Neville de Almeida do mesmo nível e tão importante quanto.

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emersontlima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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