Juventude, 2015

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★★★★★

Paolo Sorrentino é, impressionantemente, um jovem de 45 anos. Utilizo essa expressão pois sua capacidade de estudar o tempo e a velhice é sublime e envolta de muita sensibilidade/maturidade. No seu mais recente trabalho, “Youth“, o diretor brinca com uma linguagem desprendida, repleta de referências e informações – imediatamente lembrei-me do “O Fabuloso Destino de Amélie Poulain“, pois ao assistir o filme francês o sorriso no canto da boca também permanece constantemente – e mistura alguns elementos melancólicos que podem ser vistos em dois trabalhos específicos da diretora polonesa chamada Dorota Kedzierzawska: “Koniec Swiata” (1988) e “Pora umierac” (2007). Ambos exemplos refletem sobre a passagem do tempo, perda e aceitação.

O cinema é uma ponte para catarse. Existem poucos filmes hoje em dia que se destacam por serem tão carinhosos. Essa ponte nos leva para vários lugares, várias idades e encontros, mas muitas vezes nos proíbe de imaginar o futuro. O cinema popular cria exaustivamente um mundo futurístico, com pessoas imortais ou dotadas de muitas facilidades. Mas seria mesmo o fim a insipidez da existência? Talvez a monotonia se forma e ganha forças através da nossa indiferença com o idoso e com os ganhos que o tempo nos dá.

Focalizamos o arrependimento e esquecemos que o fim não representa, necessariamente, o encerramento do espetáculo. O fim não é, nunca foi e nunca acontecerá de forma súbita. O fim é um processo, uma estrada, e cabe ao ser, de forma individual, escolher entre isolar-se ou doar-se.

Juventude” conta a história de um maestro aposentado chamado Fred – interpretado maravilhosamente bem por Michael Caine – e o seu amigo cineasta Mick ( Harvey Keitel ), eles estão passando as férias em um hotel luxuoso enquanto refletem sobre o passado, futuro, amores, enfim, a vida. Mick tem o desejo de realizar um último filme, que teima em classificá-lo como o seu testamento.

Mick, explicando a sua ideia para a realização do novo filme – vale ressaltar que ele teve uma carreira brilhante no passado, porém com o tempo a qualidade dos seus filmes foi diminuindo – diz que se chamará “O Último Dia da Vida”. O que escrevi sobre o “fim” acima, é a representação dessa obra que ele sonha realizar. Além de que esse filme é uma metalinguagem, pois se trata do próprio “Juventude” que, por sua vez, é repleto de referências – como comprovação, na última cena do filme, temos Mick fazendo um enquadramento para o próprio espectador, sugerindo também uma inversão de papeis, ora, por segundos o espectador se torna o “capturado” e, assim, parte do testamento.

As referências não param por ai – e seria impossível dissertar sobre todas – vejam por exemplo o personagem do querido Paul Dano, Jimmy Tree. Ele é um ator frustado pois mesmo fazendo diversos filmes alternativos só é lembrado por um filme popular de robôs. Paul Dano, por outro lado, se destaca também por filmes alternativos, apesar de serem conhecidos sempre exigem do ator uma mudança, mesmo que sutil.

A relação entre os dois amigos é tão natural e delicada, que é incrivelmente fácil adentrar naquele universo. Vivenciamos aquela paisagem maravilhosa, a trilha sempre oportuna, a fotografia que demonstra com perfeição a psicologia dos personagens, entregues aquela vida equilibrada, com poucas aventuras ou responsabilidades. A aventura, de fato, são os diálogos. Sempre pontuais, interessantes e, por vezes, engraçados.

A filha de Fred, Lena – interpretada pela lindíssima e talentosa Rachel Weisz – está presente no filme como um contraponto a tranquilidade já citada. Ela está em meio a uma separação e possui diversos ressentimentos em relação ao pai. E é através da sua visão que vamos conhecendo as falhas do maestro, afinal, pouco sabemos sobre sua história.

Tanto o cinema, como a música – que aqui representam a arte como um todo – aproximam e distanciam Fred e Mick do mundo. Lena diz em certo momento que o seu pai trabalhava constantemente e as palavras que mais dizia para ela era “silêncio Lena“. Não é contraditório um musico almejar silêncio? Seria o verdadeiro artista o maestro que se distancia de todos para trabalhar ou o homem simples que aprecia ouvir a família, o outro?

A resposta para essas perguntas, no filme, assumem a forma de uma jovem massagista ( Luna Mijovic ). Em dado momento ela afirma que “é possível entender tudo com o toque“. Ou seja, algo que o protagonista nunca teve com sua filha, porém, “Juventude” é uma obra prima e transforma o testamento em redenção, por isso, Fred acaricia de leve o rosto de Lena a noite, ela acordada sente, mas finge estar dormindo. Mas, no fim, “os pais sabem quando os filhos estão fingindo dormir”.

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emersontlima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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