Diário De Um Exorcista, 2016

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★★

Dois jovens diretores vão até a casa de um famoso exorcista, chamado padre Lucas Vidal, afim de fazer uma entrevista sobre a sua história e casos de exorcismos. Os garotos afirmam timidamente que “pretendem fazer um filme diferente“. Claro que, após essa afirmação, é possível entender os dois jovens cineastas como alter egos dos diretores Renato Siqueira e Ruben Espinoza. Um começo digno de suspense, pois a divulgação do filme é muito sustentada na ideia de que se trata de relatos verdadeiros, onde o Renato e Ruben, inclusive, chegaram a presenciar rituais de exorcismos.

O Brasil, apesar de ser um país extremamente religioso, nunca desenvolveu muitos filmes que abordam o sobrenatural, muito menos de exorcismos. Só me lembro do “Exorcismo Negro” de 1974 – que inclusive se aproveitou bastante da popularidade do “O Exorcista” – e, no que tange exorcismos, parou por ai. Claro, existem obras nacionais que incluem diversos elementos, incluindo a possessão, é o caso do curta-metragem “Amor só de Mãe”.

Fica evidente que a ousadia em se trabalhar o tema é deveras importante para o nosso cinema, é um trabalho independente que merece aplausos pela dedicação. Além do mais, toda a produção é muito bem feita, o maior problema é que a realização é maior do que o roteiro do filme.
Retomando a frase dos jovens diretores entrevistando o padre logo no início: se os realizadores levam a sério o seu trabalho, deveriam ter mais cuidado com o desenvolvimento da história. Principalmente decidindo, logo no início, entre o “terror” e o “terrir”. O terror deve ser pautado na realidade, não dá para confiar exclusivamente na frase “baseado em fatos reais”, nos créditos iniciais, como forma de provocar a empatia do espectador, é preciso lidar com a sugestão, revelar os “monstros” com calma, e aqui é feito o contrário, tem demônio possuindo alguém em espaços muito curtos de tempo. Isso acaba tirando a nossa concentração e, principalmente, a seriedade para com a experiência do filme.

“Diário De Um Exorcista” foi criado e aparentemente moldado para ser grande, e de fato é. O uso exagerado dos efeitos especiais, as diversas cenas de exorcismos, tudo poderia se encaixar em uma perfeita obra, mas isso não acontece pois os eventos não partem de uma estrutura coerente. O roteiro direciona o espectador à espera de algo novo, um desenvolvimento exclusivo no que diz respeito ao tema “exorcismos” e, em vinte minutos de filme, faz absolutamente a mesma coisa que todos os outros filmes de terror já fizeram, incluindo ângulos de câmeras, arcos dramáticos, eventos sobrenaturais etc. Então a pergunta é, novidade para quem?

Os efeitos especiais tiram a possibilidade do “acreditar”, talvez a maior função do terror. Apresenta coisas interessantes como o ritual cujo exorcista prega o possuído em uma cruz, mas em nenhum momento explora esse elemento. Aliás, nenhum elemento apresentado é explorado completamente. O suicídio do pai do protagonista, a possessão da irmã – como a irmã do padre Lucas pode estar possuída, todos saberem do fato, menos o irmão?; Como pode o padre Lucas desacreditar tanto, ao saber pela família que a sua irmã está possuída, se ele próprio foi convidado para ser um exorcista? Outra, como pode um dos maiores exorcistas de todos os tempos, pelo menos o filme trabalha com essa ideia, morrer após 10 segundo na frente do suposto “diabo”!?.

É tantos espaços soltos no roteiro que é impossível se orgulhar completamente pela ambição dos diretores, que se perdem em meio a própria tentativa de ser extremamente grandiosos. Talvez se tivessem construídos os personagens pautados na realidade, fosse bem mais atraente ao público. Os efeitos especiais, acabam irritando, nos lembrando que seria possível utilizar uma singela maquiagem, enfim, às vezes o melhor caminho é a simplicidade.

“Diário De Um Exorcista” é uma verdeira decepção, e se esse sentimento existe é porque muitos esperavam uma obra diferenciada. Com duas atuações interessantes – Renato Siqueira dá naturalidade ao seu personagem, muito carinho e demonstra com perfeição a sua fragilidade e Fabio Tomasini explora, nas poucas oportunidades que têm, algumas expressões fortes, sendo inclusive o único personagem que se salva em meio à uma catástrofe – poucos detalhes se sobressaem, se tratando apenas de mais um filme de exorcismos que cairá no esquecimento dentro de alguns anos.

Obs: Renato Siqueira, diretor do filme, mandou uma mensagem via Facebook apontando uma observação: “[…] quem fez a pesquisa não foi o Ruben Espinoza e sim Beto Perocini e Luciano Milici […]”. / Agradeço a observação Renato. Estarei acompanhando os seus próximos trabalhos.

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emersontlima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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