Kairo, 2001

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★★★★

O diretor Kiyoshi Kurosawa é muito conhecido pelos amantes de filmes de terror. Já dirigiu obras interessantes como “A Cura” e “Loft”, mas também ótimos dramas como é o caso do “Sonata de Tóquio”. Sua linha de trabalho é ótima, sempre prezando pela construção dramática dos personagens afim de criar uma tensão atmosférica, sem contar que a confusão que envolve os seus personagens acrescenta ainda mais à sensação de estranheza.

“Kairo” é a sua obra mais conhecida, ou pelo menos a que mais revela o perfil do diretor, mesmo que o próprio tenha capacidade o suficiente para fugir dos seus métodos costumários. “Kairo” é a representação fantástica das suas características por conta do envolvimento profundo entre os personagens e a realidade nebulosa que existe entre eles.

A história acompanha um grupo de jovens que têm contato com uma série de desaparecimentos e mortes após o suicídio de um amigo. Esse mesmo amigo aparece como um vulto e toda a trama se relaciona com temas pesados como a tecnologia, isolamento e loucura.

A primeira coisa que se nota é a capacidade do diretor, apesar de suas limitações, em investir na ambientação para criar a tensão perfeita entre os jovens e, mais do que isso, o cenário parece engolir os personagens, fragilizando-os e, consecutivamente, aumentando o sentimento de urgência no espectador.

A casa de um dos jovens aparece, pela primeira vez, de forma muito pequena e apertada, como se o lugar fosse extremamente poderoso, não à toa existe por boa parte do filme a “mancha na parede” que é uma espécie de registro fantasmagórico e, ao mesmo tempo, uma metáfora sobre o quanto os proprietários estão se tornando a sua posse. Em outro filme de terror, as metáforas soariam forçadas, mas nessa obra em específico fica claro que o terror é consequência do bom roteiro investigativo e não o contrário.

Outra observação crucial é sob o elemento “tecnologia” no filme e como as pessoas lidam com ela. Vemos um personagem tentando se ajustar a internet em uma época onde a conexão virtual era algo extremamente inovadora e provocante, com os olhares atuais, se torna, no mínimo, curioso perceber o quanto evoluímos e, por consequência, viramos escravos do computador, dependendo mais da vida e redes sociais do que a própria vida offline. É realmente uma ideia de mestre do Kiyoshi Kurosawa em investir na Internet como ferramenta de debate sobre a questão da solidão, visto que se trata de uma aposta arriscada que acabou prevendo o que viria a acontecer de forma ainda mais extrema.

Como extensão da tecnologia, a solidão é trabalhada como principal chave para o entendimento por completo do filme. O roteiro parece querer empurrar de todas as formas possíveis para entendermos que estar só é algo extremamente perigoso e, infelizmente, real. Mas sempre o faz de forma sutil, mesclando com outros temas como fantasmas, aparições, enfim, o medo aqui é quase uma analogia ao desespero em estar sufocado – lembrando que as cenas são sempre filmadas de modo que o ambiente sufoque os personagens, portanto a claustrofobia auxilia na densidade que o filme teima em transmitir – e o que prende os personagens é justamente a solidão.

Essa é uma obra profunda e que cria, diante uma imensidão de importantes dilemas, cenas aterrorizantes com o uso de muita consciência, seja no roteiro e trilha sonora, tudo apoiando na evolução da atmosfera obscura, que tira quem assiste do natural ou comum e o convida para uma viagem em um mundo onírico repleto de medos.

emersontlima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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