Precisamos falar sobre a sexualização da Arlequina

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Antes de mais nada é importante ressaltar que eu não sou muito interessado em entrar em discussões que as pessoas criam pela internet após assistir o trailer de um filme. Mesmo que seja um tema válido, os trailers são ferramentas de divulgação e nem ao menos o diretor tem controle sobre o que é mostrado, sendo assim, se trata de um conteúdo extremamente limitado e que descontextualiza tudo para, finalmente, criar a expectativa em quem assiste.

A expectativa é a morte para um crítico de cinema. Ter opiniões e gostos pessoais é evidentemente normal, mas se deixar levar pela expectativa é o que separa os homens das crianças. Isso em diversas áreas da vida, inclusive. Por exemplo, eu posso ser infantil ao ponto de não me preocupar com o argumento por inteiro e me ater apenas a uma frase e essa frase, por estar isolada, se transforma em algo extremamente polêmico.

Trailer é produto de marketing e a expectativa é o câncer para uma boa experiência cinematográfica. O que sobra então? Há, sim, a sexualização da mulher.

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O papel da mulher na sociedade, apesar de vir crescendo muito nos últimos tempos, ainda é envolta de muita inferioridade, infelizmente. Os homens teimam em inferiorizar a mulher e transformá-las em produtos, isso é fato. Mas não acontece só na mídia ou arte. Desde que pisamos nesse mundo a mulher é alvo de preconceitos e posturas arrogantes/superiores. A igreja condenou as mulheres só pelo fato de serem, bem, mulheres. Imagina aquelas que eram independentes ou priorizavam a liberdade?

Que a mulher merece papeis melhores no cinema é indiscutível, que mais diretoras precisam ter oportunidades, também. Agora, é importante não confundir valorização da mulher com sexualidade característica de determinado personagem.

Ora, vamos por partes: eu sou apreciador de filmes obscuros, filmes do Gaspar Noé, por exemplo, são polêmicos, lidam com a mulher de forma, no mínimo, crua. Ainda tem alguns tipos de agressões, incesto, – pedofilia, direta ou indiretamente – e obsessão. Eu assisto esses filmes para entender e/ou me identificar com outros lados do ser humano, da corrupção, da banalidade de viver, dos erros, enfim, eu não vou assistir uma obra dessa intensidade para ver um reflexo fiel da minha vida – pelo menos não literalmente. Na verdade obras de arte podem dialogar com vida de quem aprecia, mas só o fato de representarem algo e a mensagem ser desmistificada, pronto, cumpriu o seu papel; é preciso aceitação, maturidade e seriedade para enfrentar a arte, pois ela não existe para representar fielmente cada um de nós, mas fazer um questionamento, incentivar a catarse.

Chegamos, de fato, a sexualidade. Não é porque assisto um filme onde um personagem, homem, mata crianças e as estupra que eu me identifico ou me sinto representado pelos seus atos. Assim como não é porque uma personagem, feminina, é extremamente sexualizada que isso diminui a importância das mulheres e as inferioriza de alguma forma, e, principalmente, essa personagem não representa todas as mulheres do mundo, ela representa ela, e tão somente ela.

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Como escrevi acima, eu geralmente não fico observando trailers. Mas pude reparar, depois de prestar muita atenção, que a figura da Arlequina segue fielmente os quadrinhos: uma personagem que depende obsessivamente da sua sexualidade – como uma arma poderosa que, por vezes, se torna um elemento que acaba escravizando-a, isso acontece por conta da personagem ter sido abusada pelo Coringa. Reparem que existe uma sexualidade na maneira que ela se comporta, no olhar e nas expressões, esses sutis elementos são tão impactantes do que o seu próprio figurino.

Voltando… é trailer, pode ser que o filme trate mal a personagem e ela, infelizmente, só sirva para mostrar a bunda e atrair os homens – eu me incluo nessa lista – mas, através de rápidas impressões, a sexualidade me parece um artifício de desenvolvimento da personagem. Agora, se alguém me perguntar: ai Emerson, como você pode falar isso apenas por um trailer? Eu te respondo, caro neném, que eu estou supondo, com argumentos, as minhas opiniões, mas nem eu, muito menos as pessoas que reclamaram da roupa da Arlequina, posso dizer nada, simplesmente porque não vi(mos) o filme ainda.

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A roupa da Arlequina nos quadrinhos lembra bastante a qual vemos no trailer, não?

Tenho que confessar que precisei de um certo cuidado para escrever esse texto, por conta dos extremistas. Por isso abri dando a minhã opinião geral sobre a mulher e quanto é tratada como objeto pela indústria. Devemos combater isso, sem dúvida, assim como incentivar a produção de outros conteúdos realizados exclusivamente por mulheres, mas quando adentramos na questão de personagens, estamos invadindo um espaço muito particular, cujas pretensões e detalhes como a sexualidade, por exemplo, existem para compor e não destruir ou inferiorizar. Aliás, se chega ao ponto de inferiorização, ai temos um problema sério de má realização ou mentes mal intencionadas mesmo – o que seria impossível distinguir com um trailer de 3 minutos.

Mas todos homens da minha sala de cinema, enquanto eu assistia o trailer, gritaram quando a Arlequina apareceu trocando de roupa… isso é repulsivo“.

