Rua Cloverfield, 10

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★★★★

Muito se discute sobre a forma que a indústria cinematográfica desenvolve suas personagens femininas e esse debate, felizmente, vem incentivando transformações interessantes, principalmente no que que diz respeito ao maior número de mulheres protagonistas de histórias. Só o protagonismo não é algo inacreditável, o mais interessante é que surgiram personagens femininas fortes e independentes, principalmente nas animações da Disney/Pixar e nos gêneros de terror e ação.

Alguns exemplos de filmes que poderiam ser utilizados são: “Valente” de ( 2012 ), “Divertida Mente” ( 2015 ) e, mais recentemente, “Zootopia”. Todos eles têm em comum o compromisso de trabalhar suas respectivas protagonistas de forma corajosa, desprendida e inteligente. Em “Valente” fica ainda mais evidente com a quebra da princesa frágil, esperando ser salva por um casamento; indo diretamente ao encontro de um novo mundo de igualdade onde, finalmente, começa a ser, também, bem representado pela arte cinematográfica.

“Rua Cloverfield, 10” faz jus a essa questão e é incrivelmente competente pois apresenta, de modo impressionante, uma protagonista cautelosa, inteligente e que felizmente foge de qualquer tipo de clichê envolvendo a ideia de “menina em apuros”.

O filme conta a história de uma garota chamada Michelle – interpretada brilhantemente pela maravilhosa Mary Elizabeth Winstead – que, após um acidente de carro, acorda presa em um quarto. Ela foi resgatada por um homem chamado Howard ( John Goodman ) que afirma, com toda a convicção, que o mundo sofreu um ataque químico, exigindo que sua refém fique no abrigo com ele. O problema é que ela não confia em nenhum momento nesse desconhecido e tenta fugir à qualquer custo.

Sim, “Rua Cloverfield, 10” está relacionado com o filme “Cloverfield” de 2008, porém não é necessário que tenha assistido ao anterior para compreender esse. O desenvolvimento é completamente diferente e essa união de universos é mais um ataque de oportunismo do JJ Abrams para expandir o que ele criou em 2008 de forma completamente nova e diferente.

Ainda assim, é curioso notar que mesmo que o espectador saiba o que está acontecendo com o mundo, ainda assim existe a tensão, desespero e curiosidade para saber o que, de fato, está acontecendo e, principalmente, se Howard está mentindo ou não sobre o ataque químico. Essa posição que o roteiro nos coloca é interessante, pois sabemos mais que os próprios personagens.

O que poderia ser apenas comum e mediano, se transforma em absurdo e maravilhoso com a direção de Dan Trachtenberg, sempre muito coeso nas suas decisões. Mesmo sendo jovem e inexperiente em longas, as posições de câmeras, o ritmo e os movimentos são sempre muito bem orquestrados. Unido a isso temos a fotografia que oscila bastante conforme o psicológico dos personagens – vale ressaltar que eles estão trancados e preocupados com o mundo externo, portanto o desequilíbrio é gigante – e a direção de arte que sempre faz questão de transformar o pequeno abrigo ou bunker em um lugar confortável e claustrofóbico, na mesma proporção.

Se a direção de Dan Trachtenberg é um ponto crucial para a qualidade desse filme, o mesmo pode-se dizer do trio de atores: John Gallagher Jr., Mary Elizabeth Winstead e John Goodman. O primeiro interpreta o Emmett – que também está preso no bunker – de forma muito competente, para quem já o viu em “Hush” sabe o seu potencial. Mary Elizabeth Winstead faz algo tão grandioso que, ouso dizer, já entrou na história como uma das personagens mais fortes e impactantes do cinema de suspense, sempre muito atenta, concentrada e demonstrando muita confiança. Agora, quem mais se destaca é John Goodman; Ele é muito querido pelos amantes do cinema alternativo, principalmente pelo seus trabalhos com os irmãos Cohen, até mesmo os olhares menos atenciosos percebem que se trata de um excelente ator que, infelizmente, não recebe muitas oportunidades para brilhar, senão, como coadjuvante. Mas aqui ele possui todos os caminhos possíveis para criar um personagem complexo, utilizando-se do seu corpo grande, é um verdadeiro monstro – e os enquadramentos ressaltam isso por diversas vezes -, demonstrando uma força descomunal, contrastando com os seus recorrentes personagens, sempre bondosos. No entanto, no mesmo tempo que ele é uma ameaça direta à protagonista, a atuação de Goodman chega a um nível tão alto que a linha que o separa entre bem e mal se torna cada vez mais tênue. Não se sabe ao certo se ele é a ameaça ou o ameaçado, torturador ou torturado…

Se fosse uma obra lidando com a personagem feminina como qualquer outro, com certeza iriam sugerir um romance entre Emmett e Michelle. Mas isso não acontece, para a felicidade de muitos. Isso porque essa inocência é importante para compreender a personagem, extremamente focada na liberdade e forte o suficiente para não se deixar levar pelo cômodo. No mesmo tempo que sua relação com Howard é ainda mais complexa, principalmente por existir um lado paternal que beira a obsessividade. Uma prova disso é a cena em que os três estão jogando e Howard diz que Michelle é uma princesinha, menina e se rejeita a todo custo imaginar que se trata de uma  mulher. Esse carinho é o que possibilita os eventuais espaços para uma fuga, sua maior força e fraqueza, ao mesmo tempo.

Se até o final o filme se mantêm inacreditável, o mesmo, infelizmente, não podemos dizer do final. Não quero deixar a ideia de que é ruim, porém fica aquém do começo. Temos dois filmes: um é um drama, suspense e chega perto do horror psicológico o outro um filme genérico de ação.. Se a força da protagonista começou sendo trabalhada de forma simples e impactante, no final houve um desespero para criar uma versão feminina de “Rambo”. O que me leva a pensar, seriamente, que o roteiro era a primeira parte e veio o JJ Abrams e impôs a segunda. Evidentemente se trata apenas de uma especulação, o fato é que piora bastante no terceiro ato mas que, por conta do desenvolvimento inicial, ainda permanece como um dos melhores filmes do ano.

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emersontlima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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