A inesperada virtude do encontro

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Não conhecia o trabalho do diretor Deivid Almeida, mas inesperadamente – como deveria ser toda e qualquer obra de arte – me deparei com um dos seus curtas e simplesmente me senti feliz com a qualidade e profundidade.

Sou suspeito, pois faço parte da geração mostrada no curta “Décimo segundo andar”, tenho 21 anos e vivo constantemente observando o meu redor e refletindo sobre a velocidade e responsabilidades que nos cercam. Às vezes me pego parado em algum lugar, perdido, só para acompanhar os movimentos das outras pessoas. Engraçado como que, por vezes, encontramos as mesmas pessoas, com os mesmos gestos e expressões e, por vezes, a mesma roupa. Temos todos nossas obrigações – ou deveríamos – e não sobra muito tempo para os detalhes, os sentimentos e olhares. Estamos rodeados de “rotina” e pessoas mas mesmo assim nos sentimos solitários.

Pesquisando um pouco sobre o diretor, Deivid Almeida, pude perceber que também é um jovem. um jovem fotógrafo. De imediato me senti ainda mais representado. Por algum motivo imaginei que essa história poderia ser muito intima do realizador, isso me confortou de alguma maneira. Como se eu gritasse para mim mesmo: não estou sozinho no mundo!

Ao som da rua, carros e ruídos da cidade, surge a frase “um filme por David Almeida”. Uma voz em off desabafa que acabara de pedir demissão do trabalho – deixando claro, de imediato, essa quebra do vínculo com a rotina – e continua enquanto surge o nome do curta: “Décimo Segundo Andar”. Uma música começa a tocar e a cidade – maravilhosamente bem fotografada – começa a ser revelada, uma sincronia perfeita com a música; Alguns cortes dão a obra um espirito jovial, um ritmo típico do hip hop. O efeito de time-lapse contribui para ideia do movimento mecanizado vindo diretamente da rotina.

A decisão do som diegético é interessante, pois distancia o protagonista do mundo exterior no mesmo tempo que ele ainda permanece próximo à ela. Aliás, é impossível se distanciar totalmente.

A narração em off – constante durante os quase sete minutos – ajuda a compor a ânsia do protagonista em novos acontecimentos. Quando ele encontra uma moça e começa a observá-la é como se encontrasse um propósito. A garota representa algo identificável, puro, poderia ser qualquer um ou qualquer coisa – mesmo que na primeira descrição da moça, ao fundo, ouvimos o som de um coração pulsando, como se aquilo provocasse alegria ou medo no narrador.

Com elementos modernos, decisões técnicas excelentes, o curta é uma verdadeira preciosidade. Em um momento crucial o narrador se pergunta o “porquê de não atravessar a rua para conversar sobre a vida”, e é justamente essa a maior força do curta: a dúvida. O que acontece depois da quebra da barreira social? E, por fim, como lidar com as vírgulas desse grande texto que é a vida?

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emersontlima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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