Flower and Snake: Zero – Entre o sexo e a tortura

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Queridos leitores, apreciadores ou curiosos do cinema alternativo, faz algum tempo que queria voltar a escrever sobre filmes eróticos – para quem não sabe, quando o Cronologia do Acaso ainda estava no blogspot, eu escrevi diversos textos sobre sexploitation e Pinku Eiga, bem como algumas obras eróticas da Rússia e Brasil. Esses textos não tinham como principal objetivo analisar o filme, portanto, não se tratava de uma crítica cinematográfica, apenas uma resenha onde o interesse é realmente fazer piada sobre o mau gosto.

Alguns exemplos: A Menina do Lado ( clássico e polêmico filme nacional onde o Reginaldo Faria contracena com a Flávia Monteiro que, na época, tinha apenas 14 anos ): http://cronologiadoacaso.blogspot.com.br/2014/05/a-menina-do-lado-1987.html

Russian Lolita ( Versão tosca e erótica do clássico livro “Lolita”. O filme é tão ruim que é até ridículo falar que se trata de uma adaptação de um dos melhores livros da história, porém, é assim que ele foi divulgado ): http://cronologiadoacaso.blogspot.com.br/2014/12/russian-lolita-2007-18.html

A eterna musa do Sexploitation ( nesse texto eu escrevi sobre a carreira e indiquei três filmes da musa Christina Lindberg, atriz que ficou conhecida por seu papel em “Eles a Chamam de Caolha”: http://cronologiadoacaso.blogspot.com.br/2013/08/a-eterna-musa-do-sexploitation.html

Siren X: ( Filme japonês, nesse texto falo um pouco sobre o “Pinku Eiga” que é basicamente os filmes eróticos do Japão ): http://cronologiadoacaso.blogspot.com.br/2015/02/siren-x-2008.html

Seguindo em frente, hoje vou analisar o filme “Flower and Snake: Zero” ou “Hana To Hebi: Zero” de 2014. Antes de mais nada, é válido ressaltar que essa obra também é um representante do sub-gênero Pinku Eiga e, ainda mais, é derivado de uma série antiga – de mesmo nome – que começou nos anos 70.

Hana to hebi

Esse é a capa do “Hana to hebi” original, de 1974, dirigido pelo Masaru Konuma

O diretor ficou muito conhecido em 74 por conta desse filme que, inserido em um contexto conservador, quebrou várias barreiras por se tratar de uma obra que aborda o universo do S&M – vulgo, sadomasoquismo -, algo muito importante para destacar é, sem dúvida, a forma como a mulher é mostrada nesses filmes: sempre submissa ao homem, como se fosse uma boneca sexual. Essa objetificação passa por inúmeros fragmentos da sociedade japonesa, que vê nas mulheres uma fragilidade sem tamanho.

Embora seja um clássico, pessoalmente esse tratamento me incomoda bastante, se a proposta do filme erótico é provocar a excitação – principalmente dos homens – em mim o resultado não é muito eficaz. Mas ainda assim recomendo pelas decisões toscas e algumas cenas que, certamente, atrairão os amantes do cinema B.

Outro ponto a se destacar é que o diretor Masaru Konuma, em dado momento da carreira, quis pegar a carona do sucesso com Nagisa Ōshima e a sua obra-prima: “O Império dos Sentidos”, em 1976. Esse filme é a prova que o sexo e sadomasoquismo pode ser usado como ferramenta para se analisar elementos como a obsessão e o limite da intimidade.

Para quem quiser pesquisar sobre o Japão e o sadomasoquismo, eu indico um artista chamado Namio Harukawa que, com os seus traços obscuros, subverte o papel da mulher e a coloca como dominadora de uma relação, no mínimo, selvagem.

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É evidente que, nas suas obras, a mulher é fisicamente forte e suas expressões demonstram uma indiferença em relação ao homem. Ela manipula a situação e inferioriza o sexo oposto, fazendo questão de afirmar a sua grandiosidade com a vagina. No mesmo tempo que manipula com suas partes íntimas, ela entende exatamente o limite e usa isso ao favor do seu próprio prazer.

Além do mais, na segunda obra acima, temos a personagem olhando uma revista cuja imagem demonstra exatamente a mesma coisa. Ou seja, é realmente um ensaio criticando essa posição do japonês de classificar as mulheres como frágeis e que precisam ser domadas.

Voltando ao filme…

Depois de uma série de remakes e continuações, chegamos, em 2014, na mais recente obra representante do universo “Flower & Snake”. Dessa vez, misturando alguns elementos do gore e de filmes policiais.

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A história gira em torno da policial Misaki Amemiya que se vê diante uma rede ilegal de pornografia na internet. Diversas pessoas do país acessam o conteúdo – onde existe mulheres sendo violentadas – e cria-se, a partir disso, uma sociedade secreta. Algo parecido com os boatos que correm na Deep Web.

