Nada Pessoal, 2009 – O caminho do silêncio e solidão

Nothing Personal

★★★★

A diretora polonesa Urszula Antoniak não tem um trabalho fácil. Essa dificuldade diz respeito à maneira brusca que a realizadora desenvolve os seus personagens, sempre de modo a exaltar algum tipo de falha. Essa metáfora pode ser melhor percebida nas conclusões de suas obras, como se os movimentos silenciosos das personagens fossem, na verdade, todos em direção a um mesmo fim trágico, um mártires.

Em “Code Blue”, de 2011, a diretora parece querer brincar, por vezes, de ser Haneke e consegue tão bem quanto. Já em “Nada Pessoal”, um dos seus primeiros trabalhos mais conhecidos, ela opta por ser feminista ao extremo e, ainda assim, provocar o espectador com uma infinidade de silêncios e uma personagem que está completamente livre, até mesmo para se contradizer.

O filme holandês conta a história de uma jovem, Anne – contudo nunca há destaque para o nome da garota, como se a sua identidade fosse uma maldição e inútil – que após uma separação, decide cair na estrada atrás de reflexão e silêncio.

Esse é o típico filme que amantes da cultura hippie amam. Pois apresenta uma mulher, solitária, caminhando por ruas maravilhosas e se confundindo por diversas vezes com a paisagem maravilhosa, como se ela própria fosse a natureza. O filme começa dessa forma, ressaltando o meio e lidando com a protagonista de forma curiosa, as filmagens, por diversas vezes acompanhando a personagem caminhando, dá a sensação de que ela deixa algo de si para trás a cada trecho andado.

No mesmo tempo que há uma clara alusão a mesclagem do indivíduo com o redor que o envolve, nos primeiros minutos ainda temos uma lembrança de que o mundo é hostil – em uma cena onde Anne pega uma carona em um caminhão e se sente pressionada a fazer sexo com o motorista em troca de ajuda, a garota pula do caminhão e continua a andar, como se nada tivesse acontecido.

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A solidão e isolamento sempre nos trás a ideia de fragilidade. Quando Anne está pegando uma comida do lixo, ainda em constante silêncio, uma família comendo sanduíches ao lado pergunta para a moça se ela precisa de ajuda, sem entender ela responde que não e ainda retribui a mesma pergunta. Como se para ela o fato de estar na rua fosse normal e não a inferiorizasse de forma alguma, ela pode ajudar tanto quanto poderia ser ajudada, pois tem a mesma força, apesar de não ter um lar.

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A fotografia dá um tom elegante para a trama, pois se conecta com perfeição com os objetivos da diretora que, por sua vez, consegue extrair o máximo da atriz Lotte Verbeek. É questão de tempo perceber que em diversas cenas a personagem aparece centralizada no quadro, desde quando está olhando um lugar fantástico até sentada em um banco, encostada na parede. O espectador não sabe ao certo os seus motivos, mas entende perfeitamente que o mundo é o seu palco, mesmo que ela própria ainda desconheça as suas reais intenções.

O maior mérito do longa é lidar com uma personagem sem objetivos, senão, se perder. Teremos então uma série de referências, como por exemplo a música. Em dado momento crucial, a personagem ouve Patsy Cline, ao som de “Crazy”. Ficando óbvio esse mergulho no isolamento, mas é evidente que se perder dessa forma, nos dias atuais, é loucura. Até porque somos dependentes das relações humanas e não à toa entra um segundo personagem que lhe dará abrigo: Martin. Interpretado por Stephen Rea, Martin mora em uma casa escondida no meio do nada e se sente atraído, de imediato, por Anne, e oferece a menina uma oportunidade de emprego na sua casa em troca de comida.

No começo, ela tenta resistir as emoções, mas é questão de tempo para se deixar levar, indo de desencontro com o que estava deixando para trás e vivendo com um parceiro – apesar de que qualquer interesse romântico ou sexual é deixado nas entrelinhas, com exceção de um momento que ela se despe e Martin fala que não quer nada e complementa brilhantemente: “O talento é saber quando parar” – fazendo uma referência à própria Anne, que parece aceitar que precisa parar de andar e se estabelecer em um lugar novamente, como uma segunda chance.

A conclusão do filme chama a atenção e trás consigo uma cena maravilhosa, que inclusive virou a capa da obra. A fotografia clara remete a ideia de paraíso, quando a protagonista aceita que precisa parar de tentar lutar contra os sentimentos e, no mesmo tempo, se recusa a aceitar que a perda é algo comum.

É uma obra de ritmo diferente mas que é perfeito em desmistificar alguns símbolos sobre a solidão, relação e silêncio.

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emersontlima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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