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Então, se eu falar que detestei a cena por causa disso, estou mentindo. Eu adorei a cena, antes de mais nada, pelo contexto, é divertido a liberdade e despreocupação dela, no mesmo tempo que a forma como todo mundo, ao fundo, para e contempla a sua beleza também é muito engraçada. Mas eu achei ela extremamente sexy e provocante, sim, e daí? Essa é a sua personagem, foi pensada assim para os quadrinhos e a mesma essência será trabalhada no cinema.

As mulheres também ficam loucas com cena do Superman sem camisa – e estão mais do que certas (ui) – ou com o Wolverine, até mesmo com o nu frontal do Fassbender em “Shame“. Pena que existem poucas cenas que realmente exploram a sexualidade dos homens de forma tão clara, pois, repito, na arte às vezes é um artifício essencial.

A conclusão é que não existe conclusão. Apenas um devaneio. Devemos procurar igualdade de inúmeros outros jeitos, podemos e é direito, mas não precisa começar atacando um trailer e uma personagem, que pertence a um universo diferente e têm suas próprias regras. Isso ai parece desculpa para pessoas sem ter o que fazer, que nunca leram “Lolita”, ou outras diversas obras que relacionam a mulher – no caso do citado uma menina – com o sexo e, durante o processo de desenvolvimento, mostram a força da personagem. Existe muitas outras coisas interessantes para fazer como, por exemplo, esperar o filme estrear e, ai sim, dar sua opinião ou até mesmo criticar figurino e outras decisões. Claro, se todos esses pontos se encaixarem com perfeição no contexto do filme e ajudarem a história como um todo, então a sua opinião será equivocada. Por outro lado, se existir a gratuidade das roupas curtas e afins, com certeza eu ajudarei a criticar negativamente o filme. #esperemos

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No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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  • Daniel Lemos Cury

    Faz uns dias que eu estou pra comentar:
    concordo com muito do que você diz, e acho que realmente a sexualização não é um problema em si, ainda mais quando ela tem o propósito de questionar algo da sociedade ou debater algum tema pertinente.
    A única coisa com que discordo é a ideia de que quem reclama da sexualização da Arlequina nao tem o que fazer ou não deveria reclamar. Acho que um filme é reflexo de seu tempo, e como vivemos um momento histórico em que as mulheres questionam cada vez mais essa sexualização, que historicamente causa diversos problemas (como os estupros, abusos, etc), ele poderia se preocupar com isso. Se ele não se preocupa, tudo bem, é direito dos produtores manter esta visão do corpo feminino ou não se abrir para um novo ponto de vista. Mas tbm é direito das pessoas reclamarem disso como forma de discutir esse assunto e questionar o que acontece no entretenimento como algo importante para a mudança ou manutenção do status quo – e neste caso é a segunda opção que acontece, aparentemente.

    Pelo que eu vi, a Arlequina no desenho (até onde eu sei, ela é um dos poucos personagens criados diretamente pra TV e só depois apareceu nos quadrinhos) não é tão sexualizada como ela está no trailer, e tem funções muiti importantes para a trama, fazendo com que a cena em que ela pega uma bolsa na vitrine não combine com a original, o que demonstraria que os produtores “relegaram” a ela uma função ainda menor – mas é claro que a gente só vai saber disso no filme.

    Enfim, desculpe o textão, mas acho legal manter o debate.

    • Emerson Teixeira Lima

      Caro Daniel, muito obrigado por expandir essa discussão de forma cordial. Eu fui muito atacado por esse post – acredite se quiser 😀

      Então, o único momento que cito, indiretamente, o “não reclamar” é quanto o trailer, entendo o seu ponto de vista mas, ao meu ver, essa discussão parte de um material que descontextualiza todo o produto. Temos em filmes de super heróis uma alta dose de sexualidade dos personagens, fica claro com o bumbum do Wolverine, Thor sem camisa e por ai vai, não vejo problema algum – apesar de não ver muito propósito nos já citados, mas ok.

      O que acontece é que irrita às vezes essa obrigatoriedade de criar uma tempestade em todos os filmes de super heróis que saem. Se formos analisar o roteiro desses filmes, veremos que todos seguem o mesmo formato, então já deveríamos ter nos acostumados. Aconteceu com os Vingadores 2 uma puta discussão sobre a viúva se chamar de monstro por ter perdido o filho lembra? Pra quê? É filme de super herói, feito para entreter, tem suas respectivas profundidades mas não é para filosofar sobre todos os aspectos da filosofia humana. As pessoas estão muito agitadas, mas estão olhando para o lado errado.

      O pessoal adentra a área da criação e desmistificação da personagem, isso é extremamente perigoso. Um personagem é planejado, “assoprado vida” e concebido pelo criador, mas quem desconstrói isso é o ator e atriz, assim como o seu público ( não com trailer de 3 minutos ). Se eu quero contar uma história de uma mulher que é escravizada pelo marido em casa, abusada e torturada por anos, não necessariamente eu preciso dar um final feliz porque estamos em tempos de mudanças. Simplesmente estou registrando a vida e catástrofes/bestialidades acontecem, infelizmente. Isso não diz respeito que os artistas apoiam essa realidade ou não, só que tiveram coragem o suficiente para mostrar.

      Eu apoio incondicionalmente o “feminismo”, todas as minhas amigas são. Estou falando exclusivamente da arte. Se esse pessoal, que fica discutindo por causa de interpretação e concepção de personagem em trailer de 3 minutos, lessem os livros de Antonin Artaud – para mim o maior autor de teoria de teatro – teriam um ataque cardíaco!
      Beijo no coração Daniel!