Uma das primeiras cenas é um pessoal da sociedade secreta “Vabyron.com”, fazendo um vídeo. Depois chegam alguns policiais – tendo a Misaki Amemiya como uma das líderes – e acabam com a festa. No entanto, após esse embate épico e muito bem elaborado tecnicamente ( ironia ) Amemiya acaba descobrindo que sua irmã está envolvida com esse submundo perigoso e deixa ela partir para longe, acreditando na sua recuperação.

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Exemplo 1

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Exemplo 2

O diretor faz de tudo para explicar para o espectador a dualidade de comportamento e aparente desconfiança da irmã. Ele tenta reforçar de tantas maneiras, que acaba soando até infantil. Como por exemplo o destaque no lado “boa moça” da irmã da protagonista no exemplo 1 e o lado “vida loka” no exemplo 2: Sim! Se trata da mesma pessoa.

Depois que Misaki deixa a irmã fugir, o mentor ou responsável por essa sociedade de viciados em pornografia violenta, começa a chantagear a moça. Então a heroína e protagonista, dá lugar apenas mais um papel feminino que se submete aos abusos – claro, no seu caso ela faz porque precisa, no entanto fica claro que em certo momento passa a sentir tesão com o exibicionismo.

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Engraçado que aparece, logo na primeira cena, uma terceira personagem chamada Ruri que representa a pessoa comum que, por acaso, entrou o site ilegal e se corrompeu. Pois a menina passa de uma conservadora para uma caçadora de homens, ainda mais, fica se amarrando e, o mais inacreditável, chega ao cúmulo de ficar lambendo o notebook enquanto vê outra mulher sendo castigada.

Na boa, existe essa necessidade de lamber o notebook mesmo e eu estou por fora ou é apenas bobo mesmo?

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Aliás, é interessante como a tecnologia é misturada com a trama principal. A internet está muito presente e até é um pouco mostrado os perigos de se jogar joguinhos online. Para você, pai e mãe, pode ser um grande estudo de caso assistir esse filme. É tão poderoso em sua mensagem que poderia servir como panfleto de conscientização ( chega de apontar as ironias agora ).

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O desespero sendo representado por uma grande atuação ( NOT ) de um marido que vê sua mulher pelada, amarrada por cordas e sendo chicoteada.

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Mas o filme vai atingindo um outro patamar quando vamos adentrando nesse mundo pervertido e conhecemos o vilão e mente por traz dessa grande organização. Ele está sempre com um capuz e fica 24 horas por dia na frente da TV, é um verdadeiro punheteiro.

Se prepare, pois ele não é o pior:

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Dizem que todo filme precisa ter um excelente vilão: Flower and Snake: Zero é, talvez, a maior prova disso na história do cinema. Esse senhor acima provoca os maiores medos e angústias que seria possível nessa existência. Como prova da sua insanidade e imponência, ele está sempre regendo uma ópera que não se vê nem se escuta, criando uma dimensão paranormal e reforçando a sua loucura.

No mesmo tempo que clichê, o diretor consegue imprimir nesse simples personagem todo o mau gosto da obra, ele é o representante fiel do trash.

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A fotografia sem sombra de dúvida é o único ponto positivo do filme, com decisões acertadas e contundentes. Deveria estar no Oscar. Brincadeira, mas eu curti mesmo.

A irmã da protagonista é a personagem mais interessante e linda do filme, tem em sua aparência a representação da dupla personalidade e traz em seu corpo uma série de tatuagens belíssimas. Uma pena que ela seja muito mal aproveitada, a não ser, claro, na cena da sua morte, que é um banho de sangue e sofrimento. Importante destacar que no momento da violência, o “perfil do mal” no seu rosto aparece e, no sofrimento da protagonista ao ver o seu corpo no chão, percebemos que o “lado da bondade” dá as caras. Imaginei o diretor sussurrando feliz no meu ouvido: “entendeu!?, entendeu!?, fui bem não é?”

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Se durante todo o filme o espectador permanece diante uma montanha russa de emoções e excitações – cof, cof – no terceiro até choramos de emoção, pois acaba se tornando ainda mais trash e faz, de alguma forma, referência ao clássico “Sex and Fury” onde tem uma cena épica que a personagem principal sai da banheira, nua, para matar capangas do mal. Aqui, por outro lado, depois de ser extremamente violentada – mas ter lapsos de prazer, como um orgasmo estratosférico – a protagonista/heroína se desprende das amarras com uma super faquinha – alguém depois me explica porque ela não fez isso antes(?) – e toca o terror no ambiente.

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Ainda existe uma lacuna para uma surpresa muito grande no final, pode ser comparado com a dimensão do “Oldboy” – anos luz de distância na qualidade, claro – mas o que interessa mesmo é mulheres nuas e sangue e isso tem de sobra.

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A protagonista caminha em direção ao seu destino e para logo adiante, em um carrossel – ou seja, não vai muito longe mesmo – e no final do filme ainda vida evidente a pretensão de fazer uma continuação. Os filmes da série “Flower and Snake” continuarão, querido leitor, para a alegria de muitos e infelicidade do resto. Boa diversão/decepção!

Aqui no Cronologia do Acaso é assim, filosofia e sacanagem andam lado a lado ;D

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emersontlima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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