Demon, 2016

demon-2015

★★★★

O diretor Marcin Wrona foi encontrado morto em um quarto de hotel pela sua recém-esposa Olga Syzmanska. A causa da morte foi suicídio por enforcamento, o seu terceiro filme “Demon”, uma co-produção polonesa-israelense, era exibido em um festival de cinema. Os produtores do festival deixaram claro os seus sentimentos para toda a família e ainda pediram para o público não especular sobre as possíveis causas da morte, afinal, esse trágico fato despertou um mal estar muito grande, principalmente pelo tema do seu mais recente e, infelizmente, último filme.

O fim trágico do jovem diretor – ele tinha apenas 42 anos – se mistura com a trama do filme e, sem dúvida, desperta muita curiosidade em quem assiste. É inerente a sensação mórbida tanto pela obra em si, que teima constantemente em relacionar-se com uma atmosfera obscura, quanto com a fatalidade dos bastidores. Por diversas vezes me peguei chocado e pensando seriamente que a densidade e a forma que ela é trabalhada no filme, fez jus com o psicológico do diretor no momento em que dirigia.

Saindo do campo da especulação e analisando a obra, temos uma história curiosa: Um homem chamado Pyton volta da Inglaterra para se casar com a sua noiva Zaneta. Dias antes do casamento ele encontra, enterrado, diversos objetos que parecem ser amaldiçoados. Durante o casamento, finalmente, o noivo vai tendo alucinações e tendo mudanças drásticas de comportamento, ele começa a ser possuído por um espírito.

Vale ressaltar, antes de mais nada, que o filme segue preceitos judaicos, em específico uma lenda sobre “dybbuk” que seriam, a grosso modo, almas que fogem do inferno para possuir uma pessoa e, assim, finalizar alguma tarefa que ficou pendente em uma outra vida. Por se tratar de uma perspectiva diferente e uma outra cultura, já nos aproxima bastante da estranheza. A forma que a possessão é desenvolvida se distancia bastante das diversas produções populares que lidam com um demônio, ao mesmo tempo o terror no filme em questão é trabalhado de forma completamente diferente, pautando-se mais nas sensações e densidade do que no medo ou susto, conseguindo ser muito mais eficiente por sinal.

Logo nas primeiras cenas temos contato com a trilha sonora tétrica e ela se estende durante todo o filme, mesmo que apareça em momentos oportunos. Além disso a fotografia amarelada também ajuda a compor o ambiente de forma confusa e isso vai ser ainda mais perceptível durante a festa de casamento. É de se louvar o fato de que tanto a fotografia e trilha estão sempre à favor do seu protagonista, Pyton, interpretado de forma brilhante por Itay Tiran, o ator parece se explorar ao máximo para compor o seu personagem, transitando por entre várias personagens, até culminar em uma mudança total, o uso do corpo e expressões pontuais precisam ser observadas com carinho.

Na cena que ele desenterra alguns objetos na terra é possível perceber que a posição da câmera faz questão de ocultar o protagonista atrás de uma máquina, fotograficamente isso ajuda na ideia de que o personagem está enclausurado ou se afastando aos poucos. Logo em seguida, em uma ilusão, o personagem tem uma alucinação onde é engolido pela terra, demonstrando nesse momento o que viria a sentir durante a festa do casamento.

O casamento, geralmente, representa a transição. É o ritual de união e que simboliza a felicidade, portanto acompanhar o comportamento do noivo é extremamente constrangedor. O espectador tem consciência que algo muito errado está acontecendo e o filme sabe disso e provoca da maneira mais inusitada: com o humor. Através do humor negro, adentramos dois mundos, um é da alegria e organização da festa, a outra é a desordem psicológica do protagonista. É engraçado perceber que o fio condutor dessa ideia passa a ser a noiva que, primeiramente está do lado da felicidade e, quando começa a tomar consciência dos fatos, embarca junto com quem assiste na obscuridade. Além disso, o fato de haver pouco ceticismo no filme proíbe de imaginarmos que se trata de um problema psicológico, mesmo que a própria obra ainda tente colocar a questão sugerindo, também, que o noivo pode ter ficado diferente por alguma droga.

“Demon” se mantém fiel a possessão e trabalha com maturidade, concluindo com perfeição aquilo que planejou desde o início. O terceiro ato perde um pouco de força no que diz respeito à atmosfera, mas isso de forma alguma apaga o seu brilhantismo. O que faz com que lamentemos ainda mais a morte do jovem diretor Marcin Wrona, que prometia bastante. Resta-nos assistir esse filme e agradecer pela ótima obra que ele nos deixou como testamento.

emersontlima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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