Rapsódia em Agosto, 1991

Rapsódia em Agosto

★★★★

Esse é o penúltimo filme dirigido pelo mestre Akira Kurosawa. Com toda a sua classe e inteligência, conduz uma história emocionante sobre uma idosa que mora em Nagasaki, no Japão, e está cuidando dos seus quatro netos, ela é uma sobrevivente da bomba atômica de 1945 e os seus netos vão, aos poucos, se interessando em descobrir um pouco mais sobre a catástrofe da segunda mundial e, consecutivamente, compreender o passado da sua avó.

O filme é delicado ao extremo, sensível e dinâmico ao apresentar o espectador, primeiramente, à rotina da avó delicada e os seus netos compreensíveis, apesar de serem jovens. Mesmo em uma cena em que eles conversam com a sua avó e desabafam o quanto a comida é ruim, existe um carinho e respeito enorme, que terá uma evolução grande ao longo do filme.

A inserção das lembranças e diálogos sobre os impactos da bomba atômica na cidade e na vida da avó são bem sutis. Alguns momentos, com a ajuda da trilha sonora, são bem emocionantes, pois se trata de um sofrimento real e um dos maiores da história mundial. A vovó Kane representa com perfeição toda a trajetória do Japão, ela mesma afirma, em dado momento, que não sente mais ódio dos Estados Unidos pelo ocorrido, ela passou a entender a guerra como uma verdadeira vilã da humanidade. Para reforçar essa posição, temos o principal mérito do filme: a atuação da Sachiko Murase. Ela é uma atriz histórica do Japão, trabalhou em inúmeros clássicos e faz, aqui, o seu último longa.

Um ponto que eu destaco negativamente do filme é a breve participação do Richard Gere. Em 1991 ele tinha acabado de fazer “Uma Linda Mulher”, a sua fama era enorme e, quando soube da possibilidade de trabalhar com Akira Kurosawa, ele chegou a afirmar que o faria de graça. Contudo o diretor não queria explorar o ator e pagou um modesto cachê. Bem, apesar dessa história curiosa, o personagem de Gere representa os EUA e ele pede perdão no terceiro ato, soando artificial e contrastando com a visceralidade e carinho desenvolvido no começo. A sutilidade dá lugar a precipitação, aliás, é bem estranho ver o galã falando em japonês.

Mesmo com esse problema, o filme consegue ser eficiente e especial em analisar as consequências da guerra, cumplicidade e amor dos irmãos e, principalmente, no desenvolvimento da protagonista. A avó Kane é forte, une muitas histórias e enfrentou muitos medos durante a vida, a cena final, revela uma senhora super debilitada, segurando um guarda chuva com dificuldade em meio à uma tempestade, demonstrando, mais uma vez, que ela fora treinada pela vida para sobreviver em meio ao caos.

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emersontlima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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